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TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

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IL "cética" vigia de perto reforma do Estado. Promessas de Montenegro são risco para os liberais

Liberais definem nova estratégia conscientes de que PSD pode tentar esvaziá-los. Ministro Gonçalo Matias será alvo principal. IL divide-se quando ao timing de nova eleição e fecha acordos autárquicos.

Para os liberais, ouvir Luís Montenegro afirmar, em plena tomada de posse, que a nova legislatura será dedicada a abrir uma “guerra à burocracia” terá parecido uma espécie de déjà vu — ainda há poucas semanas, em plena campanha, ouviam Rui Rocha declarar que esta seria “a legislatura do combate à burocracia”. Entretanto, muita água passou debaixo da ponte — a IL falhou o objetivo de influenciar a governação, crescendo menos do que antecipava — e Montenegro já corre em pista própria, agarrado a bandeiras que a IL reconhece como suas. E esse poderá ser o maior risco que os liberais, que têm de escolher uma nova liderança mas também uma nova estratégia, enfrentarão: um primeiro-ministro que, depois de trabalhar para agarrar o centrão e roubar bandeiras do Chega, tente agora esvaziar a IL.

Na primeira entrevista que deu enquanto (até ver a única) candidata a líder, na CNN, Mariana Leitão frisou precisamente que temas como o crescimento económico, a baixa de impostos e agora a reforma do Estado são resultado da eficácia da IL a “marcar a agenda política nacional” — tornaram-se temas “incontornáveis“.

O problema? A ideia era pôr as suas soluções para esses problemas em prática, influenciando a governação; mas o número de votos e de deputados não foi suficiente e agora os liberais assistem de fora à iniciativa de Montenegro de criar um novo ministério para a Reforma do Estado, com secretarias de Estado para a Simplificação e a Modernização, e de prometer uma baixa de impostos mais significativa do que no mandato anterior (do programa já constava a promessa de reduzir em 2000 milhões de euros o IRS e chegar aos 17% no IRC em 2029).

Ministério da Reforma do Estado? “É uma ótima ideia”, reconhecia Leitão. “Mas é importante que seja concretizado. Gostava de perguntar a Luís Montenegro como vai concretizá-lo sem fazer alterações à Constituição, que coloca entraves”. Strike one. Continuava, neste esboço do que poderá ser o discurso da IL nos próximos tempos, perguntando porque é que “há onze meses”, quando Montenegro tomou posse pela primeira vez, “isso não foi uma urgência”. Ou porque é que na área da Modernização, que já existia, “não se viu nada”. Ou ainda porque é que a AD “pouco ou nada baixou” nos impostos, em vez de fazer um “verdadeiro choque fiscal”.

Conclusão: “Estamos habituados a anúncios de grandes reformas sem que depois se concretizem”. Se desta vez se concretizarem, esse será, sim, um risco real para a IL.

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

Liberais atentos a “roubo” de bandeiras que introduziram na “psique coletiva”

A futura estratégia da IL dependerá, por isso, em grande parte do sucesso do Governo de Luís Montenegro, e da capacidade de pôr em prática as reformas que os liberais adorariam poder implementar (não por acaso, durante a campanha Rui Rocha escolhia, em entrevista ao Observador, o ex-líder Carlos Guimarães Pinto como um ministeriável para a pasta da Modernização Administrativa).

Dentro do partido, existe a consciência de que se caminha sobre gelo fino: é verdade que Montenegro tem carregado particularmente forte nas bandeiras do Chega (como a imigração e a segurança), comunicando com frequência sobre elas e falando ao país ora sobre operações policiais ora sobre medidas para apertar o acesso à nacionalidade portuguesa, e que esse será um eleitorado — ainda por cima em crescimento — que lhe interessará trazer para as fileiras da AD.

Ainda assim, existe também o risco de que comece a tentar movimentar-se no espaço que naturalmente a IL reconheceria como seu. Para já, os liberais insistem na ideia que Leitão passava na primeira entrevista enquanto candidata: até ver, Montenegro não teve “coragem” ou “ambição” suficientes para ir mais longe na reforma do Estado ou na redução de impostos, duas medidas há muito reclamadas pela direita, e portanto não existe muita fé em que consiga, desta vez, cumprir em toda a sua amplitude essas promessas, para mais num contexto internacional difícil e com previsões de crescimento económico em dúvida. “Há sempre estes anúncios e intenções políticas e o PSD esforça-se muito para o fazer, mas a IL tem enorme cepticismo sobre a sua real vontade e capacidade”, diz um alto dirigente ao Observador.

"Há sempre estes anúncios e intenções políticas e o PSD esforça-se muito para o fazer, mas a IL tem enorme cepticismo sobre a sua real vontade e capacidade", diz um alto dirigente ao Observador.

Mas se Montenegro conseguir mesmo ser “ambicioso”, palavra de ordem da IL, e concretizar essas reformas, aí sim, os liberais poderão deparar-se com um problema existencial. Por outras palavras: dependendo da prática da governação de Montenegro, os liberais poderão sair reforçados — voltando a apelar ao eleitorado desiludido com a AD, como fizeram durante a campanha eleitoral, caso os objetivos falhem — ou esvaziados — caso Montenegro tenha sucesso e esvazie as propostas da IL.

Na rede social X, o vice-presidente Ricardo Pais Oliveira resumia os dois caminhos possíveis: constatando que os governos “tentam roubar os votos da IL adotando as suas bandeiras mais sonantes”, ou agora conseguem resolver os problemas que o partido liberal “combateu, comunicou e colocou na psique coletiva e o país avança por causa da IL” ou, por outra, “não conseguem e quem votou nesses partidos volta a votar na IL, porque já não se deixa enganar. “Montenegro terá de provar que quer mesmo reformar o Estado independentemente das resistências dos boys do seu próprio partido, colocados em muitos lugares de desperdício e redundância. Se não o fizer não rouba a bandeira à IL nem os votos que pretende, apenas a devolve com mais força”, escrevia o dirigente.

Agora será preciso, e os liberais estão conscientes disso, monitorizar de perto as prometidas reformas, e à cabeça o trabalho que será desenvolvido pelo novo ministro da Reforma do Estado, Gonçalo Matias, que chega ao Governo com o estatuto de ministro “adjunto” do primeiro-ministro e com o respaldo de Montenegro para decretar cortes e mudanças mais difíceis de executar — o próprio Montenegro explicava, durante a tomada de posse, que o ministério estará diretamente sob a sua responsabilidade, para o bem e para o mal.

Não por acaso, os liberais voltaram já a decidir que proporão de novo a constituição de uma comissão eventual de desburocratização do Estado e que essa será uma das suas grandes prioridades para esta legislatura. Estarão, assim, sempre de olhos postos no trabalho do novo ministro — Matias será o governante que receberá uma maior atenção por parte da IL. Com um risco acrescido para os liberais: Montenegro conta agora com um grupo parlamentar bem mais folgado, além de ter do outro lado um PS frágil, o que lhe dá margem para executar reformas que, na instabilidade da frágil legislatura anterior, seria difícil implementar.

IL assume dificuldades na mensagem, mas divide-se sobre “colagem” à AD

Numa altura em que a estratégia para futuro vai sendo desenhada na cabeça dos dirigentes liberais, há uma ideia que está clara: não bastará trocar de líder para que o crescimento da IL comece a corresponder às expectativas, bem elevadas, dos liberais (nesta campanha Rocha foi mais precavido e não especificou metas eleitorais, mas quando chegou à liderança declarou que queria atingir 15% dos votos e até “acabar com o bipartidarismo”). Leitão já corrigia, esta semana, essas expectativas: “Sempre soubemos, desde o início, que o nosso crescimento seria gradual”.

João Cotrim Figueiredo deixava o aviso, em entrevista ao Jornal Económico, nesta sexta-feira: “As lideranças devem ser sempre avaliadas pelos resultados, não pelas intenções. O momento exige clareza, não condescendência, e nenhum partido se fortalece com silêncios ou meias palavras. (…) Discutir lideranças antes de discutir os motivos dos resultados eleitorais não fazia sentido”.

O sentimento que corre entre os dirigentes liberais é o mesmo: é preciso olhar, primeiro, para o que correu mal e, depois, para o que será preciso alterar perante o novo cenário nesta legislatura. Bernardo Blanco foi o primeiro dirigente que se chegou à frente e identificou, publicamente, aqueles que acredita terem sido os erros da IL durante a campanha: por um lado, uma “excessiva colagem à AD” — “tem de haver uma diferenciação, as pessoas têm de saber o que é que nós defendemos e em que é que nós nos distinguimos”; por outro, uma suavização exagerada nas propostas mais disruptivas do partido na área fiscal ou na redução dos funcionários públicos.

Não é essa leitura que se faz na direção atual, da qual Bernardo Blanco já não faz parte. Por um lado, porque se recorda que era preciso mostrar a “utilidade” da IL, o que passava por admitir a disponibilidade para fazer acordos com a AD e influenciar a governação; ainda assim, Rui Rocha foi tentando fugir ao assunto durante a campanha e chegou mesmo a revelar contactos feitos pela direção do PSD, antes da campanha, pedindo que a IL se juntasse a uma coligação pré-eleitoral, para mostrar que os liberais estariam longe de estar desesperados por entrar numa plataforma eleitoral com Luís Montenegro.

Por outro, recorda-se que a IL não mudou desta vez a sua proposta para o IRS, por exemplo — embora no programa eleitoral tenha deixado de defender explicitamente o “caminho para a flat tax”, ou taxa única. Ainda assim, foi o próprio Rui Rocha quem referiu, durante a campanha, que a IL tinha “moderado” o seu programa, iniciando um discurso que teve sempre por mote a “responsabilidade” ou o estatuto de “adulto na sala” que a IL reclamava para si — resta saber se a tal percecionada colagem à AD significou, de facto, um rombo nos votos.

Para Leitão, que fez a sua análise na CNN, a campanha da IL correu “francamente bem” e serviu para defender propostas “concretas, objetivas e testadas”, mas ainda assim sentiu-se a dificuldade de explicar algumas dessas medidas pela “tecnicidade que têm” — será mais aconselhável, daqui para a frente, falar “de forma mais descomplicada”, admitiu.

Entretanto, há outra frente de combate em que a IL se vai tentando afirmar, e que o PSD reduz a uma prova de vida do partido mais pequeno: a revisão constitucional, cuja necessidade Leitão diz ser “óbvia”, devendo ser pensada “para já”. Embora só o Chega apoie abertamente a ideia de abrir o processo, e sendo preciso que toda a direita alinhe, Leitão disparava já contra Montenegro, distanciando-se da AD: “Não é por Luís Montenegro já ter dito que não está disponível que vamos deixar de a propor e de lutar por ela.”

A deputada da Iniciativa Liberal, Mariana Leitão, usa da palavra durante o jantar-comício, no âmbito da campanha para as eleições legislativas, na Casa do Alentejo, em Lisboa, 05 de maio de 2025. TIAGO PETINGA/LUSA

▲ Mariana Leitão é até agora única candidata à liderança da IL

TIAGO PETINGA/LUSA

Datas para convenção dividem, mas deve haver oposição a Leitão

Além da reflexão sobre o caminho a percorrer e a estratégia a executar, falta, é claro, a discussão sobre quem será o rosto do partido nesta etapa complexa — ou até quando é que esse rosto será eleito. Para já, nem a data para eleger um novo líder está fechada: será discutida no próximo conselho nacional, a 15 de junho, sendo que pelas regras internas do partido a convenção eletiva seria atirada, no mínimo, para o fim de julho (um mês depois da reunião dos conselheiros); mas há quem queira adiar o processo ou até aproveitar para fazer eleições para todos os órgãos internos.

“Há dúvidas e opiniões para todos os gostos”, resume um dirigente, tendo em conta as diferentes hipóteses: fazer eleições só para a Comissão Executiva (direção do partido) ou para todos os órgãos, fazê-las já em julho ou só após as eleições autárquicas, ou dividir as diferentes eleições em duas etapas temporais diferentes.

“Vou propor em Conselho Nacional que a convenção seja a 29-30 de novembro, como forma de festejar o oitavo aniversário da IL e comemorar mais um 25 de novembro”, diz ao Observador o conselheiro nacional Paulo Ricardo Lopes, que liderou uma lista que obteve 8% dos votos na última convenção — é importante notar que, segundo os estatutos da IL, quem cumprir oito anos nos mesmos órgãos do partido (têm mandatos renováveis de dois anos) não será elegível para novo mandato, pelo que os atuais dirigentes que estivessem nessa situação a 29 e 30 de novembro poderiam ser impedidos de se recandidatar. Em comunicado, o liberal argumentava que “este não é o momento para decisões apressadas” e que “uma aceleração no processo de sucessão pode comprometer o foco e dividir as energias, num momento em que as eleições autárquicas, uma “prova dura”, merecem toda a atenção do partido.

O Observador teve também acesso a um texto disponibilizado aos militantes por Francisco Cudell, que liderou uma lista ao Conselho Nacional conseguindo 11,2% dos votos, e argumenta que a Comissão Executiva atual foi eleita há apenas quatro meses por larga maioria e não tem “oposição interna pública”, pelo que a nova eleição não deveria ser apressada nem feita antes das autárquicas. À data em que o email foi enviado, ainda sem estar oficializada a candidatura de Mariana Leitão, Cudell deixava uma farpa, dizendo assumir que nenhum vice-presidente se candidataria se não tivesse por objetivo apresentar uma estratégia nova e disruptiva.

Vários conselheiros nacionais pedem eleições pós-autárquicas, mas Leitão discorda: "É uma fragilidade perante o país o partido ficar muito tempo sem uma liderança e passar por um processo eleitoral como umas autárquicas sem essa liderança". Acordos autárquicos devem ser anunciados até dia 15 de junho.

Ora este é o risco maior de divisão na IL: há quem defenda que se Mariana Leitão, que é atualmente vice, mudasse substancialmente a equipa e cortasse com lideranças passadas — um cenário improvável — poderia dar um sinal aos mais insatisfeitos no partido e acabar por ser uma candidata única (Rui Malheiro, que foi candidato contra Rui Rocha na convenção deste ano, admitiu esse cenário em declarações ao Público).

Caso não seja esse, como é previsível, o caminho de Mariana Leitão, deverá então haver oposição interna, seja liderada de novo por Rui Malheiro, saída das listas para o Conselho Nacional que se identificam menos com a atual direção ou vinda das bases (a militante Margarida Pouseiro já disse, num email aos militantes noticiado pelo Sol, estar disponível para se candidatar). “Se algum vice-presidente, dos que renunciou, se candidata e apresenta uma equipa semelhante, então mais vale ficar quieto. Ou há uma mudança drástica, ou então mais vale estar quieto. Para manter a mesma estratégia e esperar resultados diferentes, então mais vale estar quieto”, escrevia Cudell no mesmo email, corroborando essa tese.

Mais: uma proposta subscrita por Cudell, mas também por Paulo Ricardo Lopes, André Serpa Soares (cabeça da lista T, com 10,7% no Conselho Nacional), Jorge Pires (cabeça da lista M, com 8,9%) e mais 14 elementos vindos de cinco listas diferentes, e dirigida à mesa deste órgão lembra — em reação a declarações de Bernardo Blanco, que veio dizer que apresentaria nova lista “agregadora” ao Conselho Nacional — que os mandatos dos órgãos são de dois anos e que estes não caem em consequência da demissão de Rui Rocha, dado que não há “previsão estatutária de dissolução antecipada ou renúncia coletiva forçada”.

Além disso, argumenta esta proposta, a realização de uma convenção eletiva durante o verão “comprometeria gravemente o pluralismo democrático, a liberdade de participação, o tempo útil para a preparação de moções estratégicas e listas concorrentes, e a mobilização logística e cívica de todos os membros” e portanto esse timing pré-autárquicas seria “inadequado”. Deve, então, deliberar-se a realização da convenção “entre os meses de outubro e dezembro de 2025″.

Leitão imagina que venha a ter oposição: apesar de ter começado a receber apoios no grupo parlamentar (de Mário Amorim Lopes ou Joana Cordeiro) e de ser vista como uma figura bastante consensual, defendeu na CNN acreditar que é “bastante importante que apareçam outras candidaturas, para se poder ter um debate profundo sobre a estratégia e o caminho que devemos seguir”.

Sobre o timing da eleição interna, a candidata foi clara: “É uma fragilidade perante o país o partido ficar muito tempo sem uma liderança e passar por um processo eleitoral como umas autárquicas sem essa liderança. Seria um certo desrespeito pelos candidatos autárquicos não terem uma liderança num momento de concorrerem”. O seu desejo, defendeu, é que a convenção da IL aconteça “o mais depressa possível”.

Quanto a decisões futuras, voltam a estar em aberto: por um lado, porque Leitão abandona assim a sua candidatura presidencial para se focar na candidatura à liderança do partido, embora continue a defender que a IL deve ter um candidato próprio ou que represente a sua área política; por outro, porque estão a correr negociações, que deverão ficar concluídas nos próximos dias, para fechar acordos de coligação com o PSD em Lisboa e no Porto. A nova etapa da vida da IL será complexa e o novo, ou nova, líder terá já uns quantos desafios eleitorais pela frente para mostrar o que vale.

*Artigo atualizado com a proposta de 18 subscritores à mesa do Conselho Nacional sobre o timing da próxima Convenção.

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