Com mais de 900 mil votos no bolso e sem a possibilidade de disputar a segunda volta, João Cotrim Figueiredo demorou apenas cinco dias a anunciar um plano para o futuro: um movimento com o nome “2031”. Se se converterá ou não num projeto de recandidatura a Belém dentro de cinco anos, não confirmou — nem afastou a hipótese. A direção da Iniciativa Liberal não falou sobre o movimento na reunião pós-presidenciais, mas havia na cúpula quem estivesse informado do anúncio.
A forma como Cotrim apresentou o “Movimento 2031” e a falta de informação no site associado — que foi abaixo devido ao número de acessos após a entrevista na SIC Notícias — levanta dúvidas, mas também cria expectativas na Iniciativa Liberal, partido que foi em muito ultrapassado pelo capital político do terceiro mais votado da primeira volta das presidenciais.
A ambição de que este se torne um movimento que possa resultar “no aumento da força e peso da Iniciativa Liberal” foi assumida pelo próprio Cotrim Figueiredo e é naturalmente estendida a membros do partido, ainda que as incógnitas sobre o que será, como funcionará e o aproveitamento que daí possa vir pairem sobre a cabeça dos liberais. Para já, sabe-se que estão inscritas mais de 11 mil pessoas. E omite-se quem, além de Cotrim, dará a cara no arranque do movimento.
Afastada aparece estar a hipótese de Cotrim utilizar este movimento para fazer sombra ao partido. Não só porque o próprio garantiu isso mesmo, mas também porque, quem o conhece bem, garante não ter perfil para tal. “Ficar-lhe-ia mal. Fugiu da liderança da IL porque não queria guerras internas.”
Ainda que a ideia tenha sido genericamente bem recebida, existe na IL quem alerte para a necessidade de Cotrim mostrar abertura neste movimento e permitir que seja mais do que uma ode ao que conquistou ou exercício de culto de personalidade. “Não pode ser só a cara do Cotrim, não pode ser o rebanho de Cotrim. Se for um movimento egocentrista atira para o lixo toda a oportunidade”, desabafa um outro dirigente liberal.
A luta por mediatismo e a ambição por osmose
O Observador sabe que na reunião da Comissão Executiva da IL, que se focou nas presidenciais e no resultado de João Cotrim Figueiredo, o assunto do “Movimento 2031” não foi colocado em cima da mesa, nem sequer como hipótese. Ainda assim, houve quem, na cúpula do partido, estivesse perfeitamente informado antes do anúncio público, o que mostra que Cotrim teve o cuidado de não deixar a direção da IL totalmente às escuras.
Os dirigentes ouvidos pelo Observador entendem que um capital político tão avultado não pode ser desperdiçado, desde logo porque João Cotrim Figueiredo está em Bruxelas e se desaparecesse depois da conquista de 900 mil votos correria o risco de perder parte do que conquistou. Seja a pensar no presente ou num futuro mais distante.
Uma das fontes liberais ouvidas pelo Observador explica que, com a fragmentação atual do eleitorado e a escolha “entre o insuficiente e o péssimo”, o próximo Presidente da República “corre o risco de não ter a vida facilitada nas eleições daqui a cinco anos”, podendo esta ser uma forma legítima de Cotrim preparar uma nova corrida a Belém em 2031. “Sem dúvida”, sentencia-se.
No mesmo sentido, há quem acredite que o movimento até pode favorecer os liberais. Perante a “grande sede de mudança” que a candidatura de Cotrim demonstrou, e o facto de haver um “eleitorado que não escolhe a via do imobilismo do PS ou PSD, nem escolhe a via da destruição do Chega” e opta pela “terceira via, a via das reformas”, acredita-se que quem “melhor representa esta terceira via é a IL”. “[Cotrim] mostrou que há mesmo muita gente que partilha esta visão, pelo que serve de ambição para a IL também.”
Há quem olhe para o projeto como um “verdadeiro think tank” que possa debruçar-se sobre os mais diversos temas e “estabelecer pontes com diferentes atores políticos”. Que possa, no fundo, fazer um papel que é associado ao Instituto +Liberdade, mas em que nunca houve “ligação direta com a IL, nem colaboração”, apenas “membros comuns”. “Partilha e proximidade” que pode agora passar a existir entre o partido e o projeto de Cotrim.
Depois de ter ficado provado que Cotrim conseguiu, em muito, ir além do eleitorado da IL e entrar em força na AD, existe a convicção de que “é preciso um projeto transversal a diferentes eixos políticos e que consiga tirar as pessoas do ambiente de crispação” da política nacional.
Soma-se a prova de abrangência à necessidade de “mais mediatismo” — na entrevista na SIC-Notícias, Cotrim ainda piscou o olho ao espaço de comentário de domingo à noite que Marques Mendes deixou vago. Na IL, acredita-se que é preciso trabalhar essa notoriedade, ter “atenção na imprensa”, um “espaço de relevância” e de “influência nos media“.
A verdade é que, perante o que existe, é mais fácil vislumbrar uma visão popular num projeto de Cotrim Figueiredo do que na IL — contrariando a justificação que o liberal assumiu para deixar a liderança do partido (e já assumiu o erro). Com uma IL “acantonada”, defende-se que o movimento “pode ser mais abrangente“.
PSD ridiculariza Cotrim
Na Iniciativa Liberal acredita-se que estas presidenciais sintetizam uma mudança estrutural de comportamento do eleitorado, o que ajuda a explicar os mais de 900 mil votos de Cotrim Figueiredo. “As pessoas já não estão a votar com cartão e por isso é que este movimento pode gerar algo positivo“, sentencia um membro da direção, convicto de que “o PSD não quer que este movimento cresça”.
Partindo do princípio de que foi possível “rebentar com a candidatura de Luís Marques Mendes”, presume-se no núcleo liberal que o movimento pode agregar figuras sociais-democratas, à semelhança do que aconteceu nas presidenciais, e acabar por “minar as estruturas” do PSD, dando força ao movimento e ambicionando algo, no mínimo, diferente.
Essa hipótese é ridicularizada por alguns dos sociais-democratas ouvidos pelo Observador. “Estou com um medo, tremendo”, diz, com ironia, um destacado dirigente social-democrata. “Receio? Isso é de gargalhada. O movimento vai valer zero”, acrescenta um elemento do núcleo mais restrito de Luís Montenegro. “O narcisismo só podia dar nisto”, remata outra figura influente do universo do PSD.
A propósito do movimento agora lançado por João Cotrim Figueiredo há quem lembre outras experiências tentadas no passado. À cabeça, o “Movimento 5.7“, de Miguel Morgado, que juntava, precisamente, sociais-democratas, liberais e conservadores. Se é verdade que Morgado é hoje uma das figuras mais influentes do panorama mediático e político nacional, e se é certo que o movimento por ele fundado conseguiu marcar a agenda e publicar pensamento, o movimento nunca conseguiu transformar verdadeiramente o espaço político.
Além disso, e ao contrário das leituras mais benevolentes que se vão fazendo dentro da Iniciativa Liberal, no PSD abriram-se apostas ao prazo de validade de Mariana Leitão à frente da liderança do partido: no fundo, vai-se dizendo, este movimento agora criado por João Cotrim Figueiredo não é mais do que uma plataforma para condicionar o partido e, eventualmente, decepar a liderança da IL. Se será Cotrim ou outro da sua confiança a assumir o cargo — e Bernardo Blanco, seu diretor de campanha, nunca escondeu essa ambição — são outros quinhentos. Mas, no PSD, ninguém diz perder um minuto de sono com os dramas dos liberais.