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Diogo Lopes/Observador

Diogo Lopes/Observador

Isolamento, bacalhau e gelo. Husøy, a ilha "portuguesa" do Círculo Polar Ártico /premium

No extremo norte da Noruega há uma ilha perdida e uma empresa familiar que dependem do "fiel amigo". Esta é a vida dos 12 portugueses que vivem e trabalham neste recanto de neve, peixe e muito frio.

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São umas cinco da manhã e o termómetro acusa 20 graus negativos. A noite ainda se mantém firme mas a doca do pequeno porto pesqueiro de Husøy está iluminada — ainda bem, se não corria-se o risco de desaparecer nos quase 20 cm de neve que se foram acumulando desde o fim da tarde do dia anterior. “Este é o vosso barco”, diz Rita Karlsen apontando para uma embarcação metálica, nem muito grande nem muito pequena, toda pintada a vermelho e branco. “Boa sorte!”, atira, antes de regressar a pé a sua casa. Só a voltaríamos a ver sete horas e duas toneladas de bacalhau depois.

O episódio que abre este texto aconteceu em meados de fevereiro, quando o Observador visitou esta minúscula ilha norueguesa que fica quase no Polo Norte (tecnicamente está já bem dentro do Círculo Polar Ártico). Com a companhia do chef Ricardo Luz, vencedor do Concurso Chefe Cozinheiro do Ano 2019, e do terceiro classificado desta mesma competição, João Santos Pierre — a viagem foi um dos prémios atribuídos pelo concurso –, milhares de quilómetros para se ir de Lisboa até este ponto de terra que alguém deixou cair no meio de uma baía tranquila, rodeada de montanhas e neve, onde Portugal tem uma importância curiosa.

Rita é já a terceira geração de Karlsens a liderar o motor de Husøy, vila a 50 quilómetros de Trømso que tem pouco mais de 250 habitantes. A empresa de transformação e revenda de peixe que gere, a Brødrene Karlsen, é o principal (se não único) empregador desta comunidade onde tudo gira à volta do bacalhau e onde Portugal tem um papel central: “Mais de 70%” da produção da empresa vai parar a mesas portuguesas”, os sobes e desces da economia nacional influenciam dramaticamente os resultados da Karlsen e, finalmente, entre os habitantes desta localidade existe uma jovem comunidade portuguesa que não hesitou em trocar o seu país soalheiro por este pontinho de 11 hectares onde está quase sempre de noite e o frio é quase tão presente como o bacalhau.

A tirar línguas aos bacalhaus desde os 13

Bastaram uns 30 minutos no tal barco onde Rita nos deixou para se entrar no Atlântico gelado que o “fiel amigo” tanto gosta — se soubéssemos o difícil que é apanhá-lo em sítios como este, seguramente dávamos-lhe ainda mais valor. Como se o frio e as rajadas de vento gelado não bastassem, a vida de quem está pouco habituado a estas andanças fica ainda mais complicada com a junção do feroz cheiro a peixe e o combustível queimado pelos motores. Parece que tudo nos quer à força fazer vomitar. Ao menos a paisagem vai conseguindo distrair — sentimo-nos aos tombos dentro de um congelador de frigorífico, daqueles que vão acumulando uns montes brancos lá para o fundo.

Rita Karlsen é a terceira geração de líderes da empresa de comércio de peixe Brødrene Karlsen, na Noruega. Diogo Lopes/Observador

Diogo Lopes/Observador

“Experimentem ir bebendo Coca-Cola, ajuda”, diz o capitão do navio. Levantando a cabeça dos seus ecrãs cheios de cores e gráficos, o piloto do “Hallvardson” (um homem na casa dos quarenta, de aspeto tipicamente nórdico), explica que como já conhece bem aquela zona de mar alto não precisa de olhar muito para o sonar que indica onde param os cardumes. Na tripulação há mais quatro pessoas, todos homens, um deles vê-se claramente que é adolescente (não teria mais de 17 anos) — neste universo, pelo que se pôde perceber, começa-se a conhecer os ossos do ofício bastante cedo.

Ao chegar a uma zona onde, teoricamente, há gadus morhua, a tripulação vem para o convés munida de impermeáveis e capacetes e começam a operar uma autêntica linha de montagem flutuante. Começa-se por ativar um guindaste gigante, que solta umas longas redes que uns 20 minutos mais tarde voltam a bordo, carregadas de peixe. O processo que se segue é o soltar de tudo o que vem na rede numa espécie de funil que leva todo o peixe para o porão, onde uma mini linha de montagem se forma para matar e sangrar todo o peixe. Tudo isto entre solavancos e um frio de rachar.

“Foi o meu avô e o meu tio que começaram o negócio, em 1932. Na altura já com o foco no bacalhau. A sede original não era aqui em Husøy mas nas redondezas, só em 1936 se mudaram em definitivo para aqui”, explica Rita. Foi já junto ao calor de uma lareira que a neta do fundador da Brødrene Karlsen explicou o inicio do negócio que hoje gere dentro e fora das fronteiras do país onde nasceu. “Na altura iam ao mar num barco a remos e pescavam o bacalhau à rede, lançada à mão”, explica. A mudança para Husøy deveu-se à assimilação de um negócio de pesca que tinha falido e desde então foi crescendo consideravelmente — sempre com Portugal como grande consumidor, “já nessa altura”, conta Rita.

A época da pesca de bacalhau começa por volta de janeiro e dura até aos inícios abril.

Diogo Lopes/Observador

De tez morena e cabelo escuro, a líder deste negócio nem parece escandinava. Ao leme do negócio desde 2010, não esconde que já fez de tudo na empresa. Há pouco escrevia-se que nesta vida de pescarias começa-se cedo a conhecer o negócio: Rita é o exemplo disso. “O meu primeiro emprego na empresa foi na secção de desmanche do peixe. Tinha uns 13 anos e estava encarregue de tirar as línguas das cabeças de bacalhau que chegavam do mar”, explica. O Observador teve oportunidade de ver que esta tarefa continua a ser a introdução dos mais pequenos ao negócio o que é praticamente sinónimo em toda a ilha, tal a importância que tem. Já lá vão uns bons anos desde essa fase na vida de Rita e hoje a Brødrene Karlsen é bem maior do que era — até já comercializa salmão, criado em regime de aquacultura. Mas o que faz esta empresa com as quase quatro mil toneladas de bacalhau que apanham por temporada? “O que fazemos, essencialmente, é vender o bacalhau a marcas que depois o revendem como seu”, conta. Em Portugal, o seu maior cliente é a empresa nortenha Brasmar.

“É como viver numa aldeia em Portugal”

Antes de se chegar a Husøy é preciso atravessar uma montanha. Literalmente: um túnel estreito, de dois sentidos, termina numa paisagem digna de postal de Natal. Uma ilha branca, cheia de casinhas de madeira coloridas, destaca-se no meio de uma espécie de baía rodeada de montanhas forradas de neve. É só uma estrada curta que liga o “continente” a esta ilhota onde pelo menos 12 das cerca de 250 pessoas que aqui moram são cidadãos portugueses.

“Costumo explicar muitas vezes que isto é como viver numa aldeia qualquer em Portugal. Toda a gente conhece toda a gente, não existem preocupações e as crianças brincam livremente na rua faça, chuva ou faça sol”, conta ao Observador Tamara Marques. Foi no verão de 2018 que esta jovem que trabalha na linha de produção de salmão da Karlsen decidiu trocar “a estabilidade” que tinha em Portugal e seguir com a filha para junto de Diogo Graça, o seu companheiro que já em janeiro desse ano tinha vindo para Husøy. “Vim na altura da temporada do bacalhau para ver como era viver na Noruega, o meu irmão já cá estava e foi ele que me desafiou. Acabei por gostar e pedi à Tamara para vir cá uns dias em Abril para conhecer”, explica Diogo numa conversa via chat do Facebook.

Um dos primeiros trabalhos que se pode ter na Karlsen - é já uma tradição na ilha - é muito popular entre os adolescente - consiste no retirar à mão das línguas dos bacalhaus. Diogo Lopes/Observador

Diogo Lopes/Observador

Demorou pouco tempo até os dois decidirem que esta ilha piscatória “seria um bom sítio para estar em família”. Diogo conta que antes de se mudar para a Noruega trabalhava na Auto Europa e os horários exigentes e irregulares eram um obstáculo — “Eu e o Diogo estávamos com incompatibilidade de horários e só nos cruzávamos nas folgas ou numa semana em que conseguíssemos ter o mesmo horário”, explica Tamara. Foi assim que a opção de Husøy, que era suposto ser temporária, acabou por convencer de tal forma que até hoje ainda lá estão.

O casal não esconde que os primeiros tempos foram desafiantes, apesar de já lá terem conhecidos (André, o irmão de Diogo, e mais outro rapaz): “No início custou um bocadinho, tivemos de nos habituar a não ter à nossa volta uma série de serviços que em Portugal encontramos com facilidade [a ilha só tem um pequeno mini-mercado, por exemplo]. Também começámos a perceber o que era ver as mesmas caras todos os dias, no trabalho e na rua”, conta Tamara. Mesmo assim, ressalva, “é tudo uma questão de hábito e perspetiva.”

Atualmente dizem-se totalmente habituados e integrados na vida da ilha. “O tempo aqui passa a correr, as vezes dou por mim e nem acredito que já passaram quase três anos desde que viemos para cá. Dividimos o nosso tempo entre o trabalho, a família e os treinos de futebol que damos às crianças da ilha. Damos treino de duas vezes por semana, sempre em inglês (apesar de já usarmos algumas palavrinhas em norueguês)”, conta Tamara. Ainda que pequena, a ilha tem uma população muito jovem, de tal forma que têm uma escola para miúdos de todas as idades. Acaba por ser um dos centros da comunidade já que é através da escola que se desenvolvem várias atividades que envolvem todos os habitantes da ilha: o casal já foi desafiado, por exemplo, a cozinhar um almoço português seguido de uma partida de futebol entre contra os noruegueses (“claro que fomos nós que ganhámos”, diz Tamara). “Há aqui um grande espírito de entreajuda”, remata Diogo.

A pequena ilha de Husøy, no norte da Noruega, nos meses de menos frio. D.R.

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“Mil e tal quilómetros” rumo ao desconhecido

Por enquanto, Tamara e Diogo assumem que os planos a curto/médio prazo passarão sempre por Husøy e a Noruega. Se por um lado a ilha é um bom sítio para estar em tempos de pandemia (não tiveram qualquer caso reportado), a educação de Maria, a filha do casal, é a prioridade: “o nosso plano é ficar por Husøy até ela terminar os estudos e seguir com a sua vida”. Mesmo assim não escondem que Portugal, como afirma Diogo, “será sempre a nossa casa”, daí manterem o objetivo de um dia regressar. A sua história neste canto da Noruega pode ter incluído algum apoio inicial de conterrâneos que já tinham desbravado este caminho antes deles mas, com Maria Barata, a história foi diferente.

“Já estava na Noruega antes de vir para aqui [Husøy]. Vim em 2016 com a pessoa com quem estava numa relação, na altura. Vivíamos em Kristiansund”, conta. A dada altura o companheiro de Maria fica sem emprego, apesar desta manter a sua posição numa empresa de limpezas, e começam a enviar currículos para empresas de peixe de toda a Noruega, setor que acreditavam ter estabilidade suficiente para garantir um emprego fixo. Um dos sítios para onde enviar o seu CV, claro, foi a Brødrene Karlsen. “A Randi [irmã de Rita Karlsen] ligou-nos, queria contratar-nos, e deu-nos três dias para chegarmos a Husøy”, conta Maria. O ‘sim’ demorou pouco a surgir e foi desta forma que começou uma grande aventura.

“Decidimos vir para cá de carro. Fizemos mil e tal quilómetros, sempre com pressa para chegar a tempo à reunião. O carro deixou de funcionar a meio caminho e acabámos por ter de alugar um outro para conseguirmos terminar a viagem”, elabora. Chegaram mesmo em cima do deadline que lhes tinha sido dado mas tudo correu bem e ficaram com o emprego — Maria foi para a linha de produção de salmão e é lá que ainda continua. “Eu vim para cá sem saber de nada! Nem sequer verifiquei se a empresa existia mesmo ou não!”, conta a mesma Maria, que na sua vida em Portugal pré Noruega trabalhava como administrativa “num escritório”. A primeira vez que viu Husøy, conta, “foi uma surpresa muito agradável”, especialmente tendo em conta que “não sabia ao que vinha”.

A unidade de transformação e embalamento da Karlsen fica logo na doca onde atracam os barcos pesqueiros. Diogo Lopes/Observador

Diogo Lopes/Observador

Maria e o seu companheiro na altura foram os primeiros portugueses a aterrar nesta vila e nesta empresa. Apesar das primeiras impressões terem sido muito positivas, o contacto humano inicial não foi simples. “Nós não falávamos com ninguém, não conhecíamos ninguém… Não foi fácil, cedo percebemos que as pessoas não estavam habituadas a abraçar outras nacionalidades”, explica. Os noruegueses? Nada disso — “eles são bem mais calorosos do que se pensa”. Este tipo de trabalho atrai também pessoas de outras nacionalidades, principalmente, de países como a Polónia e a Lituânia, e nessa altura essas comunidades já estavam bem estabelecidas, tanto em número como em proximidade, daí a dificuldade a “furar”.

André Graça, irmão de Diogo Graça, conta a mesma história. O ex-marido de Maria também conta ao Observador as dificuldades sentidas nos primeiros tempos, especialmente em termos de relações humanas. “Sentíamos que as pessoas de outras nacionalidades tinham medo que viéssemos tirar-lhes o emprego”, explica. O antigo militar do Seixal trabalhava num estaleiro antes de vir parar a Husøy, onde começou (e continua) a exercer funções como técnico de manutenção das linhas de produção e embalamento — “eu começo a trabalhar quando os outros terminam, o meu trabalho é garantir que as máquinas estão todas prontas e funcionais no outro dia de manhã”.

Sempre as mesmas caras

Hoje, quase cinco anos depois de terem (Maria e André) chegado a Husøy, a realidade é mais agradável. A comunidade portuguesa cresceu, fruto de amigos de amigos que foram vindo; e a integração com as outras nacionalidades foi-se fortalecendo, de tal forma que André explica que este ano, como não podem viajar para Portugal à conta da pandemia, o Natal será passado junto “dos amigos croatas”. Apesar de mais animada, Maria diz que mesmo assim é difícil gerir a questão das relações sociais no seio dos habitantes da ilha: “A ilha e a empresa são praticamente a mesma coisa e, para todos os efeitos, estamos muito isolados. Às vezes é um pouco cansativo estar sempre com as mesmas pessoas, dentro e fora do trabalho.”

Husøy em pleno inverno. Diogo Lopes/Observador

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E como é o dia a dia de quem vive neste canto remoto da Noruega? “Não é nenhum mar de rosas”, garante Maria. É preciso saber lidar com o isolamento, com as saudades da família e, claro, com o facto de todos os dias se verem as mesmas pessoas. Sempre. Outros pormenores como a falta de “restaurantes, bares ou de um grande centro comercial, por exemplo”, também fazem com que André destaque esses exemplos quando questionado sobre aquilo de que mais sente falta. O salário? É melhor que em Portugal mas, segundo Maria, não é nada de muito alto quando comparado com o custo de vida (em média, o salário de um recém contratado da Karlsen ronda os dois mil e poucos euros; como termo de comparação, um café custa um pouco mais que dois euros). Mesmo assim há integração e comunhão — até natureza, para quem aprecia e gosta de caminhadas pelas montanhas ou passeios de caiaque.

O exercício físico é algo muito presente, como forma de ocupar os tempos livres, mas André explica que os eventos sociais também são frequentes. Ao fim de semana, por exemplo, costumam juntar-se “em convívios” plenos de conversa e comes e bebes. No verão, por exemplo, toda a comunidade desloca-se até uma zona coberta nos arredores da ilha, uma espécie de parque de merendas.

Por muito que na altura em que Maria e André chegaram, muitos achavam que Portugal se tratava “de uma parte de Espanha”, hoje o cenário é diferente. Rita Karlsen e a família, por exemplo, tentam pisar terras lusas uma vez por ano, em férias. A visibilidade internacional que o país vinha a ganhar no pré-pandemia também fez com que mais gente percebesse melhor de onde vinham Tamara, Diogo, André, Maria e o restante contingente português — que parece vir a aumentar, assim que a pandemia permitir deslocações. Um deles será o pai de André e Diogo, que comprou uma auto-caravana de propósito só para os poder ir visitar. Até lá, em Husøy, vai-se matando as saudades de Portugal com a internet, o telefone e claro: um bom prato de bacalhau.

O Observador viajou a convite do Concurso de Chefe Cozinheiro do Ano

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