João Cotrim Figueiredo disse no palco que os candidatos presidenciais não o entusiasmavam e ouviu dos liberais apelos: “Vai, João”. Minutos depois, na Rádio Observador, anunciava ao país que está a ponderar ser candidato presidencial e até revelou os moldes (continuará a ser eurodeputado) e que tipo de eleitorado conta conquistar (os jovens, por exemplo).
Cotrim Figueiredo repetiu que jamais voltará a ser presidente da IL e que, por isso, Rui Rocha até lhe tirou um “fardo” ao dizer que o país deveria rejeitar sebastianismos. Ainda sobre Rocha, disse que teve uma “formulação feliz” quando sugeriu que era preciso clarificar se a culpa do teto eleitoral era do presidente ou do partido.
O eurodeputado e antigo líder da IL criticou ainda o facto de os liberais irem em coligação com o PSD e o CDS em Vila Nova de Gaia, tendo em conta que o candidato é Luís Filipe Menezes.
[Veja aqui a entrevista a João Cotrim Figueiredo na íntegra:]
“Estou a ponderar candidatura a Belém. Não estou a ver jovens votarem naquelas figuras”
Foi presidente do partido e acabou de fazer um discurso onde disse que faz falta um candidato presidencial que não existe, com uma referência a um país moderno, virado para o futuro e liberal. Na plateia ouviu-se gritos de “vai, João”. Admite uma candidatura presidencial?
Pegam na parte do discurso que pode ser mais picante, mas para mim não é sequer a mais importante. O que eu queria transmitir a esta Convenção é que os desafios que temos que enfrentar em variadíssimos níveis são de tal forma grandes que o partido — mas também o país, e depois a Europa e o mundo todo — devia estar muito mais concentrado na resolução desses problemas do que está. Não fugindo à pergunta, vocês já sabem que quando tenho alguma coisa para dizer, digo. Portanto, se já tivesse uma decisão tomada ou qualquer coisa desse tipo, diria.
Mas disse que Mariana Leitão podia contar consigo para todas as batalhas. Está a ponderar as presidenciais? Significa isso?
Estou a ponderar, isso posso dizer. Coisa que há três ou quatro meses talvez não estivesse. Porque à medida que o tempo passa e os candidatos já assumidos e os potenciais se perfilam, eu fico até mais desconsolado — e suspeito que não seja o único. Aquilo que eu disse no púlpito é o essencial: não inspiram as pessoas, não entusiasmam. Não estou a ver a juventude aderir a nenhuma daquelas figuras, não estou a ver pessoas a querem discutir o futuro com nenhuma daquelas figuras. E se assim não for, muito dificilmente essas figuras poderão unir o país à volta de um desígnio.
O seu perfil seria o indicado para captar essa parte da população?
Esta é a parte da conversa em que a modéstia tem que ir pela janela. Mas sim, porque em campanhas anteriores foi isso que senti.
O resultado das europeias facilita ter essa visão?
Também, mas é sobretudo a composição sociológica e demográfica e etária do que foram esses resultados. Eu sei que consigo mobilizar uma parte da população que deve estar muito desgostosa e insatisfeita com a escolha que tem nesta altura. Portanto, há quatro meses não diria isso, ou não sabia isso, estaria fora das minhas cogitações, agora não está. Não tenho uma decisão tomada. Mais uma vez, se eu tivesse, tinha dito aqui.
E tem algum timing?
Porque é uma decisão pessoalmente arriscada, quer do ponto de vista político, quer do ponto de vista financeiro até, como vocês sabem, os candidatos são responsáveis pelas despesas das suas próprias campanhas e é algo que eu pretendo gerir com o maior das cautelas e prudências, evidentemente. Mas também porque eu não gostaria que esta fosse — se vier a assumir essa candidatura — uma coisa demasiado partidária. Embora a minha associação à IL seja evidente e inevitável, não gostaria que fosse uma candidatura substancialmente partidária. Gostaria que representasse o espaço que vou designar — por a falta de melhor expressão — como o espaço dos livres pensadores. Daqueles que, alinhados ou não, estando ou não filiados em partidos, questionam aquilo que se passa no dia a dia, tentam projetar aquilo que se vai passar amanhã e pensam pela própria cabeça e são livres. E isso, gente, pessoas, agrada-me e acho que agrada àquela parte do eleitorado que eu digo que não está representada por nenhum dos candidatos.
Neste momento há vários partidos que ainda não apoiaram nenhum candidato, como o PS, o Chega ou o CDS. Algum destes partidos poderia ser apoiado pelo seu partido, se não fosse candidato? E algum podia apoiá-lo?
Duvido, com toda a franqueza.
Nem o próprio CDS?
Com toda a franqueza duvido. Mas a vida política e sobretudo numa eleição presidencial vai muito para além dos partidos.
Antes do seu discurso, ouvimos Rui Rocha dizer que houve vozes relevantes na IL que comentaram os resultados mas foram absolutamente irrelevantes na sua decisão de se demitir. Foi uma das pessoas que avaliou negativamente os resultados da IL, Rui Rocha fez bem em tomar esta decisão de se afastar?
A essência da decisão é pessoal e portanto, se a tomou, tomou bem com certeza. O que eu pretendi dizer quando intervim publicamente sobre a matéria — e sei, tenho a certeza, que estava a reproduzir aquilo que também é a postura do Rui Rocha — é que nós somos um bocadinho mais exigentes do que outros partidos. Quem tivesse crescido 0,6% como nós crescemos e ganhasse mais um mandato, poderia estar a cantar a vitória. Nós éramos incapazes de fazer isso. E este apelo à exigência autocrítica não foi nenhum apelo a nenhuma demissão, atenção. O que é que o Rui Rocha hoje vem dizer? Que esses comentários correspondem àquilo que depois veio a ponderar e não foram determinantes para a sua decisão. Coisa que eu fico satisfeito porque eu quero sentir-me livre de expressar as minhas opiniões sem temer que isso vá conduzir à demissão desta ou daquela pessoa ou à contratação desta ou daquela pessoa, é igual.
“Rui Rocha libertou-me de um fardo: não voltarei a ser líder”
E concorda quando Rui Rocha disse que há sebastianismo na Iniciativa Liberal?
Há. E gostaria bastante particularmente que ele tivesse falado nisso porque isso me liberta de um fardo que eu às vezes carrego, que é pessoas que ainda me pedem para voltar à liderança da Iniciativa Liberal. E, portanto, essas pessoas, sim, sofrem de sebastianismo. Eu nunca estarei para aí virado, pode ficar aqui escrito: nunca voltarei a ser presidente da Iniciativa Liberal. Não sofro desse sebastianismo.
Como é que seria uma campanha de João Cotrim Figueiredo nestas eleições presidenciais contra os adversários que já se conhecem?
Tenho todo o gosto de falar convosco, mas não vou dar as novidades todas.
Um candidato como o almirante Gouveia e Melo preocupa-o ao ponto de se sentir responsável e ter começado essa ponderação?
Não. Não. Não é que eu adore a noção de um militar na reserva assumir as funções de mais alto magistrado da nação, mas não há sequer essa profissão em concreto, ter sido militar, e o iniba de qualquer direito cívico. Não adoro a estética da coisa, os dois ou três primeiros presidentes da República foram militares…
Mas não gostava de voltar a ver um militar na Presidência da República?
Não, mas não se esqueçam nunca que estão a falar com um liberal, um liberal vê para além da farda, vê para além do cargo, vê para além da profissão, portanto, a pessoa em si, independente da profissão que teve e desempenhou, pode ter qualidades pessoais e humanas que o qualificam perfeitamente para ser candidato e para ser Presidente da República. Agora, também não me parece que vá sair daqueles que entusiasma as pessoas. Sei que vocês não estão aqui para responder perguntas, mas faço retoricamente: acham verdadeiramente que eu estou a exagerar quando digo que nenhum destes candidatos entusiasma as pessoas?
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Mas as qualidades políticas, falando não das pessoais, mas as políticas do almirante Gouveia Melo, vê algo de bom que possa trazer à política?
Vou fazer o esforço para encontrar algo de bom e vou dizer que acho que gosto da abordagem mais exigente perante o cumprimento de promessas, por exemplo. Agora, eu nunca diria que chamaria à pedra um partido ou um governo e eventualmente, no limite, dissolvesse uma Assembleia por incumprimento de promessas, era o que faltava. Isso é o extravasamento das competências constitucionais mais claro que eu vi dito. Portanto, quer uma coisa positiva, acho que aquela exigência é boa, mas depois a conclusão que tira é péssima.
E já agora, se pudesse apontar algo negativo que na campanha do almirante, o que apontaria?
Nem decidi sequer se vou entrar na lista, portanto não me peçam agora para fazer de comentador político de qualidades e defeitos de todos os outros. O defeito que é comum, e portanto posso atirar a todos, é que acho que não inspiram, que não são mobilizadores para um desígnio comum, que ninguém tem entusiasmo em votar em nenhum deles, especialmente aquela faixa do eleitorado que mais devia estar mobilizada para que o país possa sair deste marasmo, que são os jovens e os dinâmicos.
Acabou de fazer um discurso muito focado nos desafios mundiais. É eurodeputado há pouco tempo e já está neste momento a pensar no Palácio de Belém?
Não, há outros exemplos de eurodeputados que participaram em corridas presidenciais, portanto não serei o primeiro. Acho que são responsabilidades completamente diferentes e independentemente das probabilidades de ser eleito em cada caso — no caso das europeias eram mais elevadas nas presidenciais são menos elevadas — farei sempre campanhas com a maior seriedade e para ganhar. Agora não leiam daqui uma desilusão com as funções de eurodeputado.
Não vai abdicar do cargo de eurodeputado?
Não vou abdicar do cargo de eurodeputado, farei a campanha enquanto desempenho as funções de eurodeputado. Será mais difícil para a gestão da agenda, mais difícil para a minha resistência, mas acho que já fiz coisas piores.
No discurso da Convenção falou numa “encruzilhada” em que a IL deve escolher entre ser um “partido de nicho” ou um partido “muito mais abrangente”. Disse que preferia a “segunda via”. Passados quase 3 anos da sua saída do partido, a tal vertente popular que dizia que precisava de ser conquistada, ainda não chegou?
Os números estão lá para dizer que não, não chegou. E agora perguntam porquê, sendo que eu achava que eu próprio era um problema para essa abrangência, pois isso exigiria da minha parte uma capacidade de análise politológica que talvez não tenha.
Concluiu que estava errado, não era o problema?
Sim. Uma das coisas que aprendi nestes breves seis anos em que estou político, é que de facto os mensageiros contam muitas vezes tanto quanto as mensagens e às vezes mais, e que a capacidade de fazer chegar a mensagem a mais pessoas é dependente do mensageiro, independentemente das suas características mais visíveis. Há outras coisas de empatia menos evidente, de comportamento, de genuinidade menos evidente, que talvez vão mais longe. Portanto sim, acho que estava errado nesse sentido, e acho que aprendi nesse sentido também.
E já que não vai voltar a ser presidente, como disse há pouco, consegue ver que este radicalismo, anunciado por Mariana Leitão, pode permitir chegar a esse lado mais popular, ou deixar de ser esse partido nicho é difícil quando se quer ser tão radical?
Primeiro, eu fiz essa menção de que temos que fazer essa decisão, porque continua a haver esse debate frequentemente, e eu acho que é um debate que, já que estou a falar de decisões a vários níveis, a nível do partido, nós também temos de decidir isso de uma vez por todas. Não é que as pessoas que defendam o contrário tenham de se calar, mas que aceitem que há uma maioria do partido, que me pareceu ser óbvio, pelo menos aqui na convenção, que pretende seguir a via da maior abrangência. E da mesma maneira que fiz análise da minha decisão de 22, faço a análise daquilo que poderá ser o mandato de Mariana Leitão a quem reconheço qualidades, não só intelectuais, mas de empatia, que eu acho que são adequadas, suficientes, apropriadas para fazer esse trabalho da abrangência.
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
“O Rui teve formulação feliz. Batemos num teto. Vamos ser se o problema é do partido ou do presidente”
Que podem funcionar melhor do que as do Rui Rocha, neste plano específico?
Sim. O Rui, por acaso, teve uma formulação feliz, aqui parece que batemos num teto, vamos ver se o problema é do partido ou do presidente.
Já são dois presidentes a saírem mais ou menos com essa ideia de que tinham atingido um teto.
Sim, no meu caso mais nocional, no caso do Rui mais aritmético, mas sim.
“Não teria integrado a coligação em Gaia”
Na última convenção, em Loures, há cinco meses admitiu uma coligação com o Carlos Moedas em Lisboa para responder a uma frente-esquerda. A coligação acabou por confirmar-se, a frente de esquerda também. A IL deve permitir que o CDS fique à frente em termos de lugares elegíveis em Lisboa nestas eleições?
A minha resposta curta seria não. A minha resposta mais ponderada é que, de facto, aquilo que nós chamamos de autonomia dos núcleos deve dar-lhes autonomia também para decidir que tipo de compromissos ou cedências podem, em cada caso, ser feitos. E no caso de Lisboa, posso dizer que não adoro a proporção de forças que acabou por ser acordada, mas se isso foi feito — e não sei os detalhes — a troco de maior envolvimento em determinadas áreas da governação da cidade, pode ter sido um excelente acordo.
O CDS poderia ficar à frente da IL, na sua visão, caso o acordo…
À frente, acho difícil, mas em paridade sim.
Com o mesmo número de vereadores?
Sim.
Mas à frente, quando digo num número superior na lista?
Não, isso penso que não é razoável.
Acredita que a IL tem de estar à frente do CDS na lista, é isso?
Pelo menos paritariamente, sim.
Com base nos resultados nas últimas legislativas, por exemplo?
A verdade é que o CDS não vai a eleições em Lisboa, já não lembro da data, mas há mais de 15 anos [não vai desde 2017, há 8 anos].
Além de Lisboa, há coligações dos liberais e da AD no Porto, em Coimbra, em Sintra. A IL entrou em demasiadas coligações autárquicas com o PSD e com o CDS?
Entrou nas coligações que os núcleos dentro da sua autonomia decidiram entrar. Foram definidos alguns critérios para que essas coligações não fossem meras conveniências, nomeadamente a possibilidade de ganhar, que essa vitória correspondesse a retirar do poder forças políticas que no nosso entender tivessem muito pouco a ver com o Portugal mais liberal e que tivessem suficientes ganhos programáticos no programa conjunto. Mas teria feito todas se fosse desses núcleos e tivesse essa autonomia? Não, não teria feito todas.
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Quais é que não teria feito?
Gaia.
Porque acha que a IL não negociou à altura ou o candidato da coligação…
O candidato para mim seria problemático.
Quer explicar porquê? Pelo passado que Luís Filipe Menezes tem?
Acho que é um candidato arriscado para nós darmos as mãos em Gaia. Mas também devo confessar que o núcleo de Gaia fez um trabalho bastante profundo de preparação dessa coligação e no Conselho Nacional nisso foi discutido. Procedeu a uma defesa bastante convincente da sua decisão. Mesmo assim eu teria dificuldade.
Mariana Leitão disse no discurso que a IL deve ser uma alternativa à” direita do caos” e admitiu que os liberais não estão em condições de influenciar a governação, pelo menos como queriam. A IL deve apostar em demarcar-se de vez da AD e não fazer a colagem que fez durante a campanha eleitoral?
Quando disse que advogava que o partido tivesse mais abrangência para poder ser mais influente, estava obviamente a pensar em ser influente em órgãos de governo. Há bocado falámos dos locais, mas podemos falar dos nacionais. E portanto, se é assim, eu admito coligações nacionais. O que sempre achei, desde que tomei posse como presidente, era que há uma fasquia até à qual é difícil os partidos mais pequenos das coligações sobreviverem sem serem submergidos. E essa fasquia para mim era 12%. Não pergunto como é que lá cheguei na altura, o número não é exatamente cabalístico, mas tem o seu quê de sensibilidade. Com menos de 12% acho difícil, é demasiado mais pequeno do que o outro partido para não ser submergido e para as suas ideias não serem sistematicamente derrotadas. E não há exemplos na história política europeia — e eu já investiguei muito — de partidos com esse tipo de ambição, que não se tenham dado mal com coligações. Portanto, até do ponto de vista estratégico de longo prazo, era errado. A estratégia sempre foi, vamos fazer crescer a IL, para ter força suficiente para fazer estar nesse tipo de coligações. E exercer poder. É fundamental que as pessoas que dão a cara para o partido se preparem para exercer o poder, para a dificuldade de exercer o poder, de como agradar a este, não agradar àquele, ter de tomar decisões difíceis. E este partido tem uma proporção enorme de quadros que nunca teve esse tipo de responsabilidade. Portanto, temos de começar a tê-los, e estas autárquicas serão uma belíssima ocasião para isso começar a acontecer. No nível nacional é perfeitamente possível nós imaginarmos haver uma coligação com o PSD, mas não pode ser numa posição de 5%.