Obrigado por ser nosso assinante. É com o seu apoio que escrevemos estes e outros artigos de fundo, exclusivos a assinantes.

Quando se questiona uma criança de dez anos sobre que figura pública consideram um exemplo a seguir, ouvir o nome de um político não será o mais habitual. Mas foi isso que aconteceu com Johanna (nome fictício), que na passada segunda-feira, depois de ver o debate entre os candidatos a chanceler na Alemanha, disse à sua professora que quando crescesse gostaria de ser como Annalena Baerbock. A resposta deixou a mãe cheia de orgulho, e por isso Suzanna, uma professora de Epidemiologia de 50 anos, a viver em Berlim, decidiu fazer 35 quilómetros para levar a filha a um comício em Potsdam, onde Johanna viu com os seus olhos a candidata dos Verdes a chanceler.

“É fantástico estas crianças terem crescido com uma mulher como chanceler [Angela Merkel], mas a cultura na Alemanha ainda é muito dominada por uma mentalidade masculina. Por isso acho ótimo que as raparigas possam ter exemplos femininos que lhes deem ambição para chegar longe”, diz Suzanna ao Observador, à saída do comício desta quinta-feira no Alter Markt, em Potsdam, explicando que decidiu trazer a filha até aqui para incentivar o interesse pela política, não pela sua ideologia política.

Comício dos Verdes juntou cerca de 800 pessoas no centro de Potsdam, de acordo com a estimativa da polícia

Perante uma plateia com cerca de 800 pessoas, segundo estimativa de fonte da polícia de Potsdam, Annalena Baerbock, que vive na capital do estado federado de Brandemburgo há dez anos, jogava em casa e no seu discurso aproveitou o entusiasmo dos presentes para defender algumas das bandeiras dos Verdes, como a necessidade acelerar a descarbonização ou o aumento do investimento na educação, recebendo muitos aplausos da audiência.

Os adultos devem assumir a responsabilidade pelos seus filhos e netos com seriedade”, afirmou a candidata dos Verdes, sublinhando que “se continuarmos como até agora, os nossos filhos não terão uma vida tão boa como a nossa”.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

Desengane-se, no entanto, quem pensa que no Alter Markt existia unanimidade em torno da candidata dos Verdes a chanceler. Suzanna, a professora de Epidemiologia, por exemplo, apesar de orgulhosa por a filha admirar Annalena Baerbock, admite que ainda não está totalmente convencida de que irá votar nos Verdes, que, de acordo com as últimas sondagens, reúnem 16% das intenções de voto, atrás do Partido Social Democrata alemão (SPD) e da União Democrata-Cristã (CDU).

“Annalena defende um maior financiamento para a educação, mas a educação não tem sido a prioridade nos governos locais dos Verdes ou dos sociais-democratas. O que vemos na realidade não corresponde ao discurso. Existe uma contradição, e isso deixa-me zangada”, frisa a professora de Epidemiologia, referindo-se ao governo federal em Berlim, composto pelos Verdes, pelo SPD e pelo Die Linke. No entanto, não exclui a hipótese de votar no partido de Baerbock no domingo. “Precisamos de mudança”, atira, sem nunca esquecer que a candidata dos Verdes é a mulher que a filha vê como exemplo.

“Autêntico” ou “arrogante”? Em Potsdam, Olaf Scholz passa praticamente despercebido, mas consegue dividir opiniões

Falta de experiência é problema? O debate de duas primas sobre Baerbock

Com a campanha eleitoral a aproximar-se do fim, paira a incerteza sobre o que vai acontecer no próximo domingo, uma vez que quatro em cada dez alemães ainda não decidiram em quem vão votar. Mikaela, de 19 anos, vai votar pela primeira vez no dia 26 de setembro, e admite que ainda está algo dividida entre o SPD, o Partido Liberal Democrático (FDP) ou os Verdes, embora esteja mais inclinada para o partido de Annalena Baerbock, precisamente por admirar a candidata dos Verdes e por o combate às alterações climáticas estar no centro da agenda do partido.

“De todos os candidatos, [Annalena Baerbock] é aquela de que mais gosto. Porque é a mais jovem e acredito realmente que ela quer causar impacto. Os outros candidatos estão há muito tempo na política, e não acho que acreditem realmente na mudança. Só querem continuar no poder. É por isso que provavelmente vou votar nos Verdes”, justifica a jovem de 19 anos, que está a fazer um estágio em enfermagem num hospital em Potsdam.

Várias crianças estiveram presentes no comício. Futuro dos mais jovens foi um dos temas dominantes

Quem não tem dúvidas quanto ao partido em que vai votar é Helga, uma pensionista de 74 anos que vive em Potsdam, que horas antes do início do comício partilhava com Observador a sua perceção sobre Annalena Baerbock, que costuma ver frequentemente a passear nas ruas de Potsdam, descrevendo-a como “apressada, mas sempre disponível para falar com as pessoas”. “É uma pessoa honesta, que luta pelos seus ideais e tem capacidade de mobilização”, acrescenta.

Ao lado de Helga está a prima Barbara, de 64 anos, natural de Berlim e que está de visita a Potsdam. Partilha alguns dos elogios a Annalena Baerbock, considerando-a uma “mulher muito inteligente”, contudo, acha que os 40 anos de idade da candidata dos Verdes fazem com que seja “demasiado nova” para ser chanceler. “Precisa de mais cinco ou dez anos”, afirma, revelando que vai votar na CDU. Helga, como seria expectável, discorda da prima: “Para mim, a falta de experiência não é um problema.”

“Nunca irei esquecer Merkel.” A vida de Anas Modamani mudou depois da selfie com a chanceler, mas a Alemanha de 2021 não é a mesma de 2015

“Annalena está muito determinada em fazer mudanças, mas também é muito humilde”

Ao contrário de Olaf Scholz ou Armin Laschet, que desempenham, respetivamente, o cargo de ministro das Finanças e ministro-presidente do estado federal da Renânia do Norte-Vestefália, Annalena Baerbock não tem experiência em cargos executivos, e esse tem sido apontado como um dos pontos fracos da candidata que, em maio, foi decisiva para que os Verdes chegassem ao primeiro lugar nas sondagens.

Desde então, e sobretudo depois de acusações de plágio e de falsificação do currículo feitas a Baerbock, os Verdes têm estado numa fase descendente, e o sonho de serem o partido mais votado está cada vez mais distante.

Ulrike Sweethood conhece Annalena Baerbock há vários anos e os filhos de ambas até costumam brincar juntos

No entanto, para Ulrike Sweethood, de 52 anos, militante dos Verdes há dez, a expectativa é elevada e ainda se acredita numa surpresa, sobretudo em Potsdam, onde Annalena Baerbock concorre diretamente contra Olaf Scholz no círculo eleitoral. Um dos trunfos, diz, é a simpatia que os habitantes da cidade nutrem pela candidata dos Verdes

“Annalena está muito determinada em fazer mudanças, mas também é muito humilde, como Angela Merkel. Vive num apartamento, não tem motorista e até recentemente não tinha seguranças. As pessoas gostam muito da Annalena aqui em Potsdam”, diz ao Observador a funcionária da Organização Não-Governamental MINT-EC e uma das organizadoras do comício em Potsdam, que conhece Baerbock há vários anos, com a particularidade de ambas terem engravidado praticamente ao mesmo tempo, há seis anos. Hoje, os filhos brincam juntos nos eventos dos Verdes e nos parques de Potsdam, onde se “divertem imenso”.

Serão precisos três para substituir Angela Merkel? Vazio deixado pela chanceler atira Alemanha para a incerteza

Os “erros graves” de Annalena não convenceram Maurice. Mas Mueller diz que é preciso “pensar em políticas para o futuro”

Os mais jovens, de resto, ocuparam um papel central no discurso de Annalena Baerbock no comício no Alter Markt, com muitas crianças na plateia. Na fila da frente, algumas tiveram inclusive a oportunidade de interpelar a candidata dos Verdes.

Annalena Baerbock respondeu a perguntas de crianças e prometeu lutar pelo seu futuro

– ”O que vais fazer para tornar o mundo melhor?”, questiona, já perto do final do comício, uma criança que não teria mais do que seis anos.

– “Vou lutar para que o mundo que conhecemos hoje exista no futuro, para que crianças como tu possam sair à rua para brincar”, respondeu Annalena Baerbock, entre aplausos.

Maurice Schulz, professor de História de 39 anos, que se deslocou ao comício por “curiosidade” em ver pessoalmente a candidata dos Verdes, diz ao Observador que gostou do que ouviu de Annalena Baerbock — “esteve melhor aqui do que nos debates” — sobre a importância do combate às alterações climáticas e da importância de investir na educação das crianças, mas admite que não vai votar nos Verdes, por se sentir desiludido com Baerbock no caso dos escândalos relacionados com o plágio na tese de doutoramento e com a falsificação do currículo para o tornar mais apelativo.

“Foram erros graves. Ela está a lutar por causas importantes, aquilo não podia ter acontecido”, diz Schulz, revelando que vai votar no SPD, mas que vê com bons olhos a possibilidade de os Verdes integrarem um governo chefiado por Olaf Scholz.

Maurice Schulz vai votar no SPD e admite estar desiludido com Annalena Baerbock

Em sentido inverso, Joachim Mueller, um pensionista de 71 anos, votou nos socias-democratas em 2017, mas desta vez vai votar nos Verdes, tendo vindo até ao comício no Alter Markt para “sentir a atmosfera da campanha eleitoral”, embora já tenha decidido o seu voto há algum tempo.

“Os Verdes têm o programa mais convincente para enfrentar as alterações climáticas. É o futuro que está em risco. Todas as pessoas deveriam fazer alguma coisa”, afirma Mueller ao Observador, tecendo elogios à candidata dos Verdes. “Annalena representa a geração mais jovem. Temos de pensar em políticas para o futuro, mais focada nos jovens e não tanto nos velhos como eu.”

Olaf Scholz, o candidato sem emoção nem carisma que é o favorito a suceder a Angela Merkel