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Nem de propósito: Jokanovic e Nuno Gomes, juntos ao vivo e a cores num Marítimo-Benfica em Janeiro 2000

Nem de propósito: Jokanovic e Nuno Gomes, juntos ao vivo e a cores num Marítimo-Benfica em Janeiro 2000

Jokanovic. "O Nuno Gomes era um medroso do c*****"

É só rir na Madeira. E a culpa nem é da poncha. Nem das nikitas. É de Jokanovic, que chega ao Funchal para jogar um ano e já lá está há 25, entre uns treinos na Luz e um contrato com o Sporting.

Beeeeeeeeeeeeem-vindo à Madeira. Quando ligo ao Predrag Jokanovic, é assim que ele me recebe. Beeeeeeeeeeeeem-vindo à Madeira, amigo. O amigo está sempre presente, porque Joka é um personagem inigualável. Sem manias nem pretensões. Se houvesse um campeonato mundial de conversadores, Joka passaria a fase de grupos. Na boa. E iria até à final. Tranquilo. O homem é boa gente, disponível e genuinamente alegre. Quando o apanhamos pela primeira vez, estamos em Outubro. É o dia do Portugal-Suíça, decisivo para o apuramento do Mundial-2018.

Marcada a mesa em frente à televisão no bar de esquina White Horse, ali perto dos Barreiros, lá apareço para falar de tudo e mais alguma coisa. Joka fala da guerra da Jugoslávia, dos 800 metros de distância entre o estádio do Estrela Vermelha e o do Partizan, em Belgrado, da ida para o União, da transferência para o Marítimo, da saída para o Nacional, dos treinos na Luz, da quase passagem pelo Sporting de Queiroz, de basquetebol, de andebol, de presidente, de treinadores, de árbitros, de rivais e de companheiros de equipa. É um poço sem fundo. Portugal marca um, dois. Mundial-2018 já é nosso. Joka ri-se. Nada mau, um dia depois da Sérvia. Na véspera, dia 9, a Sérvia ganha 1-0 à Geórgia e qualifica-se automaticamente. Joka puxa do telemóvel e mostra-nos uma fotografia dessa manhã com Luca, o seu filho de 18 anos, vestido à Sérvia. ‘O gajo foi assim para a escola, ahahahahah’.

Passam-se uns minutos e começa o decisivo Equador-Argentina. Lembram-se? Se a Argentina não ganha, cai o Carmo e a Trindade (mais o Messi, já agora). Ao primeiro minuto, pimba, 1-0 do Equador. Sem pestanejar, Joka arregala-me os olhos, agarra no telemóvel e liga ao filho. Luca não o atende. Explicação do pai. “Deve estar com uma azia, ele é todo Messi’. Aos 11 minutos, 1-1 de Messi. A mesa vibra, é o telemóvel de Joka. No outro lado, Luca. A gritar sem parar “Meeeeeeeeeessiiiiiiiiiii, Meeeeeeessssiiiiiiiiii’. O filme repete-se aos 19 e 62 minutos. Hat-trick de Messi, hat-trick de chamadas de Luca. Craques. Tal pai, tal filho (e, já agora, tal filha: Nancy é também impagável, ao ponto de me enviar esta foto aqui ò). É Luca, vestido com a camisola do pai, ao lado de Zahovic, grande amigo de Jokanovic. Brin-ca-dei-ra. Que continue a festa.


Vi que marcaste um hat-trick ao Salgueiros. Isso é incrível.
Pois foi, amigo. Três golos ao Salgueiros. Ganhámos 3-1 ou o que foi. Hat-trick de penáltis.

Como é que marcavas os penáltis?
Se o guarda-redes se atira para um lado, mando para o outro. Se ele não se mexer, é atirar colocado. Mais simples não há.

Então e a pressão?
Pressão? Convivi com a guerra da Jugoslávia, não tenho pressão no futebol. Quando entrava em campo, era para desfrutar. Com uns golos. E umas porradas, ahahahahahahah. Mas, olha, amigo, uma vez falhei um penálti. Ainda na Jugoslávia. Só tinha 19 anos, último minuto de jogo. Parto para a bola e golo. Eu, todo contente. E, ao mesmo tempo, aliviado. De repente, o árbitro manda repetir. Aiiiiiii. Parti para a bola e falhei, ahahahahahah.

Xiiiiiiii.
O meu treinador disse-me ‘Joka, sem problema; ganhámos 2-1, sem problema’.

Já marcavas penáltis aos 19 anos?
É verdade, tranquilo.

E alguma vez marcaste ao Porto, Benfica ou Sporting?
E quem marca penáltis contra eles?

[pimba, vai buscar]
Vê lá aí no teu telemóvel, que deves ser mais hábil que eu, quantos golos tenho no campeonato nacional.

Dezoito, nada mau.
Marquei um aqui ao Boavista. Estava 1-0 para eles e há penálti para a gente. O William, guarda-redes deles, começa a provocar-me. Chuta a bola, diz-me coisas, tenta desconcentrar-me e o árbitro a mandá-lo para a baliza. Vai o penálti, o William para um lado, a bola para o outro. Passo por ele e digo-lhe ‘toma, burro do c*****’. Ahahahahah, o gajo fica possuído e persegue-me até ao meio-campo. Se eu fosse no jogo dele e falhasse, já viste a bronca? Assim, fiquei na minha, a olhar para ele, sem responder a provocações. Se falhasse, paciência. Se marcasse, como aconteceu, era uma alegria imensa. Vê aí no telemóvel, escreve Jorge Coroado mais SportTV e vais dar a um penálti meu. É de partir a rir.

Sem ser esses golos de penálti, marcavas como?
De cabeça, muitas vezes. Ou então com o pé. Marquei um, nem queiras saber.

Então?
Em Leiria, pelo Marítimo. Ganhámos 4-0, foi o golo da jornada. Tudo começa num canto, a bola sai quase da área, eu domino com o peito e piquei por cima do guarda-redes. Grande, grande jogo, ali no canto. É o meu primeiro golo pós-lesão.

Aquela lesão com o Latapy?
Isso mesmo. Acabámos a primeira volta lá em cima, quarto ou quinto lugar. Largámos quatro ao Guimarães, três ao Salgueiros, três ao Campomaiorense. Na segunda volta, levámos seis em Guimarães, cinco em Alvalade, cinco na Luz.

Então?
Então? O Edmilson foi embora, o Gustavo foi embora, o Artur foi embora. Ficou tudo uma confusão e acabámos em oitavo ou o que foi. O treinador era o Raúl Águas.

Mas esse momento da lesão com o Latapy, percebeste logo que era grave?
Claro que sim, até guardei uma foto minha a segurar a perna com a mão [Jokanovic ri-se na boa]. Sabes quem estava ao meu lado? Aquele Emerson do Porto, que depois foi para Inglaterra. Mal me viu assim, fez uma cara inesquecível. C*******, o gajo estava amarelo. Da cor da minha camisola.

E tu, nada?
A mim, não me doeu na hora. Percebi que a perna estava partida, o pé completamente torcido e via carne a sair. O problema foi a operação e os primeiros cinco dias. Nem queiras saber. Aí foi impressionante, as dores, o tempo de paragem, a ausência nos relvados. Isso doeu muito.

O Latapy falou contigo alguma vez?
Só há uns anos.

A sério?
Sim, sim.

Onde, aqui em Portugal?
Num jogo de veteranos: ele no Porto, eu no Nacional.

Nesses dez anos, nada de nada?
Ele não falou nada, o Porto não falou nada. Eu disse aos jornais naquela altura que tinha sido uma vergonha. Depois, pouco tempo depois, fomos jogar ao Porto e queriam que ele me pedisse desculpa. Ainda por cima, o Porto tinha-nos largado seis.

E tu?
Disse-lhes ‘meus amigos, ninguém disse nada nos jornais; se ele vier, dou-lhe uma chapada’. Disse isso ao João Camacho, então o director do Nacional e agora colaborador do Jorge Mendes. ‘Dou-lhe uma chapada’. E eles a insistirem no pedido de desculpa. E eu a passar-me. ‘Já disse umas 15 vezes que não e vocês querem f******; não e não’.

https://www.youtube.com/watch?v=8fLnc3QtOqQ

E onde é que se reencontraram?
Aqui, na Madeira. O Porto veio cá e foi engraçado, porque o Latapy entrou em campo quando já lá estavam o João Pinto, o Rui Barros e o Fernando Gomes. Todos a meterem-se com ele: ‘acho que ele vai partir-te todo’.

Partiste-o?
Naaaaaa. Do que valia a pena estar ali a fazer trinta por uma linha, é assim que vocês dizem, não é?

É?
Já passou, já passou. Foi pena não ter pedido desculpa nem aparecido no hospital ou telefonado. Paciência. Aquilo era um jogo de veteranos, de confratenização.

Acabou como?
Com uma noitada, ahahahahah.

Foi a tua pior lesão?
Porrraaaaaa, foi das piores lesões de sempre. Há vídeos com o top 10 de lesões e a minha aparece, juntamente com a do Rui Águas em Kiev. Eu parti tudo o que havia para partir: tíbia, perónio, ligamentos. A única coisa que segurava o osso era a pele.

E recuperaste aqui na Madeira?
Não, fui ao Benfica.

Quem também me ajudou muito foi o Paneira. Deixa-me ver mais jogadores: Ricardo Gomes, o central; Veloso, o capitão; Caniggia, o argentino. Nos últimos 15/10 dias, treino mesmo com o plantel do Benfica e o Caniggia rasgava-os a todos. Mesmo, ele entrava sempre a abrir. Nos treinos, hã! O gajo distribuía porrada a toda a gente.

A sério?
Seríssimo. Estou a dizer-te, o António Gaspar começou a ficar conhecido à minha conta. Ahahahahah. Escreve isso que ele vai achar piada, estou sempre a meter-me com ele.

Nem sabia nada dessa ligação.
Dizia-lhe ‘ò Gaspar, se não fosse eu, tu nunca ias aparecer num jornal’. Aquilo era intenso, três vezes por dia. Sempre, sempre, sempre, sem excepção. O Gaspar trabalhava no Benfica e não facilitava. Nunca. Às vezes, ele ia com a equipa para o Norte, para o Sul ou para aqui e eu pensava ‘olha, amanhã, só vou treinar duas vezes’. E ele desarmava-me: ‘amanhã, às oito horas da manhã no estádio’.

Onde é que vivias?
Ao lado do shopping center.

Do Colombo?
Naaaaaa, o Colombo ainda nem existia. Aquele pequenino.

O quê, o Fonte Nova?
Exatamente, ia do Fonte Nova para o estádio a pé.

E treinavas com a malta do Benfica?
Treinava com eles pá. O primeiro gajo que me foi visitar ao hospital foi o Mozer.

Já o conhecias?
Nunca o tinha visto, a não ser na televisão ou no campo como rivais. Ele, se calhar, achou que eu estava sozinho e precisava de apoio, então deu-me uma ajuda. Olha, ficámos amigos para sempre.

Boa, boa. Havia mais quem nesse Benfica?
Quem também me ajudou muito foi o Paneira. Deixa-me ver mais jogadores: Ricardo Gomes, o central; Veloso, o capitão; Caniggia, o argentino. Nos últimos 15/10 dias, treino mesmo com o plantel do Benfica e o Caniggia rasgava-os a todos. Mesmo, ele entrava sempre a abrir. Nos treinos, hã! O gajo distribuía porrada a toda a gente. Sabes quem era o treinador?

Manuel José?
Artur Jorge.

Eisch, e o adjunto não era o Filipovic?
Exatamente, Filipovic. Foi nessa altura que saiu nos jornais que eu tinha assinado contrato com o Sporting.

Isso é quem, Sousa Cintra?
Sousa Cintra e Carlos Queiroz. O Sporting assinou com dois jogadores do União. Além de mim, o Marco Aurélio. Só que não podíamos ir ao dois de uma vez e, então, foi primeiro o Marco Aurélio e só depois é que ia eu. Aconteceu a lesão e, olha, a transferência não se fez. Isso soube-se quando eu estava a recuperar no Benfica e o Artur Jorge falou comigo. ‘Fogo, tu andavas aqui a treinar connosco e vais jogar no Sporting; isso não pode ser assim.’

E tu?
‘Ò mister, o empresário é o Bukovac.’ E o Artur Jorge disse que o conhecia e pediu-me o número dele, só que o Benfica dessa altura não estava bom.

Pois não. Volto atrás, tu conhecias o Filipovic?
Então não? Era jogador da Jugoslávia.

Jogava em que clube?
Estrela Vermelha, o meu clube, porra. Sabes qual foi o azar dele? Jogava pouco na selecção, porque havia avançados muito bons, como o Dusan Bajevic.

Como é que era o Filipovic a jogar?
Era um pouco como o Nuno Gomes. O Nuno nunca me marcou um golo, é um medroso do c******. Aceleravas atrás dele e ele fugia, fogo.

Uma vez até foi engraçado, esta história é com o João Vieira Pinto. Jogávamos com o Benfica, depois íamos aos Açores e eu queria limpar o amarelo. Assim, não viajava para os Açores e encarava o resto da época a zeros. Combinei com o João um amarelo. Só que fiz tudo para apanhar um amarelo e nada. A cinco minutos do fim, apanho o João a jeito. Bem, dou-lhe uma porrada. Amigo, aquilo não era amarelo, era vermelho. O árbitro dá-me amarelo e o João fica sem falar comigo durante uns seis meses. No momento da falta, o gajo estava mesmo lixado e dizia-me 'vai prò c******' ahahahahah.

Ahahahahah, nunca te marcou?
Nunca, quem me lixava era o Jardel. Agora o Nuno Gomes? Virava-me para ele e perguntava-lhe ‘Nuno, tens jogo da Liga dos Campeões esta quarta-feira’. E ele dizia-me que sim e eu só lhe respondia. ‘Então não te mexas muito, senão vais levar’. E ele ficava na dúvidas ‘estás a brincar?’ e eu voltava a responder-lhe ‘ai não estou, não’. Uma vez até foi engraçado, esta história é com o João Vieira Pinto. Jogávamos com o Benfica, depois íamos aos Açores e eu queria limpar o amarelo. Assim, não viajava para os Açores e encarava o resto da época a zeros. Combinei com o João um amarelo. Sabes qual é o problema? Quando tu queres levar um amarelo, não levas. É incrível, mas é assim.Esse jogo foi tal e qual. Eu fiz isto, fiz aquilo e nada de apanhar um amarelo. A cinco minutos do fim, apanho o João a jeito. Ele é baixinho e fazia aquelas movimentações de rotação. Bem, dou-lhe uma porrada. Amigo, aquilo não era amarelo, era vermelho. O árbitro dá-me amarelo e o João fica sem falar comigo durante uns seis meses. No momento da falta, o gajo estava mesmo lixado e dizia-me ‘vai prò c******’ ahahahahah. Andei toda a segunda parte para ver um amarelo na boa e teve de assim, no osso do João.

Há pouco disseste “Estrela Vermelha, o meu clube, porra”. Ias ver os jogos?
Amigo, nasci ao lado do estádio e sou Estrela Vermelha com muita paixão. O meu filho Luka é pior que eu. Há dias, o Estrela Vermelha perdeu um jogo de basquetebol com o Partizan e ele ficou pior que estragado. Tentei acalmá-lo, tinha sido a primeira derrota do Estrela Vermelha com o Partizan em 20 jogos ou assim e o Luka não queria saber nada disso. Ahahahah. Mas sim, ia ver os jogos todos ao estádios. Tenho memórias de grandes momentos, Bons e maus.

Um mau?
Que acaba por ser bom, o golo do Maradona.

Aquele muito conhecido, do chapéu?
Eeeeeesse mesmo. Cento e dez mil pessoas no estádio, todas a admirar Maradona. Não somos loucos como a malta pensa. Quando se é bom, a gente admite na boa. Sem problema.

E mais, e mais?
Uma vitória por 4-2 ao Real Madrid que podiam muito bem ter sido oito ou dez. Rebentámos com o Real Madrid, porra. Os gajos chegaram a Belgrado cheios de craques, como o Camacho. O Camacho era o melhor lateral de Espanha. Coitado, foi atropelado nessa noite. Que jogo, que futebol. Magia. Também vi uma eliminatória com o Milan, interrompida pelo nevoeiro. Foi a sorte deles, que estavam a perder. Jogou-se o tempo todo no dia seguinte e empataram 1-1.

E clubes portugueses, viste algum?
O Benfica.

Que tal?
Não conhecia ninguém e, de repente, aos 27 minutos, 1-0 do Diamantino. Perto do intervalo, 2-0 do Diamantino. Porra, o que é isto pá? O Benfica está a ganhar 2-0 ao intervalo. Na segunda parte, o Jajanin faz três golos e dá a volta mas o Estrela Vermelha é eliminado na Luz, por 2-0. Estava 0-0 aos 75 minutos, depois o Carlos Manuel marcou dois golos.

Se és do Estrela Vermelha, foste campeão europeu em 1991?
Ah pois fui, a última equipa do Leste a ganhar a Taça dos Campeões. Acreditas que as equipas anteriores eram melhores que a de 1991?

Errrrrrr, não.
Eram, garanto-te. Só que não tiveram estrela, sabes? Olha, por exemplo, em 1979, o Estrela Vermelha foi à final da Taça UEFA: empate 1-1 em Belgrado, derrota 1-0 na Alemanha, com o Borussia M’Gladbach, golo do dinamarquês Simonsen. de penálti.

Mas a equipa de 1991 era espectacular: Pancev, Savicevic.
Espera, espera, eu sei tudo dessa equipa. Na baliza, Stojanovic. Na defesa, Sabanadzovic, Najdoski, Belodedici e Marovic. No meio, Prosinecki, Jugovic, Mihajlovic e Savicevic. No ataque, Pancev e Binic. Sabes a história do penálti?

Qual?
A do Stojkovic.

Conta aí.
Ele jogou no Estrela Vermelha e assinou pelo Marselha em 1990. Quando chegou à final, começou a suplente e só entrou no prolongamento. Para marcar um penálti, claaaaro. [Jokanovic balança-se na cadeira, mais que entusiasmado] Sabes o que ele fez?

Huuuuuum.
Disse ao treinador, o Goethals, que não marcava o penálti.

Uauuuuuu. Viste alguns jogos do Estrela Vermelha nessa época?
Amigo, eu joguei contra eles.

A sério?
Siiiiiim, jogava no Zemun. Antes do jogo do Estrela em Munique, com o Bayern, para as meias-finais da Taça dos Campeões, fomos ao Maracanã. Ao intervalo, estávamos a ganhar por 1-0. Sabes como é que acabou?

Nem ideia.
Cinco-um para o Estrela, ahahahahah.

Fooooogo.
Na quarta-feira seguinte, 2-1 ao Bayern em Munique.

E em Belgrado?
A meia hora do fim, o Estrela está a ganhar 1-0. De repente, o Bayern tem um livre e a bola passa por entre as pernas do guarda-redes, 1-1. O pessoal pensa ‘se eles marcam outro, vai a prolongamento’.

E então?
O Bayern faz o 2-1.

Uyyyyy.
Prolongamento.

A sério?
Não, amigo, estou a brincar. Nos descontos, há um cruzamento para a área do Bayern, um defesa mete o pé a bola e ela entra entre o guarda-redes e a barra. Bem, não estás a ver a loucura. Loucura meeeeeesmo

[Jokanovic arregala os olhos]
Outra engraçada de loucura foi um Jugoslávia-Espanha para o Mundial-78. Ahahahah, amigo, deixa-me procurar aqui.

[Jokanovic esgravata o telemóvel, resmunga e comenta ‘103 mil visualizações‘]
Lembras-te do Juanito?

O do Real Madrid?
Esse mesmo. Vê lá isto aqui ò. Ele é substituído e mostra o dedo do meio aos adeptos. De repente, aterra uma garrafa na cabeça. Quando o meu filho vê isso, diz-me que somos loucos. Epá, então ele chega a Belgrado e faz aquilo. Nããããããão, não pode. Tem de levar troco.

Bons tempos.
Fomos eliminados, perdemos 1-0 mas f***** demos cabo do juízo aos espanhóis. Um pouco à imagem daquela eliminatória com o Real Madrid. Saíram de Belgrado com o saco cheio, 4-2.

Outros tempos ou não?
Siiiiim, agora não há qualquer hipótese de repetir. Se for agora, o Real dá cinco ou seis. Antes, os melhores jogadores estavam na Sérvia, não podiam sair para o estrangeiro até completar 28 anos de idade. Era uma regra.

Julgava que era 30?
Era 30 e passou para 28 em 1991-92.

Chegas cá a Portugal em que ano?
Chego em 1993.

Com que idade?
23/24 anos.

Como é que vieste parar aqui à Madeira?
Fui para o União através do meu empresário, Bukovac. Lembras-te dele?

O que jogou no Sporting?
Claro, esse mesmo.

Já conhecias alguém no União?
Ninguém, mas já cá estava o Zivanovic.

O guarda-redes?
Esse mesmo. Morreu há dois anos, sabes?

Nããããão. Como?
Ele tinha de ser operado ao coração, meter um stent, não é? Para dilatar a veia. Ele tinha marcado essa operação e, entretanto, combinou uma sessão de mergulho com dois amigos. Só que um não podia porque tinha um almoço e o outro tinha de ir buscar a filha. O Zivanovic foi na mesma, sozinho. Ele nada dez vezes melhor que eu, é craque. Só que teve um ataque dentro de água e afogou-se. Se estivesse lá alguém com ele, teria sobrevivido. Que morte tonta, estúpida. Sabes quem foi ao funeral dele?

Quem?
O Peseiro. Nessas coisas, o Peseiro é a sério. Foi ao funeral em Belgrado, diretamente do Dubai, onde estava a treinar um clube qualquer. O Zivanovic tinha sido adjunto dele no Nacional e as respetivas mulheres davam-se bem.

Então, chegaste aqui e deste-te logo bem com o Zivanovic?
Logo, foi amor à primeira vista, ahahahahahah.

Já sabias que ias jogar no União?
Não, só me disseram que ia jogar em Portugal. Nem sabia que era numa ilha. O Bukovac chegou-se ao pé de mim e perguntou-me ‘queres jogar ou não?’ A minha equipa de então, o Kikinda, tinha garantido um lugar na Taça UEFA pela primeira vez na história, só que as equipas jugoslava/sérvias não podiam jogar na Europa. Da mesma forma que a Jugoslávia não participou no Euro-92, aquele que foi ganho pela Dinamarca, os clubes também estavam proibidos de ir à UEFA. Então, tinha de sair para jogar. E o clube vendeu cinco gajos: um para o Estrela Vermelha, outro para o Partizan, dois para o Chipre e eu vim para aqui. Perguntaram-me ‘primeira liga em Portugal, queres?’. Olha, que pergunta, claro que sim. Eles pagaram ao Kikinda e acabou-se a conversa. Aterrei em Lisboa e fiquei surpreendido quando me disseram que tínhamos de apanhar outro avião. Outro avião, vamos para onde? Madeira. Olha, fiquei aqui um ano, dois, quatro. Já cá estou há 25.

O Marítimo foi bom, porque o [presidente] Rui Fontes pagava bem. Bem mesmo. Só ganhava um bocadinho menos do que no Sporting, vê bem. A gente ganhava 20 mil euros por mês. No meu último ano de Marítimo, o Carlos Pereira disse-me que podia assinar a renovação do contrato, só que a ganhar quase metade. Metade. [Jokanovic dá ênfase e torce-se todo a rir]. Desportivamente, pelo Marítimo, fui a duas finais da Taça de Portugal e fui quase sempre à Taça UEFA.

E que tal a primeira época?
Muito boa, marquei sete ou oito golos. Adaptei-me bem e o Sporting interessou-se por mim. Se não fosse a lesão com o Porto.

Seria melhor?
Olha, não sei. Imagina que ia para o Sporting e não jogava. Só que eu acho que ia jogar. Sabes quem jogava no meu lugar? O Pedro Martins. Com o todo o respeito, era melhor que ele. Ele, como treinador, está a fazer uma carreira interessante mas como jogador [Jokanovic faz uma careta]. Eu era mais rápido que ele e jogava mais que ele a trinco. Agora imagine, jogava bem no Sporting e depois saía para outro campeonato, ia para Espanha ou Itália. Se calhar, fazia uma melhor carreira.

E porque é que nunca mais saíste da Madeira?
Nunca mais fui o mesmo. Quando saio do União, o Bukovac diz-me que posso levar o Sporting ao tribunal porque a assinatura de um pré-contrato é igual a um contrato, só que também me advertiu para a demora mais que eventual do processo e eu, com 25/26 anos, não podia estar parado e sujeito a uma decisão de alguém de fora. Quando apareceu o Marítimo, nem fui ao tribunal nem nada. Assinei e pronto.

Foi bom no Marítimo?
Na altura, o [presidente] Rui Fontes pagava bem. Bem mesmo. Só ganhava um bocadinho menos do que no Sporting, vê bem. A gente ganhava 20 mil euros por mês. No meu último ano de Marítimo, o Carlos Pereira disse-me que podia assinar a renovação do contrato, só que a ganhar quase metade. Metade. [Jokanovic dá ênfase e torce-se todo a rir]. Desportivamente, pelo Marítimo, fui a duas finais da Taça de Portugal e fui quase sempre à Taça UEFA.

Jogaste com quem na UEFA?
Leeds.

Quem era o avançado deles?
O Jimmy.

Ah o Hasselbaink.
Marcou-nos o golo lá. Aqui, a gente ganhou 1-0 e perdemos nos penáltis.

Marcaste algum penálti?
Saí antes.

Porquê?
Pergunta ao Inácio.

Mas tu eras o marcador oficial de penáltis.
Já tinha uns trinta anos e aquilo de correr atrás daqueles gajos durante 120 minutos não era nada fácil, f******. Havia lá gajos bons de bola, como o guarda-rdes Nigel Martyn, da selecção inglesa, o Ian Harte, lateral-esquerdo, Lee Bowyer e ainda o, aquele, o australiano.

????
Harry Kewell..

Ahhhhhh, sim, sim.
Demos um baile aqui na Madeira. A gente meteu a bola no chão e pá pá pá, esquece, eles nem sabiam o que fazer. O resultado justo seria 4-1 ou 5-1, só que fomos para os penáltis. E, aí, falhámos três. O único que acertou foi o Alex. F******, o Jorge Soares falhou um deles. Mas é que falhou a baliza uns oito metros. Digo-te na boa, uns oito metros. Não foi um metro, foram oito. F********.

E as duas finais da Taça de Portugal?
Com Sporting e Porto. Perdemos as duas.

Jogaste as duas?
A do Sporting, sim. A do Porto, não.

Então?
Fiz todos os jogos das eliminatórias, menos a final. Na semana anterior, fomos jogar a Alvalade. A gente não precisava desse jogo para nada e o Sporting tinha de ganhar para ir à UEFA. Ganharam 1-0, golo do Pedro Barbosa. E eu lesionei-me nesse jogo, com o filho da p*** do Beto.

Lesionou-te como?
É assim, uma bola dividida e ele bate com mais força. Isto [Jokanovic levanta o pe] levanta um bocadinho e, pronto, fiquei dois meses fora. Os ligamentos meio lixados. Ainda por cima, já tinha assinado com o Nacional. Epá, não é nada fácil chegar lesionado a um clube, suscita sempre muita conversa, tipo ‘f******, contratou-se um gajo lesionado e tal’. Essas coisas.

Como é que resolveste isso?
Falei com o presidente Rui Alves. ‘Rui, a gente não se conhece, mas tu só me pagas quando começar a jogar.’

Uyyyy, tiveste dois meses sem receber?
Primeiro mês, nem um jogo. Segundo mês, nem um jogo. Terceiro mês, começo a jogar. E joguei até ao final da época. Subimos à 1.ª divisão e tudo. Fiz uns golos, dois ou três. O presidente Rui Alves vira-se para mim e diz-me ‘Joka, amanhã há prémo de subida’. Qual não é o meu espanto quando vejo que ele me pagou aqueles dois primeiros meses da lesão.

Era penálti, claríssimo. Hoje em dia, com as câmaras, isso não passava. Mas, fogo, uma vez apanhei 5-0 do Sporting aqui na Madeira, pelo Marítimo. Cinco golos do Cadete, f******. Lá, em Alvalade, no ano em que o Sporting foi campeão com Inácio. Acabou 4-2 para o Sporting, podia ter sido 5-5 ou 6-6. O Sporting começa a ganhar por 2-0, nós empatámos ainda antes do intervalo. O 3-2 e o 4-2 são seguidos, perto dos 80 minutos. Foi um jogo de malucos e o melhor em campo foi o Schmeichel. Defendeu tudo, naquela pose de guardar-redes de andebol. Nessa noite, levei um amarelo aos 30 segundos.

Quem era o treinador?
Peseiro.

E no ano seguinte, jogaste?
Nesse ano da subida de divisão, pensei em abandonar a carreira, tipo vou acabar em grande. Tinha mais um ano de contrato mas disse-lhes, ao Peseiro e ao Rui Alves, que não queria jogar mais.

E eles?
‘Vai mas é de férias para a Sérvia e a gente fala quando voltares’.

Voltaste e?
Queriam que eu treinasse sempre e só jogasse com os grandes. Aliás, se fosse preciso, nem treinava. Ahahahahah. E, olha, a verdade é que só joguei com Benfica, Porto e Sporting, casa e fora, mais Marítimo, casa e fora

Engraçado.
Foi melhor assim, sabes? Já estava meio lixado, tinhas 32/33 anos. Precisava desse descanso.

Quando jogavas no União, lembro-me de dois empates épicos com o Sporting.
São dois empates seguidos, 0-0 e 1-1. O zero-zero é o da minha época de estreia em Portugal, que cobóiada. O Cadete é expulso, o Peixe é expulso, eu sou expulso e ainda há um penálti não assinalado a favor do Sporting.

Uma cobóiada.
Ahahahah, é um remate e já não sei quem defende com a mão na linha de golo. Era penálti, claríssimo. Hoje em dia, com as câmaras, isso não passava. Mas, fogo, uma vez apanhei 5-0 do Sporting aqui na Madeira, pelo Marítimo. Cinco golos do Cadete, f******. Lá, em Alvalade, no ano em que o Sporting foi campeão com Inácio. Acabou 4-2 para o Sporting, podia ter sido 5-5 ou 6-6. O Sporting começa a ganhar por 2-0, nós empatámos ainda antes do intervalo. O 3-2 e o 4-2 são seguidos, perto dos 80 minutos. Foi um jogo de malucos e o melhor em campo foi o Schmeichel. Defendeu tudo, naquela pose de guardar-redes de andebol. Nessa noite, levei um amarelo aos 30 segundos.

Segundos?
Martins dos Santos. Sai do Sporting, bola longa para o Ayew e eu vou de carrinho. A bola toca no Ayew e sai. Martins dos Santos diz canto e eu ‘canto, f******** pá’. Só disse f******** pá. E ele, cartão amarelo.

Pois, Martins dos Santos.
Epá, não podes chegar ao campo aos 20/30 segundos e dizer ‘ò amigo, quem apita aqui sou eu’. Tens de ser diferente, tipo ‘ò amigo, não protestes senão dou-te um amarelo para a próxima’. Houve um jogo aqui na Madeira, entre Marítimo e Nacional, com o Martins dos Santos, que loucura.

Jogavas onde?
Já nem jogava, foi em 2004. O Nacional estava em quarto lugar e era a melhor equipa de longe, o Marítimo andava a lutar pelo sexto, que, nesse ano, dava Europa. Sabes o que fez o Martins dos Santos? Permitiu tudo e mais alguma coisa. O 1-0 do Pepe é qualquer coisa, ele entrou com o guarda-redes para dentro da baliza. Assim mesmo. E essas coisas contam porque há prémio para ir à UEFA, certo?

Imagino que sim.
Aqui na Madeira é assim: se vai uma equipa, o dinheiro é todo para essa equipa. Se vão duas, tem de se dividir.

Ahhhhhhh, estou a ver.
Imagina que o prémio, naquele tempo, era um milhão. Se fosse só o Nacional, um milhão para o Nacional. Se também fosse o Marítimo, era 500 para cada equipa. O Rui Alves andava louco. E com razão: o naconal começou a perder bem cedo esse jogo e ainda expulsaram um jogador.

Por falar no Nacional, lembras-te do Ronaldo aqui na Madeira?
Não, não, nunca o vi por aqui. Mas é amigo. Um dia destes, em Lisboa, ele passou por mim com a namorada num restaurante e não me passou cartão. Estava tão concentrado em sair dali que nem olhou para o lado. Então, disse-lhe ‘então já não me conheces?’ E eu ouviu a minha voz, virou-se para trás e deu-me um grande abraço. Ficámos ali à conversa e ele foi à sua vida. Quando me sentei, era toda a gente a olhar para mim. Ahahahahah, classe. Olha, sabes uma coisa?

Diz.
O Cristiano Ronaldo vai lançar o primeiro torneio no Campus aqui na Madeira, é em Julho. Vai lá ao site, é o crcampus.com. Vai o Sporting, vai uma equipa de Zagreb, vai o Maribor, porque já falei com o Zahovic, vai o Borussia M’Gladbach, vai uma série de gente. Vai ser um torneio do c******, sub-7, sub-9, sub-11 e sub-13. Se fores ao site, encontras fotografias do Ronaldo no pelado e há até um golo que eu nunca tinha visto. E o incrível é que a forma de jogar e o festejo são tão parecidos. É mesmo incrível. Olhas para aquilo e voltas para o presente num instante.

[Jokanovic abre o site do campus e mostra outro vídeo de Ronaldo

Lembras-te de ti com esta idade?
Aiiii, era a idade em que ia ver o Estrela Vermelha.

E onde é que viste a final da Taça dos Campeões?
Em casa, com os meus pais.

Então e não foste a Bari?
Naquela altura, já jogava futebol e a final foi a uma quarta-feira. No dia seguinte, havia treino.

O teu pai também é Estrela Vermelha?
[Jokanovic lança aquele olhar de estás a brincar comigo ou quê?] Era Estrela, era.

E a tua mãe?
Ela gosta do Estrela, só. Não liga muito ao futebol. Gosta é de ténis. Gosta do Federer. Gosta mais do Federer do que do Djokovic.

Ahahahahah.
Digo-lhe ‘tu estás louca pá!’

O Cristiano Ronaldo vai lançar o primeiro torneio no Campus aqui na Madeira, é em Julho. Vai lá ao site, é o crcampus.com. Vai o Sporting, vai uma equipa de Zagreb, vai o Maribor, porque já falei com o Zahovic, vai o Boriussia M'Gladbach, vai uma série de gente. Vai ser um torneio do c******, sub-7, sub-9, sub-11 e sub-13. Se fores ao site, encontras fotografias do Ronaldo no pelado e há até um golo que eu nunca tinha visto. E o incrível é que a forma de jogar e o festejo são tão parecidos. É mesmo incrível. Olhas para aquilo e voltas para o presente num instante.

Ahahahahahah.
Um dia que vás a Belgrado, podes ir ao restaurante do Djokovic. Ele tem lá todas as taças, aquilo cheio de posters e tal. É fácil de chegar lá, ao lado do pavilhão de andebol. Um pavilhão novo, que foi palco do Europeu de andebol há uns seis anos.

Quem ganhou esse Europeu?
A Dinamarca. Ganhou a final à Sérvia.

Uischhhhh. Não houve um Europeu este ano?
Siiiiim, na Croácia. Ganhou a Espanha. E tu nem sabes como é que ganharam, inacreditável. A Espanha dependia dos outros para passar à meia-final e beneficiou de um empate entre dois burros.

Então?
Eslovénia e República Checa empataram, amigo. Em vez de um deles ganhar, não. Empataram e passou a Espanha à meia-final. Ai ai ai ai. Se a República Checa ganhasse, a Espanha era logo eliminada.

O andebol ao alto nível é vibrante.
Siiiiiim, 25 mil pessoas a abarrotar num pavilhão é alucinante. Se o pavilhão estiver em cima do campo, o visitante não tem hipótese. Os adeptos estão em cima, a incentivar a equipa da casa e a maltratar o visitante, ahahahahah. Como no basquetebol. Já fui com o Luca em Belgrado e aquilo é um espetáculo.

O Estrela Vermelha é bom em basquetebol?
Este ano está na Liga dos Campeões.

Estava a falar historicamente.
É uma boa equipa, sim.

Já ganhou alguma Liga dos Campeões?
Quem ganhou foi o Partizan há uns anos. Agora o Estrela Vermelha já ganhou este ano ao Real Madrid, lá em Madrid. Sabes quantos pontos largou fora do garrafão?

Nem ideia.
Dezassete triplos, 51 pontos. Ahahahahah. O Estrela perde os jogos todos, mas esse em Madrid é épico. Nesse dia, caiu tudo. Nem sei se bateram o recorde europeu. Na NBA, sei que o recorde é 27 triplos.

Sabes tudo.
Gosto da NBA, sempre gostei, desde miúdo. A nossa cultura jugoslava é também muita paixão pelo basquetebol. Vejo os jogos todos na SportTV e envio mensagens aquele meu amigo, o Luís Avelãs. Pergunta-lhe na boa. Pergunta-lhe lá se eu não tenho razão em muitas coisas que digo.

Como assim?
Aquilo da NBA é espetáculo, sim, claro que sim, e é bom. Mas tem tanta tontice.

Como por exemplo?
Como por exemplo? Aquilo tem quatro períodos. Há intervalos em todos eles. Agora imagina: intervalo, os treinadores falam com os jogadores e recomeça o jogo. Passam 32 segundos e um treinador já está a pedir time out. Porquê? Levas um cesto e interrompes o jogo para voltar a falar com os jogadores? Aaaaaaaaaaaaah. Até parece que o treinador está a chamar burros aos jogadores, como quem diz “eu é que sei o que é ser treinador e o que a gente combinou não foi nada disso, por isso é melhor parar já’.

Como é que eram os jogos de basquetebol na Jugoslávia?
O pavilhão sempre dividido: Estrela de um lado, Partizan do outro.

Vá lá, ainda dividem o pavilhão. Deve haver países…
Grécia, por exemplo. Se jogas fora, não tens hipótese de levar ninguém. Se há um Olympiacos-Panathinaikos, não é permitida a entrada de adeptos do Panathinaikos. Ai não é, não, ahahahahah.

https://www.youtube.com/watch?v=A6ASIZsqHP0

A Jugoslávia já foi campeã do mundo?
De basquetebol?

Ya.
Umas cinco vezes, a última delas nos EUA. Amigo, ganhámos aos EUA em Indianapolis. Isso é 2002 ou assim. O que vibrei, c******. Ganhámos a final à Alemanha.

Essa selecção dos EUA é a da NBA ou miúdos?
NBA, já foram com a NBA toda: Jermaine O’Neal, Reggie Miller, Paul Pierce, Shawn Marion. Gente do alto. Ficaram todos aziados, nem nos cumprimentaram ò caraças. F******, os americanos. Não gosto. Bombardearam o meu país, não posso gostar.

Aquilo tocava a sirene para as pessoas se refugiarem num bunker, numa cave ou lá o que é, e o meu pai continuava na sala. 'Não, não, vou ficar aqui a ver o telejornal, c******; não vou sair da minha casa'. E a verdade é que não saía. O meu irmão com medo a pedir-lhe para ir com ele. Qual quê, ele ficava na sala. 'Na na na na, às sete e meia tenho de ver o telejornal'. Ele estava a cagar-se para aquilo. Dizia 'se cair aqui, caiu; que se lixe”

Tu estavas lá quando foram os bombardeamentos?
Já estava na Madeira, aquilo foi em 1993-94. Os americanos entraram ali como se fosse o Vietname. A Sérvia tem uma guerra com a Bósnia e contra a Croácia e eles bombardeiam Belgrado? [Jokanovic começa a ficar irritado] Um amigo meu, que jogou futebol comigo, morreu num desses bombardeamentos. A bomba caiu e ele apanhou com os estilhaços. Porque é que os americanos bombardeiam a Sérvia, um país com sete ou milhões de habitantes. Imagina lá isso em Portugal?

Não imagino, impossível. Era o que faltava.
Exatamente, eles metem-se em tudo. Tudo.

Tu estavas aqui na Madeira e os teus pais?
Viveram sempre lá durante os bombardeamentos.

Porra, que sofrimento. Deles e teu.
Nem imaginas. Pais e irmãos. Aquilo tocava a sirene para as pessoas se refugiarem num bunker, numa cave ou lá o que é, e o meu pai continuava na sala. ‘Não, não, vou ficar aqui a ver o telejornal, c******; não vou sair da minha casa’. E a verdade é que não saía. O meu irmão com medo a pedir-lhe para ir com ele. Qual quê, ele ficava na sala. ‘Na na na na, às sete e meia tenho de ver o telejornal’. Ele estava a cagar-se para aquilo. Dizia ‘se cair aqui, caiu; que se lixe”

Chi-ça.
É mesmo assim, o meu pai. Tipo ‘a casa é minha, não vou fugir; vocês saiam, não há problema, eu cuido da casa’. Os bombardeamentos demoravam 15/20 minutos e a vida voltava ao normal, salvo seja, não é ?

[já a caminho do aeroporto, Jokanovic fala da carreira como treinador e resume-a assim: ‘Ganhei duas vezes no Dragão, uma delas é a primeira derrota nacional do André Villas-Boas em 2010-11, empatei 0-0 na Luz e 1-1 em Alvalade; é caso para dizer beeeeeeeeeeeeeem-vindo ao continente, amigo]

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