Líder da Samsung sobre EUA e Huawei: “Digo à minha equipa para não se aproveitarem disso” /premium

01 Julho 2019

A guerra comercial entre EUA e Huawei, as falhas do Note 7 e Galaxy Fold e o 5G que nos vai fazer utilizar menos os smartphones. A conversa com DJ Koh, presidente executivo dos telemóveis da Samsung.

O ambiente no Hotel Shilla, em Seoul, capital da Coreia do Sul, era de muita agitação. Para quem gere a logística do espaço, o dia não foi certamente fácil. Num programa que estava a ser cumprido quase ao segundo passavam 10 minutos da hora marcada (15h30). A culpa era da visita de Mohammad bin Salman, o primeiro vice-primeiro ministro e príncipe da Árabia Saudita, acusado de ter matado o jornalista Jamal Khashoggi. Contudo, não era por isso que no átrio principal estavam à espera vários jornalistas de vários países europeus, incluindo Portugal e o Observador. Não havia possibilidade de falar com Mohammad, que entrou a passo rápido por porta lateral no hotel para uma conferência sobre petróleo. A expectativa de uma conversa e razão da presença destes meios de comunicação era diferente — numa outra sala estava DJ Koh.

Não, DJ Koh não é um famoso disc jockey que ia passar uma playlist para alegrar o evento. Dong Jin (DJ) Koh é o presidente executivo do setor de comunicações mobile da Samsung, a maior fabricante de smartphones do mundo. Ocupa este cargo desde 2015 e é um dos principais responsáveis pelo lançamento e gestão de uma empresas que lançou alguns dos telemóveis mais conhecidos no mercado nos últimos anos, como os Galaxy S8 e S9. Se Steve Jobs era conhecido por apresentar os eventos da Apple, DJ Koh — com um inglês carregado de sotaque coreano — tem sido o homólogo nas apresentações da Samsung nos últimos anos.

DJ Koh entrou na Samsung em 1984. Antes de ser nomeado em 2015 presidente executivo da Samsung para mobile, foi responsável por alguns dos principais lançamentos e estratégia da empresa

Numa altura em que os principais concorrentes — Apple e Huawei — estão a ter dificuldades no sector, DJ Koh tem dado a cara por crises na empresa nos últimos anos. As principais, como o caso dos Galaxy Note 7 que foi retirado do mercado por baterias explosivas, e o mais recente Galaxy Fold, o smartphone com ecrã dobrável que teve o lançamento adiado por ter defeitos a dobrar, são temas que tem gerido pessoalmente.

Num edifício com típica arquitetura asiática, DJ Koh já estava à espera quando nos foi possível entrar na sala. A única regra era a de que não podíamos tirar fotografias — a Samsung é que as disponibilizou posteriormente. No entanto, os cerca de 15 jornalistas presentes podiam gravar o áudio da conversa e fazer o importante: cerca de duas perguntas (cada um). Mas é preciso lembrar que DJ Koh estava a jogar em casa — não é só por a Samsung ser dona do hotel Shilla, a empresa é uma das principais organizações da Coreia do Sul, onde tem a sede. Isto significa que há costumes e regras e, por isso, antes de começar, DJ Koh, ao estilo sul coreano, cumprimentou cada um dos presentes antes de começarem as perguntas e todos se sentarem.

A concorrência, os falhanços Galaxy Fold e o Note 7 que fez “perder seis mil milhões de dólares”

Uma das primeiras perguntas feitas a DJ Koh foi, obviamente, sobre o Galaxy Fold, o primeiro smartphone dobrável da Samsung (que custa cerca de 2 mil euros) que, a quatro dias do lançamento a 26 de abril, foi adiado por defeitos no produto. Continua sem ter data de lançamento. “Quanto essas coisas acontecem, tento compreender por que é que aconteceu”, disse Koh. E revelou também: “Assumo que me escapou alguma coisa”.

O smartphone chegou a ir para as mãos de jornalistas e críticos de telemóveis em abril já numa fase de promoção do equipamento e foi aí que surgiram as primeiras críticas: a dobra interior do ecrã era frágil e o equipamento de mais de dois mil euros não era o que prometia. “Analisámos todos os problemas levantados pelos críticos. Alguns eram engraçados”, diz. “Quando essas coisas acontecem, foco-me em resolver e encontrar a causa do problema. Neste momento, mais de dois mil equipamentos estão a ser testados em todos os aspetos”, continua a justificar. “Alguns dos problemas já foram identificados”, até aqueles sobre os quais não tinha pensado, assume. Contudo, DJ Koh fez um pedido: “Quando podermos fechar este assunto, anunciamos isso. Deem-nos um pouco mais de tempo”.

Mesmo com um falhanço como o Galaxy Fold, a Samsung tem a principal concorrência, a Huawei e Apple, com situações próprias que facilitam a competição. A primeira — a empresa chinesa que está no centro das atenções de uma guerra comercial, que só este sábado voltou à mesa das negociações (a conversa com DJ Koh foi na quarta-feira anterior) — continua a não destronar a Samsung do trono da principal fabricante de telemóveis. Já a segunda, com os iPhone cada vez mais caros, está a perder quota de mercado.

Na conversa com os cerca de 15 jornalistas, estavam também presentes outros executivos de topo da Samsung

Em relação à guerra comercial entre a China e os Estados Unidos da América, Koh afirmou que “não é apropriado fazer comentários”. A situação que tem trazido grandes dúvidas ao sector tecnológico, mas Koh afirma: “Quando este tipo de situações acontece digo à minha equipa para não se aproveitarem disso”. O responsável da Samsung refere também que “as guerras comerciais acontecem” e que, em vez de se aproveitar, tem de “seguir o caminho próprio”.

Relativamente ao que aconteceu com o Galaxy Fold, Koh diz que é um caso diferente do Note 7 — o smartphone topo de gama que foi para o mercado em 2017 com baterias defeituosas. “A diferença é clara, diz DJ Koh. “No Note 7, a raiz do problema foi a bateria e isso estava relacionado com a segurança do consumidor. Na altura, perdemos seis mil milhões de dólares [cerca de 5,2 mil milhões de euros], incluindo custos de oportunidade. O que decidi com o Note 7 foi que quis fazer dos seis mil milhões não um custo, mas um investimento”, afirmou também.

"No Note 7, a raiz do problema foi a bateria e isso estava relacionado com a segurança do consumidor. Na altura, perdemos seis mil milhões de dólares"

Questionado sobre qual o principal concorrente atualmente da Samsung, Koh diz: “Tenho o meu próprio roadmap [metas a alcançar] a longo prazo tendo em conta as tecnologias que temos atualmente [referindo-se ao 5G, Internet das Coisas e Inteligência Artificial]. Algumas áreas a três anos, algumas a cinco e algumas a sete, mas temos o nosso roadmap. O meu foco é como é que posso completá-lo”.

Contudo, continua: “Mas estou sempre a olhar para o que os meus vizinhos estão a fazer. Não apenas essas duas empresas [Apple e Huawei], mas outras também. Por isso, se há alguma coisa necessária que tenho de aprender, aprendo. Em vez de concorrentes ou quem está envolvido na indústria de tecnologia informática, se há alguma coisa que possa aprender com eles tenho de aprender. Gosto de aprender. Em vez de prestar atenção ao que os meus concorrentes estão a fazer, preciso de focar-me no meu roadmap. Há muitos fatores que tenho de ter em consideração como os nossos parceiros, clientes, a aprendizagem dos nossos funcionários e a preparação para o futuro”.

No futuro “há uma nova era à nossa frente” com o 5G e inteligência artificial

Um dos principais momentos da conversa de meia hora foi a explicação de DJ Koh sobre o 5G. Questionado sobre um dos jornalistas sobre o impacto que a tecnologia vai ter, o presidente executivo estava preparado, afinal, estava a jogar em casa. Na sala havia um quadro branco com canetas. Koh levantou-se e começou a dar uma aula. “As diferenças principais entre o 4G e o 5G são a velocidades, latência e capacidade”.

Para explicar a sua visão quanto ao 5G, DJ Koh decidiu explicar a tecnologia com um quadro e caneta como se desse uma aula

Como explicou detalhadamente Koh, o futuro que vem aí pode ser disruptivo — caso ainda tenha dúvidas quanto ao 5G, pode ler o nosso especial. “Com o 5G na infraestrutura e como vai funcionar em conjunto com a tecnologia de inteligência artificial, vamos ter muito mais experiências radiantes para o consumidor”, prometeu. Este futuro está a “três ou quatro anos” e vai implicar uma aposta da Samsung na utilização mobile não só pelos smartphones, mas também através de outros dispositivos complementares, como os wearables (tecnologia que se veste), revelou.

Numa concorrência direta com empresas como a Ericsson, Huawei ou Nokia, a Samsung é também um dos principais fornecedores de antenas 5G. Apesar de ainda não estar no negócio das infraestruturas de rede em todos os países da Europa, é a principal na Coreia do Sul, o primeiro país a ter 5G. E não é só no negócio de antenas, também é no de smartphones 5G. “No mercado coreano, menos de 87 dias depois de termos lançado os nossos equipamentos 5G, em 80 dias vendemos um milhão de dispositivos.

"No mercado coreano, menos de 87 dias depois de termos lançado os nossos equipamentos 5G, em 80 dias vendemos um milhão de dispositivos"

Para já, as operadoras de telecomunicações ainda estão a arrancar com as infraestruturas 5G — em Portugal, ainda nem há espectro de rede aberto — mas o futuro do 5G ainda está em aberto. “Estamos a trabalhar não só na Coreia, mas também nos EUA. Não quero mencionar o nome de todas as operadoras, mas estamos a chegar lá”. Quanto ao investimento na Europa, Koh referiu que a empresa tem centros de operações de investigação e desenvolvimento de infraestruturas de rede “na Polónia e no Reino Unido”. Além disso, divulgou: “Na semana passada estive na Europa para encontrar a possibilidade de diversificar e expandir a rede 5G de infraestruturas de rede”.

Com a divulgação de que a Samsung vai investir mais em infraestruras de rede na Europa, DJ Koh falou ainda do futuro de equipamentos que podem um dia fazer parte do nosso dia a dia. “Os smartphones dobráveis vão durar cerca de dois anos. Creio que assim que a era do 5G e da Internet das Coisas estiver disponível, temos de pensar além dos smartphones, temos de pensar em equipamentos inteligentes. Podem passar a haver menos smartphones, mas novos dispositivos vão emergir”. Exemplo? “Câmaras de vigilância com 360 graus de amplitude”. O objetivo vai ser “não limitar a conectividade apenas aos smartphones”, afirmou.

Um assistente digital chamado Bixby “diferente da Google e da Amazon” e privacidade do Facebook

Apesar de o mercado das assistentes digitais ter como líder a Amazon (com a Alexa), a Google, e a Apple (com a Siri), a Samsung continua a investir no seu próprio assistente, a Bixby. A base é a mesma da concorrência: uma inteligência artificial com a qual o utilizador fala para saber informações ou controlar outros dispositivos que estejam conectados. “A nossa ambição com da Bixby não é como a Google ou a Amazon. A nossa Bixby funciona com a Amazon e a Google. Também estamos a trabalhar com a Microsoft”.

DJ Koh explica que o 5G traz também uma revolução da inteligência artificial e aparelhos conectáveis

Mesmo com o assistente digital a ter menos relevância do que a concorrência, DJ Koh afirma que, “para minimizar os riscos”, vão apostar “na colaboração aberta” Além disso, depois de em 2018 terem lançado a “Bixby 2.0”, com o Note 10 — que deve ser divulgado nos próximos meses — “vai haver uma nova fase”. O objetivo com esta ferramenta, explica Koh, é possibilitar que, através da voz, os utilizadores possam ter a “oportunidade” de ter experiências iguais entre smartphones e outros dispositivos. Contudo, “também há um risco”. Para as assistentes digitais poderem cativar utilizadores, têm de falar as línguas nativas e isso “implica um investimento enorme”.

Com a Bixby e os assistentes digitais a levarem mais microfones para perto dos utilizadores, há riscos como a privacidade. Segundo Koh, “a Samsung foca-se na regulação, proteção e segurança” para evitar problemas. O líder da Samsung mobile fala também sobre a privacidade: “Com a geração Z e gerações mais novas a passar cada vez mais tempo com os smartphones e dispositivos inteligentes, estamos a ver como podemos proteger e focar-nos no seu bem-estar digital”.

"Apesar de a app do Facebook estar pré-carregada nos nossos dispositivos, eles não podem entrar no nosso sistema"

Relativamente à segurança dos equipamentos e importância do regulamento da União Europeia sobre a proteção de dados (RGPD), o responsável da Samsung responde que vários países estão a trabalhar na segurança e que a empresa está preparada para seguir as políticas europeias. Com o 5G a chegar, “a segurança deve ser enfatizada”, disse também Koh mencionando que, por isso, a marca sul-coreana continua a “investir bastante no Knox”, o sistema de software de proteção da Samsung. “Não é só para dispositivos, é também para infraestruturas”, reiterou. Koh referiu também que “a segurança é um processo continuo”. “Quando se adiciona proteções, se calhar alguém vai atacar o sistema amanhã, por isso, é um trabalho árduo”, explicou.

Quando o tema é segurança e proteção de dados o Facebook continua a ser uma preocupação e foi também tema de uma das perguntas feitas a Koh. A rede social norte-americana tem estado envolvida em várias falhas de segurança da informação dos utilizadores. Como é uma das aplicações pré-instaladas em todos os smartphones Samsung, é uma preocupação. Contudo, DJ Koh afirma: “Apesar de a app do Facebook estar pré-carregada nos nossos dispositivos, eles não podem entrar no nosso sistema”.

Quanto a uma das recentes polémicas que envolveram o Facebook, na qual foi revelado que a rede social recolhia dados dos dispositivos pela aplicação instalada em smartphones Android, o sistema operativo que a Samsung utiliza em telemóveis, Koh defende-se: “Se calhar o problema foi esse [permitir que se entrasse no sistema], algumas empresas ao pré-carregarem a app nos seus smartphones e eles podiam controlar alguns aspetos”. Mas disse novamente: “Eles [Facebook] não podem aceder ao nosso sistema”.

*O Observador esteve em Seoul com DJ Koh a convite da Samsung

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