Polémicas, riscos e conflitos diplomáticos: o 5G explicado nas 8 grandes dúvidas que levanta /premium

O 5G provoca cancro? Foi por isto que Donald Trump bloqueou a Huawei? O que é que a empresa chinesa diz? Não há concorrentes? Em 8 respostas, fique a par da rede para o futuro das telecomunicações.

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Bem-vindos ao 5G, a infraestrutura de rede que pode mudar tudo. Leu bem, mudar tudo. Não acredita? Basta pensar que, antes do 4G, não líamos emails e notícias com tanta facilidade nos smartphones, não utilizávamos tanto as aplicações de GPS para chegar onde queremos e nem arriscávamos fazer videochamadas nos telemóveis como hoje em dia fazemos. Agora, com o 5G, estas funcionalidades são o ponto de partida para um mundo novo das comunicações.

Nas questões seguintes, explicamos como é que as novas infraestruturas de rede podem mudar a forma como vivemos e por que é que estão a criar tantos problemas diplomáticos.

O que é o 5G?

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  • 5G é o nome dado à quinta geração de redes móveis
  • Vai substituir o 4G
  • Está a arrancar, mas ainda há tecnologias do 5G em discussão

O 5G é o nome que se dá à próxima geração de redes de telecomunicações e que vai substituir o 4G — que usamos atualmente. O nome pode ser traduzido para “quinta geração de internet móvel”. Na prática, é o nome que se dá à tecnologia sem fios que usamos para comunicar e que, nos próximos 10 anos (presume-se), vai substituir o 4G.

Cada geração de telecomunicações tem trazido benefícios e durado cerca de 10 anos. Com as primeiras redes, no final dos anos 70 e 80, podíamos fazer chamadas sem fios. Com o 2G, a partir dos anos 1990, começaram a surgir os SMS e as antenas de rádio passaram a utilizar sinais digitais. Com o 3G, já no final dessa década, surgiram os dados móveis e as videochamadas. No final dos anos 2000, há cerca de 10 anos, surgiu o 4G, que trouxe todos os benefícios das redes móveis mais estáveis. Além disso, a possibilidade de transmitir mais dados de uma só vez permitiu a evolução dos smartphones nos últimos anos.

Há padrões na indústria com nomes como EDGE, GSM, LTE, entre outros, mas não vamos complicar. Em cada geração há evoluções e formas diferentes de cada operadora utilizar as tecnologias de telecomunicações. Os consumidores finais vêem, por exemplo, estes termos ou um símbolo de + (por exemplo, 4G+) no topo do telemóvel, ao pé das barras de sinal rede, que mostra que tipo de rede estamos a utilizar. Mas no final, só há duas coisas que contam: perceber se temos cobertura para utilizar a rede e se ela é boa. Até agora, só uma operadora, a AT&T, nos Estados Unidos, é que se atreveu a utilizar um símbolo de “5Ge” nos telemóveis, mas descobriu-se que era publicidade enganosa. Como explicou ao Observador José Moura, presidente executivo da IEEE, organização internacional que estabelece padrões na indústria, apesar de o 5G já existir, “há diferentes tecnologias ainda em discussão para a sua implementação”, e há pontos a fechar.

Como funciona e quais os dispositivos que vão funcionar com esta tecnologia?

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  • O 5G vai funcionar através de novas antenas
  • As operadoras vão ter de mudar a tecnologia que já têm e isso é caro
  • É mais rápido, tem menos latência (os dados vão chegar mais rapidamente e em maior quantidade)
  • Não é só para smartphones, é também para carros, lâmpadas e até frigoríficos inteligentes

À semelhança das outras gerações de redes, o 5G precisa de antenas e de hardware novo. Quando fazemos uma chamada, por mais que pareça magia, há muita tecnologia por detrás. A melhor forma de compreender esta questão é pensar nela como pensamos no Wi-Fi da nossa casa. Se está mais longe do Router e Modem — aquela caixinha com antenas que a operadora pôs em sua casa — o sinal vai ser mais fraco. Se está mais perto, vai ser melhor. Se quiser ligar um cabo de ethernet, vai ter a melhor conexão possível. De vez em quando, quando o sinal fica mais fraco ou percebe que o vizinho vê Netflix mais rápido, queixa-se e a operadora troca-lhe esta caixa por uma nova, mais avançada. Agora imagine o cenário em cidades e países: há inúmeras antenas que garantem que temos rede e funcionam de forma semelhante.

Para termos 5G, as operadoras vão ter de mudar as antenas e as centrais. Como isto é bastante caro, o princípio vai ser o mesmo que tem sido utilizado até agora: quando as pessoas saem de grandes cidades, a Internet e rede costumam ficar mais fracas (às vezes nem apanha dados móveis). Isto significa que a operadora que tem não vê vantagens económicas em investir nalgumas áreas. À semelhança do que está a acontecer noutros países, o 5G, que já tem sido utilizado em testes controlados em Portugal, deverá começar a aparecer primeiro nas grandes cidades.

O ministro da Ciência e Tecnologia da Coreia do Sul, Youngmin You, a visitar o stand da Samsung no MWC2019, uma semana depois da empresa anunciar o 1º smartphone 5G (MANUEL PESTANA MACHADO/OBSERVADOR)

MANUEL PESTANA MACHADO/OBSERVADOR

A grande vantagem do 5G em relação ao 4G não é só o facto de permitir uma Internet mais rápida no telemóvel, é também trazer menos latência. O que é que isto quer dizer? Que o tempo que os dados demoram a chegar a um smartphone ou tablet é menor. Além de essa ligação ser mais rápida, também permite uma maior injeção de dados de uma só vez — espera-se que a velocidade e transferência de dados seja entre 10 a 100 vezes superior às atuais).

Outra das vantagens é que as novas antenas vão permitir que existam muito mais aparelhos conectados ao mesmo tempo sem problemas (milhões em vez de milhares). À primeira vista, pode não parecer nada de especial, mas se já tentou fazer chamadas à meia-noite de uma passagem de ano, por exemplo, e não conseguiu porque outras milhares de pessoas tiveram exatamente a mesma ideia e a antena não aguentou, então percebe por que é que isto pode ser bom.

Antigamente, tínhamos só telemóveis ligados à rede e eram os únicos que precisavam de cartões SIM. Agora, temos carros, relógios, televisões, lâmpadas e até frigoríficos ligados à Internet e a trocar informação entre si. Isto é a "Internet das Coisas" e o 5G pode revolucioná-la ainda mais

Além de permitir ter mais smartphones ligados a estas antenas — empresas como a Samsung, Huawei ou LG já apresentaram modelos de telemóveis que vão utilizar esta tecnologia –, vamos passar a ver mais aparelhos conectados, como eletrodomésticos. Já ouvir falar de IoT, Internet of Things (“Internet das Coisas”, em português)? O termo estrangeiro tem sido utilizado em algumas campanhas de marketing, mas esta realidade só agora está a começar. Antigamente, só tínhamos telemóveis ligados à rede e eram os únicos dispositivos que precisavam de cartões SIM ou ligação à Internet para funcionar. Agora, temos carros, relógios, televisões, lâmpadas e até frigoríficos ligados à Internet e a trocar informação entre si. Isto é a “Internet das Coisas” e o 5G pode revolucioná-la ainda mais.

Mas o que vai mudar no meu dia-a-dia?

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  • Vou poder ver Netflix e YouTube com muito melhor qualidade e mais rapidamente
  • Vai permitir coisas como cirurgias médicas à distância

Todos queremos ter chamadas melhores e com melhor qualidade, mas provavelmente está a pensar: “Com o 4G já tenho isso e até vejo o YouTube em alta definição”. Pois, mas com o 5G vai poder ver o mesmo em 4K ou até em 8K, ou seja, ainda com melhor qualidade de imagem. Nos smartphones, o que mais vai notar é a rapidez com que pode transferir conteúdos, ou seja, com que envia vídeos longos pelo WhatsApp, por exemplo. Por permitir receber mais dados e mais rapidamente, quem cria conteúdos e ferramentas mobile vai preocupar-se menos com essas limitações. Por exemplo, a Google, a pensar num futuro móvel 5G, está a apostar num serviço de videojogos — o Stadia — que permite jogar jogos de última geração pelo smartphone ou portátil. Como? Através do processamento feito num computador topo de gama à distância. Com o 4G (e até com muitas das atuais rede Wi-Fi) é bastante arriscado pensar nisto, mas se o 5G fizer o que promete, este é apenas um dos poucos exemplos de como uma indústria pode mudar.

Um exemplo prático do que pode mudar foi dado ao Observador por Tony Li, presidente executivo da Huawei em Portugal (Huawei? Mas e as polémicas? Já lá vamos, ainda estamos nas partes técnicas): “Com o 3G podíamos ter uma latência de 100milissegundos (ms), no 4G a latência é de cerca de 50ms e no 5G estamos a falar de latências no limite de 1ms. Isto significa que, se um carro autónomo estiver a 100 km/h e o sistema enviar remotamente um comando para travar, no 4G, quando o comando chegar ao carro, este já estará 1,4 metros à frente. Com o 5G, quando o sistema de travagem for ativado, o carro apenas estará 2,8 cm à frente”.

“Com o 3G podíamos ter uma latência de 100ms, no 4G a latência é de cerca de 50ms e no 5G estamos a falar de latências no limite de 1ms. Isto significa que, se um carro autónomo estiver a 100 km/h, no caso de o sistema enviar remotamente um comando para travar, no 4G, quando o comando chegar ao carro, este já estará 1,4 metros à frente. Com o 5G, quando o sistema de travagem for ativado, o carro apenas estará 2,8 cm à frente"

Ou seja, com o 5G podemos sonhar com carros autónomos mais seguros. Muito do processamento pode ser feito em cada aparelho, mas, para este ser verdadeiramente seguro, convém estar conectado. Imagine uma cidade como uma colmeia. Se cada abelha trabalhar por si, há caos. Como funcionam todas em conjunto, há mel. Com o 5G, é possível pensar em milhões de aparelhos conectados entre si para a melhor fluidez (daí começarmos a ouvir falar cada vez mais do termo “smart city“, cidade inteligente).

Outro dos exemplos mais típicos do 5G é o de operações à distância. Um médico pode, teoricamente, utilizar um robô que está a milhares de quilómetros de distância para fazer uma cirurgia porque há menos latência. O 5G também não é perfeito, mas, como dissemos, teoricamente, permite pensar em aplicações que antes não eram possíveis. O resto? Há exemplos que ainda nem foram pensados, mas se o 4G trouxe milhões de GIF’s a serem partilhados em grupos no WhatsApp com facilidade e rapidez, o futuro com 5G vai, certamente, surpreender.

No que toca a números, a Ericsson estima que, só em Portugal, “até 2026, e só para a implementação de redes e serviços 5G, há um potencial de negócio a rondar os 1,43 mil milhões de euros.

Que empresas estão na corrida do 5G?

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  • Huawei
  • Nokia
  • Ericsson
  • Samsung
  • ZTE
  • Fujitsu
  • Qualcomm
  • Intel
  • As empresas têm de encontrar padrões de 5G e há mais tecnológicas envolvidas porque ninguém controla toda a cadeia de produção

Quando se fala no 5G o nome da empresa chinesa Huawei tem sido bastante lido e ouvido — ajuda o facto de a empresa afirmar que está “cerca de 12 a 18 meses à frente da concorrência” –, mas não é, de longe, a única na corrida para vender as antenas e componentes necessários para a implementação desta tecnologia. Lembra-se de quando a Nokia era a líder indisputável nos telemóveis? Não foi por ter deixado esse mercado que perdeu tração. A empresa finlandesa é, atualmente, uma das principais concorrentes da Huawei nestas infraestruturas de redes e patentes. Enquanto a marca chinesa se gaba de ter 46 contratos comerciais de 5G celebrados, a Nokia não está assim tão atrás (tem 42).

Agora, há mais empresas a competir. Como explica ao Observador Luís Silva, presidente da Ericsson Portugal, a empresa sueca tem “nove redes 5G em quatro continentes, para além de 21 contratos 5G anunciados publicamente com operadoras de telecomunicações em todo o mundo”. A sul-coreana Samsung também tem sido um dos principais motores para o avanço desta tecnologia (na Coreia do Sul, quando foi lançado o 5G, maior parte dos componentes eram da Samsung).

Além destas empresas, é importante referir outras como a chinesa ZTE ou a japonesa Fujitsu, que também estão a trabalhar no 5G. Contudo, mesmo podendo estar a deixar empresas de parte, há um pormenor que pode já ter reparado: não há empresas dos EUA nesta lista. É de propósito. Não é por não existirem, mas porque as empresas norte-americanas Qualcomm e Intel têm um papel crucial para a fabricação de chips que muitos dos componentes de 5G vão precisar. Como detêm inúmeras patentes, mostram o mais importante neste mercado: todas estas empresas têm de trabalhar juntas para criar e vender as antenas e produtos finais.

A chanceler alemã Angela Merkel e o primeiro-ministro sueco Stefan Lofven recebem um cartão 5G de um braço robô da Ericsson na feira de tecnologia de Hanover Messe (JOHN MACDOUGALL/AFP/Getty Images)

AFP/Getty Images

Mesmo que uma empresa não venda todos os equipamentos necessários, há outras empresas que se encarregam disso. Mesmo que uma empresa como a Huawei quisesse ser a única a vender tecnologia 5G, está dependente das outras (como o bloqueio com os EUA tem mostrado, mas já lá vamos). Por norma, quando uma operadora de telecomunicações celebra um contrato com um fornecedor, também tem acautelado o fornecimento com outras empresas para garantir que consegue sempre disponibilizar o serviço a que se comprometeu. Se fosse só com uma empresa, ficava dependente de quando há falhas do fornecedor. Por isso é que o 5G ainda vai demorar alguns anos a concretizar-se, porque falta chegar a acordo sobre alguns padrões que vão servir para a rede estar sempre garantida.

E que países já têm 5G?

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  • Coreia do Sul
  • Estados Unidos da América
  • Reino Unido
  • Argentina
  • África do Sul
  • Austrália
  • Qatar
  • Emirados Árabes Unidos
  • Suíça
  • Finlândia
  • Itália
  • Polónia
  • Espanha
  • Ainda estamos numa fase inicial e não há muitos equipamentos já a utilizar o 5G

Até ao final de 2019, segundo as melhores expectativas, vários países vão lançar as primeiras redes 5G. Contudo, para já, ainda não há muitos que tenham lançado o 5G comercial (até porque os primeiros smartphones e dispositivos com capacidade 5G são ainda caros e não estão em todos os mercados).

O primeiro país a lançar o 5G comercial foi a Coreia do Sul, mas numa batalha renhida, em abril, com os Estados Unidos da América, onde algumas cidades também já têm acesso a esta tecnologia de rede. No Reino Unido, Argentina, África do Sul, Austrália, Qatar, Emirados Árabes Unidos, Suíça, Finlândia, Itália, Polónia e Espanha, também já há cidades com acesso a estas novas antenas de velocidades de rede.

No entanto, para já, ainda está tudo numa fase inicial. Como dissemos, para aceder a esta infraestrutura de rede é preciso ter um telemóvel novo (nenhum está à venda em Portugal) e só em 2022 é que devem existir todos os padrões. Contudo, como explicou ao Observador Luís Silva, da Ericsson Portugal, até ao final de 2019 já devem existir “um total de mais de 10 milhões” de equipamentos a aceder ao 5G. Parece muito, mas com milhares de milhões de dispositivos conectáveis atualmente em todo o mundo, 10 milhões ainda é muito pouco.

Mas e a Huawei? Por que é que está no meio disto tudo? Não era por causa dos smartphones?

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  • A Huawei afirma que é o melhor fornecedor de antenas e tecnologias 5G
  • O EUA afirmam que a empresa está a fazer espionagem para o governo chinês
  • A questão está a gerar impasse porque apesar de existir concorrência, é preciso criar padrões base para o 5G

A Huawei é, para já, a líder dos fornecedores das infraestruturas 5G. É a empresa que tem contratos em mais países e a que tem sido mais competitiva na venda de antenas e componentes às operadoras e países. Contudo, não deixa de ser uma empresa chinesa num mundo que desconfia da relação que as empresas da China têm com o seu governo. O facto de a Huawei fazer parte das infraestruturas de redes não é uma novidade recente. Como explica Tony Li, presidente executivo da Huawei, “há 15 anos” que a empresa está em Portugal e esteve no “desenvolvimento das redes 3G e 4G no país”. É bastante possível até que este artigo lhe esteja a chegar por intermédio de uma antena ou modem desta empresa. Entram em cena os Estados Unidos da América e dizem: “Isto é tudo sobre segurança”, como afirmava o embaixador dos EUA em Portugal, George Edward Glass, em fevereiro ao Observador.

Como as telecomunicações são uma infraestrutura crucial dos países, quem cria a tecnologia que é utilizada tem, automaticamente, bastante poder. A empresa escolhida pela operadoras é a responsável pela manutenção e a que passa a ter acesso a mais informação. Objetivo: poder melhorar os seus produtos. Em suma, é o mercado a funcionar, mas entra novamente em cena o conflito político: os Estados Unidos afirmam que a Huawei utiliza as infraestruturas de rede que cria para espiar os cidadãos e entidades de países estrangeiros a pedido do governo chinês.

“É uma discussão que deve assentar em factos e não em especulação ou em alegações sem fundamento. A confiança constrói-se com base em factos e a verificação desses factos deve fazer-se com base em padrões comuns e transparentes. Reconhecemos a importância da cibersegurança no contexto das redes”, diz Tony Li sobre os receios políticos quanto a redes 5G poderem ser utilizadas para espionagem. “Ao longo de três décadas construímos mais de 1.500 redes em conjunto com operadores de telecomunicações, oferecendo serviços de rede a mais de 3 mil milhões de pessoas em mais de 170 países e regiões”, continua a justificar o responsável da empresa chinês.

Alexandre Fonseca, presidente executivo da Altice, e Chris Lu, da Huawei Portugal, assinam um memorando entre a empresas sobre 5G na visita de Xi Jinping a Portugal (CHRISTOPHE GUERREIRO)

(c)christophe_guerreiro

A Huawei reitera que tem investido em cibersegurança, mas, mesmo assim, o governo norte-americano diz que a empresa chinesa, por estar sediada na China e ter servidores no país, está sujeita ao regime do presidente Xi Jinping e do partido comunista. Além disto, há uma guerra comercial a decorrer entre os EUA e a China que levou o presidente Donald Trump e o seu executivo a pôr a Huawei numa “lista negra”. Esta decisão e a pressão que os norte-americanos têm feito com países aliados para cessarem as parceiras com a empresa chinesa, principalmente na Europa, tem afetado o crescimento do 5G. Até 19 de agosto (data do fim do prazo para a adaptação ao bloqueio imposto à Huawei) ainda há dúvidas sobre se tudo vai ficar resolvido. Assim, a criação de padrões para as redes 5G e a continuação de acordos com a empresa estão em risco.

Em suma, não é só o futuro dos smartphones da Huawei que está em risco com este conflito político. À semelhança de outras empresas de telecomunicações, como a Samsung, a Huawei também investe no 5G além de telemóveis. Isso significa que pode precisar de componentes de empresas americanas para construir aparelhos, como, por exemplo, da Qualcomm. Neste momento, não pode contar com isso.

A Ericsson, por exemplo, chama a esta este assunto “questões de cariz geopolítico e que nada têm a ver com a estratégia da Ericsson para a implementação das suas soluções de 5G” e não tece comentários. Já a Anacom, autoridade nacional reguladora das telecomunicações, não responde, à semelhança do que temos assistido por parte da maioria das empresas e do executivo português quando o assunto é confiar ou não confiar na Huawei.

Quais os perigos do 5G?

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  • Há quem tenha medo que as antenas provoquem cancro
  • Não há estudos ainda sobre os efeitos que pode provocar
  • As autoridades dizem que estão a acautelar a segurança

Já falámos sobre como funciona o 5G e até sobre os receios de espionagem. Contudo, como qualquer tecnologia nova que surge, há medos quanto aos seus efeitos na saúde. Estamos a falar de redes sem fios. A vantagem do 5G é que vai permitir que mais dados digitais cheguem pelo ar a vários dispositivos, mas há quem afirme que isso acarreta riscos, como noticiou a Euronews. Isso significa que o melhor é revestir a cabeça com papel de prata? Provavelmente não.

Segundo Dariusz Leszczynski, perito em biologia molecular e professor adjunto na Universidade de Helsínquia, como o 5G vai utilizar frequências superiores às utilizadas atualmente pelas infraestruturas de rede, “ninguém sabe” que perigos é que isso pode ter para a saúde dos humanos. O académico assume que podem existir riscos, mas também refere que não há provas de que possa afetar o nosso bem-estar. Como o 5G vai permitir um mundo da Internet das Coisas, as antenas de comunicações vão estar em muito mais dispositivos (como dissemos, “até frigoríficos”), ou seja, as pessoas ficam mais sujeitas a possíveis radiações das antenas.

Tanto a Organização Mundial da Saúde (OMS) como a o Conselho Europeu definiram limites para a exposição a ondas rádio como as que vão ser utilizadas pelo 5G. Segundo a OMS, se a exposição geral continuar como está “não há riscos”.

A primeira antena 5G da Optus, em Camberra, na Austrália (EPA/MICK TSIKAS)

MICK TSIKAS/EPA

No fundo, é uma repetição do receio que já temos em dormir com o telemóvel na mesinha de cabeceira: as radiações vão afetar-nos? Os estudos que têm sido feitos sobre se esta exposição pode provocar tumores cancerígenos têm sido inconclusivos.

Segundo fonte oficial da Anacom ao Observador, “o 5G trará incertezas e riscos que têm que ser acautelados e que acentuam a dependência da sociedade da segurança das redes e serviços de comunicações eletrónicas. O tema da segurança das redes é central para assegurar o desenvolvimento e a segurança do país e a defesa dos interesses dos cidadãos, pelo que é preciso que exista uma responsabilidade clara das empresas e dos fornecedores de hardware e software nesta matéria”. Para isso, a reguladora diz que há regras que as empresas vão ter de cumprir para garantir a segurança, tanto a nível de receios políticos como noutras áreas.

Quando é que vou ter 5G?

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  • Em Portugal ainda não há data, mas em 2020 já deve aparecer
  • É preciso libertar a faixa de 700mhz da TDT para as operadoras começarem a investir no 5G
  • Já há testes a serem feitos em Portugal

Em Portugal, ainda não há data. E no resto do mundo ainda falta definir coisas, como já explicámos. Ao Observador, fonte oficial da Anacom afirma: “Portugal definiu como objetivo cumprir o calendário da União Europeia e está a trabalhar em conformidade com esse objetivo”. Qual é que é esse calendário? “A Comissão Europeia tem ainda o objetivo de ter uma cidade em cada estado membro coberta com 5G até 2020”.

A grande crítica que tem sido apontada a Portugal, principalmente pelas operadoras e fornecedores de equipamentos, é semelhante à de outros países: “Falta libertar a faixa”. Este tema é dos mais técnicos quanto ao 5G. Para estas rede funcionarem, precisam de utilizar a faixa decidida para o 5G na Europa: a de 700 mega-hertz. Atualmente em Portugal essa é a mesma faixa que está a ser utilizada pela televisão digital terrestre (TDT), o que vai implicar “uma migração”, conta a Anacom.

Um painel no Mobile World Congress de 2019 a mostrar que países vão ser os primeiros a arrancar com o 5G este ano. Portugal não estava incluído (MANUEL PESTANA MACHADO/OBSERVADOR)

MANUEL PESTANA MACHADO/OBSERVADOR

De forma simples, cada rede utiliza padrões de faixas para redes sem fios. Por exemplo, se tiver vários equipamentos Bluetooth perto um do outro, há interferências. O mesmo acontece quando tem vários routers de Wi-Fi em vários apartamentos perto um do outro a utilizar as mesmas frequências: isso também vai criar problemas. Para evitar que todos utilizem os equipamentos nas mesmas faixas, entupindo o sistema, é preciso disponibilizar faixas para cada um (e uma que permita as vantagens do 5G). Isto pode ser ainda mais complexo, mas esta é a ideia que serve de base.

Ou seja, mesmo que as operadoras queiram arrancar com o 5G, precisam de autorização da reguladora para utilizar essa faixa de 700Mhz. Isso só “deve começar no último trimestre de 2019” e vai “decorrer até 30 de junho de 2020”, diz a Anacom. Mesmo assim, temos já assistido a algumas demonstrações em solo nacional do que pode ser feito com o 5G por parte das principais operadoras — NOS, Vodafone e Altice — em parceria com empresas como a Huawei e Ericsson.

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