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Paralisação dos táxis há quinze dias resvalou para onda de violência
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▲Paralisação dos táxis há quinze dias resvalou para onda de violência

LUSA

▲Paralisação dos táxis há quinze dias resvalou para onda de violência

LUSA

Angola entre o "medo" e a "caça ao homem" depois dos tumultos que dividem o MPLA

Luanda acordou sob forte dispositivo policial, apesar de as ameaças de protesto não se terem concretizado. O medo não acabou, o nervosismo também não. Ondas de choque dos tumultos atingem MPLA.

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De manhã, a voz cansada e uma frase pelo atraso em devolver o contacto: “Desculpe, estou a passar por momentos difíceis”. Ao início da noite de sexta-feira a notícia: Francisco Paciente, que dez horas antes tinha estado ao telefone com o Observador, a partir de Luanda, tinha sido detido pelo Serviço de Investigação Criminal (SIC).

A detenção do presidente da Associação Nacional de Taxistas de Angola (ANATA) surge na sequência dos tumultos que sacudiram a capital angolana e várias outras províncias no final de julho e cujas sequelas ainda não terminaram. Esta segunda-feira o Presidente João Lourenço reuniu o Conselho da República, enquanto Luanda acordou com um forte dispositivo policial nos bairros periféricos e menos trânsito do que o habitual, depois de várias ameaças de novos protestos no arranque desta semana.

O Ministério do Interior (o equivalente ao Ministério da Administração Interna, em Portugal), às 9h00, garantia que “a situação da segurança” era “estável” em todo o país e em Luanda: “Circula-se com bastante normalidade e a presença dos táxis e transportes públicos é visível”.

"Os dias 28, 29 e 30 representam um marco a não esquecer. Na semana passada, atingimos o ponto de rutura com o passado de submissão popular. Podemos crer que já não haverá retorno a esse passado"
Paulo de Carvalho, deputado e membro do Comité Central do MPLA

Ainda assim, Luanda continua a viver na incerteza do que serão os próximos dias. “A retórica da polícia não nos convence, estamos todos muito tensos, muito apreensivos”, diz ao Observador um dos mais conhecidos economistas angolanos, Carlos Rosado de Carvalho.

Ouça aqui o novo episódio do podcast “A História do Dia” da rádio Observador

Clima de tensão em Angola. Luanda pode rebentar?

Para já há uma certeza, vinda de dentro do MPLA: “Os dias 28, 29 e 30 representam um marco a não esquecer. Na semana passada, atingimos o ponto de rutura com o passado de submissão popular. Podemos crer que já não haverá retorno a esse passado”, escreveu um conceituado deputado e académico do partido, Paulo de Carvalho.

Após “dias de guerra”, a população de Luanda respira hoje de alívio com o regresso da calma e maior tranquilidade, apesar de receios sobre o agravamento do desemprego devido aos episódios de vandalismo, Luanda, Angola, 31 de julho de 2025. As consequências dos tumultos, violência e pilhagens registados no início desta semana, em Luanda, na sequência da paralisação dos taxistas, ainda continuam vivas na memória dos luandenses, que os descrevem como “dias de guerra”. (ACOMPANHA TEXTO DE 31 DE JULHO DE 2025). AMPE ROGÉRIO/LUSA

▲ Os "candongueiros" funcionaram normalmente esta segunda-feira, apesar das ameaças de novos protestos

Ampe Rogério/LUSA

Na conversa de cerca de dez minutos, Francisco Paciente, antes de entrar num ministério angolano para negociar melhores condições para a classe, conta como os dirigentes do setor “com alguma visibilidade” estão “a correr riscos de vida, não pernoitam nas suas casas”, pois “vão-se sentindo ameaçados”. Por quem, porquê?, perguntou o Observador. “Para não serem detidos de forma arbitrária, sem um processo; em Angola há muitas detenções arbitrárias”, justificou. À tarde, pouco depois, chegava a sua vez.

A ANATA — que aparentemente convocou e depois desconvocou (pela voz do presidente) e voltou a marcar (pela voz do vice-presidente) uma paralisação de três dias no final de julho que derrapou para uma onda de violência  — já tinha um dos líderes privado de liberdade. A 1 de agosto, o número dois da associação foi levado, em Benguela, pelo SIC e isolado numa cela de que só saiu vários dias depois.

A detenção dos dois dirigentes da ANATA não só gerou um coro de críticas, como criou novo pretexto para uma suposta nova paralisação esta semana e um rio de informações contraditórias. Nos últimos dias sucederam-se mensagens nas redes sociais a marcar o protesto, com as associações de taxistas a desdobrarem-se em desmentidos, o que provocou um clima de inquietação em Luanda. A tal ponto que o Governo sentiu necessidade de, neste domingo, vir garantir, uma vez mais que “a situação de segurança pública no país é estável, sem o registo, nos últimos dias, de situações que condicionem o normal funcionamento das instituições e a livre circulação de pessoas e bens”. Os “cidadãos podem levar a sua vida normal”, garantiu o porta-voz da Polícia Nacional de Angola (PNA), Mateus Rodrigues, numa declaração à imprensa.

“A Polícia Nacional de Angola tem acompanhado com atenção a produção, publicação, republicação e disseminação de informações nas redes sociais, na sua grande maioria falsas, caluniosas e até criminosas, com um único sentido: espalhar o medo, insegurança e a instabilidade social no país”
Mateus Rodrigues, porta-voz da Polícia Nacional Angolana

Ainda assim, a PNA marcava um ponto da situação às 9h00 e outro às 18h00. Porquê, se está tudo normal?, perguntou o Observador ao Ministério do Interior (equivalente ao Ministério da Administração Interna português). “Para evitar desinformação nas redes sociais”, respondeu o Gabinete de comunicação institucional e imprensa do MI. Para o Ministério do Interior, “há uma guerra nas redes sociais”, admite ao Observador Mateus Rodrigues, pois “há ações muito concertadas”.

“A Polícia Nacional de Angola tem acompanhado com atenção a produção, publicação, republicação e disseminação de informações nas redes sociais, na sua grande maioria falsas, caluniosas e até criminosas, com um único sentido: espalhar o medo, insegurança e a instabilidade social no país”, referiu no domingo o subcomissário aos jornalistas.

A ativista Laura Macedo tinha lançado o apelo este domingo: “Paralisação ou não paralisação? Na dúvida, vamos ficar em casa. Não queremos mais mortes desnecessárias”. Muitos ouviram-na. “Havia menos gente, menos carros na rua em algumas zonas da cidade”, descreve Luís Pinto, morador no Kilamba, ao Observador. Esta segunda-feira Laura Macedo voltou a pedir para as pessoas ficarem em casa já que a possibilidade de haver protestos se alonga a toda a semana. Com uma particularidade: não deixar as crianças saírem. “Nos dias 28, 29 e 30 de Julho prenderam cerca de 230 crianças dos 12 aos 16, misturaram-nas com adultos durante 3 dias”, afirma.

"Estão a usar uma lei criada no ano passado contra o vandalismo que responsabiliza os promotores das manifestações por eventuais desacatos, As penas podem ir até aos 25 anos de prisão, mais pesadas do que as previstas para pedófilos, por exemplo"
Carlos Rosado de Carvalho, economista

Mais de 300 condenados por vandalismo, “alguns com penas bem pesadas”

Para já, não se cumpriu a ameaça da semana passada: “Se o vice-presidente da ANATA não for libertado na sexta-feira, dia 8, os taxistas vão parar novamente entre 11 e 17 de agosto”, assegurou ao Observador um ativista na quinta-feira. Pois bem, não só Catimba continuou sob custódia do SIC como o mesmo aconteceu a Paciente. Os dois estão detidos com o mesmo argumento: “Por factos que se configuram na prática dos crimes de associação criminosa, incitação à violência, atentado contra a segurança nos transportes e terrorismo, consubstanciado em fortes indícios do seu envolvimento na promoção dos atos de vandalismo e arruaça contra bens e serviços públicos e privados, protagonizados no final de julho”, lê-se no comunicado do SIC.

Estão a lançar mão de uma “lei criada no ano passado contra o vandalismo que responsabiliza os promotores das manifestações por eventuais desacatos”, assinala Carlos Rosado de Carvalho. As penas podem ir até aos 25 anos de prisão, “mais pesadas do que as previstas para pedófilos, por exemplo”, critica o também jornalista. Problema: a ANATA e as outras associações de taxistas não convocaram nenhuma manifestação, mas sim uma paralisação com uma indicação muito clara: “Fiquem em casa”.

O balanço provisório das autoridades angolanas aponta para 22 mortos, 197 feridos e 1.214 detenções nos dois dias de tumultos registados na província de Luanda, durante uma paralisação de taxistas, avançou hoje o Governo, Luanda, Angola, 30 de julho de 2025. Os protestos violentos coincidiram com a greve de operadores de táxis, contra o fim dos subsídios aos combustíveis e as manifestações contra o aumento do custo de vida convocadas para segunda, terça-feira e hoje. AMPE ROGÉRIO/LUSA O balanço provisório das autoridades angolanas aponta para 22 mortos, 197 feridos e 1.214 detenções nos dois dias de tumultos registados na província de Luanda, durante uma paralisação de taxistas, avançou hoje o Governo, Luanda, Angola, 30 de julho de 2025. Os protestos violentos coincidiram com a greve de operadores de táxis, contra o fim dos subsídios aos combustíveis e as manifestações contra o aumento do custo de vida convocadas para segunda, terça-feira e hoje. AMPE ROGÉRIO/LUSA

▲ Uma vaga de saques e pilhagens levaram uma repressão policial violenta no final de julho

AMPE ROGÉRIO/LUSA

Mateus Rodrigues, porta-voz da polícia, separa as águas: “O problema não é a convocação, mas as consequências, a convocação da manifestação não é crime, nem a realização de protestos pacíficos e ordeiros é crime. O caso dos dirigentes da ANATA é de incitação à violência por meio das redes sociais” sendo que “a violência veio a realizar-se”, esclarece ao Observador.

O processo dos dois continua “e houve mais detenções” de dirigentes de associações de taxistas, informa o sub-comissário. São eles Francisco Eduardo, da Associação de Taxistas de Angola,Rafael Ginga Inácio, da Cooperativa de Táxis Comunitários de Angola, e António Alexandre Freitas da Cooperativa dos Taxistas e Motociclistas Freitas, concretizou ao início da noite o SIC. Sobre os três recai a mesma suspeita dos líderes da ANATA: associação criminosa, incitação à violência, terrorismo e atentado contra a segurança dos transportes.

Noutra frente, a dos atos de vandalismo, prosseguem os julgamentos dos mais de 1.500 detidos. “Já houve mais de 300 condenações, e alguns com penas bem pesadas, de um ano e seis meses de prisão efetiva”, revela Mateus Rodrigues.

Quanto ao apuramento de responsabilidades de agentes da polícia nas mortes ocorridas, o sub-comissário reconhece que, “de facto, está mais atrasada” do que sucede com os atos de vandalismo. “Para todos os casos, estão abertos vários inquéritos no sentido de esclarecer os factos e apurar as responsabilidades”, refere. No entanto “ainda não abrangem agentes de polícia, porque os inquéritos não estão ainda concluídos, mas havendo uma investigação sobre estes factos, certamente há de trazer o esclarecimento das mortes”, entende Mateus Rodrigues, para quem a existência ou não de excesso de repressão policial “será determinado nas investigações”

Esta segunda-feira, da reunião extraordinária do Conselho da República marcada para “analisar os eventos ocorridos entre 28 de julho e 1 de agosto nas províncias de Luanda, Huíla, Malanje, Benguela, Cuango, Icolo e Bengo e Bengo”, saíram três apelos.

"Os dirigentes do setor com alguma visibilidade estão a correr riscos de vida, não pernoitam nas suas casas para não serem detidos de forma arbitrária, sem um processo, em Angola há muitas detenções arbitrárias"
Francisco Paciente, presidente da Associação Nacional de Taxistas Angolanos

O primeiro pede à população “para manter uma postura cívica e ordeira, pautada pelo exercício responsável e consciente” dos direitos e liberdades consagrados na Constituição e na lei”.

O segundo é também dirigido aos cidadãos que devem “respeitar as autoridades, evitando a disseminação de desinformação nas plataformas digitais para se salvaguardar o bem-estar de todos”.

Finalmente, o terceiro é endereçado às forças de segurança: “O Conselho da República encoraja os Órgãos de Defesa e Segurança a prosseguirem com as medidas de garantia da ordem, tranquilidade e segurança públicas e a manutenção da paz social”.

E nem uma palavra sobre as 30 mortes (ou mais) e os 200 feridos.

Luanda, a capital que “é um barril de pólvora” e que anda a recolher pneus

Pouco antes de se saber que Francisco Paciente fora detido, em Lisboa decorria uma missa, e uma manifestação, protesto que se repetia em Londres. A mulher que a polícia disse ser “estrangeira, talvez em situação migratória irregular”, e os vizinhos juram ser angolana, nascida no Uíge, tornou-se no rosto das vítimas mortais dos tumultos. O fim trágico desta mulher de 33 anos e as várias detenções refletem muito do que se passou nos três dias e na semana seguinte: protesto, vandalismo, violência, pilhagem, morte, fome, revolta, desinformação, medo. E política.

Enquanto Ana Mubiala Silvia era recordada nas duas capitais europeias na sexta-feira passada, e com ela todas as vítimas mortais — 30 nos dados oficiais, quase 40 nos registos do Bloco Democrático, muitas mais nas contas da UNITA —, Luanda e Angola em geral viviam (e vivem) uma “tensão calma” ou “calma tensa”, na expressão de Carlos Rosado de Carvalho. Esta imprevisibilidade inquietante é agravada pela “falta de informação” sobre o que poderá acontecer nos tempos mais próximos.

“O Governo diz que a situação está calma, mas ninguém acredita, pois as razões da contestação mantêm-se, a fome é real, há medo de mais pilhagens e saques, a polícia está preparada para o pior, o Presidente da República deixou isso claro — até os pneus velhos [o governo provincial de Luanda] começou a retirar das oficinas e das ruas, para impedir que os queimem — e pode haver muita repressão”, teme o professor universitário.

"É tudo uma incógnita, a revolta está lá, as causas não desapareceram, pode explodir novamente, e vai ser maior e pior, até porque a polícia está a preparar-se para reagir com mais agressividade, se é que isso é possível"
Sedrick de Carvalho, jornalista e ativista

“Há uma preocupação muito grande na sociedade. Receia-se que o que se passou a 28, 29 e 30 se possa repetir, porque o Palácio não percebeu o que está por trás disto, está a ignorar os sinais, a tratar tudo como crimes, como se fossem só arruaças e vandalismo, e não como um protesto contra o Governo e as suas políticas”, lamenta Carlos Rosado de Carvalho.

“Luanda é um barril de pólvora”, avisa Reginaldo Silva, jornalista veterano angolano e membro da Entidade Reguladora para a Comunicação Social de Angola.

“É tudo uma incógnita, a revolta está lá, as causas não desapareceram, pode explodir novamente, e vai ser maior e pior”, alerta Sedrick de Carvalho, jornalista e membro da Uyele – Associação Cívica. “Até porque a polícia está a preparar-se para reagir com mais agressividade, se é que isso é possível”, diz o ativista que esteve preso um ano em 2015, quando o anterior Presidente José Eduardo dos Santos colocou na cadeia o chamado grupo dos “15+2”, acusados de preparar um golpe de Estado por discutirem sobre democracia.

“Estes três dias que abalaram Luanda tiveram um impacto muito negativo. Não é que a cidade não tenha no seu histórico pilhagens e onda de violência”, começa por dizer Reginaldo Silva. “Porém, não posso dizer que o pior já passou, as coisas vão complicar-se, os luandenses olham com muita apreensão para os dias que se seguem”, acrescenta o jornalista.

“Se quiserem matar, matem, façam o que acham que devem fazer”

Para já, a detenção de Francisco Paciente e Rodrigo Catimba “está a preocupar os taxistas pelo que não se prevê que haja paralisação”, insiste o líder do Movimento de Estudantes Angolanos, Francisco Teixeira. Além do mais, adianta, “receberam carros novos”. Ou seja, analisa a socióloga angolana Luzia Moniz, o MPLA (Movimento Para a Libertação de Angola], no poder há 50 anos, usou duas das suas armas preferidas: “O medo e a compra das consciências”.

“Estamos nervosos”, confessa ao Observador Carlos Rosado de Carvalho, porque “não há informação credível”. Há pessoas a abastecer as despensas e a atestar os depósitos, “muita gente (residentes e expatriados) mandou as famílias embora” e “houve empresas a informar os funcionários que segunda e terça-feira não trabalhavam ou a dizer para ficarem em casa até às 12h no primeiro dia”, adiantaram dois executivos luso-angolanos ao Observador.

Na periferia da capital, o nervosismo tem sido outro: “Não dormimos duas vezes seguidas no mesmo sítio”, desabafa o ativista Nelson Cultura. Nas redes sociais, circula uma lista de nomes que estarão na mira do SIC, em que consta o presidente do MEA. “Agora enterramos os mortos, cuidamos dos feridos, ajudamos os detidos. Depois vamos voltar às manifestações pacíficas, ordeiras e disciplinadas, sem tumultos, sem perdas de vida, sem queimar nada”, prometeu Francisco Teixeira, que se tem destacado na luta por melhores condições de ensino e a 19 de julho levou 20 mil estudantes para a rua sem que se registassem distúrbios.

“Constantemente ameaçado”, o dirigente estudantil  assume que “humanamente” tem medo. Todavia, isso não o faz desistir. “Tenho esta missão, desempenhada dentro da lei, por isso se me quiserem prender, prendam. Se me quiserem matar, matem, façam o que acham que devem fazer”.

Após “dias de guerra”, a população de Luanda respira hoje de alívio com o regresso da calma e maior tranquilidade, apesar de receios sobre o agravamento do desemprego devido aos episódios de vandalismo, Luanda, Angola, 31 de julho de 2025. As consequências dos tumultos, violência e pilhagens registados no início desta semana, em Luanda, na sequência da paralisação dos taxistas, ainda continuam vivas na memória dos luandenses, que os descrevem como “dias de guerra”. (ACOMPANHA TEXTO DE 31 DE JULHO DE 2025). AMPE ROGÉRIO/LUSA Pelo menos 91 estabelecimentos comerciais foram vandalizados em três dias de tumultos em Angola nas províncias de Luanda e Malanje, segundo um relatório preliminar a que a Lusa teve hoje acesso, Luanda, Angola, 31 de julho de 2025. O levantamento preliminar feito pela Associação de Empresas de Comércio e Distribuição Moderna de Angola (Ecodima) dá conta que foram sete cadeias comerciais efetivamente pilhadas, enquanto nove operadores registaram tentativas de vandalismo, em 24 unidades distintas. Destaque para as lojas Arreiou, com 72 unidades de venda alvo de pilhagens. AMPE ROGÉRIO/LUSA

▲ Luanda tem regressado à normalidade depois dos tumultos, mas alguns falam em "calma tensa"

Ampe Rogério/LUSA

Há vários vídeos de jovens a dizer o mesmo nas redes sociais, identificando-se e começando e despedindo-se com “saudações revolucionárias”. O mais delicado são as famílias. Há um mês que os filhos de Francisco Teixeira não saem à rua, por uma questão de segurança. “Não percebem porque é que os outros podem andar livremente e eles estão trancados em casa”.

No bairro de Ana Mubiala Silvia, Caop-B, em Viana, um dos subúrbios de Luanda, as noites também não são as mesmas. Há um antes e um depois de 29 de julho, no segundo dos três dias da paralisação de taxistas, que resvalou para uma onda de pilhagens e repressão policial. Os moradores oscilam entre “a revolta e o medo, a dor e a necessidade de ajudar as famílias de quem morreu porque o Governo angolano não se responsabiliza. Tivemos de nos mobilizar para conseguir fazer o enterro que as famílias não conseguem pagar”, conta ao Observador o vizinho Nelson Cultura.

Mubiala corria com o filho pela mão quando dois tiros a mataram pelas costas

Naquele dia, a rua não se encheu com o cheiro e o fumo do “pincho”, os pedaços de carne de porco assado que Ana Mubiala Silvia vendia para sustentar a família. Deixou em casa a grelha e foi à procura do filho de 15 anos. “Tinha mandado o rapaz à cantina [pequena loja informal de bairro]”, relata Nelson Cultura, e quando ouviu a confusão ficou com receio do que lhe pudesse acontecer. O “miúdo não estava nos tumultos, a cantina não foi vandalizada”, continua o morador do bairro. “O problema começou noutro local onde o povo estava a romper [saquear] o supermercado Arreiou, junto à universidade Piaget e a polícia começou a disparar e matou um ativista, o Gato Preto, que ia para o trabalho. As pessoas começaram a fugir”. Mubiala e o filho “não tinham nada a ver com isso, mas a polícia começou a trancar as entradas para o bairro e todos fugiam, porque isto aqui era uma guerra, a polícia atirava à queima-roupa”.

"Muitas destas mortes são preventivas: matam para os outros perceberem que não podem vir para as ruas protestar. O Governo usa o medo para gerir conflitos sociais. Aliás, o medo é o instrumento essencial da política do MPLA"
Luzia Moniz, socióloga

A mulher corria pela sua rua, a Guarda Passagem, também conhecida por Dr. Agostinho Neto [primeiro Presidente de Angola], com o filho pela mão, quando um carro da Polícia de Intervenção Rápida (PIR), a alguns metros atrás dela, disparou. “Primeiro na perna, depois na cabeça”, diz Nelson Cultura. Há um vídeo, demasiado gráfico para ser aqui divulgado, em que se vê tudo. As imagens da mãe a fugir, a ser atingida e a cair e do filho a tentar levantá-la e depois ajoelhado no chão junto ao corpo ensanguentado circularam rapidamente nas redes sociais e criando comoção dentro e fora do país.

João Panzo, marido e os seis filhos de de Silvi Mubiala, 33 anos, que saiu de casa na terça-feira para socorrer o filho, perdido no meio dos distúrbios na Caop B - bairro de Viana, na periferia da capital angolana -, causou e ainda causa choque entre a população local que acusa agentes da Polícia de Intervenção Rápida (PIR) de serem os autores dos disparos, Luanda, Angola, 31 de julho de 2025. (ACOMPANHA TEXTO DE JULHO DE 2025). AMPE ROGÉRIO/LUSA

▲ O marido de Mubiala e os seus seis filhos, entre os 15 anos e os sete meses de idade

AMPE ROGÉRIO/LUSA

A mãe de seis filhos não foi a única baleada fatalmente naquela rua, naquele dia. “Morreram mais cinco pessoas, todas jovens”, lamenta Nelson Cultura. Mas tornou-se num símbolo da “repressão policial injustificada” que levou mesmo organizações da sociedade civil a falar em “execuções sumárias” e partidos políticos da oposição a condenaram veementemente o assassinato de uma mulher indefesa, pelas costas. Alguns, como a UNITA e o Partido Liberal (criado em fevereiro deste ano, por exemplo), visitaram os órfãos, com idades entre os sete meses e os 15 anos e o viúvo de 42 anos que vive de biscates: “Era ela que garantia o sustento e os estudos dos filhos”, acrescenta o ativista. Num registo visual de uma dessas visitas, vê-se o rapaz que viu a mãe morrer. Tem uma sweatshirt em que se lê life is short (a vida é curta).

A polícia tem “ordens para matar” ou mata para se proteger?

As explicações das autoridades, que confirmaram que Mubiala foi alvejada pela polícia, acentuaram a indignação. O comandante-geral da PNA disse que ela “era estrangeira” em “situação migratória ilegal” e participava nas pilhagens. Francisco da Silva sustentou que a polícia usou meios proporcionais para assegurar a integridade física dos agentes.

“Quando aquele grupo tentou insurgir-se contra os agentes da Polícia, claro que a integridade física do agente deve ser salvaguardada em primeira instância e nesta [situação] foi neutralizada, infelizmente faleceu”, explicou Francisco da Silva. “Lamentamos a morte, mas, infelizmente, o agente teve que salvaguardar a vida, a sua integridade física e preservar a autoridade do Estado”, adiantou o comandante no final de uma visita a uma esquadra que a população atacou num outro bairro de Viana.

No entanto, no vídeo vê-se a mulher a fugir, juntamente com outras pessoas, sem quaisquer agentes da polícia por perto, e um carro da PIR a disparar.

“A polícia, que tem treino para proteger, fazer a defesa do cidadão, garantir a ordem e a segurança pública, não pode, de qualquer forma, disparar nas costas de uma mãe que corre numa área que não tem supermercados e não traz nada nas mãos — e mesmo que trouxesse, isso nunca justificaria ser assassinada. Isto não é aceitável”, condenou Adalberto Costa Júnior ao Observador. “Não vamos ficar quietos” prometeu o presidente do maior partido da oposição, a UNITA (União Nacional para a Independência Total de Angola), sem concretizar o que vai fazer. “As pessoas não são números, têm vidas, trajetórias, estamos a fazer o levantamento rigoroso do que se passou”, justifica.

“Queremos justiça” é o grito que ecoa entre familiares e vizinhos da mulher morta por disparos da polícia num bairro pobre de Luanda, durante os tumultos dos últimos dias, deixando viúvo e órfãos desolados clamando por ajuda, Luanda, Angola, 31 de julho de 2025. A morte de Silvi Mubiala, 33 anos, que saiu de casa na terça-feira para socorrer o filho, perdido no meio dos distúrbios na Caop B - bairro de Viana, na periferia da capital angolana -, causou e ainda causa choque entre a população local que acusa agentes da Polícia de Intervenção Rápida (PIR) de serem os autores dos disparos. (ACOMPANHA TEXTO DE JULHO DE 2025). AMPE ROGÉRIO/LUSA

AMPE ROGÉRIO/LUSA

“A polícia tem ordens para atirar a matar”, denuncia Nelson Cultura que nega as afirmações de Francisco Silva. “Não estava a vandalizar e não é estrangeira, é do Uíge, os pais emigraram para o Congo na guerra civil, nos confrontos entre MPLA e UNITA na zona; o nosso comandante da polícia gosta de deturpar informação. E ainda que fosse. Porque é estrangeiro pode matar-se?”, interroga-se.

“O MPLA, quando está em aflição e quer justificar as suas maldades, gosta de ‘estrangeirar’ os outros” acusa Luzia Moniz que organizou a missa em homenagem a Mubiala e a “todas as vítimas daquele massacre, pois são pelo menos 30, e há muitos desaparecidos”.

"Nós temos medo deles, mas não temos nada a perder. Eles têm medo de nós e têm tudo a perder"
Francisco Teixeira, presidente do Movimento de Estudantes de Angola

A cofundadora e ex-presidente da PADEMA (Plataforma para o Desenvolvimento da Mulher Africana) classifica como “preventivas” muitas destas mortes: “Matam para os outros perceberem que não podem vir para as ruas protestar”. Ou seja, o Governo usa o “medo para gerir conflitos sociais”. Aliás, continua a jornalista e ativista, “o medo é o instrumento essencial da política do MPLA; sempre foi, é uma das formas de se manter no poder”.

Mas o “medo tem dois sentidos”, frisa Francisco Teixeira. “O clima é muito mau. Insegurança é grande. Nós temos medo deles, mas não temos nada a perder. Eles têm medo de nós e têm tudo a perder”. Entenda-se por eles “as pessoas que controlam o país, esse grupo pequeno que tem tudo, esbanja dinheiro ostensivamente enquanto o povo come dos caixotes do lixo e passa fome”. Eles “triplicaram a segurança, estamos a ser vigiados, o banco onde a MEA tem o seu dinheiro começou a levantar problemas, a nossa conversa está a ser gravada, seguramente, há muita pressão. Só quem tem coragem sai de casa”, salienta.

"O que vimos recentemente não foram manifestações e não teriam esse designação em qualquer democracia ocidental. Foram atos de vandalismo, de puro terrorismo, portanto, crimes e, assim sendo, são casos de polícia"
Hilário Esteves, porta-voz do MPLA

O MPLA recusa as ideias de que o partido usa o medo para se perpetuar no poder. O seu porta-voz exalta a “natureza liberal e progressista do partido”, antes de afirmar “categoricamente o apreço” do MPLA “pelo exercício das liberdades fundamentais dos cidadãos”. No entanto, frisa Hilário Esteves, isso “não pode de forma alguma ser confundido com excessos e violações de direitos alheios e a vandalização de bens e valores constitucionalmente tutelados”.

De resto, o MPLA repete o que o Ministério do Interior tem dito: “O que vimos recentemente não foram manifestações e não teriam essa designação em qualquer democracia ocidental. Foram atos de vandalismo, de puro terrorismo, portanto, crimes, e assim sendo, são casos de polícia”, reforça. “É claro que lamentamos a perda de vidas humanas que nos são muito caras”, ressalva Hilário Esteves, na única frase relativa às vítimas mortais. Até ao momento, nem o partido no poder há 50 anos nem o Governo, anunciaram qualquer apoio às famílias das vítimas mortais; apenas o fez a quem viu os seus bens destruídos ou danificados.

“O MPLA, enquanto partido que suporta o Governo, naturalmente tem interesse na manutenção da estabilidade e no normal funcionamento das instituições democráticas, na preservação da paz e da segurança das famílias e das empresas, por isso repudia e repudiará sempre qualquer ação com origem interna ou externa tendente a pôr em causa estes valores”.

▲ Nos três dias que sacudiram Luanda (e outras províncias) houve vias parcialmente cortadas com a queima de pneus e de troncos de árvores

LUSA

Nos bairros de Luanda há uma mistura de vontades. Mercedes Nunes, moradora no Camama divide-se entre “o querer gritar contra a fome”, e o desejo de paz e segurança. Ficou apavorada com as pilhagens, saques e vandalização de carros, por exemplo. Chorou ao lado da prima que viu o negócio de uma vida ser destruído. E por outro lado, não pode “embarcar em muitas aventuras revolucionárias”. A razão é simples: “Ganho ao dia, se não trabalhar, não tenho comida para pôr na mesa aos três filhos”. Um deles é engraxador, “gosta muito de refilar contra o Governo”, mas “se tudo pára, ele não tem sapatos para limpar, não recebe nada e com nada não compra pão”. Desde que Mubiala morreu, Mercedes está mais atenta aos movimentos do filho. “Tenho medo, muito medo. Mas ele não tem…”.

Essa é a principal razão que leva Sedrick de Carvalho a não prever um protesto de grandes dimensões tão cedo. “As pessoas vão demorar a voltar à rua. Estão com medo”.

“General Nila” baleado e Teca Panzo detido por denunciar “roubo de chinela”

As “pessoas estão atemorizadas com o que se passou mas a ideia também é essa, criar um ambiente de terror”, opina o economista Filomeno Vieira Lopes, coordenador do Bloco Democrático (BD), que tem números diferentes dos do Governo sobre as vítimas mortais. “Ainda estamos a confirmar, mas para já são quase 40. Pediram às famílias para enterrarem imediatamente as pessoas que estavam nas morgues (conhecemos três ou quatro casos desses), sem funeral, para não lhes dar visibilidade”, revela.

Os “ativistas estão a ser procurados, alguns detidos, muitos deles estão desaparecidos, há mortes de jovens durante a noite [quando já não havia tumultos]”, chama a atenção o professor universitário.

Alguns “foram libertados e agora são novamente procurados pela polícia”, acusa o líder partidário que dá como exemplo o ativista Olívio Serrote, conhecido por “General Nila”. Já tinha sido detido a 15 de fevereiro quando negociava com a polícia no início de uma manifestação contra a fome e o desemprego e agora voltou a ficar sob custódia policial.

"Há uma "verdadeira caça ao homem", com pessoas a serem presas por "delito de opinião, tudo o que se diz é delito de opinião"
Filomeno Vieira Lopes, coordenador do Bloco Democrático

“Foi detido arbitrariamente no dia do arranque da paralisação dos táxis, baleado e espancado brutalmente pela polícia e está detido há uma semana, sem ter cometido qualquer crime”, divulgou o BD em comunicado. Segundo a Amnistia Internacional, o “General Nila” foi atingido na perna esquerda enquanto realizava uma transmissão ao vivo nas redes sociais no dia 28 de julho dos protestos contra o aumento dos combustíveis.

Esta semana o BD soube pela família que o ativista foi na quarta-feira passada transferido para a comarca de Viana “ferido, sem acesso a assistência médica, confinado numa cela super lotada, correndo o risco de amputação” sem que, até ao momento, “alguma autoridade se tenha pronunciado”. A Juventude Bloquista descreve-o como “mais um caso de perseguição política e abuso de poder em Angola”.

No Uíge, um membro do conselho provincial do Bloco Democrático foi a tribunal depois de denunciar o furto, por um polícia, de uma chinela a um vendedor. Lusakumuno Teca Panzo acabou em liberdade, mas teve de pagar uma multa de mais de 100 mil kwanzas (93 euros) e uma indemnização à polícia de 400 mil kwanzas (373 euros). O salário mínimo em Angola varia entre os 50 mil e os 70 mil kwanzas (46 e 65 euros sensivelmente). O partido sustenta que Lusakumuno já estava “sob o olhar atento da polícia” pois tinha sido um dos responsáveis pela manifestação na zona no dia 19 de julho.

Há mais relatos de pessoas detidas sem razão aparente. Luaty Beirão, membro do Movimento Cívico Mudei e um dos “révus” (de revolucionário) do “15+2” que se tornou internacionalmente conhecido em 2015 ao fazer uma greve de fome quando esteve preso,  denunciou também, por exemplo, nas suas redes sociais a detenção do ativista Jesse Lourenço, em Malanje, quando estava a filmar os protestos.

Há uma “verdadeira caça ao homem”, com pessoas a serem presas por “delito de opinião, tudo o que se diz é delito de opinião”, critica Filomeno Vieira Lopes. Carlos Rosado de Carvalho é mais específico: “Há uma caça aos ativistas, apesar de a polícia também andar nos bairros à procura de pessoas que terão roubado nas pilhagens e saques e que consideram ser perigosas para a segurança”.

Mateus Rodrigues nega esta ação em declarações ao Observador: “Ninguém está a ser perseguido. Não há caça ao homem. Os indivíduos estão a ser detidos porque estão implicados nos atos de arruaça, vandalismo e pilhagem. E eles são levados para o órgão de justiça, são levados para o tribunal. Estão instruídos processos, inclusive estão a ser julgados e estão a ser condenados”.

O raciocínio do sub-comissário é linear: “Se há condenações é porque há factos. Então eles não estão a ser detidos por perseguição ou por qualquer outra situação. Estão a ser detidos por envolvimento provado nos atos que levaram à violência nos dias 28 e 29″.

O balanço provisório das autoridades angolanas aponta para 22 mortos, 197 feridos e 1.214 detenções nos dois dias de tumultos registados na província de Luanda, durante uma paralisação de taxistas, avançou hoje o Governo, Luanda, Angola, 30 de julho de 2025. Os protestos violentos coincidiram com a greve de operadores de táxis, contra o fim dos subsídios aos combustíveis e as manifestações contra o aumento do custo de vida convocadas para segunda, terça-feira e hoje. AMPE ROGÉRIO/LUSA O balanço provisório das autoridades angolanas aponta para 22 mortos, 197 feridos e 1.214 detenções nos dois dias de tumultos registados na província de Luanda, durante uma paralisação de taxistas, avançou hoje o Governo, Luanda, Angola, 30 de julho de 2025. Os protestos violentos coincidiram com a greve de operadores de táxis, contra o fim dos subsídios aos combustíveis e as manifestações contra o aumento do custo de vida convocadas para segunda, terça-feira e hoje. AMPE ROGÉRIO/LUSA

▲ Carros foram vandalizados (neste caso carbonizado) tal como as lojas pilhadas

AMPE ROGÉRIO/LUSA

O líder do Bloco vê aqui mais do que razões de segurança ou de tentativas de dissuasão: o Governo do MPLA quer “penalizar os ativistas, aplicar-lhes uma pena qualquer, para não serem ativos no processo eleitoral [de 2027] de maneira a que não se possam candidatar”, sublinha o político.

Os “terroristas” e a “ligação aos russos” na versão do Governo

“O primeiro alvo [do Governo] foram os taxistas, o segundo a sociedade civil e a seguir, vão fazer conexões com os partidos políticos”, previa Filomeno Vieira Lopes num telefonema com o Observador nesta quarta-feira.

Na quinta-feira à noite chegava a notícia da detenção de um líder da JURA, o braço jovem da UNITA. Porta de casa arrombada, o jovem foi levado pelo SIC, segundo o partido, sem mandado de detenção. Quando, mais tarde, confirmou ter levado Oliveira Francisco, conhecido por Buka Tanda, alegou ter o respetivo mandado. Mais: informou que o Secretário Nacional da Mobilização da JURA era suspeito de terrorismo e associação criminosa, bem como o seu primo, um jornalista da TPA, igualmente detido e um terceiro homem de 58 anos.

No dia seguinte Buka Tanda (e os outros dois detidos) eram ligados à Rússia. Ao início da noite de sexta-feira, o SIC informava que, “na sequência investigativa relativamente a detenção de três cidadãos nacionais” tinha ainda detido em Luanda, “dois cidadãos estrangeiros de nacionalidade supostamente russa, identificados por Ígor Racthin, de,38 anos e Lev Lakshtanov, de 64 anos, por fortes indícios da prática dos crimes de associação criminosa, falsificação de documentos, terrorismo e financiamento ao terrorismo”. No comunicado publicado na página oficial do organismo no Facebook, lê-se que procediam ao “recrutamento e financiamento de cidadãos nacionais para produção de matérias de propaganda e difusão de informações falsas nas redes sociais, promoção de manifestações e pilhagem”.

O SIC “detetou que estes indivíduos estão ligados a organizações criminosas internacionais, que atuam em África”, refere na nota à imprensa. “Dedicam-se à produção de estratégias de campanhas de desinformação e propaganda nas redes sociais nos países em fase de pré-campanhas ou mesmo em campanhas eleitorais, legislativas ou presidenciais, para mudança de regimes legalmente estabelecidos, através da alteração da ordem”.

▲ Protestos foram protagonizados sobretudo pelos jovens

LUSA

A autoridade diz que “está no encalço de outros suspeitos já identificados, que receberam os montantes em dólares norte-americanos e kwanzas que seriam utilizados para financiamento de manifestações nas províncias de Luanda e Benguela”.

Luzia Moniz lembrou-se de imediato das palavras de João Lourenço, muito criticadas por terem sido tardias e atirarem a responsabilidade dos tumultos para organizações antipatrióticas nacionais ou estrangeiras. “Logo que ouvi a mensagem depois do massacre, disse que era uma declaração de guerra. As detenções/prisões de jornalistas, políticos, ativistas, etc. mostram um país em estado de guerra”, afirmou a socióloga angolana.

"Se o MPLA continuar a auto-destruir-se, em vez de se atualizar e se modernizar (como querem os seus verdadeiros militantes), o resultado será apenas o seu afastamento do poder – ou pelas urnas, ou pela força"
Paulo de Carvalho, deputado do MPLA

“Quem quer que seja que tenha orquestrado e conduzido esta ação criminosa saiu derrotado e ajudou-nos a todos, ao Executivo e à sociedade, a tomar medidas preventivas e melhores formas de reagir em caso de reincidência, com vista a minimizar os danos sobre as pessoas e o património”, disse o Presidente numa mensagem à Nação, divulgada pela Televisão Pública de Angola no dia 1 de agosto.

Mas se há um facto em que concordam os vários interlocutores escutados pelo Observador para este artigo, à excepção dos do Governo e do MPLA, é que o protesto não foi organizado mas sim espontâneo. E também por isso se reveste de um valor diferente.

Estes não foram uns distúrbios quaisquer, “têm outro significado”, considera Sedrick de Carvalho. “As pessoas estão saturadas, passam a assaltar e a pilhar. Aqueles dias coincidiram com a greve dos taxistas, pode acontecer mais vezes. No passado [2022], também numa paralisação dos taxistas foi vandalizada a sede do MPLA e um autocarro incendiado. Agora o efeito foi maior”, sublinha o também escritor.

A “gravidade também. A polícia disparou à queima-roupa, bens privados foram saqueados e vandalizados, o número de pessoas a pilhar, pessoas vestidas para irem trabalhar, com empregos normais, a roubarem. E maioritariamente não levavam bens de luxo, telemóveis ou televisões, esse número é muito reduzido, mas sim comida para comer. Não eram vândalos, eram pessoas com fome. Que estão a caminhar, veem o saque e vão e também roubam. Isto mostra que há fome em Luanda“, frisa o ativista.

Afinal, como é que uma paralisação com o mote “Fiquem em casa” resvalou para um caos violento e mortal?

A desinformação na origem e os lotadores piquete-de-greve

Os taxistas nunca marcaram uma manifestação, frisa Sedrick de Carvalho, mas sim uma paralisação. O problema foi que “os media estatais divulgaram desinformação; na véspera, começaram a dizer que não ia haver greve e as pessoas confiaram e saíram para a rua para ir trabalhar” para apanhar o transporte”, sublinha o ativista. Ficaram horas de pé, nas filas, à espera dos candongueiros que nunca chegaram.

Na véspera, era difícil perceber o que ia acontecer. Francisco Paciente, o presidente da Associação Nacional de Taxistas de Angola, dizia que não haveria paralisação, mas numa “história mirabolante”, como lhe chama Filomeno Vieira Lopes, o vice-presidente confirmava que sim, bem como outras organizações, como a Associação Nacional de Taxistas de Luanda. “Perante várias informações a negar a convocação, eles reuniram e no final, Rodrigo Catimba é raptado e aparece num vídeo com um ar muito assustado a dizer que a paralisação estava desconvocada. Quando se sentiu livre, voltou a dizer que estava convocada”, recorda o coordenador do BD.

Sedrick de Carvalho crê mesmo que o problema esteve no que foi transmitido pela TPA e pela Rádio Nacional de Angola. “Foi o Governo que provocou isto, com a mentira e a desinformação de que não se iria realizar, fez manipulação grosseira da informação com ajuda da imprensa estatal e acreditou que a mensagem iria passar aos taxistas”. Passou a uns e não a outros. Às 4h, 5h e 6h as pessoas saíram, como habitualmente, para irem trabalhar. Mas não havia táxis. Havia sim “piquetes de greve”, diz Carlos Rosado de Carvalho. Não dos taxistas, mas dos chamados lotadores, as pessoas que chamam os clientes para os táxis (neste negócio há vários intervenientes, os proprietários das carrinhas, os motoristas, os cobradores dos bilhetes e os angariadores de passageiros).

Os taxistas (motoristas) não saíram à rua, mas os lotadores sim, ou melhor, não saíram da rua. “Muitos são marginais, vivem nas ruas, e quando os transportes públicos começam a circular eles lançam pedras, partem vidros”, descreve Sedrick. “Foram um piquete de greve, impediram os outros de trabalhar, incluindo os gira-bairros (carros de particulares, inclusive de deputados, em que o  motorista, quando o dono do carro não precisa dele, faz de táxi em pequenos percursos)”, resume Carlos Rosado de Carvalho. O economista vive perto de um dos locais onde foi filmado um vídeo muito partilhado: uma pequena multidão faz recuar um carro amarelo que tenta passar em vão, faz marcha atrás, e depois acelera contra o grupo atropelando várias pessoas.

A ação dos lotadores teve um efeito de contágio, explica Sedrick de Carvalho. “As pessoas, cansadas de esperar, saturadas com o aumento do custo de vida, acabam por entrar num protesto espontâneo, não organizado”. E quando surgem as pilhagens e os saques, “acabam por roubar também”. É por isso “que a polícia é apanhada de surpresa. Não havia qualquer manifestação convocada para aquele dia”.

Naturalmente, responde o porta-voz do MI, “não é possível a polícia ser apanhada de surpresa”.

"É um plano bem gizado do ponto de vista político" e uma "maquinação muito perigosa"
Filomeno Vieira Lopes, coordenador do Bloco Democrático

Filomeno Vieira Lopes estranha a forma como o caos se instalou. “Foram elementos estranhos à paralisação que colocaram pneus e troncos de árvores a arder no meio das estradas. Mas às 6h da manhã a polícia já estava nas placas (principais paragens de candongueiros) e esses locais têm câmaras, por isso já sabia de tudo o que se estava a passar”. Daí que o líder do Bloco exija uma investigação apurada, que analise as imagens da videovigilância.

Foram precisamente as imagens dessas câmaras que forneceram elementos para as detenções que se seguiram, explica Mateus Rodrigues.

Adalberto Costa Júnior não estava à espera do que viu nos vídeos e ouviu dos relatos: “A dimensão do que aconteceu surpreendeu-nos, os assaltos aos carros que queriam trabalhar, o carro a ir contra as pessoas, o excesso de violência, isso não é normal em Angola”. Essa é uma das razões que leva o líder da UNITA a defender, tal como o BD, “que as autoridades aprofundem a investigação para perceber se o povo não foi só atrás de quem começou de facto a pilhar e saquear, para perceber de quem partiu os atos de vandalismo”.

Também Emerson Paim, um empresário diretamente afetado pela subida do preço dos combustíveis, que não contesta, pede respostas. “O que é que aconteceu? Houve falta de atenção da polícia? Porque é que as manifestações de apoio ao Governo, as saídas do Presidente do Palácio ou a realização de eventos como o USA Africa Summit, têm um aparato policial e até militar que não se viu num dia em que era previsível que houvesse problemas?”, pergunta o dono da plataforma Kubinga (uma espécie de Uber angolano). “Precisamos de explicações, de entender”, solicita. O porta-voz da Polícia Nacional responde ao Observador “que naturalmente que não” corresponde à verdade essa ideia.

"Acabemos de vez com as festanças de aniversário, de alegria exacerbada e difundidas até ao ridículo pelas redes sociais, quando a 200 metros das nossas casas há pessoas a viver na indigência, mas a assistirem a esse teatro absolutamente indigesto"
Paulo de Carvalho, deputado do MPLA e membro do Comité Central

Houve “primeiro passividade da polícia, deixar fazer as coisas e depois agir com o máximo de agressividade e balas reais. As mortes foram fora do contexto das pilhagens”, destaca Filomeno Vieira Lopes. O líder do BD vê “uma intenção de criar o caos para suspender a ordem democrática, reprimir e atemorizar, impedindo as manifestações contra a subida do preço dos combustíveis, do custo de vida, das propinas”.

O líder do Bloco descortina ainda mais implicações políticas: “Com esta perturbação toda desviam-se as atenções da discussão da lei eleitoral, as leis passam, a composição desigual da Comissão Nacional de Eleições fica fechada e assim fica já montada a fraude eleitoral, sem que se tenha criado um movimento de opinião pública que permita mudar a lei”. É “um plano bem gizado do ponto de vista político” e uma “maquinação muito perigosa”.

▲ As associações de taxistas demarcaram-se das barricadas nas vias públicas e de qualquer violência mas foram detidos na mesma

LUSA

Seja como for, e porque o país não se esgota no Palácio da Cidade Alta, a UNITA e o BD querem levar o assunto à Assembleia Nacional. Filomeno Vieira Lopes pretende num ponto prévio da agenda fazer aprovar uma resolução a condenar a violência policial. E Adalberto da Costa Júnior pediu um debate de urgência sobre as causas que levaram aos tumultos do final de julho. Uma solicitação que o MPLA, contactado pelo Observador, diz ainda não ter recebido. “Não conhecemos qualquer pedido neste sentido, pelo que seria prematuro dizer se aceitaremos ou não” respondeu o porta-voz do partido, Hilário Esteves.

O camião que vai buscar comida ao Huambo não é igual ao Ferrari que se passeia em Luanda

A apreensão generalizada que se vive em Luanda, com o medo de que a violência de fim de julho se repita, tem um motivo para ser repetido à exaustão no espaço público, inclusive por vozes do MPLA: as razões que não se alteraram. A paralisação dos taxistas era uma forma de contestar a subida do preço do gasóleo, que leva ao aumento da tarifa da viagem, duplicando-a, fazendo com que em muitos casos o trabalhador gaste todo o seu salário mensal em transportes, como explicou ao Observador o jornalista Rafael Marques.

Ninguém “minimamente informado em Angola é contra a subida do preço do gasóleo por via da retirada dos subsídios estatais aos combustíveis, que vem acontecendo desde 2023”, admite Emerson Paim. O problema “é a forma como se faz”, adiciona o empresário, opinião partilhada por Carlos Rosado de Carvalho e Adalberto Costa Júnior.

Não faz sentido esta mensagem de João Lourenço com a teoria da conspiração sobre os protestos, o que aconteceu foi espontâneo. A ocasião fez o ladrão e o ladrão apareceu numa população que sobrevive no limite do desespero social"
Reginaldo Silva, jornalista e membro da ERCA

“Quando um país gasta mais em subsidiar os combustíveis do que em saúde e educação juntas, alguma coisa está mal”, nota o economista para defender a inevitabilidade e necessidade de acabar com essa medida. Mas “esse aumento, que não é único — a água e a luz subiram 30 e 40%, os táxis de transporte coletivo 50%, as propinas também ficaram mais caras num país onde cinco milhões de crianças, mesmo as mais pobres, estão em colégios privados — e que se reflete noutros bens essenciais como os alimentares, tem de ser usado na melhoria do sistema de transportes públicos, nas condições dos passageiros, na educação, na saúde, etc”, insiste Carlos Rosado de Carvalho.

“O Governo comunica mal” diz o líder da UNITA, “não gosta de ouvir, não partilha as questões e não discute com outros, o que não lhe permite recolher contributos para resolver problemas. Se o fizesse, talvez não estivesse a conduzir este processo dos combustíveis de forma tão desastrosa”.

“Descobrimos no próprio dia que o gasóleo subiu 33%, o que tem muitos custos desnecessários. Imagine o camião fora de Luanda, ou a cruzar a fronteira, em que os motoristas vão para zonas onde o combustível falha e levam dinheiro contado” queixa-se Emerson Paíim. “É impossível fazer bons planos de negócio assim, a que se junta a dificuldade de gerir a variação cambial para os bens que se compram em divisas, por exemplo”.

"Há uma completíssima degradação do nível de vida das populações"
Adalberto Costa Júnior, líder da UNITA

Se “o Governo não sabe fazer, chame a academia, as organizações de transporte, os especialistas”, apela Emerson. “Não faz qualquer sentido taxar de igual forma o camião que vai buscar alimentos ao Huambo e o Ferrari que se passeia por Luanda. No primeiro caso reflete-se no preço da cesta básica, que o Governo diz querer proteger: como é que o distribuidor vai vender o que o retalhista lhe trouxe já mais caro?”.

Esta situação “é insustentável” frisa o empresário, uma frase que Adalberto Costa Júnior utiliza frequentemente: “Há uma completíssima degradação do nível de vida das populações” diz o líder da UNITA que recentemente, apresentou numa conferência algumas propostas, como a necessidade de se quebrar o monopólio das decisões dos combustíveis em Angola”.

O milho que cai dos camiões, comer nos caixotes do lixo e as 19 mil árvores de aula

O preço do gasóleo, é no entanto, apenas uma das faces do descontentamento geral, um pretexto. Carlos Rosado de Carvalho fez contas e chegou à conclusão que entre 2017 e 2025 as pessoas que vivem com o salário mínimo perderam 1/3 do poder de compra, “só conseguem comprar 66% do que compravam em 2017, quando João Lourenço assumiu a presidência. “Há dados que mostram que as famílias angolanas estão hoje substancialmente mais empobrecidas do que há uma década”, realçou o padre Celestino Epalanga, da Comissão Justiça e Paz da Confederação Espiscopal de Angola e S. Tomé, na conferência de imprensa em que condenou as “execuções sumárias”.

“O protesto é mais amplo, antes já tinha havido manifestações por causa das propinas, e não se pode prender tudo e todos porque vandalizaram. Se há uma coisa que se percebe é que, contrariamente ao que o Presidente disse, isto não é organizado por ninguém, é espontâneo e corajoso, enfrentaram a polícia sem armas, apenas com umas pedras e uns paus”, salienta Carlos Rosado de Carvalho.

▲ São frequentes os relatos (e os vídeos nas redes sociais) que mostram crianças e adultos à procura de comida nos caixotes do lixo

LUSA

Porém a leitura mais cortante vem novamente do deputado do MPLA: “Se a atual situação de penúria já é comparável ao que sucedia no período colonial, quanto mais mortes houver, mais próximos estaremos da comparação com as atrocidades cometidas pelo regime colonial em Angola”, escreveu Paulo de Carvalho.

Nelson Cultura, do bairro da Mubiala, é mais simples ao enunciar as razões: “Fome, há fome.” O Governo “diz que não tem dinheiro e compra carros de luxo, passa a vida a viajar para o estrangeiro e enquanto isso o povo está a morrer de fome, a comer no caixote do lixo, a recolher grãos de milho na via Expresso, que liga Benfica ao Cacuaco, o milho que os camiões deixam cair de madrugada”.

No ano em que se assinala meio século da independência de Angola, Francisco Teixeira diz que “paz é criar condições de vida para todos, mas não é isso que acontece. 50 anos e uma minoria tem tudo e uma maioria vive na indigência extrema. 50 anos e mais de 9 milhões de crianças sem escola, 19 mil árvores de aula [crianças aprendem debaixo de uma árvore] e muitas outras em que não há carteiras, sentam-se no chão”. Isto “sem falar no ensino superior onde só 20% é público, e a Universidade Agostinho Neto, por exemplo, não recebe mais alunos porque o Governo não tem dinheiro para contratar professores mas gasta 6  milhões de dólares para trazer cá o Messi. Não há cadeiras, não há quadros, não há giz nas escolas, mas há muitos milhões para um jogo amigável entre a seleção argentina e a angolana”, censura.

▲ A repressão policial causou pelo menos 30 mortes e 200 feridos

LUSA

O salário da filha do Presidente que aumentou a revolta

O que aconteceu no fim de julho “reflete a revolta dos angolanos que não têm o que comer e todos os dias veem os filhos de uma elite a esbanjar dinheiro em futilidades. Aqueles três dias mostraram o acumular de raiva, de sofrimento, de falta de oportunidades, foi a reação a anos de má governação. Infelizmente o Palácio está preocupado com as consequências e não com as causas”, atira Francisco Teixeira.

Esta “revolta não se mata, não se prende, não se cala”, avisa o dirigente do MEA. “Escuta-se, compreende-se, tenta-se resolver. Mas com tantos protestos que os estudantes já fizeram e o Governo nunca quis falar connosco”.

Um dado surgido esta semana veio acicatar ainda mais este sentimento de injustiça. O valor do salário da filha de João Lourenço, presidente da Bodiva, a bolsa de valores de Angola.  O jornal Valor Económico olhou para os dados da instituição do segundo trimestre deste ano e chegou à conclusão que Cristina Lourenço recebe 181,7 milhões de kwanzas mensais (mais de 170 mil euros).

O inquilino do Palácio da Cidade Alta aumentou o salário de todo o conselho de administração em 121%, diz o jornal, revelando ainda que os custos com o pessoal chegam aos 1,464 mil milhões de kwanzas, mais do que as receitas de 965,286 milhões de três meses.

Luzia Moniz fez contas: o salário mensal de Cristina Lourenço (sem somar com as regalias todas) passa a ser quase igual ao salário anual do secretário-geral da ONU, António Guterres. “Isto aumentou ainda mais a revolta, as coisas podem, de facto, sair dos carris”, diz a socióloga.

A Bovida reagiu, apresentou outros números, e explicou que o acréscimo dos custos com pessoal de 17,1% tinha a ver com um ajuste nas remunerações dos órgãos sociais aprovado pelos acionistas e prémios de desempenho.

Os estilhaços que estão a “ferir” o MPLA: se não muda, perde o poder “nas urnas ou pela força”

Higino Carneiro foi o primeiro, Valdir Cónego até pediu judicialmente a destituição de João Lourenço, mas o que mais atingiu as fileiras dos camaradas foi mesmo Paulo de Carvalho, que faz uma crítica ferozmente educada a João Lourenço.

As “ondas de choque dos três dias de tumultos estão a condicionar a vida política, e afetaram o MPLA, que não está a conseguir passar ao lado delas”, admite Reginaldo Silva que se foca nas oito páginas disruptivas que o deputado e presidente da Academia de Letras de Angola publicou com o título Os subsídios da desgraça.

“As reivindicações populares só acontecerão se os cidadãos virem desrespeitados os seus direitos. Por mais que a oposição os espicace, os cidadãos só reivindicarão se sentirem os seus direitos ameaçados”, escreveu o académico, membro do Comité Central do partido. Uma opinião nada alinhada com o presidente do MPLA que aludiu aos “atos protagonizados por cidadãos irresponsáveis manipulados por organizações antipatriotas nacionais e estrangeiras através das redes sociais”.

O deputado toca ainda mais na nota de distanciamento aos argumentos de João Lourenço ao clarificar: “Os atos de vandalismo que ocorreram na semana passada surgiram na sequência de uma medida governamental e não por ação de qualquer partido político da oposição”.

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▲ A 26 de julho, uma manifestação contra a subida do custo de vida e pela libertação dos presos políticos decorreu sem violência

AFP via Getty Images

Por outro lado, condena a atuação da polícia durante os protestos, classificando-a como desproporcional e não se focando apenas nestes três dias: “A polícia tem de deixar de agredir e matar pessoas sem disso haver real necessidade, como sucede em caso de manifestações. Uma coisa é a polícia reagir a um ataque (e deve fazê-lo!), outra é atuar à lei da bala em reação a palavras proferidas por manifestantes desarmados”.

Acusando do Governo de falta de planeamento, transparência e comunicação eficaz ao implementar uma medida impopular, Paulo de Carvalho atacou o “despesismo e esbanjamento estatal”, defendendo que os recursos poupados com o fim dos subsídios aos combustíveis fossem direcionados à melhoria de vida das populações carenciadas.

“Não digo que as instituições não possam dispor de viaturas (…) mas devem ser viaturas mais modestas. Não digo também que os ministros deixem de viajar, mas que trabalhem mais e viajem apenas o indispensável”, aconselha.

“Quando já todos estivermos com bilhete de identidade, com escola, com emprego e com acesso aos cuidados primários de saúde, aí sim, podemos ir melhorando. Mas sem atingirmos os níveis de despesismo e de esbanjamento a que nos habituámos”, insiste. “E, já agora, acabemos de vez com as festanças de aniversário, de alegria exacerbada e difundidas até ao ridículo pelas redes sociais, quando a 200 metros das nossas casas há pessoas a viver na indigência, mas a assistirem a esse teatro absolutamente indigesto”, insurge-se.

“Os governantes têm de aprender a descer às bases, para perceberem como as pessoas comuns raciocinam e atuam”, exorta o professor universitário. “Enquanto se mantiverem em bicos de pés, continuarão a cometer erros atrás de erros, desgovernando ou governando apenas para si próprios, em função dos seus interesses pessoais ou de pequeno grupo”.

▲ Um segurança guarda as instalações do maior centro comercial de Luanda, Cidade da China, no dia 30

LUSA

O sociólogo também não poupa a comunicação social estatal :”Tem de ser necessariamente apartidária. E tem de se abster de fazer contra-propaganda. (…) De que valeu levar ao Telejornal da TPA uma certa associação comunitária de taxistas? Quantos taxistas ela representa, ao ponto de anunciar uma suposta ‘desconvocação da greve’? Com que objetivo se faz isso, se não for para criar problemas e semear a confusão? Estava claro à partida que o efeito só poderia ser negativo, para confundir as pessoas – como sucedeu na realidade. Como podem vir, depois, na mesma TPA, oficiais da polícia dizer que as pessoas deveriam ficar em casa durante os três dias de greve, se foi a própria TPA que disse às pessoas que a greve estava a ser desconvocada e, por isso, todos deviam ir trabalhar no dia seguinte?”

Mais, avisa Paulo de Carvalho: “Se o MPLA continuar a auto-destruir-se, em vez de se atualizar e se modernizar (como querem os seus verdadeiros militantes), o resultado será apenas o seu afastamento do poder – ou pelas urnas, ou pela força”.

Reginaldo Silva chama a este manifesto de Paulo de Carvalho um “verdadeiro ato de coragem política, raro dentro do MPLA”, que “viralizou nas redes sociais e não só” e “mobilizou o debate no seio do partido”. Luzia Moniz salienta que “a oposição interna a Lourenço tornou-se audível, o que não acontecia desde o reinado de José Eduardo dos Santos”, há quem esteja “descontente com o rumo que o líder está a dar ao partido”.

Os reparos, conselhos e críticas de Paulo de Carvalho causaram algum desconforto à cúpula do partido, assumiu ao Observador um membro do Comité Central. Mas não ao porta-voz do partido: “O MPLA é um partido democrático que tem dentre os seus pilares o pluralismo de opinião. Somos mais de quatro milhões de militantes a pensarem com as suas próprias cabeças, é natural que não haja unanimidade em todos os assuntos”, reagiu Hilário Esteves ao Observador.

“É natural que sobre este ou aquele tema haja vozes discordantes, entretanto, nos órgãos e organismos próprios do partido as pessoas exprimem as suas opiniões. Julgamos ser absolutamente normal, num partido de matriz democrática”, reforçou. Mas a resposta tem uma nuance. Paulo de Carvalho tornou pública a sua análise que coloca em causa as decisões e afirmações do Presidente nesta matéria.

Um “país em colapso social” e um “Presidente pouco empático”

Antes do deputado, também o general histórico do partido, um dos homens-fortes de José Eduardo dos Santos, diplomata e pré-candidato à liderança do MPLA (por si só, um facto inédito, “nunca ninguém apresentou uma candidatura pública ao lugar”, confirma Luzia Moniz) saiu ao terreiro. É preciso ouvir as ruas, disse o antigo governador de Luanda, numa mensagem tornada pública. Logo no primeiro dia da paralisação, invocou o direito consagrado no artigo 47.º da Constituição da República de Angola, que garante a participação dos cidadãos na vida pública e política.

"Não houve um telefonema, uma nota de solidariedade quando o meu vice-presidente foi preso, nenhuma visita à cadeia, de nenhum político, nenhum partido, nenhum deputado, nenhum membro da sociedade civil"
Francisco Paciente, presidente da Associação Nacional de Taxistas Angolanos

“A juventude tem desempenhado um papel dinâmico e consciente, afirmando-se como um segmento fundamental da sociedade angolana. A sua participação é legítima e deve ser respeitada e ouvida”, realçou Higino Carneiro. “O momento exige escuta ativa, responsabilidade e concertação, com o objetivo de promover o progresso sustentável e um desenvolvimento equitativo para todos os cidadãos”, concluiu.

Ora uma das críticas mais repetidas a João Lourenço é precisamente a sua incapacidade para ouvir. “O Presidente está alheio ao clamor das pessoas”, desaprova Reginaldo Silva.

Um outro pré-candidato à presidência do MPLA e do país e membro do Comité Central não se ficou só pelas palavras. Valdir Cónego levou uma providência cautelar ao Tribunal Constitucional para suspender João Lourenço da direção do partido até ao congresso eletivo.

“O país entrou no colapso social, onde a fome, a miséria e pobreza extrema assolam mais de 25 milhões de cidadãos angolanos”, alega no documento a que o Observador teve acesso. O militante fundamenta“a causa do vandalismo” na “fome e os efeitos foram mais graves, resultando na morte de mais de 30 cidadãos angolanos, culpa de quem dirige a nossa nação Angola, no caso, culpa do Presidente João Lourenço”.

Valdir Cónego diz que o povo angolano “já não quer mais o Presidente João Lourenço” e que os militantes do partido “clamam pela sua saída da liderança do partido por manchar o bom nome e reputação do MPLA nestes 50 anos, sendo o pior Presidente da história de Angola” e da história do partido.

Até sábado, o porta-voz do MPLA dizia desconhecer este pedido de providência cautelar: “Desconhecemos este assunto. Nunca fomos notificados pelo Tribunal Constitucional sobre esse tema. A ser verdade, está a dar-me uma novidade”.

▲ Milhões de pessoas dependem dos táxis coletivos para irem trabalhar

LUSA

Se este militante pede a saída de João Lourenço da liderança do MPLA, o movimento cívico Mudei lançou uma petição pública em que pede a sua destituição de Presidente de Angola, por “repressão, autoritarismo, violações sistemáticas dos direitos humanos e execuções sumárias”.

“O MPLA está a sentir desta vez com maior intensidade o impacto destes protestos e isto pode ter outras repercussões. Vamos ver se João Lourenço escutou o que tantas vozes disseram e se passa a ser o Presidente de todos os angolanos e não apenas o presidente do MPLA e o Comandante em Chefe das Forças Armadas e chefe do Governo” apela Reginaldo Silva. “É muito pouco empático, não faz sentido esta mensagem da teoria da conspiração sobre os protestos, o que aconteceu foi espontâneo. A ocasião fez o ladrão e o ladrão apareceu numa população que sobrevive no limite do desespero social”, conclui.

“Estamos sozinhos, atirados à nossa sorte”

Quem se queixa de “interferências e aproveitamento político” da paralisação dos taxistas é mesmo Fernando Paciente, cuja leitura da situação toca na de João Lourenço. “Há grupos de milícias digitais que nem estão em Angola que vão atiçando para nova vaga de paralisações, sem se solidarizarem-se connosco sequer e causando perigo para os rostos vísiveis da liderança dos taxistas”, acusou.

O presidente da ANATA, antes de ser detido, manifestava a sua desilusão com partidos e ativistas sociais ao Observador: “Vão para as redes sociais, partilham informação relevante sobre paralisações sem falarem connosco, sem contactarem diretamente connosco”.

Recusando-se a identificar a quem se referia, limitava-se a, numa voz pausada, reclamar o apoio que diz que não teve: “Não houve um telefonema, uma nota de solidariedade quando o meu vice-presidente foi preso, nenhuma visita à cadeia, de nenhum político, nenhum partido, nenhum deputado, nenhum membro da sociedade civil”. Com uma exceção, a Ordem dos Advogados que se tem multiplicado na ajuda aos 1500 detidos.

“Estamos sozinhos, atirados à nossa sorte, quando esperávamos contar com o apoio dos partidos da oposição e da sociedade civil”, ueixa-se Francisco Paciência. Desta vez não pode desconvocar e o seu vice convocar de novo. Continuam os dois detidos, acusados de terrorismo, incitação à violência e associação criminosa. Novas paralisações dificilmente virão do lado dos taxistas tão cedo.

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