À cautela, a maioria das pessoas ficou em casa esta terça-feira em Luanda. “Por precaução, mantivemos a empresa fechada”, diz ao Observador um luso-angolano que prefere não se identificar. “Há caos, destruição e medo. Do nosso lado, porque do lado dos arruaceiros parece que não. O povo perdeu o medo”, diz o empresário. “As lojas estão fechadas, os táxis parados, há mais polícias e militares nas ruas, sente-se a tensão no ar”, continua.
Ontem, segunda-feira, quatro pessoas morreram e mais de 500 foram detidas na sequência dos atos de vandalismo e saques a lojas e bancos, durante a greve dos taxistas que contestam a subida do preço do gasóleo depois do fim dos subsídios estatais. Os números foram avançados esta terça-feira de manhã pelo porta-voz da Polícia Nacional de Angola, o subcomissário Mateus Rodrigues, que adiantou que os dados provisórios indicam também 45 lojas vandalizadas, além de agências bancárias, autocarros e viaturas particulares danificadas.
Às 20h00, no segundo balanço feito pela polícia, já eram cinco as mortes e 1.214 os detidos não só em Luanda mas também em Icolo e Bengo e, bem mais longe, no Huambo. O número de detenções vai continuar a subir, disse Mateus Rodrigues, garantindo que do ponto de vista da segurança pública a situação em Luanda é estável e está sob controle. O subcomissário adiantou que a quinta morte registada nestes dois dias é a de um polícia, em exercício de funções, na província de Icolo e Bengo (que fazia parte da província de Luanda até 2024).
@januariobeatz2
“Hoje [terça-feira] tivemos as nossas forças muito mais atentas, muito mais próximas das ocorrências e esses atos foram reprimidos de forma contundente, o que permitiu que por volta das 16h00 a ordem estivesse praticamente reposta”, garantiu, dando também conta de problemas nas províncias do Huambo e Icolo e Bengo, mas frisando que a situação já está controlada.
O subcomissário informou ainda que uma viatura da Polícia Nacional tinha ficado danificada ao embater contra uma parede em Viana, nos arredores de Luanda, com ferimentos ligeiros dos agentes. E avisou que, ao longo da noite, a polícia vai manter as medidas de segurança, em alguns casos, reforçá-las. A intenção dos cidadãos envolvidos “é tão-somente a pilhagem dos estabelecimentos comerciais”, afirmou, antes de acrescentar:
“Eles utilizam como modus operandi a colocação de barricadas nas estradas, incendiam pneus, para impedir a circulação e posteriormente a intenção é vandalizar e pilhar os estabelecimentos comerciais”.
Assim, a PNA vai intensificar e reforçar a proteção aos estabelecimentos comerciais em Luanda, Icolo e Bengo e em outras províncias, “para evitar que as situações registadas possam voltar a verificar-se”, prometeu.
Protestos em Angola eram previsíveis com degradação da qualidade de vida, dizem analistas
Apesar de, esta terça-feira, Luanda ter amanhecido sem a habitual agitação, com ruas vazias, comércio encerrado e ausência quase total de táxis e mototáxis como os repórteres da agência Lusa constataram em vários locais, as pilhagens ainda se verificam.
@untra10
@labaredasdosenhor Última hora ???? em Luanda as coisas estão fora do controle! manifestação contra custo de vida #palops???????????????????????????????????????? #luandaangola????????????
A insegurança continua, com saques e atos de vandalismo a ocorrerem sobretudo nas zonas periféricas, tendo como principal alvo os supermercados. Nas redes sociais há imagens de problemas em vários locais da cidade, como na Mutamba e no bairro Sapú, por exemplo.
Cerca das 9h30, na zona da Comarca — estrada de acesso a Cacuaco, uma das áreas mais pobres de Luanda — uma multidão reuniu-se para atacar um supermercado da cadeia Angomart, que já ontem tinha tido algumas das suas lojas pilhadas. A via ficou cortada e a polícia disparou tiros de aviso para dispersar a população, verificou a Lusa no local.
@soaconteceemangola
Relatos recolhidos por jornalistas da Lusa apontam para pilhagens semelhantes em várias lojas de produtos alimentares noutras zonas de Luanda, acompanhadas de tiros e confrontos.
Vídeos partilhados nas redes sociais mostram tentativas de invasão ao megacentro comercial Cidade da China, bem como barricadas improvisadas com pneus a arder nas principais vias de acesso de Luanda.
“Há muitos polícias e militares nas ruas, há tiros em alguns bairros, estradas barricadas. Não é como ontem, mas ainda há muita maka, muita confusão”, conta ao Observador Justino Josias, morador no Prenda, um dos bairros de Luanda. “A minha família está em casa, mas eu tive de fazer um tratamento de saúde, que não podia adiar, tive mesmo de sair”, adianta.
@soaconteceemangola
@kikolonews2 *LUANDA 29 DE JULHO – MANHÃ TENSÃO ????????* Luanda acordou em clima de *insegurança e tensão*. ➡️ *Manifestantes continuam nas ruas*, protestando contra o aumento do táxi e combustíveis. ➡️ Várias zonas já registam *bloqueios, tumultos e vandalismo.* ???? Hoje promete ser um *dia difícil*, pedimos a todos: *Evitem sair de casa, priorizem a segurança!* ???? Acompanha tudo no *YouTube e TikTok – Kikolo News* #ManifestaçõesLuanda #Angola2025 #FiqueEmCasa #KikoloNews
Estabelecimentos comerciais, bancos e diversas instituições mantiveram esta terça-feira as portas fechadas e muitas empresas optaram por colocar os funcionários em regime de teletrabalho, temendo pela segurança, após os episódios de violência ocorridos no dia anterior.
A Associação Nacional dos Taxistas de Angola (ANATA) tinha anunciado, há mais de 20 dias, uma paralisação pacífica entre 28 e 30 de julho, sob o lema “fica em casa”, para protestar contra a retirada dos subsídios aos combustíveis. No entanto, após negociações com o Governo Provincial de Luanda, a ANATA recuou, e na segunda-feira demarcou-se dos atos de violência e anunciou o cancelamento da greve. Porém, a ANATA Luanda manteve a paralisação para os três dias previamente marcados, apesar de condenar o vandalismo da véspera.
“A ANATA Luanda mantém abertos todos os canais de diálogo com as autoridades competentes, com o objetivo de se alcançar um consenso. Contudo, reforça a exigência de que as reivindicações apresentadas pela classe sejam efetivamente atendidas, pois ficou evidente que a voz dos taxistas reflete o clamor do povo angolano”, refere no comunicado.
Esta terça-feira, os populares “candongueiros” (táxis azuis e brancos) continuam parados e os serviços de transporte por aplicativo também não dão resposta à procura, segundo passageiros ouvidos pela Lusa.
A noite não foi pacífica em bairros periféricos como a Estalagem, em Viana, onde foram reportados disparos e ataques a viaturas por grupos de jovens em fúria. Esta terça-feira, continua a ser visível o reforço policial nas ruas, com presença de viaturas militares em pontos estratégicos.
Os protestos violentos ocorrem num contexto marcado pela recente subida dos preços dos combustíveis, após o corte gradual dos subsídios estatais, medida que tem gerado forte contestação social em todo o país.
@samuelfernandopu92 Segundo dia de greve em Angola Luanda #angola????????portugal????????brasil????????r #fyp #fyy #fy #fouryou
João Lourenço é o “responsável último” pelo vandalismo, diz Rafael Marques
“Ao recusar o diálogo com a sociedade e ignorar a necessidade de uma escuta ativa, João Lourenço contribuiu para o agravamento da insegurança pública e da desordem social. Ele é o responsável último pelo vandalismo”, escreveu Rafael Marques, o rosto angolano que se tornou conhecido na luta contra a corrupção no reinado de José Eduardo dos Santos.
“A manutenção de uma governação opaca, sem prestação de contas, alimenta o sentimento de abandono e de revolta entre os cidadãos. Em vez de investir numa cultura de proximidade e transparência, o Estado optou por preservar privilégios e gastos supérfluos, como as viagens presidenciais dispendiosas, enquanto a população enfrenta dificuldades crescentes no acesso à segurança, saúde e educação”, continua o coordenador do Ufolo, Centro de Estudos para a Boa Governação. O jornalista, que assina um artigo esta terça-feira no seu site de investigação MakaAngola, com o título, “Greve dos Táxis, o povo marcha, o Presidente voa”, compara os protestos em Luanda com os gastos em viagens do Presidente angolano.
“Para a mobilidade da maioria dos dez milhões de habitantes de Luanda, não há alternativas aos táxis privados (vulgo, candongueiros)”, começa por explicar.
“O Governo de Lourenço já gastou cerca de 800 milhões de dólares em autocarros para melhorar o sistema de transportes públicos, mas os resultados foram negativos e tão-somente favoráveis à corrupção e à pilhagem legalizadas. A maioria dos 1500 autocarros adquiridos, num total de 742, foi distribuída entre operadoras privadas de indivíduos ligados ao poder, muitas das quais não os colocaram em circulação. Outras centenas foram distribuídas pelos ministérios e mantidas em reserva para as campanhas do MPLA”, denuncia Rafael Marques.
Assim, continua, “com os táxis privados em greve, Luanda paralisa, porque não há um sistema de transportes públicos funcional.”
[Horas depois do crime, a polícia vai encontrar o assassino de Issam Sartawi, o dirigente palestiniano morto no átrio de um hotel de Albufeira. Mas, também vai descobrir que ele não é quem diz ser. “1983: Portugal à Queima-Roupa” é a história do ano em que dois grupos terroristas internacionais atacaram em Portugal. Um comando paramilitar tomou de assalto uma embaixada em Lisboa e esta execução sumária no Algarve abalou o Médio Oriente. É narrada pela atriz Victoria Guerra, com banda sonora original dos Linda Martini. Ouça o segundo episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E ouça o primeiro aqui]
João Lourenço, em recente entrevista à CNN Portugal, nas vésperas da sua visita a Lisboa, dizia que o aumento do preço dos combustíveis tinha sido residual, lembrando que o gasóleo ficava a menos de 50 cêntimos de euro o litro, dizendo que haverá poucos países no mundo com este preço. Mas Rafael Marques faz contas diferentes:
“Entre 2021 e o primeiro semestre de 2024, o subsídio aos combustíveis custou ao Estado cerca de 9,1 biliões de kwanzas, o que equivale a cerca de 15 mil milhões de dólares ao câmbio médio do período. Contudo, a retirada parcial destes subsídios não se traduziu em melhorias reais no transporte público ou no poder de compra da população. Em Luanda, cidadãos com salários mínimos não conseguem pagar os transportes. Alguns chegam a gastar até 44 mil kwanzas por mês apenas em deslocações, montante que representa mais de metade do salário mínimo oficial.”
Na verdade, há outros cálculos a fazer. É a Agência Nacional de Transportes Terrestres que fixa os preços dos táxis (considera-os transportes públicos pois são transportes coletivos) que os quer aumentar para o dobro. Uma viagem passa a custar 300 kwanzas e isso “penaliza quem vive mais longe” diz ao Observador Rafael Marques. “Uma pessoa que viva no Kilamba [bairro periférico a cerca de 30 km de Luanda], para chegar à cidade tem de apanhar quatro táxis. Isso significa 1.200 kwanzas, contando com o regresso, são mais de dois mil kwanzas. Ao fim do mês é mais do que o salário mínimo [70 mil kwanzas, o equivalente a 67 euros], as pessoas acabam por não ter capacidade para irem trabalhar”, avisa.
Por outro lado, escreve o jornalista que recusou ser condecorado pela Presidência angolana com a medalha dos 50 anos de independência de Angola, João Lourenço continua a fazer viagens dispendiosas.
“Apesar da crise interna, o Presidente João Lourenço mantém uma agenda externa imparável de voltas ao mundo, utilizando aviões VIP cujo custo por hora pode ultrapassar os 74 mil dólares e sempre acompanhado de um séquito de mais de cem pessoas”, concretiza no artigo do MakaAngola.
“Essa dissonância entre os gastos de luxo do presidente e do seu Governo e a emergência interna agrava a frustração popular”, avisa Rafael Marques, acrescentando ainda que “levanta sérias dúvidas sobre as prioridades do Estado angolano e a seriedade da sua agenda reformista”, pois “só aperta o povo, nunca os dirigentes”. A crise, “marcada por inflação elevada e dificuldades no sector público, não leva o Governo angolano a cortar uma política de gastos excessivos, especialmente com deslocações presidenciais ao exterior”, lamenta.
Notícia atualizada às 20h30 com o número de mortes e detidos que aumentou.