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Cristina Viola não via nem abraçava a sua mãe Leonor há três meses. Fê-lo hoje com uma cortina de plástico a separá-las.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Cristina Viola não via nem abraçava a sua mãe Leonor há três meses. Fê-lo hoje com uma cortina de plástico a separá-las.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

"Mãe, vou-te abraçar!" Afinal houve um lar com abraços e beijos, mas com uma película de plástico com mangas pelo meio /premium

Cristina abraçou a mãe Leonor três meses depois. A D. Maria Joaquina foi surpreendida pela visita da filha e do neto. Uma cortina de plástico com mangas permitiu os abraços e beijos proibidos.

Foi o primeiro abraço entre mãe e filha em quase três meses. Cristina não via a D. Leonor desde o final de fevereiro. Hoje pôde, finalmente, abraçá-la. Foi o abraço possível. O abraço que ambas esperavam, mesmo sem o toque pele com pele, sem darem as mãos, sem um carinho no cabelo, sem uma festa no rosto, sem um beijo. Entre as duas havia uma fina barreira física. Um plástico transparente e com duas mangas fechadas. Mas que permitiu aquele abraço.

As visitas aos lares de idosos voltaram a ser permitidas a partir desta segunda-feira, mas com muitas regras. Horas marcadas, sem cruzamento entre visitantes, e sobretudo sem contacto físico entre o idoso e o familiar. Ou seja, sem os abraços e os beijos há tanto tempo adiados pelo coronavírus, que pais e filhos, avós e netos tanto querem pôr em dia, para matar as saudades que quase só a tecnologia tem ajudado a superar.

O dia esperava-se portanto de grande alegria e algum sobressalto tanto para idosos como para familiares. Finalmente poderiam ver e ouvir, de perto, os seus pais e os seus avós. E foi com aquela pequena surpresa de plástico que a residencial para idosos Quinta Alegre da Santa Casa de Misericórdia deixou todos ainda mais felizes. Os abraços voltaram a ser possíveis mesmo que com um plástico transparente entre ambos.

A diretora ajuda Leonor Carvalho a colocar os braços dentro das mangas.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Inspirado em vídeos e fotografias virais na internet, este lar resolveu criar uma estrutura, que permitisse filhos abraçar os seus pais e netos os seus avós, sem haver qualquer contacto físico. Uma fina cortina de plástico transparente com duas mangas (umas de um lado, outras do outro), que permitem que duas pessoas se abraçassem sem que haja o risco de qualquer contagio. Quem diria uma película transparente tão fina, quase como uma barreira invisível, dê espaço para um tão grande conforto: um abraço ou vários, através daqueles buracos criados para a ocasião.

[Ouça a reportagem de Teresa Borges no lar Quinta Alegre:]

A sala para os abraços fica no rés-do-chão do lar, que tem entrada direta para a rua. À entrada os pés são desinfetados e um passo mais à frente as mãos. Quem lá entra tem de ter máscara. Na parede do fundo há uma frase que não foi lá colocada ao acaso: "Se a vida é da cor que a gente pinta, que a nossa seja um arco-íris... que tenha a leveza dos abraços e a verdade dos afetos".

A sala para os abraços fica no rés-do-chão deste lar, que tem entrada direta para a rua. Assim os familiares entram diretamente, sem que ser necessário passar pelo interior do lar. À entrada os pés são desinfetados e um passo mais à frente as mãos. Quem lá entra tem de ter máscara. Na parede do fundo há uma frase que não foi lá colocada ao acaso: “Se a vida é da cor que a gente pinta, que a nossa seja um arco-íris… que tenha a leveza dos abraços e a verdade dos afetos”.

O abraço com plástico que substituiu as novas tecnologias

O abraço entre Cristina Viola e a mãe, Leonor Carvalho, o primeiro em três meses, foi testemunhado pelo Observador. “Como é que isto funciona?”, perguntava a dona Leonor. A diretora Tânia Gomes ajudou-a a pôr os braços frágeis dentro das mangas enquanto a sua filha vestia uma bata e calçava umas luvas. “Estou nervosa, já não abraço a minha mãe há quase três meses”, desabafava Cristina sem medo de que a mãe a ouvisse. “A minha mãe não ouve nada bem”, explicava entretanto.

Momento do abraço entre mãe e filha três meses depois.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

“Agora estique os braços. Isso”, continuava a diretora do lar. D. Leonor, apesar de tudo de máscara e já com os braços naquela manga, abraça a filha. Finalmente. O abraço, longo, é acompanhado por beijos, sempre com a tal cortina de plástico pelo meio. “Já é melhor que nada. Abraçar a minha mãe…”, desabafa Cristina.

Vão depois continuar a sua conversa sentadas. E há tanto para contar. Tantas coisas que mudaram desde a última vez que se viram. Sentadas frente a frente a conversa é feita com alguma dificuldade com a falta de audição da dona Leonor. O plástico não ajuda, foi apenas uma grande ideia para matar as saudades. “Mas a solidão está cá”, desabafa a dona Leonor.

Cristina Viola começou por adiar o momento de enfrentar o fato de plástico facilitador de abraços. “A estratégia está bem, mas como ela me ouve muito mal, estar a pôr [o braço] de lá e eu estar a pôr de cá…” Não achou fácil e resistiu.

Momento do abraço entre mãe e filha três meses depois.

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A prioridade de Cristina, de 55 anos, mal entrou na estrutura residencial Quinta Alegre, em Lisboa, era estender a tão aguardada visita ao resto da família. “A minha primeira preocupação foi que as minhas irmãs, a minha filha, a minha sobrinha… que a família visse a avó. Então estivemos todas aqui num diálogo no Whatsapp”, explica, desdobrando-se em risos que deixam adivinhar quão divertido foi o momento.

— Esta senhora, com 88 anos, está muito ligada já às tecnologias.
— Eu ouço falar mas não percebo — responde Leonor, quase parecendo querer desviar a conversa dos seus méritos com os aparelhos modernos.

Tânia Gomes, a diretora do lar, sobe o tom de voz para esclarecer que estão a contar como é “falar pelo telefone a ver as pessoas”.

— Ah, sim. Estou contente. Já falei com as minhas netas e tudo — responde Leonor.

Cristina Viola não via a mãe desde fins de fevereiro. “Viajei nessa altura e quando regressei já só a vi através da porta da rua.” Acompanhou à distância a forma como ela ia percebendo o que se estava a passar.

A diretora do lar garante que todos os utentes foram esclarecidos sobre o que era a Covid-19 e porque é que as famílias não podiam visitar a instituição. “Eles foram entendendo… Há dias que entendem melhor, outros pior. Perguntam porque é que isto não passou já…”

Tânia Gomes começa as frases e Cristina completa-as:

— Houve aqui um afastamento grande, que levou…
— … a que todos nós descompensássemos um bocado, não é?

Perceberam rapidamente, nos primeiros dias do estado de emergência, que tinham de limitar a exposição a canais de notícias. “Nós mudamos muitas vezes os canais, para eles não estarem sempre a pensar no mesmo. No início só ouviam isto e começaram a entrar em pânico”, explica a diretora.

Cristina recorda que a mãe lhe telefonava constantemente a perguntar pelos familiares, porque “estava a ver coisas nas notícias”. Estava “a ficar um bocado descompensada com excesso de informação” e piorou quando surgiram as primeiras notícias sobre o aumento de casos em lares de idosos.

A D. Leonor admite que os tempos sem ver a família não foram fáceis. “Estar aqui fechada de noite e de dia… A gente dispara um bocado.” Mas invoca uma atenuante. “Eu já tenho quase 90 anos, tenho idade para me saturar com tudo.”

A filha desata numa gargalhada longa sempre que a mãe se sai com semelhantes tiradas. “É uma pessoa que tem uma cabeça muito boa ainda.”

Leonor Carvalho conversa com a sua filha três depois sem se terem visto.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Tânia Gomes percebe que está na hora de quebrar mais um pouco a estranheza. “Quer experimentar, Cristina? Vamos experimentar um bocadinho o abraço… Vista lá que eu vou do outro lado a ajudo a mãe.” Ouve-se um aviso em jeito de aceitação.

— Mãe, vou-te abraçar!
— Eu não ouço nada…
— Não é preciso.

Enquanto vai enfiando os braços nas mangas de plástico, Cristina confessa que continua a achar que “isto ainda é tudo muito cedo”, porque “eles são pessoas de muito risco”. E não é o facto de a diretora garantir que “está tudo protegido” que lhe desfaz o ar preocupado. Esse só a abandona quando finalmente aperta a mãe contra o peito. Primeiro timidamente, depois a enchê-la de beijos através da proteção.

— Estás a ver, tivemos direito a abraço… Tão bom, mãe. Que saudades.
— É bom, é bom. Isto faz bem ao nosso ego.

Enquanto vai enfiando os braços nas mangas de plástico, Cristina confessa que continua a achar que “isto ainda é tudo muito cedo”, porque “eles são pessoas de muito risco”. E não é o facto de a diretora garantir que “está tudo protegido” que lhe desfaz o ar preocupado. Esse só a abandona quando finalmente aperta a mãe contra o peito. Primeiro timidamente, depois a enchê-la de beijos através da proteção.

Um netinho gordinho e uma avó de unhas pintadas

É essa mesma solidão que relata a dona Maria Joaquina que também já não via a filha, Maria de Lurdes desde dia 13 de março. Também elas se abraçaram esta segunda-feira, com película de plástico pelo meio

— Então, mãezinha?
— Olá, minha filha.
— Temos de estar assim… temos de estar com esta coisa no meio.
 — Ai, não me façam isso.

A D. Maria Joaquina, de 86 anos, não gosta de ver a sua filha de máscara e como também ouve mal não lhe ver os lábios não ajuda a percebê-la: “Com isso na cara não te percebo, minha filha”, explica.

Sentadas frente a frente é assim que vão conversando sobre a vida. Sobre o seu neto que está em lay-off, sobre a solidão em que vive por não ver nem filha nen neto e sobre a laranja, uma laranja que teima a chegar e é um dos seus desejos. “Ainda bem que vieste minha filha, estou tão sozinha, não tinha ninguém”, desabafa. “A minha mãe no outro dia ligou-me a dizer que queria que trouxesse uma laranja das nossas. Expliquei-lhe que não podia trazer e pedi para lhe darem aqui uma laranja dizendo que era uma das nossas”, explica a filha Maria de Lurdes ao Observador. “Era o único desejo da minha mãe”, conclui.

D. Maria Joaquina de 86 anos despede-se do seu neto que não via há mais de três meses.

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“O senhor disse-me que tu podias estar aqui comigo uma hora”, afirma a mãe à filha. A sala é pequena mas grande o suficiente para todas aquelas palavras ecoarem e tornar ainda mais difícil a comunicação. Entre a D. Maria Joaquina e a filha as palavras “abraços” e “afetos” eram sinónimo daquilo que ambas estavam ali a sentir, mas esses sentimentos viriam também do lado de fora da porta.

— Sabe quem é que está lá fora, mãe?
— Claro que não.
— Adivinhe.
— Ó filha, eu não sou bruxa, eu sei lá.
— O Bruno, mãe.
— Ai meu rico neto, Brunooooo. Oh Bruninho lindo da avó… ai não posso chorar.

O neto, Bruno, de 41 anos e trabalhador no aeroporto de Lisboa, não pôde entrar na sala. Só é permitido entrar um familiar, por um limite máximo de 90 minutos, não podendo haver troca de familiares durante esse tempo. Por isso, Bruno ficou do lado de fora da porta a uma distância de mais de 10 metros da avó, com aquele mesmo plástico entre eles.

"Então estás bom, meu netinho? Estás um bocadinho mais gordo, não estás? Estás, estás". Emocionada, é assim que a avó reage ao ver o rapaz. Com tanto para lhe contar, nem o deixa rebater aquele comentário ao físico, deixando todos ali à volta aos risos. Falou com ele por menos de três minutos — a porta não podia permanecer aberta muito mais tempo. "Adeus netinho, tem lá cuidado dessa barriguinha", despede-se ela de Bruno, sem o poupar.

“Então estás bom, meu netinho? Estás um bocadinho mais gordo, não estás? Estás, estás.” Emocionada, é assim que a avó reage ao ver o rapaz. Com tanto para lhe contar, nem o deixa rebater aquele comentário ao físico, deixando todos ali à volta aos risos. Falou com ele por menos de três minutos — a porta não podia permanecer aberta muito mais tempo. “Adeus netinho, tem lá cuidado dessa barriguinha”, despede-se ela de Bruno, sem o poupar.

Não só gosta de conversa, como é vaidosa. E é própria a D. Maria Joaquina que o admite: “Oh mãe, está com as unhas pintadas. Mostre lá a mão”. “Foram ao quarto e nem perguntaram, ‘dê cá as mãos’, olhei e estavam vermelhas. Estão giras, não estão?”, pergunta à filha. Está naquele lar desde o dia 1 de abril de 2019 e ao início a adaptação foi complicada, explica a filha. “Não se ambientou ao início, mas agora já fez alguns amigos e adora os funcionários”.

O plástico transparente faz parecer que não há divisória entre mãe e filha.

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Há no entanto um funcionário que é o mais querido para a D. Maria Joaquina. “O senhor que lhe leva o pequeno almoço é sempre o mesmo ‘é uma joia de moço’, é o Zé Pedro”. É quem lhe dá todos os dias o pequeno almoço e também que lhe segura no telemóvel para falar com a sua família. Este funcionário, tal como todos os outros, trabalha “em espelho”, de cinco em cinco dias e hoje foi o início de mais uma semana de trabalho o que deixou Maria Joaquina ainda mais feliz.

Aquela sala que era utilizada para arrumos é hoje o sítio mais desejado por todos os 62 utentes do lar. Apenas recebe entre quatro e cinco visitas diárias, pois foi assim a forma de conseguir organizar tudo de acordo com as regras e conseguir desinfetar aquele espaço entra cada visita. Uma sala em que nunca nenhum utente havia entrado é agora uma “sala linda”. “Onde é que nós estamos? Não conhecia esta sala”, pergunta a D. Maria Joaquina à diretora. “Mas é bonita não é?”, responde-lhe ela e recebe de volta uma resposta à altura: “É sim senhora, é como eu”.

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