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Um ano depois de o Hamas ter atacado Israel, a 7 de outubro de 2024, o Presidente norte-americano, Donald Trump, já revelava uma ideia inusitada. Numa entrevista a uma rádio conservadora, o republicano sugeria que a Faixa de Gaza “podia ser melhor do que o Mónaco”, o microestado que é uma das capitais do luxo na Europa. “Tem a melhor localização no Médio Oriente, a melhor água, o melhor tudo”, justificou. Cinco meses mais tarde, já empossado, Donald Trump voltou agora ao tema, de forma contundente e polémica, ao lado de Netanyhau: transformar um território praticamente destruído por causa de um conflito sangrento, que dura há mais de 15 meses, numa “Riviera”. Com um detalhe importante: seriam os Estados Unidos da América (EUA) a liderar esse processo e a controlar o território. No entanto, esta pode ser apenas uma tática de lançar uma solução extrema para conseguir um acordo mais modesto: daí os recuos, quer pela voz de Marco Rubio quer da própria Casa Branca esta quarta-feira.
“Vamos ser donos [de Gaza] e vamos ser responsáveis por desativar todas as bombas perigosas que não explodiram, retirar as armas, vamos terraplanar o local e destruir todos os edifícios destruídos”, explicou Donald Trump terça-feira à noite na Casa Branca, ao lado do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu. Para aclarar o seu ponto de vista, o Presidente norte-americano recordou que olhou “para todos os ângulos” em várias fotografias do enclave, chegando à conclusão de que Gaza se converteu num “inferno”: “É muito perigoso e ninguém pode viver lá”.
Para além da reconstrução, Donald Trump propôs o que é considerado uma linha vermelha para vários líderes do Médio Oriente: que os cerca de 1,8 milhões de palestinianos que vivem no território se deslocassem para países vizinhos, principalmente para os “mais ricos” e com um “coração humanitário”: “Seriam reinstalados num local onde possam ter uma vida bonita”. Em concreto, o Presidente norte-americano estaria a referir-se à Jordânia e ao Egito, dois países perto da Faixa de Gaza. “Garantiremos que será feito com classe mundial. Será ótimo para as pessoas — especialmente para os palestinianos”, vincou.
Em reação, o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, não se opôs. Acima de tudo, esta ideia permitia-lhe alcançar um dos objetivos por trás da ofensiva que Telavive levou a cabo desde 7 de outubro de 2024 até meados de janeiro: que Gaza deixasse de representar uma ameaça para a existência de Israel. “Ele vê um futuro diferente para um pedaço de terreno que foi o foco de tanto terrorismo”, elogiou o líder do executivo israelita, que considera que o plano “pode mudar a História” no Médio Oriente: “Vale a pena tentar”.
Contudo, existem várias dúvidas sobre a aplicabilidade do plano. Em primeiro lugar, os países árabes vieram mostrar a sua indignação com as ideias de Donald Trump e nunca mostraram disponibilidade para receber palestinianos. Em segundo, subsistem muitas, mas muitas dúvidas sobre a autoridade que os EUA detêm na comunidade internacional para desenvolverem este projeto. E também há aquele que pode ser o maior problema: se os palestinianos que vivem em Gaza se recusarem a cumprir ordens, o que acontece? O Presidente norte-americano não forneceu detalhes — mas levantou a hipótese de enviar tropas norte-americanas para Gaza: “Faremos o que for necessário. Se for necessário, faremos isso”.
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De onde vem a ideia de os EUA controlarem a Faixa de Gaza e como isso contraria a política isolacionista de Trump
Quando Donald Trump disse que Gaza se poderia converter no novo Mónaco, o então candidato republicano não especificou que seriam os EUA os responsáveis, lamentando que nunca se tenha “tirado partido” do território. Na altura, porém, recordava que podia ser o “local mais bonito” do mundo, enumerando fatores como o “clima, o oceano e água”.
▲ Donald Trump na reunião na Casa Branca com Benjamin Netanyahu esta terça-feira
SHAWN THEW / POOL/EPA
Há, no entanto, semelhanças entre o discurso do Presidente norte-americano e o do seu genro, Jared Kushner, o atual embaixador norte-americano em França que já tinha lidado com assuntos relacionados com o Médio Oriente na primeira administração Trump. Numa entrevista concedida à Universidade de Harvard em fevereiro de 2024, o marido de Ivanka Trump, nascido no seio de uma família judaica, afirmava que a costa de Gaza podia tornar-se num ativo “valioso” no futuro se os palestinianos fossem retirados de Gaza.
Na entrevista, Jared Kushner enfatizou que a construção de propriedades em frente ao mar torná-las-ia “muito valiosas”, se os líderes políticos optassem por esse foco. O plano do genro de Donald Trump previa ainda que todos os civis palestinianos fossem para o deserto de Negev, no sul de Israel. Questionado sobre se deveria existir um Estado palestiniano, o marido de Ivanka Trump foi peremptório: “É super má ideia” e seria “recompensar um ato de terror”.
No X, perante as críticas de que foi alvo meses após a publicação da entrevista, Jared Kushner tentou ajustar a narrativa, frisando que apenas expressou “consternação” pelo facto de os líderes do povo palestiniano terem “desperdiçado décadas de apoio ocidental em túneis e armas em vez de melhorarem as vidas dos palestinianos”. “Mantenho a mesma posição e acredito que as vidas do povo palestiniano apenas vão melhorar quando a comunidade internacional e os seus cidadãos começarem a exigir responsabilidade da sua liderança.”
▲ Jared Kushner, marido de Ivanka Trump, terá sido um dos responsáveis pela ideia
JASON SZENES/EPA
Independentemente da influência que o genro possa ter tido — a imprensa israelita confirma que Jared Kushner foi quem mais influenciou Donald Trump na formulação deste plano —, o chefe de Estado norte-americano ambiciona transformar a Faixa de Gaza na “Riviera do Médio Oriente”. “Prevejo as pessoas do mundo a viver lá — as pessoas do mundo. Eu penso que a tornaremos num local internacional e inimaginável. Temos a oportunidade de fazer algo que pode ser fenomenal. Pode ser tão magnífico”, argumentava na conferência de imprensa ao lado do primeiro-ministro israelita o Presidente norte-americano, que fez grande parte da sua fortuna no setor imobiliário.
Esta manifestação de intenções surpreendeu inclusivamente grande parte do núcleo duro da presidência norte-americana. O jornal britânico Telegraph noticiava que o futuro da Faixa de Gaza já tinha sido discutido nos últimos dois meses com alguns dos seus conselheiros e aliados mais próximos, mas de forma pouca profunda e sem grande sustentação — e quase ninguém acreditava que Donald Trump fosse apresentar a ideia ao primeiro-ministro israelita, que também terá ficado surpreendido.
Esta sensação de surpresa, como recorda o jornal Axios, também se deve ao facto de colidir com um dos princípios basilares da primeira administração Trump: a de não envolver diretamente os Estados Unidos em conflitos internacionais. O Presidente norte-americano sempre teve uma posição a favor do isolacionismo — e que defendeu na campanha eleitoral para as eleições de novembro de 2024. Por exemplo, Donald Trump criticou por várias vezes o apoio incondicional à Ucrânia concedido pelo ex-Presidente, Joe Biden, afirmando que trazia mais guerra e que não levaria à cessação de hostilidades entre Kiev e Moscovo.
▲ Trump diz que EUA podem "fazer algo que pode ser fenomenal" na Faixa de Gaza
JIM LO SCALZO / POOL/EPA
Apesar de sempre ter defendido que não queria envolver os EUA em guerras, a ideia de Washington controlar a Faixa de Gaza terá partido de Donald Trump, apuraram vários órgãos de comunicação sociais norte-americanos. O Presidente dos EUA concluiu que não havia melhores alternativas em cima da mesa. “Ele é um disruptor. Ele quer alterar o discurso“, disse uma fonte próxima da presidência ao jornal Axios. À mesma publicação, outra fonte realçou ainda que o território não será entregue a Israel, contrariando o desejo dos elementos mais à direita do governo de Benjamin Netanyahu.
O ‘não’ saudita e do Hamas. Será viável os EUA controlarem a Faixa de Gaza?
Para Israel, os EUA podem avançar. Contudo, o Hamas já garantiu que não vai permitir que os EUA controlem Gaza. Em declarações à Reuters, Sami Abu Zuhri, porta-voz do grupo islâmico, classificou a proposta de Donald Trump como “ridícula e absurda”, avisando que o plano pode ser capaz de levar a uma escalada da tensão no Médio Oriente. A Autoridade Palestiniana, que controla a Cisjordânia (e que, no entender de Joe Biden e de vários líderes árabes e europeus, deveria controlar também Gaza após sofrer um processo de “revitalização”), também “rejeita categoricamente” a ideia de uma gestão norte-americana de Gaza.
Existe outro entrave à estratégia de Donald Trump: nenhum dos países árabes parece disposto a abrir as fronteiras para receber a população deslocada de Gaza. O Egito e a Jordânia já recusaram essa hipótese por várias vezes, ao longo dos anos, se bem que ainda não se tenham oficialmente pronunciado sobre as declarações desta terça-feira do Presidente norte-americano. Embora sendo aliadas dos EUA, a monarquia jordana e a presidência egípcia temem os efeitos que poderá ter para o país a chegada de milhares de palestinianos. E não são apenas as repercussões económicas e sociais; são também as políticas.
▲ Rei Abdullah II da Jordânia e Presidente al-Sisi no Egito já se manifestaram contra a deslocação de palestinianos da Faixa de Gaza
Anadolu Agency via Getty Images
A Jordânia e o Egito temem que a chegada de palestinianos à Faixa de Gaza possa engrossas as fileiras da Irmandade Muçulmana, que ainda existe nos dois países — e que pode colocar em risco a sobrevivência dos dois regimes. Ainda assim, Donald Trump disse acreditar que Amã e Cairo não vão responder que “não” ao pedido norte-americano de acolher refugiados palestinianos.
Neste sentido, Donald Trump terá oportunidade de expor o seu plano com mais detalhe em breve, uma vez que o Rei Abdullah II da Jordânia vai deslocar-se aos Estados Unidos na próxima semana, no dia 11 de fevereiro. Também o Presidente egípcio, Abdel Fattah el-Sisi, visitará Washington em breve, estando em cima da mesa uma reunião conjunta com o monarca jordano. No entanto, já há uma semana, quando Donald Trump já tinha deixado no ar que os palestinianos teriam de sair da Faixa de Gaza, os dois países se manifestaram contra essa hipótese.
No mundo árabe, a reação mais forte veio da Arábia Saudita, embora o príncipe Mohammad bin Salman sempre tenha mantido boas relações com Donald Trump — e com o genro Jared Kushner. Prova disso é que escassos dias após o Presidente norte-americano ter regressado à Casa Branca, o herdeiro da coroa saudita falou ao telefone com o chefe de Estado e prometeu que investiria 577 mil milhões de euros na economia norte-americana.
▲ Mohammed Bin Salman opõe-se ao plano do seu aliado Donald Trump para Gaza
MICHAEL REYNOLDS/EPA
Mesmo assim, isso não impediu a diplomacia saudita de emitir um duro comunicado pouco depois das 4h00 (hora em Riade). “O Reino da Arábia Saudita reafirma a sua rejeição inequívoca face a qualquer infração contra os direitos legítimos do povo palestiniano seja através de políticas de colonatos israelitas, seja através de anexação de terras, seja através da tentativa de retirar o povo palestiniano da sua terra”, lê-se no comunicado, que frisa que a comunidade internacional tem o “dever de aliviar o sofrimento humanitário severo que o povo palestiniano sofreu”.
A Arábia Saudita manifestou estar contra qualquer plano norte-americano. E foi além disso. A diplomacia saudita destacou igualmente que este assunto é “não-negociável” e “não está sujeito a compromisso”. Dito doutro modo: Riade nunca estabelecerá relações com Telavive se Washington ocupar a Faixa de Gaza e não permitir a criação de um Estado palestiniano. A normalização das relações entre a Arábia Saudita e Israel tem sido um esforço da diplomacia norte-americana desde pelo menos 2020 (data dos acordos de Abraão, em que Israel estabeleceu pela primeira vez relações com os Emirados Árabes Unidos e o Bahrain), mas que ficou paralisado desde o início da guerra em Gaza.
Agora, se a administração Trump avançar com o plano, Mohammad bin Salman ameaça que não vai estabelecer relações com Israel, o que, a acontecer, poderia ser um momento transformador para o Médio Oriente e aumentar a influência norte-americana na região. No comunicado, a coroa saudita recorda que “atingir uma paz justa e duradoura [na região] é impossível sem o povo palestiniano obter os seus direitos legítimos de acordo com com resoluções internacionais, como ficou clarificado previamente quer à anterior, como à atual administração dos EUA”.
#Statement | The Foreign Ministry affirms that Saudi Arabia’s position on the establishment of a Palestinian state is firm and unwavering. HRH Prince Mohammed bin Salman bin Abdulaziz Al Saud, Crown Prince and Prime Minister clearly and unequivocally reaffirmed this stance. pic.twitter.com/0uuoq8h12I
— Foreign Ministry ???????? (@KSAmofaEN) February 5, 2025
Para além da oposição dos países árabes e das autoridades que comandam os territórios palestinianos, subsistem dúvidas sobre se não se trataria de uma “limpeza étnica”, como têm apontado vários países e o secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres. Pela voz do porta-voz Stéphane Dujarric, o líder da ONU realçou que a “procura por soluções não deve tornar o problema pior”: “É vital que nos mantenhamos fiéis aos princípios do Direito Internacional. É essencial evitar qualquer forma de limpeza étnica”.
Com a falta de cooperação dos países mais próximos e de organizações internacionais, será difícil para o Presidente norte-americano avançar com o seu plano. E ficam no ar as possíveis violações do Direito Internacional que o controlo da Faixa de Gaza por parte dos EUA podem implicar, não sendo de prever qualquer mandato internacional para que isso aconteça.
Trump garante que todos “amam” o plano — mas administração vai tentando fazer esclarecimentos
À NPR, o antigo ministro dos Negócios Estrangeiros de Israel, Shlomo Ben-Ami, disse que o plano de Donald Trump é “totalmente irrealista” e reflete um “desconhecimento total do processo histórico em sobre de onde os palestinianos vêm e qual é a sua identidade coletiva”. “É como se alguém viesse do espaço e tentasse impor uma solução que está completamente desprovida de contexto”, critica, numa alusão à Nakba, o êxodo de 1948, em que vários palestinianos tiveram de ser obrigados a abandonar as suas casas por conta da criação do Estado de Israel.
No entanto, Shlomo Ben-Ami especula que esta possa ser uma estratégia de Donald Trump: propor inicialmente um cenário extremo e depois ir negociando. “Chama a atenção do mundo para o que diz, desequilibra os seus rivais e, eventualmente, acontecerá algo que poderá ser do seu agrado. Talvez seja uma tática de tentar algo em grande para tentar arranjar uma solução mais modesta“, salientou o antigo chefe da diplomacia de Israel.
Esses sinais de que Donald Trump estará a moderar-se começam já a aparecer esta quarta-feira. Ignorando as críticas, o Presidente norte-americano salientou que “todos amam” o seu plano, mas não fez mais declarações sobre o tema. Porém, o secretário de Estado, Marco Rubio, fez um reparo, apesar do entusiasmo inicialmente demonstrado. Na terça-feira, o líder da diplomacia norte-americana escreveu no X que “Gaza deve ser livre do Hamas” e que os EUA querem liderar o processo de “Make Gaza Beautiful Again” — “Tornar Gaza Bonita Outra Vez”: “O nosso objetivo é uma paz duradoura na região para todas as pessoas”.
Afinando o discurso esta quarta-feira, Marco Rubio já assumiu que “a única coisa que o Presidente Trump fez — muito generosamente — é mostrar que os EUA estão dispostos a ajudar, a limpar os destroços e a limpar o território de toda a destruição”. Descartando a hipótese de os Estados Unidos controlarem indefinidamente a Faixa de Gaza, o secretário de Estado não escondeu, contudo, que a população teria de sair do território para a sua reconstrução.
▲ Marco Rubio já tentou afinar o discurso em relação à proposta original de Trump
SHAWN THEW / POOL/EPA
Simultaneamente, a porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, elogiou esta quarta-feira a proposta “fora da caixa” do Presidente, mas ressalvou que Donald Trump nunca “se comprometeu” em enviar tropas para a Faixa de Gaza. E avisou que não serão os EUA a pagar a fatura pela reconstrução do território. Além disso, segundo o New York Times, também o enviado especial para o Médio Oriente, Steve Witkoff, teve esta quarta-feira um almoço com senadores republicanos, garantindo-lhes que Donald Trump “não quer tropas no terreno e não quer gastar dólares dos EUA” na Faixa de Gaza.
Transformar a Faixa de Gaza numa Riviera é uma ideia que fez soar os alarmes na comunidade internacional. Um dos objetivos de Donald Trump foi, para já, cumprido: que se falasse sobre o assunto. Dando o pontapé de saída, espera igualmente colocar os Estados Unidos na dianteira desse processo. Se vai cumprir o que disse e se vão ser os EUA a realmente controlar o território onde vivem 1,8 milhões de palestinianos ainda é uma incógnita. E a concretizar-se não deixaria de ser um contrassenso relativamente à política isolacionista que o chefe de Estado sempre promoveu.