Marcelo Rebelo de Sousa, na sua última versão europeia, esteve em Estrasburgo (ainda) mais solto do que o habitual. Numa reunião à porta fechada com eurodeputados portugueses esta quarta-feira, o Presidente fez uma afirmação que podia deixar alguns no seu partido à beira de um ataque de nervos. “A partir de março volto a ser militante do PSD“, disse o chefe de Estado, segundo contaram ao Observador fontes presentes no encontro.
O Presidente da República enviou ainda críticas indiretas ao Chega, quer à porta fechada, quer no discurso em plenário. Para PS e PSD houve elogios, mas também indiretas. Depois de ter feito a viagem Lisboa-Estrasburgo no dia anterior num Falcon da Força Aérea com António Costa — onde os dois terão falado sobre a vida e “nada sobre política” — e de assumir ter uma “cumplicidade diferente” com o antigo primeiro-ministro da que tem com o atual, o Presidente esforçou-se depois por mostrar que não tem preferidos. Disse que se dava bem com António Costa, mas também com Luís Montenegro.
Mas, mais do que isso, Marcelo Rebelo de Sousa mostrou-se um adepto do centro moderado, apesar das suas variações. “Comecei com o Governo mais a esquerda de sempre desde a Revolução. Acabo com o Governo com o suporte ocasional parlamentar mais à direita de sempre”, disse aos eurodeputados.
Apesar de colar o rótulo “mais à direita de sempre” à governação de Montenegro, o Presidente elogiou depois a vantagem que é para Portugal ter uma contínua estabilidade na política externa — que atribui à postura responsável de PS e PSD. O elogio ao ‘centrão‘ foi também uma crítica lateral ao instável Chega. E não seria a única.
Depois de o Parlamento Europeu ter aprovado o envio do acordo com o Mercosul ao Tribunal de Justiça da UE, Marcelo disse aos eurodeputados que esta paralisação do acordo é “mau para Portugal“. Outra crítica ao Chega, uma vez que os eurodeputados do partido liderado por André Ventura votaram a favor do envio do acordo para aquela instância judicial.
Já no discurso na sessão comemorativa em plenário, Marcelo Rebelo de Sousa tinha deixado recados a André Ventura ao reiterar que “não há portugueses puros“. Para Marta Temido — segundo a própria disse aos jornalistas minutos depois — esta referência de Marcelo foi a manifestação de que o Chefe de Estado preferia António José Seguro na segunda volta das presidenciais.
De novo em declarações aos jornalistas portugueses, Marcelo desdramatizou eventuais conflitos partidários insanáveis — começando pelo exemplo dos eurodeputados portugueses. O Presidente da República diz que os portugueses “fazem pontes impossíveis, plataformas que outros não fazem”. “Falamos com todos, fazemos sopa da pedra, às vezes sem ingredientes suficientes.”
O Presidente da República acrescentaria ainda: “Isso é muito claro e os parlamentares portugueses, independentemente dos partidos, quando chegam às questões vitais para o país e vitais para a posição do país na Europa e o que a Europa pode fazer no mundo, percebem como é importante, dentro da diversidade de opiniões, convergirem.”
Marcelo Rebelo de Sousa passou depois para o plano nacional e para as suas típicas metáforas para, de novo, desvalorizar eventuais conflitos futuros no sistema político-partidário: “As pedradas, mesmo quando são entre portugueses, descobre-se depois que é uma pedra-mole, uma pedra de liós, calcária, que é muito mais flexível e maleável, não fere tanto como as outras pedras.”
▲ A reunião com os eurodeputados portugueses decorreu à porta fechada.
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
O deserto de Marcelo: “Já perdi a mão como comentador”
Ainda na conversa com os eurodeputados — onde Marcelo se mostrou sempre bem-disposto — o tom foi de despedida. Sentado ao lado do ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, o Presidente da República chegou a desabafar nessa conversa privada mas com mais de 20 pessoas a assistir: “Estou a caminho do meu deserto”.
Nesta passagem por Estrasburgo, Marcelo Rebelo de Sousa falou várias vezes da sua nova vida e do fim de ciclo. Cá fora, já em declarações aos jornalistas, o Presidente revelaria ainda que fará uma última ronda por várias regiões do país. Não serão Presidências abertas, mas viagens para fechar a Presidência. “Ainda tenciono dar um pulinho à Madeira e, se puder, aos Açores. Mas agora são tantos pulinhos em tão pouco tempo que não sei como é que meto tudo em 43 dias.”
O Presidente da República foi ainda desafiado a fazer um balanço dos últimos dez anos, mas deixou isso para os seus sucessores no comentariado: “Não [faço]. Isso aí fazem os analistas. Eu reformei-me como analista, já perdi a mão.”
Marcelo Rebelo de Sousa está agora na contagem decrescente para a saída de Belém. Na próxima semana, sabe o Observador, vai voltar à agenda pré-hérnia. Deverá ir ao Vaticano e, antes disso, a Madrid, onde o rei Filipe VI, com quem esteve, o vai condecorar.
O Observador sabe que na visita que estava prevista para dezembro, o rei de Espanha — que é fã e amigo de Marcelo, por influência do pai Juan Carlos — ia organizar uma festa de aniversário para o Presidente da República (que faz anos a 12 de dezembro).
A hérnia não deixou. Desta vez já não é possível uma ida à festa, mas o rei prepara uma receção ao nível da amizade que a família tem com o chefe de Estado português. São os últimos dias de Marcelo e, mesmo que ninguém esteja a contar, ele está. Daí que saiba de cor que não faltam 42 nem 44 dias: “Faltam 43 dias”, repete com precisão.
Os jornalistas do Observador viajaram a Estrasburgo a convite do Parlamento Europeu.