Luís Montenegro voltou a fazer o que mais irrita o Presidente da República: deixar tudo bem guardado até à última e não informar Belém sobre nada do  que tinha na cabeça. O primeiro-ministro, sabe o Observador, só ligou a Marcelo Rebelo de Sousa cerca de meia hora depois de comunicar ao País que admitia uma moção de confiança. O Presidente da República — que tinha sabido de tudo pela televisão e que assistiu à comunicação ao País a partir do Palácio de Belém — não atendeu a chamada do primeiro-ministro, pois estava com outros afazeres, apurou o Observador. Desde então, e até à hora de saída deste artigo, os dois ainda não falaram.

No sábado, o Observador já tinha noticiado que o primeiro-ministro tinha ligado ao Presidente já após o ter tomado a decisão, mas só agora apurou que, afinal, a chamada não foi atendida. Marcelo Rebelo de Sousa, soube o Observador junto de fonte de Belém, considera que Montenegro o poderia ter avisado, mas também não vai criar nenhum drama por não o ter feito — o que considera uma opção legítima do chefe do Governo.

Uma das razões pelas quais o Presidente, de acordo fonte de Belém, não falou ainda com Montenegro é porque considera que “ele foi ultrapassado pelas circunstâncias“. E acrescenta a mesma fonte: “A partir do momento que o PCP resolveu o assunto também já não havia mais nada a falar entre o Governo e o Presidente.” Outro fator que descansou o Presidente da República foi ouvir, no sábado à noite, vários ministros nas televisões a dizerem que após a rejeição da moção de censura do PCP, o Executivo já não apresentará uma moção de confiança.

O episódio mostra, no entanto, que Luís Montenegro fez tudo nas costas do Presidente e que a relação entre ambos continua a não ser a que Marcelo Rebelo de Sousa desejava. O próprio chefe de Estado já sugeriu, aliás, em público, que a relação — mesmo a institucional — era bem melhor com o antecessor António Costa quando um dia confessou: “Éramos felizes e não sabíamos”.

Marcelo não deita abaixo o Governo (a menos que o Parlamento assim o decida)

Apesar da falta de informação que São Bento deu a Belém num assunto que podia precipitar a queda do Governo, o Presidente da República não guarda rancor (pelo menos de forma aparente). E continua a defender que o Governo continue em funções, pelo menos, até ao fim do seu mandato presidencial, em março de 2026.

O Livre solicitou uma audiência ao Presidente da República para, aparentemente, pedir que Marcelo Rebelo de Sousa dissolva a Assembleia da República, pois o partido já fez saber publicamente que considera que está em causa o “regular funcionamento das instituições”. Mas o Presidente, sabe o Observador, recusa-se, no entanto, a fazê-lo. Vai, por isso, dar uma nega às intenções do partido liderado por Rui Tavares.

Para Marcelo Rebelo de Sousa, apurou o Observador, essa é “uma decisão do Parlamento” e a leitura que faz daquilo que foi o desfecho da moção de censura do Chega — e do que é o desfecho previsível da moção de censura do PCP — é que “a Assembleia da República quer a continuidade do Governo em funções”. A mesma fonte de Belém diz que o Presidente está consciente — pela forma como se “pronunciaram os partidos no sábado à noite” — que “ninguém quer eleições“. Opinião que, aliás, também é a do Presidente.

Almoço a dois em Sacavém, ministros na TV e uma chamada (não atendida) para Marcelo. Os bastidores do dia em que Montenegro admitiu eleições