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Margaret Thatcher: amem-na ou odeiem-na. Quarenta anos a inspirar e a desesperar gerações /premium

A antiga primeira-ministra britânica chegou ao poder há 40 anos, a 3 de maio de 1979. Décadas depois, e mesmo após a sua morte, continua a provocar paixões e ódios. Falámos com fãs e com haters.

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Uma mulher de fato azul e cabelo armado, mais baixa que os polícias que a rodeiam, pára à porta do número 10 de Downing Street. Está prestes a entrar pela primeira vez na residência oficial do primeiro-ministro britânico, depois de ter vencido as eleições legislativas na noite anterior. Vira-se para encarar os jornalistas, que lhe perguntam como se sente e lhe estendem os microfones. “Muito animada, muito consciente das responsabilidades”, responde-lhes, falando devagar, cada sílaba enunciada com cuidado. O seu nome é Margaret Thatcher, é ex-ministra da Educação, ex-líder da oposição e agora é a nova primeira-ministra do Reino Unido — e primeira mulher no cargo—, eleita pelo Partido Conservador.

Antes de entrar no número 10, Thatcher aproveita para recitar parte da oração de S. Francisco de Assis, ligeiramente modificada para o plural majestático: “Onde houver discórdia, que levemos a união; onde houver erro, que levemos a verdade; onde houver dúvida, que levemos a fé; e onde houver desespero, que levemos a esperança.”

Quarenta anos passaram desde aquele momento. Pelo meio, Margaret Thatcher tornou-se numa das líderes mais marcantes da História. Na ressaca dos seus governos, não havia falta de gente que destacasse a sua capacidade de trazer a verdade e a esperança ao Reino Unido e ao mundo. Mas também sempre abundaram aqueles que consideraram Thatcher a portadora, precisamente, da discórdia e do erro. Quarenta anos depois, o amor e o ódio pela política e pela mulher continuam a existir. O Observador conversou com alguns dos fãs e dos haters de Thatcher, décadas depois da sua chegada ao poder, para perceber como uma só pessoa continua a inspirar e a desesperar tantos, quarenta anos depois.

Rachel, a empresária para quem Thatcher foi uma inspiração

Rachel Elnaugh é uma das empreendedoras mais conhecidas do Reino Unido. Dona de uma empresa que vende experiências como presentes, a Red Letter Days, ficou mais conhecida do grande público pela sua participação na versão britânica do programa de televisão Dragon’s Den. Aos 54 anos, não tem dúvidas em assumir que Margaret Thatcher foi uma grande inspiração na sua carreira, como conta ao Observador.

Rachel tinha 15 anos quando Thatcher foi eleita. “Lembro-me dos tempos antes disso”, recorda, referindo-se aos governos do Partido Trabalhista de Harold Wilson e James Callaghan. “Havia lixo nas ruas, ratazanas, greves a toda a hora. Lembro-me de estar várias vezes sentada à luz das velas, a ver uma televisão a preto e branco que só funcionava porque o meu pai tinha arranjado um gerador para aquilo. É preciso ter vivido nessa época para se perceber a lufada de ar fresco que Thatcher foi.

Rachel Elnaugh é uma empresária conhecida no Reino Unido, participante até num programa de televisão (D.R. RACHEL ELNAUGH)

No Reino Unido dos anos 70, onde tantas empresas hoje privadas ainda eram públicas e o poder dos sindicatos era imenso, a chegada de uma primeira-ministra que defendia privatizações e o reforço do investimento privado alterou por completo o panorama económico de um país. E não só, defendem os fãs de Thatcher, como Rachel ou como o jornalista britânico Andrew Sullivan, que apontam para a mudança que Thatcher trouxe também ao ambiente do país: “Nos anos 70, como jovem britânico, era impossível não reparar que se vivia num museu decadente — uma mistura horrível de cinzentismo do leste europeu, rodeado de velharias como estátuas e edifícios que falavam de um império onde o sol nunca se punha”, diz o antigo editor da New Republic.

“Era a era dos 'yuppies' e do champanhe e de se fazer imenso dinheiro. Eu tinha 20 anos, estávamos em plena década de 80 e no pico do Thatcherismo. Foi uma altura muito excitante.”
Rachel Elnaugh, empresária

Para Rachel, a eleição de Thatcher foi decisiva na sua própria vida: “Esta ideia de mulher poderosa era muito inspiradora para jovens raparigas como eu. Fomos arrebatadas pela era Thatcher, pelo empreendedorismo, pelo facto de podermos ter poder para criar coisas para nós mesmas sem ter de nos apoiarmos no Estado”, afirma. “Lembro-me que o meu primeiro negócio foi feito com o esquema criado por ela que dava uma isenção fiscal de 100% aos investidores em novos negócios. Isso significou que todos aqueles que investiram em mim puderam recuperar o seu dinheiro e foi um incentivo tremendo para as pessoas se envolverem em empresas.”

Antes disso, esta britânica tinha estado a trabalhar na City, a praça financeira de Londres que teve um boom durante o período de liderança de Thatcher. “Era a era dos yuppies e do champanhe e de se fazer imenso dinheiro. Eu tinha 20 anos, estávamos em plena década de 80 e no pico do Thatcherismo. Foi uma altura muito excitante.”

Thatcher no dia da sua demissão, a 22 de novembro de 1990, depois de ter sido pressionada por colegas do partido (Monty Fresco/Getty Images)

AFP/Getty Images

Sobre os governos de Thatcher, Rachel recorda dois momentos significativos. O primeiro é a guerra nas Malvinas, por ter sido um ponto alto, na opinião da empresária: “Foi uma grande oportunidade para os soundbytes e para os discursos poderosos e para se ser dura. A Grã-Bretanha tinha sido tão humilhada nos anos 70 e podermos regressar tão fortes e a vencer uma guerra foi algo que lhe deu a oportunidade de criar a sua marca como ‘Dama de Ferro’.” O momento contrasta com a rebelião interna dos tories contra Thatcher em 1990, que ditaria a sua demissão. Para Rachel, foi “uma facada nas costas” e algo que a primeira-ministra que mais marcou a sua vida não merecia.

June, a universitária de Manchester que ia a manifestações anti-Thatcher todas as semanas

Se Rachel adorava Thatcher, June Thomas odiava a primeira-ministra. Tinha 18 anos quando a política de fato azul e cabelo armado chegou a Downing Street, mas June já sabia quem ela era antes disso. Quando Thatcher ainda era ministra da Educação, foi diretamente afetada pela sua decisão de retirar o leite que era dado às crianças na escola, de forma gratuita. No último ano do ensino secundário, viu Thatcher chegar ao poder. Nascida e criada em Mosley Common, numa das zonas mais trabalhistas do país (Manchester), June sabia instintivamente que um Governo de Thatcher não poderia representar algo bom para si e para a sua família: “O meu pai era mineiro, os meus avôs tinham os dois sido mineiros. Antes mesmo de Thatcher ordenar o fecho das minas, nós já tínhamos aquela sensação de ‘oh-oh’. Isto não vai ser bom.”

June Thomas tinha 18 anos quando Margaret Thatcher chegou ao poder (Helen Melville)

Helen Melville

Com os anos de June na Universidade a coincidirem com os primeiros anos de um Governo Thatcher, o ambiente era propício a que esta britânica não suportasse a primeira-ministra. “Eu estava naquela idade em que não havia zonas cinzentas. Nós odiávamo-la, sentíamos que ela era uma ameaça para nós, estudantes universitários que não pagávamos para andar na Universidade. Recordo-me que todas as semanas íamos a uma manifestação. O que quer que Thatcher achasse, nós achávamos o oposto”, conta ao Observador.

O radicalismo da juventude fez mesmo com que June chegasse a ter um cartão anti-Thatcher, que decretava que, no caso de o seu portador ter um acidente, não desejava ser visitado no hospital pela primeira-ministra — como acontecia aos feridos em ataques do IRA, por exemplo. Anos depois, June decidiu tirar o cartão da sua carteira, mas ainda o conserva. “Era uma forma de marcar posição. Sei que é um pouco ridículo, mas também tem alguma piada. O cartão é uma recordação da minha vida no Reino Unido”, conta esta editora do site norte-americano Slate.

Cópia do cartão de June Thomas. Nele pode ler-se “Em caso de acidente, o portador deste cartão deseja que seja público que ele/ela não deseja ser visitado pela senhora Thatcher em nenhuma circunstância.” (D.R. JUNE THOMAS)

Acabada a Universidade, June mudou-se para os Estados Unidos. Thatcher ficou para trás e o ódio visceral também, mas permanecem as marcas de uma liderança que June crê ter transformado o país. “Anos depois, quando eu regressava ao Reino Unido, mesmo já não sendo ela primeira-ministra e nós já não vendo as coisas a preto e branco, se íamos a uma festa e as coisas estavam aborrecidas, bastava recorrer ao velho cântico de “Maggie, Maggie, Maggie!” para a resposta da multidão ser imediata: “Fora, fora, fora!”. Para quem tinha uma determinada idade e um determinado background político, aquilo estava entranhado. Era um reflexo.

“Eu estava naquela idade em que não havia zonas cinzentas. Nós odiávamo-la, sentíamos que ela era uma ameaça para nós, estudantes universitários que não pagávamos para andar na Universidade. Recordo-me que todas as semanas íamos a uma manifestação. O que quer que Thatcher achasse, nós achávamos o oposto.”
June Thomas, jornalista

Thatcher, a melhor primeira-ministra de sempre ou a pior primeira-ministra de sempre? “Ambas”

Os exemplos de Rachel e June não chocam Joe Twyman, antigo analista da YouGov, o organismo de estudos de opinião mais respeitado no Reino Unido. “Os dados mostram isso mesmo”, explica o analista, fornecendo ao Observador um estudo de opinião de 2013 no qual a quantidade de pessoas questionadas que considera Thatcher uma “excelente primeira-ministra” é quase a mesma que a de aqueles que a consideram uma “péssima primeira-ministra”.

“A pergunta já foi feita várias vezes, de várias formas, por vários organismos e a resposta é consistente: ela ora aparece como a primeira-ministra favorita dos britânicos, ora é apontada como a pior. É a primeira-ministra mais divisiva do pós-II Guerra Mundial.

Margaret Thatcher e o seu busto de bronze (Hilaria McCarthy/Daily Express/Hulton Archive/Getty Images)

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Para isso, explica Twyman, há várias razões. Do lado dos que a detestam, apontam-se as comunidades que nunca recuperaram do choque económico com o fecho das minas, por exemplo, e um legado de austeridade que fica associado à antiga primeira-ministra, que defendia “contas certas” como as das donas-de-casa. Do outro lado, fala-se nas transformações aplicadas no país, do papel reforçado dado ao Reino Unido no plano mundial e de medidas que hoje em dia já não são sequer contestadas, como muitas das privatizações que fez. Mas Joe aponta uma circunstância que crê ajudar à “nostalgia” que muitos conservadores sentem em relação a Thatcher: o facto de ela ter vencido três eleições consecutivas, o que faz dela uma vencedora. “Não há nada que os tories gostem mais do que ganhar”, comenta o analista, com uma risada. “O facto de ela ter vencido de forma tão convincente contrasta com as derrotas dos conservadores que se lhe seguiram e isso ajuda a criar uma aura mitológica em torno dela”, resume.

Por outro lado, afirma, Thatcher é “um produto do seu tempo”: a Guerra Fria e as transformações sociais do capitalismo ajudaram a que uma líder firme se afirmasse num período de noções a preto e branco. “Ela teve sorte nos inimigos. O general Galtieri [Presidente da Argentina durante a guerra nas Malvinas], [o líder trabalhista] Michael Foot, o líder dos mineiros Arthur Scargill… Todos eles eram impopulares e ela pôde ganhar popularidade ao derrotá-los. Em tempos mais complicados, com adversários com mais nuances, teria sido mais difícil.

“O facto de ela ter vencido de forma tão convincente contrasta com as derrotas dos conservadores que se lhe seguiram e isso ajuda a criar uma aura mitológica em torno dela.”
Joe Twyman, ex-analista do YouGov

As circunstâncias que ajudaram a tornar Thatcher numa figura magnética, porém, não mitigam os efeitos opostos que o seu magnetismo também produz em alguns. No dia da morte da antiga primeira-ministra, centenas saíram à rua no Reino Unido para festejar. Foi assim no bairro de Brixton, no sul de Londres, onde nos anos 80 houve motins sérios. No dia da sua morte, o site “Margaret Thatcher já morreu?” passou a mostrar um rotundo SIM, o secretário-geral do Sindicato Nacional de Mineiros disse “não lamentar” a morte da antiga primeira-ministra e uma campanha nas redes sociais tentou colocar a música do Feiticeiro de Oz “Ding Dong, a Bruxa Morreu” no primeiro lugar do iTunes.

Brixton foi um dos locais onde houve mais festejos pela morte de Thatcher, em 2013 (Danny E. Martindale/Getty Images)

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E, por falar em música, não é possível ignorar a quantidade de artistas, de Elvis Costello a Morrissey, de Billy Bragg aos Simply Red, que compuseram músicas a pedir a saída de Thatcher ou até mesmo a desejar o dia da sua morte.

Para a antropóloga social da Universidade de Oxford e autora da obra Watching the English, Kate Fox, é necessário sublinhar que as manifestações de celebração pela morte da primeira-ministra, são, contudo, de uma minoria desrespeitosa. “Muita gente pode ter pensado o mesmo quando soube da notícia. Eu sou uma liberal de esquerda típica e certamente não soltarei uma lágrima, mas há uma diferença entre pensar isso e gritar isso nas ruas ou nas redes sociais de forma tão sem gosto”, declarou ao Daily Telegraph após a morte de Thatcher. Para além disso, sublinhou a antropóloga, embora esta reação pareça algo inédito e totalmente inesperado, não é necessariamente algo novo. “Se recuarmos a uma época antes das notícias durante 24 horas, já houve pessoas a assinalar mortes assim. Imagino que, quando Ricardo III morreu, pode ter havido algo de semelhante”, afirmou, referindo-se ao rei imortalizado numa peça de Shakespeare como um monarca maquiavélico.

Sejam muitos ou poucos, certo é que aqueles que não suportam Thatcher parecem transportar muito ódio quando falam do assunto, mesmo quase 30 anos depois da demissão da primeira-ministra. Porquê? Uma explicação possível é dada por Joe Twyman: “Tony Blair também provoca uma reação muito forte entre aqueles que não gostam dele e que apontam para o caso da guerra do Iraque. Imagino que, daqui a uns anos, o mesmo possa acontecer com David Cameron e com o Brexit. Já com Gordon Brown, por exemplo, não há sentimentos fortes, porque não é possível apontar para medidas muito específicas, com grande impacto, que ele tenha tomado. No que toca a Thatcher, ela esteve tanto tempo no poder e fez tantas coisas, que há temas de sobra para os fãs e os haters apontarem o dedo.” Sobretudo quando esses temas tiveram impactos concretos na vida de algumas pessoas.

Do mineiro que ainda não perdoou Thatcher ao ativista LGBT que denuncia a sua “falta de empatia”

Wayne Thomas é uma dessas pessoas, mas não foi para as ruas festejar a morte de Thatcher e garante que nunca o faria. “Tenho sentimentos negativos por ela, mas naquele dia mantive-os para mim, porque havia pessoas que a amavam e eu tenho de ser sensível a isso”, afirma o antigo mineiro ao Observador, seis anos depois da morte da antiga primeira-ministra. “Ela era uma política e odiei-a até ao dia em que morreu. Isso não significa que queria que ela morresse, são coisas diferentes.”

As razões deste sindicalista de 59 anos para odiar Thatcher são muito pessoais. Wayne era um jovem de 22 anos quando a greve nacional dos mineiros, em 1984, começou. Ele e os dois irmãos trabalhavam em minas de carvão, no sul do País de Gales. O anúncio, feito em março de 1984, de que 20 minas de carvão iriam ser fechadas e milhares de empregos seriam perdidos abriu o caminho para a greve dos mineiros que durou até ao ano seguinte. O conflito laboral ficaria marcado pelos confrontos entre polícia e mineiros e pela assertividade com que Thatcher recusou ceder perante as exigências dos sindicalistas. Para Wayne — cuja filha nasceria dois meses depois do início da greve, quando o pai não estava a receber qualquer salário —, a greve foi decisiva para se politizar e para passar a responsabilizar Thatcher pelas dificuldades que se abateram pela sua família. “Foi um choque. Teve muito impacto, em todos nós. O meu pai também foi mineiro, o meu sogro também era mineiro…”, explica. Há uma frase que repete várias vezes ao longo da conversa com o Observador: “Nunca a perdoarei pelo que ela fez à minha comunidade.”

Wayne Thomas tinha 22 anos quando participou na greve dos mineiros de 1984. Ainda hoje se sente abalado com as ações de Thatcher enquanto PM (D.R. WAYNE THOMAS)

“Eu sei que pareço amargo”, concede o antigo mineiro. “Mas isso é porque nós nunca dissemos que as minas tinham de ficar todas abertas, custasse o que custasse. Sempre pedimos bom senso, que se mantivessem, por exemplo, metade, enquanto se procurava energia limpa para substituir as restantes. Mas as coisas foram feitas de forma cruel, vingativa. Não nos deram nova formação ou oportunidade de aprender outros ofícios, por exemplo.” Depois de um Natal triste em 1984 e de “tempos desesperados”, sem dinheiro, o jovem galês regressou ao trabalho com o fim da greve, no ano seguinte. Três anos depois, o poço onde trabalhava foi encerrado. Procurou trabalho noutro lado, em Tower Colliery. Com o fim dessa outra mina, juntou-se aos restantes trabalhadores e compraram a empresa, em cooperativa. Mantiveram o projeto à tona até 2008.

Olhando para trás, aquilo que magoa mais o antigo mineiro não foi tanto o encerramento das minas em si, mas a forma como o processo foi conduzido pela primeira-ministra. “Eu, que nunca cometi crimes na vida, de repente estava a ser apelidado de ‘inimigo dentro de casa’”, lamenta-se Wayne, referindo-se à expressão que Thatcher utilizou numa reunião do Partido Conservador para se referir aos sindicatos dos mineiros. “Seis meses antes, eu era um jovem trabalhador, um membro respeitado da comunidade, e, de repente, estava a ser visto como um rebelde, um lunático, um ‘comuna’ de extrema-esquerda. Quarenta anos depois, ainda acredito que fiz aquela greve pelas razões certas. O objetivo era preservar parte dos empregos que tínhamos e dos quais precisávamos para o futuro”, resume.

“A política de Thatcher era a da sobrevivência do mais forte. E eu sei que o mundo mudou, mas não acredito nisso. Na minha comunidade, no sul do País de Gales, ainda há muita pobreza que está ligada ao fim da indústria mineira, sem terem sido dadas alternativas aos jovens. E eu nunca a perdoarei por ter feito isso à minha gente.”

Polícia de vigia aos piquetes de greve dos mineiros em Yorkshire, durante a greve de 1984 (Moore and Nicol/Express Newspapers/Getty Images)

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A insensibilidade de Thatcher face às tragédias pessoais de milhares de mineiros e das suas famílias e o impacto da sua decisão em dezenas de comunidades por todo o Reino Unido são ainda hoje apontados por aqueles que a criticam como um dos principais fatores para a animosidade que sentem. “Uma pessoa de direita razoável tem de aceitar que a liderança de 11 anos dela criou as maiores divisões que o Reino Unido viveu nos tempos modernos. E quer eles considerem ou não que isso era inevitável, têm de entender que o ódio à Thatcher é apenas uma manifestação disso”, explicou o conhecido ativista da esquerda britânica Owen Jones num artigo publicado no Independente em 2012. “Thatcher é odiada por alguns não apenas por ter esmagado a esquerda, o movimento trabalhista e o entendimento social-democrata do pós-guerra. É também porque o fez com tal entusiasmo e não demonstrou qualquer arrependimento pelo terrível preço humano.”

Outros britânicos não nasceram nem cresceram nas comunidades mineiras arrasadas pelo Thatcherismo, mas sentem o mesmo desprezo pela figura política por outras medidas que afetaram as suas vidas. É o caso de Peter Tatchell, um dos ativistas LGBT mais conhecidos do Reino Unido, que se solidariza com todas essas comunidades e classifica as políticas de Thatcher como “destrutivas”. “Era uma mulher extraordinária, mas extraordinária sobretudo pelas piores razões”, comenta. “Apesar disso, não celebrei a morte dela. Lamentei, como lamento a morte de qualquer pessoa. Em contraste, ela nunca demonstrou empatia pelas vítimas das suas decisões políticas.”

“Seis meses antes, eu era um jovem trabalhador, um membro respeitado da comunidade, e, de repente, estava a ser visto como um rebelde, um lunático, um ‘comuna’ de extrema-esquerda. Quarenta anos depois, ainda acredito que fiz aquela greve pelas razões certas. O objetivo era preservar parte dos empregos que tínhamos e dos quais precisávamos para o futuro.”
Wayne Thomas, antigo mineiro no sul do País de Gales

Ao Observador, o ativista recorda como as ações da antiga primeira-ministra também afetaram a sua comunidade: “Em 1988, o Governo de Thatcher criou a primeira lei anti-gay num século, a Secção 28”, conta, referindo-se a uma lei, entretanto revogada no ano 2000, que proibia a “promoção da homossexualidade”, nomeadamente nas escolas. “No congresso dos tories de 1987, Thatcher gozou com as pessoas que defendiam o direito a ser gay, insinuando que esse direito não existe”, continua. “Durante os governos dela, as detenções e condenações por relações sexuais consentidas entre pessoas do mesmo sexo dispararam, tal como a violência descarada e os homicídios contra homossexuais. Os homens gay eram constantemente demonizados e tornados bodes expiatórios para a pandemia da SIDA. Thatcher não fez nada para mudar esta difamação”, lamenta-se Tatchell.

O autarca que quer erguer uma estátua à antiga PM e o jovem que deixou flores à sua porta

Enquanto Wayne e Peter continuam a trazer consigo a dor dos efeitos das políticas da antiga primeira-ministra, o reverso da medalha está nos que consideram que mesmo as políticas mais duras de Thatcher foram necessárias e exemplo da sua coragem. É o caso de Charles Moore, o homem que escreveu a única biografia autorizada da política, publicada apenas após a sua morte, como ela desejava: “A maior farsa criada sobre as suas ideias e que tem sido difundida é que ela colocava o sucesso económico e o individualismo puro acima do bem da sociedade. Ela era totalmente obcecada com o bem da sociedade e com os danos que foram infligidos à grandeza do seu país. Ela via a criação de riqueza como necessária para restaurar essas coisas, não como um fim em si mesmo”, escreveu o biógrafo para o Telegraph. “Quando a senhora Thatcher disse ‘Essa coisa da sociedade não existe’, ela acrescentou a frase que é muito menos lembrada que diz ‘O que existe são homens e mulheres e famílias’. Ela não queria dizer que devíamos deitar fora a sociedade. Era o contrário: ela queria trazer de volta a responsabilidade pelo bem-estar da sociedade a cada cidadão.”

Raymond Wootten não podia concordar mais. Nascido em Grantham, a pequena localidade onde a jovem filha de um merceeiro, Margaret Roberts, cresceu, este antigo agente da polícia tornado vereador local pelo Partido Conservador sempre defendeu uma causa: a de trazer uma estátua de Thatcher para a terra que a viu nascer. Porquê? “Porque nos anos 70 este país era refém dos sindicatos. E era visto como ‘o homem doente da Europa’. E ela enfrentou isto de frente”, declara o antigo presidente de câmara de Grantham ao Observador. “Ela não era uma pessoa com quem quiséssemos ter um desaguisado, isso é certo. Mas também é certo que era uma pessoa que podíamos seguir para a guerra, se fosse caso disso, como foi.” Thatcher era “como marmite”, diz o autarca entre risos, referindo-se à pasta alimentar britânica de sabor intenso, que se barra em torradas, e cujo gosto se adora ou se detesta.

Ray Wootten foi presidente da câmara de Grantham, terra de Thatcher, é vereador atualmente. Foi um dos promotores da estátua da PM na vila (D.R. RAY WOOTTEN)

Wootten encabeçou a campanha para trazer a estátua de Thatcher — inicialmente oferecida à Câmara dos Comuns, mas rejeitada pelo Parlamento britânico por considerarem que era “demasiado cedo” para uma homenagem daquele tipo — para Grantham. Foram anos de debates, discussão, avanços e recuos, mas a pequena vila de Lincolnshire irá agora finalmente receber a estátua de bronze. “Sempre disseram que, se a estátua fosse erguida aqui, iria ser danificada. Eu acredito na liberdade de expressão, mas eu e a minha mulher também já fomos ver a estátua do [antigo primeiro-ministro trabalhista] Howard Wilson e não sentimos necessidade de a destruir. Sei que alguém vai tentar, mas vamos lá por câmaras. Ela merece a homenagem à mesma”, diz o vereador. “Ela pôs Grantham no mapa, quantas cidades se podem orgulhar de ter a primeira primeira-ministra mulher do seu país? Esta será a cereja no topo do bolo. E, em breve, daremos o nome dela a uma rua também, vai ver”, promete Ray Wootten.

E não se pense que só aqueles que recordam o Reino Unido antes de Thatcher e o país que ela deixou depois é que a admiram. Anthony Boutall é, também ele, vereador pelo Partido Conservador, em Bedford. Contrasta com Wootten na idade — tem apenas 31 anos —, mas não nos sentimentos por Thatcher. Ex-aluno de Oxford, está atualmente a fazer um doutoramento sobre a antiga primeira-ministra e o facto de não ser sequer nascido quando Thatcher estava no poder não diminui nem um pouco a sua apreciação: “Ela deixou o maior legado de um primeiro-ministro neste país desde Churchill”, diz ao Observador. “Ela tornou a economia britânica a economia de mercado mais dinâmica da Europa nos anos 80, desempenhou um papel fulcral no fim da Guerra Fria e inflou nova vida ao Reino Unido. Quer se goste dela ou não, não há discussão sobre como o legado dela se sobrepõe ao da maioria dos líderes políticos da era moderna.”

Anthony Boutall não era nascido quando Thatcher estava no poder, mas assume-se como um fã da antiga primeira-ministra (D.R. Anthony Boutall)

Anthony tinha 15 anos quando comprou um livro da antiga primeira-ministra intitulado Statecraft (sem edição em português). Estávamos em 2003, o primeiro-ministro britânico era Tony Blair. Anthony sentiu-se absolutamente inspirado por aquela voz: “Eu cresci num ambiente em que os políticos geralmente evitavam dizer coisas com substância e tentavam evitar os temas difíceis. Senti que era muito estimulante ler alguém que escrevia sobre o mundo de forma inteligente, analítica, mas sincera.” Os momentos marcantes não se ficariam por aí: o aniversário de Anthony coincidiu com o dia da morte de Thatcher, razão pela qual o seu dia incluiu ir deixar um ramo de flores à porta da antiga primeira-ministra.

“Ela tornou a economia britânica a economia de mercado mais dinâmica da Europa nos anos 80, desempenhou um papel fulcral no fim da Guerra Fria e inflou nova vida ao Reino Unido. Quer se goste dela ou não, não há discussão sobre como o legado dela se sobrepõe ao da maioria dos líderes políticos da era moderna.”
Anthony Boutall, autor de uma tese de doutoramento sobre Thatcher

E não se pense que, entre os jovens, apenas os tories ou antigos alunos de Oxford gostam de Thatcher. Um estudo da Universidade de Sheffield, por exemplo, concluiu que dois terços dos britânicos com idades entre os 25 e os 34 anos partilham dos mesmos valores da antiga primeira-ministra e apoiam as suas políticas. Para Anthony, isso explica-se facilmente: “As pessoas da minha geração são mais Thatcheristas do que quaisquer outras. Não gostam da ideia de impostos altos, veem como o Governo é geralmente pouco eficiente, trabalham mais facilmente por conta própria e questionam a autoridade estafada do establishment”, diz Boutall.

Mulher, “filha de um merceeiro” e implacável. Como o passado e a personalidade de Thatcher alimentaram ódios e paixões

Quando se fala de Thatcher é comum referir-se um facto inegável: o de que foi a primeira mulher a ocupar o cargo de primeira-ministra no Reino Unido. A divergência, contudo, surge quando se aborda a forma como Thatcher representava ou não as mulheres e o impacto que a sua liderança teve no movimento feminista daí para a frente.

Homenagem dos jovens conservadores a Margaret Thatcher, em 1981 (Keystone/Hulton Archives/Getty Images)

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Anthony, por exemplo, não tem problemas em apontar o facto de ela ser mulher como fator decisivo para causar incómodo nos sindicatos: “O movimento sindicalista, muito ‘macho’, sentiu-se efeminado por uma mulher de classe média que tinha mais tomates do que qualquer outro primeiro-ministro deste país em tempos de paz”, afirma, sem reservas. Tatchell concorda, até certo ponto: “Ela partiu, de facto, o teto de vidro sexista na política, ao chegar ao cargo mais alto. Mas, lá chegada, fez pouco pelos direitos das mulheres. Era uma política de direita, com uma postura máscula e movida a testosterona.

Em 1988, um conhecido artigo da jornalista e atual colunista do The Guardian Polly Toynbee lançou a discussão, com o polémico título “Será Margaret Thatcher uma mulher?”. Nele, Toynbee argumentava que pouco importava o sexo de Thatcher quando as suas políticas faziam tão pouco pelas mulheres: “As mulheres no mundo do trabalho têm menos direitos. Recebiam 75% do salário dos homens em 1975, agora recebem 65%. Os ministros deste Governo elogiam os salários baixos das mulheres, porque afirmam que isso lhes dá mais oportunidades no mercado de trabalho do que aos homens, e elogiam o crescimento do emprego em setores ‘femininos’ — limpezas, cuidados domiciliários, restauração.”

Rachel Elnaugh, a empresária que cresceu a admirar Thatcher, reconhece o impacto da antiga primeira-ministra, dando o exemplo de como uma mulher podia liderar e ser bem sucedida. Mas considera que os tempos de “fêmea alfa” dos anos 80 e 90, em que se valorizava uma “energia masculina, dura e implacável”, já não fazem sentido hoje. “Tenho muitas colegas mulheres que não tiveram filhos porque, nessa altura, estavam sugadas pelas suas carreiras e que hoje se arrependem. Acho que o pêndulo está a virar para o outro lado agora, um lado que nos diz que já não é preciso ser assim para se ser uma mulher bem sucedida. Mas foi uma época muito interessante e Thatcher foi, sem dúvida, a catalisadora disso.”

O facto de ter sido a primeira mulher a chegar ao cargo de primeira-ministra iniciou um grande debate sobre o seu papel na luta pelos direitos das mulheres (Hulton Archive/Getty Images)

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Já a auto-intitulada feminista June Thomas, que atualmente faz parte do podcast The Waves, onde se discute o feminismo e os direitos das mulheres, considera que Thatcher sempre fez questionar a forma como se entende as lideranças femininas. “Ela, juntamente com [a primeira-ministra israelita] Golda Meir, faz parte de um grupo de mulheres que não são a versão estereotipada e romantizada de como uma líder feminina deve ser. E ela prova que não é possível prever como é que uma líder mulher se vai comportar com base no facto de ela ser mulher”, analisa.

Mas, para June, tão ou mais importante do que o género de Thatcher quando se analisa a sua personalidade e as suas ações, são as suas origens e a sua classe social. “Eu vim do mesmo meio social que ela e sei como pessoas como ela podem ser determinadas. Ela não tinha problemas em ser dura, não tinha ideias românticas sobre a classe trabalhadora e não tinha medo de a enfrentar. Ela apresentava-se como a filha de um merceeiro, porque, para ela, isso era uma origem social aceitável, mas tinha momentos em que, certamente, se sentia deslocada”, afirma a jornalista, dando como exemplo o momento em que Thatcher utilizou a expressão coloquial “frit (um regionalismo para “assustado”) no Parlamento. “Quando olho para aquele vídeo, parece-me que ela fica um pouco abalada depois de ter dito aquilo, de a expressão lhe ter saído. Talvez eu esteja a projetar, porque acho que aquele tipo de coisa também já me aconteceu. Mas acho que é um bom exemplo de como ela se devia sentir por ser uma mulher num mundo de homens e uma mulher de classe relativamente baixa num mundo de gente de classe alta.”

A discussão sobre a influência que o género e a classe social de Thatcher tiveram sobre ela enquanto política influencia a forma como se olha para a antiga primeira-ministra e, também, como se a ama ou odeia. Todos os britânicos ouvidos pela Observador para este artigo tiveram dificuldades em apontar o que consideravam mais determinante para aquilo que sentiam em relação a Thatcher: a sua personalidade ou as suas políticas? Talvez seja uma combinação das duas, concluem.

"Apesar de os anos Thatcher também poderem ser chamados de anos Saatchi [uma referência à consultora Saatchi & Saatchi que trabalhava para o Partido Conservador], atingiu-se um nível de sofisticação nos anais da política britânica, em que o objetivo não era que o líder fosse amado. Era que fosse respeitado, visto com espanto, que fosse um político com convicções. Se com isso viesse o amor, era um acidente.”
Hugo Young, biógrafo de Thatcher

Hugo Young, biógrafo que mantinha uma relação algo conturbada com Thatcher, apontou, num artigo publicado no Guardian após a sua morte, que a maior virtude da primeira-ministra era o facto de “não se importar se as pessoas gostavam dela ou não”. “É um estilo político, uma estética até, que desapareceu dos nossos tempos. A maquinaria da gestão política moderna — sondagens, consultores, grupos de estudo — serve, sobretudo, para descobrir como um partido ou um político podem ser mais amados ou, pior ainda, detestados. Apesar de os anos Thatcher também poderem ser chamados de anos Saatchi [uma referência à consultora Saatchi & Saatchi, que trabalhava para o Partido Conservador], atingiu-se um nível de sofisticação nos anais da política britânica, em que o objetivo não era que o líder fosse amado. Era que fosse respeitado, visto com espanto, que fosse um político com convicções. Se com isso viesse o amor, era um acidente.”

Thatcher em campanha, ainda no início da sua carreira política, perante uma multidão simpática (Monty Fresco/Getty Images)

Esse estilo provocava admirações e paixões, mas também ressentimentos e raiva, sobretudo entre aqueles que se sentiam diretamente atacados pelas suas políticas. “Quando vejo o vídeo do congresso conservador em que ela diz ‘the lady is not for turning’, sinto-me ainda horrorizada”, admite June Thomas. “Aquilo ainda me afeta até aos ossos: aquela frieza, a forma como ela está controlada… Mas, ao mesmo tempo, é quase admirável. Se ela fosse uma atriz, aquele era O momento do filme.”

Os anos trouxeram perspetiva a June, que moderou a sua avaliação de Thatcher. “Hoje em dia sinto alguma ligação com ela, eu também cresci numa casa sem casa-de-banho… E o facto de estar aqui nos Estados Unidos e ver que uma mulher pode vir a ser Presidente, acho que isso também se deve a Thatcher. Ao mesmo tempo, vejo que o Partido Trabalhista no Reino Unido nunca foi capaz de ter uma líder mulher. Faz-me repensar as coisas. Se me perguntasse há 40 anos, eu diria que a odiava. Hoje em dia, é mais complicado.

Também a empresária Rachel Elnaugh, que, em tempos, admirou Thatcher com tanto fervor, tem hoje em dia sentimentos mais dúbios. “Eu vivo perto de Sheffield, uma das áreas onde as minas foram arrasadas. Sei que foram criados traumas para muita gente, que têm sido transportados de geração em geração”, admite. “Ela representou uma era, uma era muito entusiasmante, mas que aumentou o fosso entre ricos e pobres. E hoje estamos a pagar o preço.”

Enquanto Wayne Thomas e Pete Tatchell mantêm um total desprezo pela Thatcher política, June Thomas já é capaz de lhe apontar méritos. E, ao mesmo tempo que Ray Wootten e Anthony Boutall consideram que Thatcher merece toda a admiração pela sua coragem, Rachel Elnaugh questiona os impactos das suas políticas — transformadoras sim, mas que trouxeram custos.

Talvez um dia, com o passar do tempo, Margaret Thatcher já não provoque sentimentos tão acesos, nem divisões tão definidas. Mas, por enquanto, a maioria ainda se divide entre fãs que idolatram “a Baronesa Thatcher” e haters que repetem “Maggie, fora!”. O editorial do Daily Telegraph no dia a seguir à sua morte colocava a questão de forma algo eloquente: “Apesar das homenagens por todo o lado ontem, Lady Thatcher, mais do que ninguém, não esperava que os seus inimigos passassem um pano por tudo após a sua morte. Parafraseando as palavras de São Francisco de Assis, que ela citou quando entrou em Downing Street, ela certamente trouxe a verdade onde havia erro, mas trazer união nunca foi o seu destino.”

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