Vários elementos do Governo, incluindo o primeiro-ministro, principalmente como “amigo”; a vice e amiga Leonor Beleza; os apoios-surpresa de Pacheco Pereira e de Miguel Relvas; e uma série de nomes do PSD e do CDS a representarem os partidos. Foi com este cenário que Luís Marques Mendes contou esta quarta-feira, na apresentação do livro-entrevista “Luís Marques Mendes — Uma Vida Política”, do jornalista do Observador Luís Rosa, e em que viu esses apoiantes destacarem qualidades suas (que têm sido referidas como defeitos pelos adversários) como a “experiência” ou a “defesa da democracia” e do sistema.

Marques Mendes entrou, de resto, ao lado do primeiro-ministro e do líder do CDS, Nuno Melo, tendo Montenegro falado logo aos jornalistas para defender o candidato em várias frentes — e recordar que esteve ao lado do candidato presidencial em boa parte do seu percurso (dentro do PSD, ainda estava o atual primeiro-ministro a trilhar caminho na política local). Mas, no que toca a estas presidenciais, para Montenegro basta assistir a entrevistas, debates e ações de pré-campanha para perceber que “há um candidato que é diferente dos outros: Mendes apresenta-se muito mais preparado, mais sereno, mais conhecedor do país e das funções presidenciais” e é “exigente e conciliador”.

De novo, a importância da experiência, que os adversários dizem colocá-lo dentro do “sistema” que governa Portugal há décadas: “Tem mostrado o valor da experiência e o que ela pode dar a Portugal a partir da Presidência da República para podermos puxar pelas capacidades nacionais”, sublinhou Montenegro, lembrando que a campanha não é partidária e que abrangerá “todos os eleitores da mesma maneira, independentemente das origens do pensamento político dos candidatos”.

Com Marques Mendes a tentar conquistar os votos do PSD, mas também abranger outros campos políticos, Montenegro quis frisar que o Presidente não tem uma atuação muito ideológica e que funciona sobretudo como “árbitro e aglutinador de vontades da sociedade portuguesa”. Quanto à crítica sobre ser um candidato do “sistema”, também disparou: “Não há nenhum candidato que possa ser antissistema, porque a Presidência é em si mesma um elemento estruturante do sistema e só com a perspetiva de assumir essa posição alguém pode estar habilitado e apto”.

E voltou mesmo atrás, depois de responder às primeiras perguntas, para tentar arrumar outro possível handicap de Mendes — a ideia de que os portugueses não gostam de pôr os “ovos todos no mesmo cesto”, elegendo a mesma área política para Belém e São Bento. “Não vale a pena criar uma nuvem de fumo ou temor. O sistema está formatado para o equilíbrio de poderes e não há qualquer favoritismo do Presidente sobre nenhuma força política”, disse, lembrando os exemplos de Mário Soares, Jorge Sampaio, Cavaco Silva e Marcelo Rebelo de Sousa, todos eles antigos líderes partidários, como Mendes.

Se o apoio de Montenegro (e do PSD ‘oficial’) já era conhecido, logo à entrada da Câmara do Comércio e Indústria, onde as figuras da área social democrata se iam apresentando, deu-se primeira surpresa: o apoio de José Pacheco Pereira, que fez questão de ali estar para dizer que garantir a presença de Luís Marques Mendes numa segunda volta — eventualmente contra André Ventura — é “vital”. Isto porque, se Marques Mendes é descrito como um candidato “do sistema”, quando se associa esse sistema aos últimos 50 anos está-se a falar, na verdade, da democracia — e é essa que é “obrigatório defender” nestas eleições, justificou.

Por isso, e mesmo não concordando com “tudo” o que Marques Mendes defende — incluindo, exemplificou, sobre as leis laborais — o fator fundamental é a “conjuntura” e a questão fundamental que “qualquer Presidente da República vai enfrentar nos próximos anos é a defesa da democracia“. E, por aí, quem está em melhores condições de a defender é Marques Mendes, frisou.

Numa altura em que os adversários lhe vão apontando a incapacidade de convencer o PSD por inteiro, e em particular a ala mais à direita do partido, outra presença surpreendente foi a do antigo dirigente e ministro passista Miguel Relvas. Depois de Passos Coelho já ter dito que não se sente obrigado a apoiar nenhum candidato e de Marques Mendes ter garantido “categoricamente” ao Observador que considera “impossível” que escolha ativamente um dos seus adversários, Relvas apareceu para concordar que Mendes é o candidato com “melhores condições” para desempenhar a função de Presidente da República.

Sinal de apoio do passismo? “Seria sinal do relvismo“, atirou o antigo ministro, esclarecendo que fala por si e dizendo não ter estranhado que alguns apoiantes de Passos tenham decidido estar ao lado de António José Seguro — “Não há nada de anormal nisso. Em Portugal agora é que passou a ser anormal que aqueles que tiveram responsabilidades no passado, aqueles que têm uma história política, assumam e queiram trazer para a vida pública mais uma vez a sua experiência”, atirou.

Leonor Beleza elogia “negociador”. “Conta a experiência, não o tamanho”

Na sala sentaram-se os ministros Paulo Rangel, Miguel Pinto Luz, Carlos Abreu Amorim e Gonçalo Matias, assim como sociais democratas como Carlos Moedas e Sebastião Bugalho e democratas-cristãos como Paulo Núncio, João Almeida e Diogo Feio. Ouviam Leonor Beleza, presidente da comissão de honra de Mendes que se apresentou como “amiga e admiradora do retratado” e que quis explicar, a partir da vida política que o livro conta, porque é que o considera o candidato que “reúne melhores condições para o desempenho desta função”.

Foi nesse contexto que foi elogiando as “qualidades de negociador em muitos processos complicados” durante a governação cavaquista; a capacidade como “fazedor de pontes” com uma “capacidade rara de atingir consensos; os “bastidores” partidárias que conhece “como ninguém” nesta eleição; a experiência “vivida” de estar também na oposição, as negociações que conduziu já quando era líder do PSD, com o PS de José Sócrates; e o afastamento de autarcas do PSD por questões éticas: “Tomou essas decisões com grande coragem, rigor e exigência e grandes dificuldades para o interior do partido”.

E, resumindo os motivos para o apoio, gracejou: “Conta a experiência, não conta o tamanho. Conta a visão para o país. Mas há uma coisa ainda mais importante: o que me move sem nenhuma hesitação é a sua dignidade, com que se comporta, trata os outros. O que queremos que possa fazer é personalizar a dignidade” em Belém.

Depois de o autor, o jornalista Luís Rosa, ter defendido o jornalismo como instrumento essencial para a “construção da memória coletiva” e frisado que Mendes “esteve na primeira fila de alguns dos principais acontecimentos dos últimos 40 anos”, foi a vez de Mendes falar. Desde logo, deixando uma mensagem breve sobre como, se não fosse o “absurdo processo judicial” movido contra Beleza durante o cavaquismo, esta “já teria sido primeira-ministra ou Presidente da República”; depois, explicando que aceitou participar neste livro porque é “dever” de uma figura pública expor o seu pensamento e responder por ele, com “humildade”.

A quem o ouvia, Mendes repetiu as principais explicações sobre a decisão de ser candidato: achou que podia ser “útil” ao país num momento difícil para o mundo — a ONU cada vez mais irrelevante “apesar do secretário-geral”, a Europa com fragilidades nas lideranças e na economia — e para o Parlamento — “altamente dividido, tendo dentro de si o germe e a ameaça da instabilidade”.

Ora Mendes tem dito que tem “conhecimento e preparação” para não “acrescentar instabilidade à instabilidade” e foi isso que repetiu, defendendo que a primeira missão do Presidente é “ajudar a fazer pontes em nome da estabilidade” — até porque só com ela se pode perseguir o seu segundo objetivo, o da “ambição“, seja no que toca ao crescimento económico como ao reforço do Estado social. Prometendo manter um discurso positivo, com pedagogia e gerador de “autoestima”, a sala pareceu, para já, também ela positiva.