O Governo liderado por Luís Montenegro vai realizar uma homenagem a Aníbal Cavaco Silva para celebrar os 40 anos do X Governo Constitucional, o primeiro Executivo liderado pelo antigo primeiro-ministro. O evento decorre na próxima quarta-feira, às 13h00, na Residência Oficial do primeiro-ministro e contará com a presença dos 16 ministros e do primeiro-ministro. Luís Montenegro e Cavaco Silva vão discursar nessa cerimónia. Meia hora depois será inaugurada uma exposição fotográfica de Rui Ochôa, que tem com o mote “Aníbal Cavaco Silva: uma década em imagens – O Primeiro-Ministro que transformou Portugal“.

Este tipo de celebrações tem sido comum nos últimos anos. António Costa já tinha, em 2016, feito uma homenagem a Mário Soares nos 40 anos do I Governo Constitucional e, em 2021, a Francisco Pinto Balsemão pelos 40 anos do VII Governo Constitucional. Em junho de 2022, poucos meses depois de conquistar a maioria absoluta (que lhe daria para Governar até 2026), António Costa respondeu a críticas de Cavaco Silva à sua governação, dizendo que o antigo primeiro-ministro estava “preocupado com o seu lugar na história”. E o então chefe de Governo deixou-lhe uma provocatória promessa: “Seguramente, em 2025, quando passarem 40 anos sobre a posse do primeiro Governo de Cavaco Silva, espero contar com ele para podermos fazer uma homenagem. Uma homenagem sobre os 40 anos desse já longínquo Governo em que ele iniciou a sua governação”. Como em política nada é perene, Costa acabou por demitir-se no final de 2023 e acaba por ser o PSD, da cor política de Cavaco Silva, a liderar o Governo

A consideração e o respeito de Luís Montenegro por Cavaco Silva têm sido públicos e notórios. O atual primeiro-ministro, no livro “Na Cabeça de Montenegro”, do editor-adjunto de Política do Observador Miguel Santos Carrapatoso,  deixou claro: “A minha referência política maior é mesmo o professor Aníbal Cavaco Silva”.

Na cabeça de Luís Montenegro. De “ponta‑de‑lança do passismo” a “símbolo do neocavaquismo”

Cavaco Silva também tem amigavelmente retribuído. Quando o atual primeiro-ministro estava debaixo de fogo no caso Spinumviva e a enfrentar as segundas legislativas no espaço de um ano, o antigo líder do PSD escreveu um artigo no Observador a dizer que não inferia que “Luís Montenegro tenha violado quaisquer princípios éticos ou cometido ilegalidades.”

Na última semana, Luís Montenegro disse que o seu governo é inspirado em Francisco Sá Carneiro: “Este atual governo, o 25.º Governo Constitucional, é um governo ‘Sá Caneirista’, sim, a liderança do PSD é uma liderança ‘Sá Caneirista’ e é ‘Sá Caneirista’ naquilo que é o âmago, o fundamento, o centro, o coração da nossa alma política”. Houve quem, no espaço público, considerasse que isto era um corte com o exemplo do cavaquismo. O que não corresponde à realidade: Cavaco continua, isso sim, a ser o exemplo e referência que permite a Montenegro afastar-se do passismo (que os eleitores associam a cortes e austeridade).

O almoço para Cavaco que acabou em forcing para Mendes

Na última sexta-feira já houve uma homenagem aos 40 anos do X Governo Constitucional de Cavaco Silva, no restaurante Cavalariça, em Lisboa. No entanto, para não se confundir com qualquer evento oficial, o próprio antigo primeiro-ministro fez questão de explicar que se tratava de uma iniciativa privada de três antigos membros do seu Governo: “Estou hoje aqui com muita satisfação e alguma emoção, para participar num almoço de reencontro e confraternização com as pessoas que participaram, serviram o País, como membros do XI e XII Governo Constitucionais que tive a honra de presidir. Três membros desse Governo tiveram uma ideia, abriram uma inscrição. Eu inscrevi-me. Paguei o preço meu e da minha mulher para estar hoje aqui presente.”

E Cavaco Silva acrescentou: “É uma alegria imensa encontrar hoje estas pessoas, que juntamente comigo deram o melhor de si próprias para servir Portugal. Algumas durante 10 anos, outras com muito menos anos. Hoje assinala 40 anos do começo dessa aventura governativa e 30 anos do fim desses 3 Governos que terminaram a sua tarefa em 1995.”

Um dos destaques mediáticos desse almoço foi Luís Marques Mendes, que tinha uma recente sondagem a dá-lo à frente nas intenções de voto das Presidenciais. À entrada desse almoço, que foi à porta fechada, Mendes disse estar “satisfeito com a sondagem”, admitindo que lhe dava “confiança e esperança para o futuro”, mas garantia que não lhe ia “subir o poder nem importância à cabeça” e garantia que não se ia “deslumbrar com a sondagem”. Outros ex-governantes, questionados pelos jornalistas, acabaram por deixar elogios não só a Cavaco Silva, mas ao ex-governante de Cavaco, Luís Marques Mendes.

Sobre Cavaco Silva, Mendes lembrou que “pode-se gostar ou não gostar”, mas Cavaco Silva foi “o melhor primeiro-ministro da democracia portuguesa”. O próprio Cavaco Silva é um admirador de Luís Marques Mendes, com quem tem não só uma relação próxima, como tinha por hábito acompanhar religiosamente os comentários do seu antigo governante na SIC ao domingo à noite.

O próprio Cavaco Silva, em setembro de 2025, escreveu um artigo no semanário Expresso a dizer que o próximo Presidente da República devia ter “experiência política”, naquilo que foi lido como um ataque ao almirante e uma defesa da candidatura de Marques Mendes.