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O cheiro a fumo ainda pairava no ar quando os primeiros moradores do complexo residencial Wang Fuk Court começaram a relatar, em lágrimas, o que estavam a viver nesta quarta-feira trágica em Hong Kong. “Comprei este apartamento há mais de 20 anos. Tudo o que tínhamos estava aqui. E agora, assim queimado, o que resta?”, desabafou Wan, de 51 anos, à agência Reuters, repetindo a frase “O que vamos fazer?” como se estive a tentar convencer-se da realidade.
O incêndio que devastou o complexo residencial em Tai Po, no norte de Hong Kong, com quase duas mil casas distribuídas por oito blocos e cerca de quatro mil residentes, tornou-se o pior fogo na região desde 1996, altura em que 41 pessoas morreram num edifício comercial em Kowloon.
Uma moradora do condomínio relatou à Radio Television Hong Kong (RTHK) que ouviu “vários estrondos que pareciam fogos de artifício”. “Quando desci as escadas, a polícia mandou-nos sair dali e ir para outro lugar”, disse. Outra residente afirmou que pensou que o barulho que ouvia era das obras das torres que estavam a sofrer arranjos: “No início, pensei que fossem trabalhadores a deitar betão. Normalmente tenho as janelas fechadas, por isso pensei que não se passava nada. Mais tarde percebi que algo estava errado e desci as escadas”, contou.
▲ O alerta para o incêndio no complexo residencial Wang Fuk Court foi pelas 14h51 locais (6h51 em Lisboa)
China News Service via Getty Ima
Harry Cheung, de 66 anos, morava num dos prédios há mais de quatro décadas. “Eram 14h45 [6h45 em Lisboa] quando ouvi um estrondo enorme. Olhei pela janela e vi o bloco 5 em chamas. Desci e disseram-me que estava a arder muito. Voltei para cima, fiz a mala e saí. Estou cá em baixo há mais de três horas”, descreveu. Mais tarde, confessou: “Nem sei como me sinto. Só penso onde vou dormir hoje“.
Desta quarta para quinta-feira, o Governo abriu abrigos temporários, onde cerca de 900 desalojados procuraram refúgio, enquanto mais de mil quartos de hotéis e hostéis foram reservados para quem perdeu a casa. Junto de um dos abrigos, uma mulher de 52 anos, de apelido Ng, procurava desesperadamente a filha. “Ela e o pai ainda não saíram. Não houve água para salvar o nosso prédio“, chorava, agarrada a uma fotografia de quando a jovem se formou. Minutos depois, segundo reporta a agência de notícias, embalava a imagem como se fosse a própria filha.
A falta de notícias tornou-se uma segunda tragédia. Uma aplicação online registou dezenas de alertas submetidos por moradores através de um documento partilhado: “Sogra na casa dos 70, desaparecida”, lia-se numa das entradas. Noutra, apenas uma nota: “27.º andar, sala 1: ele está morto“.
Perante as notas que iam sendo publicadas na aplicação, muitos tentaram regressar aos prédios para procurar os familiares ou salvar animais de estimação. No entanto, foram bloqueados pela polícia. Jason Kong voltou para atrás quando ouviu que o teto do edifício onde vivia estava a arder. Em casa estava o seu poodle de dez anos, o Ber Ber. “Queria subir para trazer o meu cão. Eram cinco da tarde e o fogo ainda não tinha chegado ao nosso bloco, mas não me deixaram entrar. Tenho medo que o fumo o sufoque”, disse.
▲ No total, cerca de mil bombeiros estiveram envolvidos este incêndio
VCG via Getty Images
Para os mais velhos, a vulnerabilidade foi maior. Yuen, um homem de 65 anos, explicou que muitos dos vizinhos eram idosos que utilizavam cadeiras de rodas e andarilhos. “O fogo deixou-nos, a mim e à minha mulher, sem casa”, relatou. As obras de manutenção em curso no complexo levaram vários moradores a manterem as janelas fechadas — e muitos não ouviram o alarme.
Uma residente contou que perdeu contacto com o marido, idoso e dependente de cadeira de rodas, na noite do incêndio. “Perdi o contacto com ele”, lamentou à RTHK. “Falei com ele às seis da tarde, mas depois já não atendeu. Não sei qual é a situação agora”, sublinhou, relatando que o marido descreveu “muito fumo” no prédio, mas garantiu que se estava a proteger com um pano húmido no nariz e na boca. “Disse-lhe para manter sempre o telemóvel consigo”, acrescentou a mulher.
Outra moradora explicou que só soube do incêndio quando regressava de uma viagem à cidade de Shenzhen. Desde então, não conseguiu contactar o marido. “Ainda não consegui falar com ele. Está reformado, tem 79 anos. Só posso esperar e ter fé de que possa estar bem”, disse na quarta-feira à noite à imprensa.
O dia seguinte: “Temos de enfrentar a realidade. Para onde iremos?”
O incêndio espalhou-se rapidamente pelas redes de proteção e pelas estruturas de bambu, que desabaram em chamas e, na manhã desta quinta-feira, 700 bombeiros continuavam a combater as chamas, apoiados por equipas de socorro e pela polícia. Apesar de Hong Kong ser uma das cidades mais modernas da Ásia, continua a ser uma das regiões a utilizar bambu como material de andaimes: cerca de 2.500 mestres de andaimes ainda estão registados.
“Vi o fogo passar de um prédio para três, depois quatro. É assustador”, contou a jovem Veezy Chan, de 25 anos. Shirley Chan, outra moradora, limitou-se a descrever a cena como “verdadeiramente devastadora”. “Imaginem uma casa desaparecida, queimada. Parte-me o coração. Nem consigo pôr em palavras”, desabafou.
Na manhã desta quinta-feira, algumas pessoas ainda tentavam perceber se tinham perdido familiares, vizinhos ou memórias de décadas. Uma mulher de 70 anos observava os blocos carbonizados. “Quando cheguei, o prédio ao lado do meu já ardia. Depois vi os outros a pegar fogo um a um”, relatou à Reuters, acrescentando: “Estou preocupada com uma vizinha idosa do meu andar. Ainda vi o neto à procura dela“. Depois, num murmúrio, acrescentou: “Sou proprietária desde os anos 80. Espero que o meu apartamento não tenha sido reduzido a cinzas, mas não posso fazer nada senão olhar”.
Muitos moradores passaram a noite em casas de amigos, como Chu, de 70 anos, que voltou ao complexo apenas para ver o próprio bloco ainda a arder. “Não sabemos o que fazer“, disse. Também Y.Y. Chan, de 68 anos, voltou para olhar para o fumo ainda a sair dos edifícios. “Mesmo que as chamas no nosso bloco tenham sido apagadas, ver todos os outros ainda a arder deixa-nos arrasados. Temos de enfrentar a realidade. Para onde iremos?”, questionou-se.
Por seu turno, a moradora Chan disse à imprensa de Hong Kong que está “profundamente grata” por a sua família estar a salvo, mas confessou que o incidente a deixou abalada. “Preciso mesmo de sair daqui por algum tempo, foi tudo demasiado chocante. É muito difícil tirar isto da cabeça. É assustador e muito difícil de esquecer. O edifício já não me transmite segurança“, confessou.
População junta-se para ajudar os desalojados
Em Tai Po, surgiram gestos de solidariedade. Vários voluntários, incluindo estudantes, deslocaram-se ao local do incêndio para prestar assistência às famílias afetadas. “Estou aqui para dar apoio. Passei a noite inteira a transportar garrafas de água, roupa quente, o que fosse preciso. Andei para trás e para a frente sem parar”, contou Samuel, um dos voluntários, à RTHK.
“Vivo em Tseung Kwan O. Conduzi até aqui para ajudar no que fosse preciso. Levei comida aos bombeiros e às equipas na linha da frente. Há sempre necessidade de máscaras, água e outros materiais, e há pontos específicos onde são precisos. Já perdi a conta às viagens que fiz”, contou outro voluntário.
▲ Várias pessoas voluntariaram-se para apoiar os desalojados após o incêndio
Bloomberg via Getty Images
Serena, de 16 anos, entregou caixas de garrafas de água numa escola secundária de Tai Po, convertida num dos abrigos temporários para os afetados pelo incêndio. “Esta é a minha escola, mas hoje [quinta-feira] não temos aulas por causa do incêndio”, explicou à agência Lusa a jovem, acrescentando que se juntou a vários colegas para comprar e doar mantimentos, incluindo bolachas e massa. A escola fica a pouco mais de dois quilómetros do complexo residencial. “Toda a gente conhece alguém que vivia em Wang Fuk. Nunca pensámos que isto pudesse acontecer aqui”, sublinhou Serena.
Mas não é só em Tai Po, situado mais perto da fronteira com a metrópole de Shenzhen do que do centro de Hong Kong, que a população se tem mobilizado para ajudar. Uma idosa veio de Tuen Mun, a 30 quilómetros de distância, com cobertores e roupa. “É pouco para quem perdeu tudo o que tinha”, lamentou.
De acordo com a imprensa local, o incêndio levou também muitas pessoas a tentar doar sangue, esgotando esta quinta-feira as marcações no centro de Causeway Bay.
Governo promete “investigação completa” e polícia detém três suspeitos
O governador de Hong Kong, John Lee, garantiu, em conferência de imprensa citado pelo The Guardian, que vai apoiar todos os afetados. Entre as medidas anunciadas estão mais de mil quartos e apartamentos temporários, um assistente social atribuído a cada família e centenas de médicos do setor privado destacados para ajudar as vítimas.
“O Governo está empenhado em lidar com este grande desastre. A nossa prioridade agora é combater o incêndio”, sublinhou o chefe do executivo. “A prioridade máxima é extinguir totalmente o incêndio e resgatar os residentes presos. A segunda tarefa é tratar dos feridos, a terceira é lidar com as consequências e depois realizaremos uma investigação completa”, disse Lee.
John Lee confirmou igualmente a criação de um fundo de apoio no valor de 300 milhões de dólares de Hong Kong (cerca de 33,2 milhões de euros) para ajudar os residentes afetados e anunciou que as eleições para o parlamento local, marcadas para 7 de dezembro, poderão ser adiadas.
▲ Governador de Hong Kong, John Lee, anunciou a criação de um fundo de apoio para ajudar os residentes afetados
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O secretário-chefe de Administração de Hong Kong, Eric Chan, anunciou que a cidade irá fazer a transição da utilização de andaimes de bambu para estruturas de aço. As autoridades reguladoras irão ainda exigir que todos os estaleiros de construção apresentem, já na próxima semana, um relatório detalhado sobre o estado das redes de proteção dos seus andaimes.
A causa do incêndio ainda está por apurar. A polícia afirmou, segundo a Reuters, que o incidente poderá ter sido provocado por uma empresa de construção “gravemente negligente”, alegadamente responsável por utilizar materiais perigosos. “Temos razões para acreditar que os responsáveis da empresa foram gravemente negligentes, o que levou ao acidente e permitiu que o fogo se propagasse de forma incontrolável, resultando em numerosas vítimas”, afirmou a superintendente Eileen Chung.
As autoridades referiram ainda que realizaram buscas à empresa de manutenção responsável pelas obras. Para além das redes de proteção e coberturas plásticas possivelmente abaixo das normas de segurança, foi encontrado material inflamável deixado durante os trabalhos de manutenção. A polícia deteve dois diretores e um consultor de engenharia da empresa por suspeita de homicídio voluntário.
Hong Kong, enquanto território semi-autónomo sob administração chinesa, mantém Governo e legislatura próprios. No entanto, o Presidente da China, Xi Jinping, classificou o incêndio como um “desastre nacional” e, na própria noite de quarta-feira, enquanto as chamas ainda consumiam o complexo habitacional, apelou a um “esforço total” para extinguir o fogo e salvar vidas.
Também o líder do Governo de Macau, Sam Hou Fai, manifestou esta quinta-feira, em comunicado, “profundo pesar” pelas vítimas. O chefe do Executivo disse que “sentiu absoluta tristeza e consternação” ao ser informado do incêndio em vários edifícios no complexo Wang Fuk Court. Em nome do Governo de Macau, Sam Hou Fai “apresentou as mais sinceras condolências” e transmitiu “a sua sentida solidariedade” para com os feridos, os seus familiares, bem como os familiares das vítimas mortais.