Quatro décadas, seis mandatos, 81 anos. No Uganda, o Presidente eleito pela primeira vez em 1986 prepara-se para um sétimo mandato nas eleições presidenciais e legislativas desta quinta-feira. Mas as ambições do rebelde reformado são ameaçadas por uma ex-estrela pop, de 43 anos, que galvaniza o ímpeto de mudança das camadas jovens do país que apenas conheceram um Presidente.
O Uganda vive há vários meses uma escalada de repressão policial e militar com detenções de manifestantes e apoiantes da oposição, desaparecimentos e a suspensão de ONGs locais e dos serviços móveis e de internet. Este cenário intensificou-se na campanha eleitoral e o blackout total ou parcial nas comunicações imperou esta quinta-feira, no dia em que os ugandeses foram às urnas.
“O único lugar onde a votação começou às 07h00 (04h00 em Lisboa) é onde os militares estão a votar”, alertou o secretário-geral do partido da oposição, David Lewis Rubongoya, logo pela manhã.
Na capital, Kampala, a cidade dividiu-se: nos bairros de lata, bastiões do candidato da oposição, Bobi Wine, de 43 anos, as votações ainda não tinham começado; na zona nobre, próxima do Presidente em funções, pelo menos uma das secções de voto abriu à hora prevista.
Em várias mesas de voto, o arranque foi adiado e só ocorreu até quatro horas depois do previsto. Há queixas de falta de boletins de voto e anomalias nas máquinas biométricas utilizadas no processo de identificação dos eleitores.
Uganda is in the dark with the internet shut down. Several incidents of ballot stuffing have been recorded. The regime military and police is directly involved in repressing our agents at polling stations. On top of abductions, the regime forces are targeting our leaders across…
— BOBI WINE (@HEBobiwine) January 15, 2026
Polling materials reportedly arrived 3–4 hours late across Central region, including Kampala suburbs. Voters left frustrated as faulty Biometric Voter Verification Kits failed, per journalists. Central is the opposition stronghold—these delays tilt the result. This is a sham… pic.twitter.com/OQV8WPmt5Z
— Human Rights Defenders (@NUPUSAInc) January 15, 2026
This level of incompetence is unacceptable. Newly procured voting machines by the @UgandaEC have failed, causing delays in voting even within Uganda’s capital city.
If this is happening in Kampala, what should we expect in other districts and rural communities?
Is this an… pic.twitter.com/qc6YpVZbc9
— Norah kobusingye (@KobusingyeNora) January 15, 2026
A renovação da dinastia republicana de Yoweri Museveni colocou as tropas em alerta. Centenas de apoiantes da oposição foram detidos pelas forças de segurança, que em eventos de campanha do ativista pró-democracia, Bobi Wine, recorreram a balas reais e a gás lacrimogéneo para dispersar protestos pacíficos, afirma a Organização das Nações Unidas (ONU) citada pela agência de notícias Associated Press (AP).
No sábado, os militares começaram a ser enviados para várias áreas da capital, patrulhada por viaturas blindadas e com soldados nas ruas. À AP, o porta-voz das forças militares, coronel Chris Magezi, negou que a mobilização tivesse objetivos antidemocráticos, salientando apenas a necessidade de impedir atos de violência.
UPDF patrols in Kampala have commenced today. No cause for alarm. However, we do not take threats of violence during the election period by some political actors and their supporters lightly. Working alongside the police, our objective is to make sure everyone is safe and… pic.twitter.com/RDAA01FcMa
— Chris Magezi (@ChrisOMagezi) January 10, 2026
Security has been heightened in and around Kampala City ahead of the general elections on January 15th. #UgandaDecides2026 pic.twitter.com/RoKgj1TJRR
— Sudhir Byaruhanga (@Sudhirntv) January 9, 2026
Dois dias depois, na terça-feira, o Governo ugandês ordenou que duas organizações não governamentais (ONG) de direitos humanos — que haviam denunciado detenções arbitrárias e tortura de opositores e jornalistas — suspendessem as suas atividades antes das eleições. Numa carta enviada a uma das organizações, a Chapter Four Uganda, citada pela AP, o Gabinete Nacional de ONG acusou a entidade de estar envolvida em atividades “prejudiciais” à segurança do país.
Joint Anti-Terrorist Task Force (JAT) officers brutalize @bbstvug Journalist, Ivan Mbadi, during @HEBobiwine’s campaigns in Kween district. His camera was destroyed during the attack.
We strongly condemn rising incidents of attacks on journalists for covering acts of brutality… pic.twitter.com/XlRN3XRvrI
— Chapter Four Uganda (@chapterfourug) January 5, 2026
Ainda na terça-feira, 48 horas antes da abertura das urnas, a Comissão de Comunicações decretou a suspensão temporária do acesso da população à internet, mas também da venda e registo de novos cartões SIM, a partir das 18h00 (15h00 em Lisboa) — uma medida “necessária para mitigar a rápida disseminação de informação enganadora e desinformação online, a fraude eleitoral e riscos associados”, noticiou a Reuters, com base numa carta a que teve acesso.
A paralisação foi confirmada pela NetBlocks no X: “Dados de rede em tempo real mostram uma interrupção da conectividade à internet no Uganda”.
ICYMI: #Uganda is currently in the midst of a widespread internet shutdown as telecoms regulator UCC imposes a blackout in advance of tomorrow's general election.
Far from halting misinformation, the measure is likely to limit transparency and increase the risk of vote fraud ????️ pic.twitter.com/teqeWITnqA
— NetBlocks (@netblocks) January 14, 2026
Tal como tem sucedido em alguns outros países com contestação ao poder, este método é utilizado para cercear a atuação da oposição, que recorre cada vez mais às redes sociais para comunicar com o eleitorado e expor irregularidades eleitorais.
Com a internet bloqueada nas vésperas da eleição, muitos ugandeses viram-se obrigados a procurar alternativas de comunicação. A resposta surgiu numa aplicação de mensagens offline desenvolvida por Jack Dorsey, cofundador do Twitter. Até então pouco conhecido, o Bitchat ascendeu nas preferências das lojas da Apple e da Google no Uganda, ultrapassando os 28 mil downloads neste ano — quase quatro vezes mais do que o volume registado nos dois meses anteriores juntos, avança a Reuters de acordo com dados da empresa de análise Apptopia.
Em vez de depender de internet ou sinal móvel — como acontece com o X —, a plataforma funciona através de Bluetooth para permitir a troca de mensagens entre utilizadores próximos.
HAVE YOU DOWNLOADED BITCHAT YET?
As we all know, the regime is plotting an internet shutdown in the coming days, like they have done in all previous elections. They switch off the internet in order to block communication and ensure that citizens do not organise, verify their… pic.twitter.com/KPVyc0ZW4H
— BOBI WINE (@HEBobiwine) December 30, 2025
O “Presidente do gueto” cujo avô hospedou Museveni em casa
Nesta campanha, o ex-cantor que agora desafia o Presidente, apresentou-se de capacete e colete à prova de bala. Nas imagens que partilhou no X, avançava por uma multidão que fervilhava à passagem da sua comitiva. Entre as bandeiras do Uganda erguidas pelos apoiantes, surgiam também algumas dos Estados Unidos.
Last campaign rally in Mende, Busiro East.#ANewUgandaNow #ProtestVote2026 #PeoplePowerOurPower pic.twitter.com/93hgzPPGIQ
— BOBI WINE (@HEBobiwine) January 13, 2026
In Nansana Municipality preaching the message of change on our final day of the campaign trail.#ANewUgandaNow #ProtestVote2026 #PeoplePowerOurPower pic.twitter.com/TV3SXjNRi2
— BOBI WINE (@HEBobiwine) January 13, 2026
Noutro registo publicado no X na terça-feira, em que convocava voluntários, o ativista apelava aos eleitores para permanecerem atentos junto às mesas de voto para garantir que “nada ilegal aconteça”.
CALL FOR VOLUNTEERS
In just one day, we shall be going to polls. While we're doing everything possible to ensure that we have polling agents at every polling station, we know that the regime will try to stop some and arrest others. The first step is for all of us to stay at… pic.twitter.com/kTRA66w7tU
— BOBI WINE (@HEBobiwine) January 13, 2026
As probabilidades de um resultado eleitoral inesperado são mínimas nas eleições em que Museveni espera ganhar com 80% dos votos “se não houver fraude”, conforme declarou aos jornalistas. Juntamente com o terceiro chefe de Estado africano — depois de Teodoro Obiang, da Guiné Equatorial e de Paul Bya, dos Camarões — há mais tempo no poder concorrem outros sete candidatos.
A maior pedra no sapato de Museveni, Robert Kyagulanyi Ssentamu, conhecido pelo nome artístico Bobi Wine, tinha três anos quando o Presidente chegou ao poder. O avô, Yozefu Walakira, que fazia parte de um grupo rebelde diferente do que o que conquistou o poder no Uganda em 1986, chegou a hospedar Museveni em casa.
▲ Bobi Wine mostra o boletim de voto antes de o depositar na urna esta quinta-feira
AFP via Getty Images
Formado em música, dança e teatro, com uma obra artística ancorada em elementos de reggae, afrobeats e ritmos tradicionais ugandenses, Bobi Wine afastou-se, contudo, da trajetória de outros artistas do país. Quando em 2016, vários músicos famosos apoiaram a reeleição de Museveni, Wine preferiu não se pronunciar. No mesmo ano, lançou a música Situka (Situação, em português), em que dava sinais de que o futuro político na oposição poderia estar próximo: “Quando as coisas ficam difíceis, os fortes têm de agir, especialmente quando líderes se tornam enganadores e mentores se tornam cruéis”, diz a letra.
A viragem política definitiva ocorreu pouco tempo depois. No ano seguinte, o músico tornou-se líder da Plataforma Nacional Unitária, encabeçando a vontade de mudança expressa sobretudo pelos mais jovens — maioria demográfica no terceiro país mais jovem do mundo segundo dados de 2025 do World Factbook da CIA. O autodenominado “Presidente do gueto”, por ter crescido num bairro pobre da capital, fez dos direitos humanos e da justiça social os eixos centrais da sua campanha.
▲ A boina vermelha era a imagem de marca de Bobi Wine antes de a trocar por um capacete e colete à prova de bala
Getty Images
Do People Power aos Óscares
Antes, em 2013, já tinha estado envolvido na fundação de um movimento, o People Power (PP), que mobilizou jovens pobres e da classe trabalhadora com uma retórica antissistema. Apesar de beber do simbolismo revolucionário, Wine segue um núcleo ideológico próximo do liberalismo, refere um estudo da Universidade dos Andes, na Colômbia. Após várias tentativas de registar o PP como partido político, os membros, que reivindicavam melhores condições democráticas e sociais, passaram a usar boinas vermelhas — até há pouco tempo a imagem de marca de Bobi. Entretanto, teve de a trocar pelo capacete à prova de bala.
Foi como independente que chegou ao parlamento, em 2017, lugar que ocupou até se candidatar à Presidência da República, em 2021. Nessa corrida ficou num segundo lugar distante de Yoweri Museveni e a partir daí, a repressão intensificou-se. Bobi já foi várias vezes detido, alegadamente sujeito a maus-tratos sob custódia militar e alvo de acusações, incluindo por posse ilegal de armas e traição à pátria. As acusações, entretanto arquivadas, foram amplamente consideradas por organizações internacionais como sendo politicamente motivadas, segundo reporta a BBC.
Em 2018, a sua detenção mobilizou figuras internacionais como Chris Martin, vocalista dos Coldplay, e Damon Albarn, vocalista principal dos Blur, que subscreveram uma petição que exigia a sua libertação.
This evening as our President returned from Bulindo in Kira Municipality where he had gone to check on one of our lawyers, Musisi George, the police and military under the command of one Twesigye surrounded our vehicles and started firing live bullets, teargas canisters and other… pic.twitter.com/PCfnM1cCoe
— BOBI WINE (@HEBobiwine) September 3, 2024
No ano passado, apesar de estar em prisão domiciliária, foi autorizado a comparecer na cerimónia dos Óscares por ocasião da nomeação para Melhor Documentário do Bobi Wine: O Presidente do Povo, filme que protagoniza e traça a sua ascensão. “Eu dormiria na rua e ficaria sem comer para chamar a atenção para o que está a acontecer no Uganda. Em vez disso, estou a conseguir fazer isso dormindo numa cama confortável num bom hotel em Los Angeles. É muito estranho”, disse à New Yorker.
▲ Bobi Wine com a mulher Barbie Kyagulanyi na passadeira vermelha dos Óscares e o casal esta quinta-feira a caminho da secção de voto
Los Angeles Times via Getty Imag
O sucessor hereditário que quer “decapitar” Bobi
Nestas eleições, em que multidões se reuniram junto aos locais de voto devido a atrasos significativos e ao receio de irregularidades no processo eleitoral, será a Constituição ugandesa — que exige que os resultados sejam anunciados em até 48 horas — a pôr fim à impaciência dos cidadãos em relação ao futuro político que surgirá do fecho das urnas.
Yoweri Museveni, o Presidente de 81 anos, alterou-a duas vezes para remover os limites de idade e de mandatos, segundo noticia a Reuters. Para Museveni, a única ideia de transição legítima centra-se no filho, o general Muhoozi Kainerugaba.
Apesar de ainda não ser ele a disputar as eleições, o militar de alta patente já manifestou ambições presidenciais e protagonizou polémicas nas redes sociais, incluindo ameaças a opositores. Sobre Bob Wine, já escreveu nas redes querer “decapitá-lo”.
The threat by Museveni’s son (who also heads Uganda's military) to behead me is not something I take lightly, given that many have been killed by him and his father, and considering their several attempts at my life. I REFUSE to be intimidated by the cowardly regime. The world is… pic.twitter.com/Xi6Vvp5a7C
— BOBI WINE (@HEBobiwine) January 5, 2025
No país do leste africano, com cerca de 45 milhões de habitantes e 21,6 milhões de eleitores registados, o fecho das urnas, marcado para as 16h00 (13h00 em Lisboa), deixa o país em suspenso, à espera da decisão entre o único Presidente que maioria da população já conheceu e o “Presidente do gueto”.