1229,9kWh poupados 1229,9 kWh poupados com a
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Reduza a sua pegada ecológica.
Saiba mais

GettyImages-2255610090
i

Getty Images

Getty Images

Nas eleições do Uganda o sétimo mandato de Museveni é ameaçado por uma estrela pop com colete anti-balas

O rebelde reformado no poder desde 1986 é desafiado por um cantor que galvaniza uma das populações mais jovens do mundo. Com a internet bloqueada e tropas na capital, em 48 horas o Uganda pode mudar.

Quatro décadas, seis mandatos, 81 anos. No Uganda, o Presidente eleito pela primeira vez em 1986 prepara-se para um sétimo mandato nas eleições presidenciais e legislativas desta quinta-feira. Mas as ambições do rebelde reformado são ameaçadas por uma ex-estrela pop, de 43 anos, que galvaniza o ímpeto de mudança das camadas jovens do país que apenas conheceram um Presidente.

O Uganda vive há vários meses uma escalada de repressão policial e militar com detenções de manifestantes e apoiantes da oposição, desaparecimentos e a suspensão de ONGs locais e dos serviços móveis e de internet. Este cenário intensificou-se na campanha eleitoral e o blackout total ou parcial nas comunicações imperou esta quinta-feira, no dia em que os ugandeses foram às urnas.

“O único lugar onde a votação começou às 07h00 (04h00 em Lisboa) é onde os militares estão a votar”, alertou o secretário-geral do partido da oposição, David Lewis Rubongoya, logo pela manhã.

Na capital, Kampala, a cidade dividiu-se: nos bairros de lata, bastiões do candidato da oposição, Bobi Wine, de 43 anos, as votações ainda não tinham começado; na zona nobre, próxima do Presidente em funções, pelo menos uma das secções de voto abriu à hora prevista.

Centenas de apoiantes da oposição foram detidos pelas forças de segurança, que em eventos de campanha do ativista pró-democracia, Bobi Wine, recorreram a balas reais e a gás lacrimogéneo para dispersar protestos pacíficos

Em várias mesas de voto, o arranque foi adiado e só ocorreu até quatro horas depois do previsto. Há queixas de falta de boletins de voto e anomalias nas máquinas biométricas utilizadas no processo de identificação dos eleitores.

A renovação da dinastia republicana de Yoweri Museveni colocou as tropas em alerta. Centenas de apoiantes da oposição foram detidos pelas forças de segurança, que em eventos de campanha do ativista pró-democracia, Bobi Wine, recorreram a balas reais e a gás lacrimogéneo para dispersar protestos pacíficos, afirma a Organização das Nações Unidas (ONU) citada pela agência de notícias Associated Press (AP).

Centenas de apoiantes da oposição foram detidos pelas forças de segurança, que em eventos de campanha do ativista pró-democracia, Bobi Wine, recorreram a balas reais e a gás lacrimogéneo para dispersar protestos pacíficos

No sábado, os militares começaram a ser enviados para várias áreas da capital, patrulhada por viaturas blindadas e com soldados nas ruas. À AP, o porta-voz das forças militares, coronel Chris Magezi, negou que a mobilização tivesse objetivos antidemocráticos, salientando apenas a necessidade de impedir atos de violência.

Dois dias depois, na terça-feira, o Governo ugandês ordenou que duas organizações não governamentais (ONG) de direitos humanos — que haviam denunciado detenções arbitrárias e tortura de opositores e jornalistas — suspendessem as suas atividades antes das eleições. Numa carta enviada a uma das organizações, a Chapter Four Uganda, citada pela AP, o Gabinete Nacional de ONG acusou a entidade de estar envolvida em atividades “prejudiciais” à segurança do país.

Ainda na terça-feira, 48 horas antes da abertura das urnas, a Comissão de Comunicações decretou a suspensão temporária do acesso da população à internet, mas também da venda e registo de novos cartões SIM, a partir das 18h00 (15h00 em Lisboa) — uma medida “necessária para mitigar a rápida disseminação de informação enganadora e desinformação online, a fraude eleitoral e riscos associados”, noticiou a Reuters, com base numa carta a que teve acesso.

A paralisação foi confirmada pela NetBlocks no X: “Dados de rede em tempo real mostram uma interrupção da conectividade à internet no Uganda”.

Tal como tem sucedido em alguns outros países com contestação ao poder, este método é utilizado para cercear a atuação da oposição, que recorre cada vez mais às redes sociais para comunicar com o eleitorado e expor irregularidades eleitorais.

Em 2018, a sua detenção mobilizou figuras internacionais como Chris Martin, vocalista dos Coldplay, e Damon Albarn, vocalista principal dos Blur, que subscreveram uma petição que exigia a sua libertação.

Com a internet bloqueada nas vésperas da eleição, muitos ugandeses viram-se obrigados a procurar alternativas de comunicação. A resposta surgiu numa aplicação de mensagens offline desenvolvida por Jack Dorsey, cofundador do Twitter. Até então pouco conhecido, o Bitchat ascendeu nas preferências das lojas da Apple e da Google no Uganda, ultrapassando os 28 mil downloads neste ano — quase quatro vezes mais do que o volume registado nos dois meses anteriores juntos, avança a Reuters de acordo com dados da empresa de análise Apptopia.

Em vez de depender de internet ou sinal móvel — como acontece com o X —, a plataforma funciona através de Bluetooth para permitir a troca de mensagens entre utilizadores próximos.

O “Presidente do gueto” cujo avô hospedou Museveni em casa

Nesta campanha, o ex-cantor que agora desafia o Presidente, apresentou-se de capacete e colete à prova de bala. Nas imagens que partilhou no X, avançava por uma multidão que fervilhava à passagem da sua comitiva. Entre as bandeiras do Uganda erguidas pelos apoiantes, surgiam também algumas dos Estados Unidos.

Noutro registo publicado no X na terça-feira, em que convocava voluntários, o ativista apelava aos eleitores para permanecerem atentos junto às mesas de voto para garantir que “nada ilegal aconteça”.

As probabilidades de um resultado eleitoral inesperado são mínimas nas eleições em que Museveni espera ganhar com 80% dos votos “se não houver fraude”, conforme declarou aos jornalistas. Juntamente com o terceiro chefe de Estado africano  — depois de Teodoro Obiang, da Guiné Equatorial e de Paul Bya, dos Camarões — há mais tempo no poder concorrem outros sete candidatos.

A maior pedra no sapato de Museveni, Robert Kyagulanyi Ssentamu, conhecido pelo nome artístico Bobi Wine, tinha três anos quando o Presidente chegou ao poder. O avô, Yozefu Walakira, que fazia parte de um grupo rebelde diferente do que o que conquistou o poder no Uganda em 1986, chegou a hospedar Museveni em casa.

GettyImages-2255783978

Bobi Wine mostra o boletim de voto antes de o depositar na urna esta quinta-feira

AFP via Getty Images

Formado em música, dança e teatro, com uma obra artística ancorada em elementos de reggae, afrobeats e ritmos tradicionais ugandenses, Bobi Wine afastou-se, contudo, da trajetória de outros artistas do país. Quando em 2016, vários músicos famosos apoiaram a reeleição de Museveni, Wine preferiu não se pronunciar. No mesmo ano, lançou a música Situka (Situação, em português), em que dava sinais de que o futuro político na oposição poderia estar próximo: “Quando as coisas ficam difíceis, os fortes têm de agir, especialmente quando líderes se tornam enganadores e mentores se tornam cruéis”, diz a letra.

A viragem política definitiva ocorreu pouco tempo depois. No ano seguinte, o músico tornou-se líder da Plataforma Nacional Unitária,  encabeçando a vontade de mudança expressa sobretudo pelos mais jovens — maioria demográfica no terceiro país mais jovem do mundo segundo dados de 2025 do World Factbook da CIA. O autodenominado “Presidente do gueto”, por ter crescido num bairro pobre da capital, fez dos direitos humanos e da justiça social os eixos centrais da sua campanha.

GettyImages-1420879737

A boina vermelha era a imagem de marca de Bobi Wine antes de a trocar por um capacete e colete à prova de bala

Getty Images

Do People Power aos Óscares

Antes, em 2013, já tinha estado envolvido na fundação de um movimento, o People Power (PP), que mobilizou jovens pobres e da classe trabalhadora com uma retórica antissistema. Apesar de beber do simbolismo revolucionário, Wine segue um núcleo ideológico próximo do liberalismo, refere um estudo da Universidade dos Andes, na Colômbia. Após várias tentativas de registar o PP como partido político, os membros, que reivindicavam melhores condições democráticas e sociais, passaram a usar boinas vermelhas — até há pouco tempo a imagem de marca de Bobi. Entretanto, teve de a trocar pelo capacete à prova de bala.

Foi como independente que chegou ao parlamento, em 2017, lugar que ocupou até se candidatar à Presidência da República, em 2021. Nessa corrida ficou num segundo lugar distante de Yoweri Museveni e a partir daí, a repressão intensificou-se. Bobi já foi várias vezes detido, alegadamente sujeito a maus-tratos sob custódia militar e alvo de acusações, incluindo por posse ilegal de armas e traição à pátria. As acusações, entretanto arquivadas, foram amplamente consideradas por organizações internacionais como sendo politicamente motivadas, segundo reporta a BBC.

Em 2018, a sua detenção mobilizou figuras internacionais como Chris Martin, vocalista dos Coldplay, e Damon Albarn, vocalista principal dos Blur, que subscreveram uma petição que exigia a sua libertação.

No ano passado, apesar de estar em prisão domiciliária, foi autorizado a comparecer na cerimónia dos Óscares por ocasião da nomeação para Melhor Documentário do Bobi Wine: O Presidente do Povo, filme que protagoniza e traça a sua ascensão. “Eu dormiria na rua e ficaria sem comer para chamar a atenção para o que está a acontecer no Uganda. Em vez disso, estou a conseguir fazer isso dormindo numa cama confortável num bom hotel em Los Angeles. É muito estranho”, disse à New Yorker.

GettyImages-2066787416 GettyImages-2255799004

Bobi Wine com a mulher Barbie Kyagulanyi na passadeira vermelha dos Óscares e o casal esta quinta-feira a caminho da secção de voto

Los Angeles Times via Getty Imag

O sucessor hereditário que quer “decapitar” Bobi

Nestas eleições, em que multidões se reuniram junto aos locais de voto devido a atrasos significativos e ao receio de irregularidades no processo eleitoral, será a Constituição ugandesa — que exige que os resultados sejam anunciados em até 48 horas — a pôr fim à impaciência dos cidadãos em relação ao futuro político que surgirá do fecho das urnas.

Yoweri Museveni, o Presidente de 81 anos, alterou-a duas vezes para remover os limites de idade e de mandatos, segundo noticia a Reuters. Para Museveni, a única ideia de transição legítima centra-se no filho, o general Muhoozi Kainerugaba.

Apesar de ainda não ser ele a disputar as eleições, o militar de alta patente já manifestou ambições presidenciais e protagonizou polémicas nas redes sociais, incluindo ameaças a opositores. Sobre Bob Wine, já escreveu nas redes querer “decapitá-lo”.

No país do leste africano, com cerca de 45 milhões de habitantes e 21,6 milhões de eleitores registados, o fecho das urnas, marcado para as 16h00 (13h00 em Lisboa), deixa o país em suspenso, à espera da decisão entre o único Presidente que maioria da população já conheceu e o “Presidente do gueto”.

Ofereça este artigo a um amigo

Enquanto assinante, tem para partilhar este mês.

A enviar artigo...

Artigo oferecido com sucesso

Ainda tem para partilhar este mês.

O seu amigo vai receber, nos próximos minutos, um e-mail com uma ligação para ler este artigo gratuitamente.

O seu plano não inclui a oferta de artigos

Para poder oferecer artigos aos seus amigos, faça upgrade para um plano de subscrição superior.

Ofereça até artigos por mês ao ser assinante do Observador

Partilhe os seus artigos preferidos com os seus amigos.
Quem recebe só precisa de iniciar a sessão na conta Observador e poderá ler o artigo, mesmo que não seja assinante.

Este artigo foi-lhe oferecido pelo nosso assinante . Assine o Observador hoje, e tenha acesso ilimitado a todo o nosso conteúdo. Veja aqui as suas opções.

Atingiu o limite de artigos que pode oferecer

Já ofereceu artigos este mês.
A partir de 1 de poderá oferecer mais artigos aos seus amigos.

Aconteceu um erro

Por favor tente mais tarde.

Atenção

Para ler este artigo grátis, registe-se gratuitamente no Observador com o mesmo email com o qual recebeu esta oferta.

Caso já tenha uma conta, faça login aqui.