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epa11856263 Surrendering members of the Armed Forces of the Democratic Republic of the Congo (FARDC) are escorted by Rwandan soldiers after crossing the border from Goma, in the Democratic Republic of the Congo, to Gisenyi, Rwanda, 27 January 2025. Refugees have been crossing into Rwanda in search of safety as soldiers of the Armed Forces of the Democratic Republic of the Congo (FARDC) and M23 rebels continue to fight in the city of Goma. According to the UN Refugee Agency (UNHCR), violence in the eastern Democratic Republic of the Congo (DRC) has displaced 237,000 people in 2025.  EPA/MOISE NIYONZIMA
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MOISE NIYONZIMA/EPA

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Negociações falhadas, interferência do Ruanda e 3 mil mortos. Seis perguntas e respostas sobre o conflito na República Democrática do Congo

A riqueza em minerais e lutas políticas que remontam ao genocídio no Ruanda transformaram o leste da República Democrática do Congo no palco de uma "catástrofe humanitária", que África tenta mediar.

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A República Democrática do Congo enfrenta um “momento decisivo“, afirmou António Guterres esta quinta-feira. O secretário-geral da ONU apelava a um esforço para que se alcance a paz no leste do país africano, que está a ser varrido por uma ofensiva do grupo rebelde M23 que já matou pelo menos 2.900 pessoas desde a semana passada.

Os apelos de Guterres têm alvos bem diretos: o Presidente da RD Congo, Félix Tshisekedi, e o Presidente do Ruanda, Paul Kagame, que se reúnem esta sexta-feira e sábado na Tanzânia para discutirem a situação e procurarem uma solução. O Ruanda, que faz fronteira com as províncias onde os rebeldes continuam a avançar, é acusado de ajudar o M23 com armas e tropas, mas Kagame nega repetidamente as acusações.

Koen Vlassenroot, diretor do Conflict Research Group da Universidade de Ghent, mostra-se cautelosamente otimista com o sucesso da cimeira. “As boas notícias são o facto de já estar a acontecer. Veremos o que acontece, mas pelo menos estão a tentar falar”, afirma o especialista sobre a RD Congo ao Observador.

A mais recente ofensiva dos rebeldes e a consequente crise humanitária que se vive agora na região é mais um capítulo de uma história muito violenta que remonta à década de 1990 e que explica o aparecimento do M23, o envolvimento do Ruanda e da comunidade regional e a inação da maior parte do Ocidente.

Quem são os rebeldes do M23?

O M23 herda o seu nome do acordo de 23 de março de 2009, que pôs fim à revolta da minoria étnica Tutsi no leste do país e prometeu integrá-los na administração civil e militar. “Muitos [dos rebeldes] são filhos de refugiados que fugiram do Ruanda para a RDC durante a década de 1990 ou que ainda vivem em campos de refugiados”, descreve Erik Kennes, investigador do Programa de África do Egmont Institute, ao Observador.

epa11868072 Leader of Alliance Fleuve Congo (AFC) Corneille Nangaa (C) waves as he arrives to participate in a cleanup exercise of the city of Goma, Democratic Republic of the Congo, 01 February 2025. The M23 (March 23 Movement) rebel group called for all residents to participate in a cleaning exercise of Goma city, the capital of the North Kivu Province, days after claiming to have captured most of it after launching a large-scale offensive in the east of the DR Congo, which the DR Congo and the UN accuse Rwanda of backing.  EPA/DANIEL IRUNGU

▲ Os rebeldes foram fundados em 2012, depois de acusações que o governo não cumprira acordos de 2009

DANIEL IRUNGU/EPA

O grupo rebelde foi fundado em 2012 com a acusação de que o governo de Kinshasa não cumprira os acordos de 2009 e a promessa de proteger os Tutsi da discriminação e dos ataques dos rebeldes ruandeses Hutu no Congo, grupo cuja maior força rebelde é a Força Democrática pela Libertação do Ruanda (FDLR). Pretendiam depor o executivo e defender os interesses dos Tutsis e congoleses com origem no Ruanda. “O nosso objetivo é o Congo, estamos a lutar pelo Congo”, afirmou o líder político do M23, Corneille Nangaa, à Associated Press.

Este grupo é apenas um de dezenas de grupos rebeldes e movimentos políticos com objetivos semelhantes, mas destacou-se pela preponderância política e económica que tem vindo a consolidar no leste do Congo.

O que desencadeou a ofensiva atual?

Depois da revolta contra o governo em 2012 ter falhado, o M23 escondeu-se dos holofotes e procurou reconstruir-se. O M23 voltou a surgir no final de 2021 e lançou uma nova ofensiva em 2022, começando a ocupar territórios na região leste do país. Há mais de um ano que o grupo rebelde passou a controlar a região mineira de Rubaya, responsável por 20% da produção mundial de tântalo — um material utilizado em todos os equipamentos eletrónicos e que é encontrado no mineral que aqui se explora, o coltan. Erik Kennes justifica o rápido avanço dos últimos três anos com a falta de organização e a corrupção dentro do exército congolês.

"Com esta campanha militar, [os rebeldes] queriam empurrar Kinshasa para a mesa de negociação, mas também fragilizá-los. É uma luta política por controlo."
Koen Vlassenroot, diretor do Conflict Research Group da Universidade de Ghent

O avanço sobre Goma em específico foi desencadeado por negociações falhadas entre Kagame e Tshisekedi, processo que estava a ser mediado por Angola. Em dezembro de 2024, Kagame recusou-se mesmo a aparecer num destes encontros, apontando o dedo ao seu homólogo congolês pela falta de resultados. “Com esta campanha militar, [os rebeldes] queriam empurrar Kinshasa para a mesa de negociação, mas também fragilizá-los”, argumenta o analista Koen Vlassenroot. “É uma luta política por controlo”, resume.

Os dois especialistas sublinham ainda a conjuntura internacional favorável, que afastou os olhos do mundo da RD Congo: Kennes aponta a mudança na administração norte-americana e Vlassenroot nota as guerras na Ucrânia e em Gaza.

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Quais os interesses do Ruanda no leste do Congo?

“É preciso distinguir as motivações do M23 das motivações dos seus financiadores, o Ruanda”, declara logo à partida Erik Kennes. Portanto, se as motivações do M23 são principalmente políticas, as do Ruanda são económicas e securitárias.

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▲ O leste do Congo é extremamente rico em minerais como o ouro e o coltan

Getty Images

Os interesses económicos prendem-se, precisamente, com a exploração dos recursos minerais na região — e com o “desenvolvimento da economia à custa dos congoleses”, acusa o especialista. No entanto, Kennes destaca que é “simplista” reduzir o atual conflito ao controlo de minas, uma vez que o Ruanda já tinha acesso às mesmas antes da ofensiva do M23, “através do tráfico de empresários congoleses para o Ruanda”. Para além da exploração de coltan, exportado em massa para o Norte global, o Ruanda usufruiu da exploração de ouro. “Eles mal produzem ouro no Ruanda e a maior parte é traficada da RDC para o Ruanda”, afirma Kennes. Os dois especialistas são rápidos a notar que é difícil quantificar os rendimentos do Ruanda com a exploração mineira na RDC, uma vez que a maior parte é feita de forma ilegal.

As questões securitárias remontam ao genocídio do Ruanda de 1994, em que os Hutu perseguiram e assassinaram 800 mil pessoas, a esmagadora maioria da etnia Tutsi. Milhares de pessoas passaram a fronteira e estabeleceram-se na RDC, pelo que a região fronteiriça entre o Ruanda e a RDC é, hoje em dia, uma zona com muitas pessoas de origem ruandesa. O governo de Kagame estabelece como prioridade proteger estas pessoas e aponta como inimigo a FDLR (de maioria Hutu) e o governo de Tshisekedi, que acusa de proteger a FDLR. Além disso, a proximidade da capital, Kigali, com a RDC justifica o envio de tropas ruandesas para o país vizinho — presença confirmada pela ONU, mas negada pelo Ruanda.

"Kagame quer controlar o leste do Congo e talvez anexá-lo se a comunidade internacional o deixar passar em branco."
Erik Kennes, investigador do Programa de África do Egmont Institute

Erik Kennes tem, contudo, uma interpretação bastante cética deste interesse e afirma que os objetivos de Kagame em destacar tropas para a RDC se prendem com motivações internas e expansionistas. Por um lado, a mobilização do exército ruandês no estrangeiro impede a formação de uma oposição militar interna. Por outro, o Ruanda nunca escondeu o interesse na região, desde 1996: “Kagame quer controlar o leste do Congo e talvez anexá-lo se a comunidade internacional o deixar passar em branco”, resume o especialista.

Qual o papel da comunidade regional?

Os países do sul e do leste de África têm tido um papel extremamente ativo no conflito. Koen Vlassenroot aponta a presença de tropas do Burundi e do Uganda na RD Congo, numa tentativa de ajudar o exército congolês, que não tem capacidade para responder à ofensiva rebelde. No entanto, a intervenção estrangeira faz surgir o risco de o conflito se regionalizar. Foi isso mesmo que aconteceu em que durante a segunda guerra do Congo (1998-2003), também conhecida como a Guerra Mundial de África, devido à intervenção de diferentes potências africanas na RDC.

Conscientes deste perigo, as potências regionais têm sido as principais impulsionadoras do diálogo entre o Ruanda e a RD Congo. Angola recebeu as negociações no final do ano passado. A Tanzânia recebe a cimeira deste fim de semana, organizada pela Comunidade Africana de Leste (composta por oito Estados membro, incluindo a RDC e o Ruanda) e pela Comunidade de Desenvolvimento do Sul de África (composta por 16 Estados membro). Desta última, destaca-se a presença de Cyril Ramaphosa, o Presidente da maior potência regional, a África do Sul.

Qual a reação da comunidade internacional?

As Nações Unidas atuam na RDC por meio da Missão da Estabilização da República Democrática do Congo (MONUSCO). A ação de manutenção da paz tem sido capaz de contrariar a ação de outros grupos rebeldes e concretizar alguns cessar-fogos pontuais. Para o final do ano passado, estava prevista a retirada dos onze mil soldados, mas o plano foi cancelado devido à ofensiva do M23, durante a qual pelo menos três soldados da ONU foram mortos.

epa10101378 United Nations (UN) personnel during a ceremony to pay tribute to UN peacekeepers killed during a protest in Butembo in Goma, Democratic Republic of Congo (DRC), 01 August 2022. The tribute ceremony was for UN peacekeepers that were killed during anti-UN protests in eastern Democratic Republic of Congo following more than a week of protests against the UN peacekeeping mission in DRC, Monusco.  The UN Under-Secretary-General for Peace Operations Jean-Pierre Lacroix attended the ceremony. The ceremony comes one day following UN peacekeepers allegedly opening fire and killing two residents in Kasindi, a border town with Uganda.  EPA/STR

▲ Três soldados da MONUSCO foram mortos em Goma

STR/EPA

Para além da ONU, os outros atores ocidentais têm-se limitado a palavras de condenação da violência. Em 2012, os países cortaram o apoio internacional ao Ruanda, impedindo o financiamento do M23. Apesar de algumas ameaças mais recentes, nenhum país ocidental aprovou, até agora, novas sanções contra Kigali. Os dois especialistas ouvidos pelo Observador explicam que o Ruanda é um dos parceiros militares mais confiáveis do Ocidente em África — o país está envolvido no combate ao grupo Wagner e ao terrorismo em Cabo Delgado, em Moçambique.

Além disso, o Ruanda mantém contratos com alguns países europeus, que se recusam, por isso, a aprovar sanções. Isto está a criar uma cisão dentro da União Europeia, já que a Bélgica tem sido um dos países mais vocais na condenação do Ruanda, explicam os dois analistas belgas. Mas a proposta de sanções não reúne consenso e só será discutida em Bruxelas na próxima semana. A posição da Bélgica é fácil de explicar: foi o Estado responsável pela colonização da República Democrática do Congo.

Qual o estado da situação no terreno?

Na semana passada, os rebeldes tomaram Goma, capital da província de Kivu, e prometeram marchar sobre Kinshasa, do outro lado do país, a mais de mil quilómetros. Ainda assim, negaram qualquer “intenção de controlar outras localidades” na região. Uma semana depois de terem tomado Goma, os rebeldes declararam um cessar-fogo unilateral. Nenhuma das duas declarações do M23 se cumpriu.

epaselect epa11874921 Members of the Congolese Red Cross and volunteers carry victims of the recent conflict before burying them in a cemetery in Goma, Democratic Republic of the Congo, 04 February 2025. Over 900 people were killed and around 2,800 injured in the last two weeks in the eastern city of Goma of the DRC amid fighting between the M23 (March 23 Movement) rebel group and the government forces, the World Health Organization said on 03 February. The M23 (March 23 Movement) took control of Goma city, the capital of the North Kivu Province, days after claiming to have captured most of it after launching a large-scale offensive in the east of the DR Congo, which the DR Congo and the UN accuse Rwanda of backing.  EPA/STRINGER

▲ Os milhares de mortos em Goma fizeram surgir o perigo de doenças infecciosas

STRINGER/EPA

Na quinta-feira, os rebeldes seguiram para sul e tomaram uma cidade mineira na província de Kivu Sul, a 100 quilómetros da capital desta região. Fontes humanitárias avançaram à AFP que estará a ser preparado um ataque a Kavumu, cidade onde fica o aeroporto da região.

Aos milhares de mortos que se acumularam nas ruas de Goma depois de a cidade ter sido tomada, somam-se relatos de episódios extremamente violentos desencadeados pelo “caos” em Goma: na passada segunda-feira, centenas de prisioneiros fugiram de uma prisão e, durante a fuga, os prisioneiros homens violaram entre 165 reclusas e mataram-nas, pegando fogo ao edifício.

As Nações Unidas, que denunciaram outros casos de violência sexual no conflito, classificaram a crise humanitária que está a desenhar como “catastrófica“: 700 mil pessoas estão deslocadas, hospitais foram bombardeados e não têm eletricidade ou recursos para acorrer aos milhares de feridos, existe um perigo elevado de desenvolvimento de surtos de varíola e cólera e crianças estão a ser recrutadas à força para combater.

"Um cessar-fogo imediato, a retirada incondicional das tropas ruandesas e a reabertura do aeroporto de Goma por razões humanitárias e o regresso da cidade à administração oficial."
Exigências do governo congolês para as negociações

Sem capacidade para responder à ofensiva, o governo congolês emitiu um mandado de captura para o líder Corneille Nangaa. É esperado que sejam dadas respostas mais significativas durante a cimeira que decorre esta sexta-feira e sábado e para a qual o governo congolês definiu prioridades claras, segundo avançou um fonte de Kishasa à RFI: “Um cessar-fogo imediato, a retirada incondicional das tropas ruandesas e a reabertura do aeroporto de Goma por razões humanitárias e o regresso da cidade à administração oficial”.

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