Os monstros estão, outra vez, na moda. Nos últimos anos, têm-se multiplicado os filmes sobre os chamados “monstros clássicos”, que incluem personagens como Drácula ou Frankenstein. Só este ano, foram lançados três – O Lobisomem (Leigh Whannell), Drácula: Uma História de Amor (Luc Besson) e Frankenstein (Guillermo del Toro). No ano passado, saiu Nosferatu (Robert Eggers), uma de várias adaptações do romance de Bram Stoker que têm chegado recentemente às salas de cinema e que incluem, por exemplo, Drácula: O Despertar do Mal (2023; André Øvredal) e Renfield (2023; Chris McKay), duas versões muito diferentes da mesma história. Para o ano, já estão anunciados dois filmes: uma nova versão de O Lobisomem, por Robert Eggers, e de A Noiva de Frankenstein, por Maggie Gyllenhaal. Na semana passada, foi noticiado que os atores Brendan Fraser e Rachel Weisz estarão em conversações com os realizadores Matt Bettinelli-Olpin e Tyler Gillett para participarem no quarto filme de A Múmia. Guillermo del Toro admitiu ter interesse em fazer uma nova versão de O Fantasma da Ópera, cuja adaptação mais famosa é provavelmente a de 1925, com Lon Chaney.
Porquê, de repente, tantas histórias sobre monstros? E será que alguma vez desapareceram?
Os “monstros clássicos” no cinema: da periferia para o centro do mundo
O interesse dos estúdios de cinema por este tipo de personagens e histórias não é novidade. Apesar de as adaptações mais famosas serem as dos anos 30, as primeiras remontam ao início da era do cinema e ao cinema mudo. Aquele que é considerado o primeiro filme de terror, Le Manoir du Diable (1896, A Mansão do Diabo), foi projetado, pela primeira, vez no final do século XIX. Da autoria de Georges Méliès, mágico e realizador francês conhecido por obras como Le Voyage dans la Lune (1902, Viagem à Lua, referido em A Invenção de Hugo Cabret, de Martin Scorsese) ou Le Voyage à travers l’impossible (1904, Viagem Através do Impossível), Le Manoir du Diable mostra Mefistófeles a invocar seres sobrenaturais no interior de um castelo — uma versão rudimentar e mais divertida de Fausto (1926), de F. W. Murnau. O filme foi lançado um ano antes da publicação em Inglaterra de Drácula, de Bram Stoker, numa altura em que os géneros da ficção científica, da fantasia e do terror ainda não estavam bem definidos no cinema e na literatura. Por essa razão, as obras de Mélier reúnem características que hoje associamos a diferentes géneros. Assim, apesar de Le Manoir du Diable não ter sido concebido na sua origem como um filme de terror, tem elementos que se tornaram comuns, como fantasmas e um humano que se transforma em morcego, o que levou a que fosse considerado um pioneiro no género.
É desta primeira fase do cinema que datam as primeiras adaptações de Frankenstein (1818). O romance de Mary Shelley é anterior a Drácula (1897) e, talvez por isso, tenha chegado primeiro ao cinema. A primeira versão foi realizada em 1910, em apenas três dias, por J. Searle Dawley. Com apenas 12 minutos, o filme mudo, produzido pelos norte-americanos Edison Studios, mostra o nascimento do monstro e a sua breve vida e destruição ao se confrontar com o seu próprio reflexo num espelho. Com maquilhagem exagerada e cabelo longo desgrenhado, a criatura será irreconhecível para a maioria dos espectadores, habituados como estão à caracterização “clássica” dos anos 30. A segunda versão de Frankenstein, Life Without Soul (Vida Sem Alma), hoje perdia, foi realizada em 1915 por Joseph W. Smiley. Relata a criação de um ser sem alma, que mata a irmã do seu criador na noite de núpcias. No final do filme, é revelado que tudo não passou de um sonho.
[“Frankenstein” (1910), de J. Searle Dawley:]
Já Drácula chegou ao cinema nos anos 20. Apesar de Nosferatu (1922), de F. W. Murnau, ser muitas vezes indicado como a primeira adaptação cinematográfica do romance de Bram Stoker, a verdade é que o primeiro filme inspirado em Drácula foi produzido um ano antes, na Hungria. Drakulahalála (A Morte de Drácula; Károly Lajthay) não chegou aos nossos dias, conhecendo-se apenas algumas imagens publicitárias e a sinopse, que fala sobre um jovem que tem pesadelos horríveis depois de se cruzar com Drácula, um músico louco. Nosferatu surgiu durante aquela que é, para o investigador Murray Leeder, a segunda fase do “cinema gótico mudo” — o expressionismo alemão. Uma versão não autorizada do romance de Bram Stoker, que tinha morrido há menos de dez anos, Nosferatu distancia-se em vários pontos da obra original. Para evitar ser alvo de um processo, o realizador, o alemão F. W. Murnau, mudou o nome das personagens e alguns elementos da história, que no filme se passa na Alemanha e não em Inglaterra. As alterações não foram suficientes e o realizador acabou mesmo por ser processado pela viúva da Stoker, Florence Stoker. Processos à parte, o filme tornou-se uma referência visual importante para os filmes sobre Drácula e de vampiros, não só pela sua “profunda importância cultural”, como referiu Leeder no artigo The Birth of an Evil Thought: The Gothic in Silent-Era Cinema, mas porque introduziu elementos que não faziam parte do texto original que se tornaram fundamentais nos filmes de vampiros, como as consequências fatais da luz solar.
▲ O "Nosferatu" de Robert Eggers é uma nova versão da história de Murnau, fortemente influenciada pelo filme de Herzog
Os anos 30 foram a época dourada dos filmes sobre monstros Isso deveu-se, em grande parte, ao investimento feito pela Universal que, no final dos anos 20, decidiu apostar na produção de cinema de terror, contribuindo de forma decisiva para a cristalização do género. Fundados em 1912, os Universal Studios, os mais antigos estúdios de cinema ainda em funcionamento nos Estados Unidos da América, começaram a produzir no tempo do cinema mudo. Em 1931, quando o cinema falado era ainda uma novidade, lançaram Drácula (1931), o primeiro de uma série de filmes de terror que ficou conhecida como “monstros da Universal”. Para o realizar, a Universal contratou Tod Browning, que tinha feito carreira nos anos 20 com produções mudas como O Corcunda de Notre Dame (1923) e O Fantasma da Ópera (1925), protagonizados por Lon Chaney, conhecido por interpretar personagens torturadas e desfiguradas. Bela Lugosi, que tinha entrado produção da Broadway de Drácula, foi escolhido para interpretar o papel do vampiro. O filme foca-se nas expressões e gestos hipnotizantes de Lugosi, que quase não tem falas, e na sua sensualidade latente, mas subtil, que seria explorada mais a fundo a partir dos anos 70.
[Trailer de “Drácula” (1931), de Tod Browning:]
Drácula foi um sucesso imediato. Apesar de os números nunca terem sido divulgados, sabe-se que constituiu, em 1931, a principal fonte de receitas da Universal, que tinha investido uma elevada quantia na compra dos direitos da obra e da produção da Broadway, em que o filme foi baseado.
Foi no mesmo ano que o estúdio lançou Frankenstein. Realizado por James Whale e com Boris Karloff no papel do monstro, o filme foi bem recebido pelo público e pela crítica, o que levou ao lançamento, quatro anos depois, da sequela A Noiva de Frankenstein (1935, James Whale), interpretada por Elsa Lanchester. Estes três filmes – Drácula, Frankenstein e A Noiva de Frankenstein – tiveram um impacto duradouro no cinema de terror e na imaginação popular, estabelecendo uma fórmula que foi repetida e pela Universal e outros estúdios nas décadas seguintes. A caracterização das personagens foi tão bem conseguida que, ainda hoje, quando pensamos nelas, é em Lugosi, Karloff e Lanchester que pensamos.
[A famosa cena do encontro entre o monstro e a sua noiva, em “A Noiva de Frankenstein” (1935), de James Whale:]
Entre Frankenstein e A Noiva de Frankenstein, a Universal virou a sua atenção para outras histórias: em 1932, lançou A Múmia (realizado por Karl Freund), com Boris Karloff no papel de Imhotep, um sacerdote amaldiçoado que foi mumificado vivo, e em 1933, O Homem Invisível (realizado por James Whale), inspirado no livro homónimo de H. G. Wells sobre um cientista que descobre a fórmula para a invisibilidade (interpretado por Claude Rains). Todos estes filmes, incluindo O Lobisomem de Londres (1935; Stuart Walker), deram origem a sequelas, lançadas entre o final dos anos 30 e o final dos anos 40. Durante este período, como explicou o investigador Xavier Aldana Reyes, da Manchester Metropolitan University, num artigo sobre cinema de terror no século XX, a Universal “regressou repetidamente às mesmas personagens e premissas”, chegando até a misturar várias delas em filmes como Frankenstein Contra o Lobisomem (1943; Roy William Neill), Casa de Frankenstein (1944; Erle C. Kenton).
Após a Segunda Guerra Mundial, os filmes sobre monstros tornaram-se menos sérios e assustadores em consequência da realidade do conflito – o pior pesadelo de todos – mas não menos presentes . Graças à Universal, tornaram-se, nas primeiras décadas do século XX, “um elemento fundamental do cinema norte-americano, uma verdadeira fonte de simbolismo cultural”, como apontou a investigadora Sorcha Ní Fhlainn, da Manchester Metropolitan University, no artigo Contemporary Vampires. É dos anos a seguir ao conflito que data o filme Abbott e Costello Contra Frankenstein (1948; Charles T. Barton), o primeiro de uma série que opôs a dupla de comediantes Abbott e Costello a diferentes monstros do universo da Universal. “Este filme é naturalmente mais leve, apesar de o medo não ter sido totalmente posto de parte, e aponta para a firme transformação do monstro gótico de besta que induz terror a figura simpática e representante do preconceito social ao longo do século XX”, comentou Reyes.
[Trailer de “Abbott e Costello Contra Frankenstein” (1948), de Charles T. Barton:]
No final dos anos 70, diferentes realizadores foram responsáveis por diferentes versões da história de Drácula. O vampiro deixou de ser sinónimo de tempos idos e tornou-se uma figura trágica, capaz de gerar simpatia. “O vampirismo dos anos 70 e 80 diversificou o morto-vivo e revestiu-o com um fascínio erótico tentador e uma tristeza persistente capaz de gerar compaixão”, escreveu Fhlainn. Um bom exemplo disso é o filme realizado por John Bradhmas em 1979. Drácula contou com a participação de Frank Langella, que tinha interpretado o papel do vampiro no teatro. O Drácula de Langella é sensual, apaixonado e apaixonante. O filme, que chegou a ser promovido como “uma história de amor”, introduziu pela primeira vez no cinema a história da paixão de Drácula e Mina, interpretada por Jan Francis. No mesmo ano, estreou outra versão da história de Drácula — realizado por Werner Herzog, Nosferatu: o Fantasma da Noite explora a solidão e o vazio existencial sentidos por uma criatura que não pode morrer. Inspirado na versão de Murnau, a longa-metragem de Herzog é “uma reflexão sobre a culpa coletiva e o horror nacional alemão”, capaz de provocar “uma pandemia de mortos-vivos”, salientou Fhlainn.
▲ "Frankenstein" (2025), de Guillermo del Toro, que se estreou recentemente na Netflix, apresenta uma versão mais humana do monstro, que tem até uma forma menos terrífica (ou deformada)
As produções dos anos 70 influenciaram diretamente a adaptação de Drácula de Francis Ford Coppola, Drácula de Bram Stoker (1992). Apesar de o título fazer referência à obra original, o filme afasta-se significativamente do romance de Stoker e baseia-se na história de Vlad Tepes, o príncipe romano que terá inspirado Drácula. O sucesso do filme, que explora ao máximo a imagem do Drácula romântico, gerou um interesse renovado nas histórias de vampiros, ao mesmo tempo que os outros monstros clássicos caíam no esquecimento. Apesar disso, no final dos anos 90, a Universal decidiu produzir um conjunto de filmes que nada tinham a ver com Drácula – em 1999 e 2000, respetivamente, lançou A Múmia e O Regresso da Múmia (realizados por Stephen Sommers), apresentando a uma nova geração de espectadores a história da ascensão e queda do sacerdote Imhotep. Em termos de história, uma das grandes diferenças entre estas produções e o filme original de 1932 é a atenção dada à história do próprio Imhotep. No filme protagonizado por Karloff, pouco é dito sobre o sacerdote, além de ter sido mumificado vivo e de, milénios depois, continuar apaixonado por Ankh-es-en-Amon. Na produção mais recente, a história de Imhotep é alargada e usada para explicar porque é que, ao segundo filme, permanece teimosamente vivo. Este espaço que é dado à vivência pessoal do monstro é uma particularidade que se foi estabelecendo ao longo do século XX – o monstro tornou-se uma personagem com história, geralmente marcada pelo trauma e pela perda, que explicam a sua monstruosidade. Apesar das ações erradas que comete, o monstro é também uma criatura digna de piedade – quando, no final de O Regresso da Múmia, Ankh-es-en-Amon se recusa a ajudar Imhotep, a múmia malvada, que tanta desgraça causou, provoca empatia no espectador que, até então, só o conseguia detestar.
[Trailer de “A Múmia” (1999), de Stephen Sommers:]
A Múmia e O Regresso da Múmia deram origem ao spin-off O Rei Escorpião, que chegou às salas de cinema em 2002. Estas longas-metragens, repletas de ação e com um toque de comédiaia, dificilmente podem ser considerados filmes de terror — foram feitas para entreter, não para assustar. Essa uma das principais característica dos filmes sobre “monstros clássicos” lançados nas décadas seguintes, entre os quais se incluem Drácula 2000 (2000; Patrick Lussier) e de Van Helsing (2004; Stephen Sommers), este último produzido pela Universal. No primeiro, Drácula, que jaz adormecido por baixo das ruas de Londres, é despertado por um grupo de exploradores; no segundo, Van Helsing, um caçador de vampiros ao serviço de Roma, viaja até à Transilvânia para destruir Drácula e impedir que o mundo seja controlado pelos seus descendentes.
Os monstros no século XXI
Em 2013, no rescaldo do sucesso de Os Vingadores (2012), da Marvel, a Universal decidiu tentar recuperar os seus monstros e criar uma série de sucesso. O primeiro filme do chamado Dark Universe saiu em 2014. Realizado por Gary Shold, Drácula: A História Desconhecida é baseado na história de Vlad Tepes, que nesta produção é apresentado como um herói trágico, capaz de tudo para salvar o seu reino e a sua família da iminente invasão otomana, incluindo fazer um pacto com um mestre vampiro. O filme não foi bem recebido, o que levou a Universal a desvinculá-lo da nova série e a apresentar A Múmia (2017), com Tom Cruise, como o primeiro filme do novo universo. Porém, também essa produção foi um fracasso — de acordo com a imprensa especializada, o filme , um estranho cruzamento entre história egípcia e medieval e O Estranho Caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde, teve um prejuízo de 97 milhões de dólares (87 milhões de euros). Ainda assim, a Universal não desistiu. Em 2012, lançou O Homem Invisível (2020), com Elizabeth Moss. O filme teve uma melhor receção. Em declarações ao site de notícias Screen Rant, Elizabeth Moss confirmou recentemente o interesse na criação de O Homem Invisível 2 e que os responsáveis estão a “trabalhar nisso”.
▲ Luc Besson foi acusado de ter criado um Drácula que não tem nenhuma das características habituais do vampiro
Três anos depois de A Múmia, a Universal voltou a pegar na história do seu monstro mais famoso e lançou uma versão diferente e inesperada de Drácula, inspirada numa personagem secundária — Renfield. Renfield é um filme leve e cómico, que explora a relação tóxica entre um patrão manipulador e narcisista — Drácula, interpretado por um refrescante Nicholas Cage —, e o seu fiel criado, Renfield — Nicholas Hault —, desde o seu primeiro encontro na escadaria do castelo na Transilvânia até aos tempos modernos. De todos os filmes sobre monstros lançados recentemente pela Universal, Renfield é aquele que explora de forma mais evidente as preocupações dos tempos modernos — é a história de superação de uma personagem que sempre viveu à sombra de alguém aparentemente mais poderoso, que procura afirmar-se e encontrar o seu lugar no mundo.
[Trailer de “Nosferatu” (2024), de Robert Eggers:]
Um ano depois, Nicholas Hault voltou a integrar o elenco de um filme sobre vampiros. Nosferatu, de Robert Eggers, estreou no final de 2024 nos cinemas norte-americanos, mas só chegou a Portugal no início deste ano. A longa-metragem é uma nova versão da história de Murnau, fortemente influenciada pelo filme de Herzog. No centro da história está a relação de Ellen e Orlok, um feiticeiro negro que jazia adormecido nas catacumbas do seu castelo na Transilvânia até que foi despertado pelos poderes psíquicos da jovem alemã. Nosferatu, o filme sobre Nosferatu/Drácula mais aterrorizador dos últimos anos, é a história da obsessão de um ser incapaz de amar pela mulher que quer desesperadamente que o ame. O filme foi recebido com entusiasmo, tendo gerado uma legião entusiasmada de fãs que partilharam obsessivamente nas redes sociais imagens do Nosferatu interpretado por Bill Skarsgård. De acordo com a Deadline, Nosferatu, que estreou nos Estados Unidos da América no final de 2024, foi um dos filmes mais rentáveis desse ano, com um lucro de 70 milhões de dólares (60 milhões de euros).
▲ "Lobisomem" (2025, Leigh Whannell) é um filme onde uma ameaça exterior consegue invadir um espaço sagrado e aparentemente intransponível
Orlok é uma força maligna e poderosa, que atravessa vales e montanhas para chegar Wisburg e reivindicar Ellen, que tinha acabado de se casar, gerando uma epidemia de peste na cidade. Lobisomem (2025; Leigh Whannell) é também um filme onde uma ameaça exterior consegue invadir um espaço sagrado e aparentemente intransponível — o do núcleo familiar. Esta adaptação, fala sobre um homem que tenta salvar a sua família e que acaba por se transformar no monstro de que tenta fugir. Também este ano saiu Drácula: Uma História de Amor (2025; Luc Besson), uma versão inspirada no Drácula de Coppola que reconta a história de Vlad Tepes, que se transforma em vampiro depois de prometer que só morrerá quando voltar a encontrar a sua mulher, Elisabeta, assassinada pelos otomanos. Luc Besson foi acusado de ter criado um Drácula que não tem nenhuma das características habituais do vampiro — não tem poderes extraordinários (tem de criar um perfume especial para atrair mulheres) ou sede de sangue (nem sequer gosta assim tanto do sabor). Apesar de lhe faltarem algumas características fundamentais, é precisamente a fraqueza deste Drácula que o torna interessante — mais humano do que muitos humanos, o seu vampirismo só existe por causa da perda que sofreu; quando reencontra Elisabeta (Mina), Vlad aceita de livre e espontânea vontade deixar de ser vampiro e, finalmente, morrer.
Frankenstein (2025), de Guillermo del Toro, que estreou recentemente na Netflix, também apresenta uma versão mais humana do monstro, que tem até uma forma menos terrífica (ou deformada) do que é habitual. Nesta versão do romance sobre o proscrito incompreendido, o monstro lamenta que não pode morrer e que também não pode viver sozinho, expressando assim a solidão imensa que sente por ser diferente de todas as outras criaturas à face da terra. No final, Frankenstein, o verdadeiro vilão deste filme, pede perdão à criatura e chama-lhe “filho”. O monstro perdoa o cientista — o seu “pai” —, que morre de seguida.
[Trailer de “Drácula: Uma História de Amor” (2025), de Luc Besson:]
No seu livro sobre monstros, Stephen T. Asma, admitiu que monstro é um “conceito flexível”. Ao longo dos anos, “distanciámo-nos da utilização particularmente pejorativa de monstro, mas ainda usamos o termo e conceito para nos referirmos às criaturas não humanas de qualquer estirpe, mesmo que tenham origem na nossa própria espécie. O conceito de monstro evoluiu e transformou-se num termo moral, além de um termo biológico e teológico”, explicou em On Monsters. Por outro lado, como salientou o Professor de Filosofia no Columbia College Chicago, “o monstro é, obviamente, um produto e um habitante usual da imaginação, mas a imaginação é a força motriz de toda a nossa perceção do mundo.” É através dela que analisamos e processamos o que se passa à nossa volta.
Nas suas sete teses sobre monstros, Jeffrey Jerome Cohen afirmou que o monstro reflete sempre “o momento cultural” em que nasce. É a concretização metafórica, mas suficientemente realista, e por isso capaz de causar medo e inquietação, dos medos, desejos, ansiedades e fantasias de um determinado período histórico e cultural. Por essa razão, “os monstros devem sempre ser examinados dentro da matriz complexa de relações (social, cultural e histórico-literária) que os geram”. É inegável que, desde a pandemia de Covid-19, o mundo tem passado por várias mudanças que têm causado um sentimento generalizado de receio e instabilidade. E é talvez por isso que, embora os filmes sobre monstros nunca tenham verdadeiramente desaparecido, tenham vindo a reforçar a sua presença no grande ecrã – são o veículo perfeito de exploração das inquietações individuais e sociais, porque pode facilmente incorporá-las.
▲ "Dácula: O Despertar do Mal", recente adaptação da história de Bram Stoker, assinada por André Øvredal
Como referiu Cohen em Monster Theory, “o monstro é uma incorporação do que existe do lado de fora, do que está longe”. É o marginal, que habita a periferia, um local que é classificado como “distante e distinto”, mas que “tem origem no interior”, que o monstro revela através da sua presença fraturante. Obviamente que a perseguição e destruição do marginal, daquele que não pertence, está presente nos filmes sobre monstros que saíram mais recentemente. Mas talvez o que Nosferatu, O Lobisomem, Drácula e Frankenstein têm verdadeiramente em comum é a exploração do amor como arma redentora, que é, curiosamente, um dos temas de Fausto, de Goethe, que foi adaptado para o cinema por Murnau nos anos 20. No final destes filmes, o monstro é destruído (física ou metaforicamente) através de um ato de abnegação. No caso de O Lobisomem, Drácula e Frankenstein, é inclusivamente esse ato final e derradeiro que devolve a humanidade à criatura, através do reconhecimento dos seus sentimentos. Não deixa de ser curioso que, num tempo marcado por grande violência e falta de empatia, de aceitação e de inclusão, surjam vários filmes que falam sobre incompreensão e falta de aceitação, das suas consequências e de como o altruísmo e um grande amor podem salvar tudo. Investigadores como Sorcha Ní Fhlainn, que se dedicam ao estudo dos monstros, dizem-nos que devemos prestar atenção ao que os monstros têm para nos dizer, porque, ao revelarem as suas histórias, “estão a espelhar os nossos medos e desejos mais profundos (e humanos)”. Temos muito a aprender com eles.