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Os números da última semana dizem que Portugal e Luxemburgo são os únicos com rácios por 100 mil habitantes a crescer

OCTAVIO PASSOS/OBSERVADOR

Os números da última semana dizem que Portugal e Luxemburgo são os únicos com rácios por 100 mil habitantes a crescer

OCTAVIO PASSOS/OBSERVADOR

Novos casos estão a subir mais em Portugal do que na Europa há 5 semanas /premium

Algarve e Lisboa põem Portugal no topo de novos casos por 100 mil pessoas. Números não param de crescer desde a 2ª semana de desconfinamento. Mas restrições do estrangeiro "não têm base científica".

Portugal é um dos poucos países da União Europeia que tem vindo a aumentar o número de novos casos por 100 mil habitantes ao longo dos últimos dias. É essa uma das conclusões que se pode tirar da análise dos números reportados pelos países da União Europeia e pelo Reino Unido.

O nosso país está há cinco semanas com mais de 20 novos casos por 100 mil habitantes, o que faz com que seja impedido de entrar em seis países da União Europeia. O Reino Unido anuncia na segunda-feira se Portugal será tratado com um sinal vermelho nos corredores para turistas, o que obrigará os visitantes britânicos a fazerem quarentena no regresso ao país. A imprensa inglesa dá como certa a exclusão de Portugal, e da Suécia, que atribui ao aumento do número de novos infetados, superior ao da generalidade de outros países europeus.

Isso acontece por causa de apenas duas das sete regiões regiões portuguesas: Lisboa e Vale do Tejo, que está desde maio em rota ascendente no rácio; e o Sul, cujos números refletem os surtos que têm sido identificados no Algarve desde o início da época balnear. E a culpa não pode ser só atribuída ao volume de testagem, avisam alguns especialistas.

Já este sábado, o bastonário da Ordem dos Médicos alertou para um excesso de otimismo e para a incapacidade de antecipação da evolução da pandemia na Grande Lisboa. E o Expresso aponta para a insuficiência de técnicos para rastrear as cadeias de contágio detetadas nas últimas semanas nesta região, o que terá contribuído para algum descontrolo no crescimento de casos.

Falta de técnicos para rastreio contribuiu para maior propagação do vírus na Grande Lisboa

Os valores conhecidos este sábado apontam para uma travagem no crescimento de novos infetados, face a sexta-feira, mas voltam a revelar uma elevada concentração de casos na área da Grande Lisboa, 79%.

Portugal está há cinco semanas com mais de 20 novos casos por 100 mil habitantes

Desde a primeira semana de junho que o número semanal de novos casos por 100 mil habitantes em Portugal tem aumentado. A data — 1 a 7 de junho — coincide precisamente com o início da última fase de desconfinamento e é desde essa altura que Portugal está acima dos limites delineados por outros países da União Europeia, como a Dinamarca, para abrir as portas aos estrangeiros.

Os dados recolhidos entre a primeira semana do desconfinamento português (4 a 10 de maio) e a semana passada (15 a 21 de junho) mostram como Portugal está desde a semana de 11 a 17 de maio — há cinco semanas, desde vésperas de entrada na segunda fase de desconfinamento nacional — num rácio ascendente de novos casos semanais.

Os números culminaram numa proporção de 23 casos por 100 mil habitantes no período de 15 a 21 de junho — a segunda maior da União Europeia e Reino Unido, apenas ultrapassada pela Suécia —, mas o rácio pode aumentar ainda mais esta semana. Desde a última segunda-feira, 22 de junho, até esta sexta-feira, dia em que se registou o maior número de novos casos diários desde 8 de maio, Portugal já tinha 1714 novos casos semanais. Basta que registe mais 664 este fim de semana para continuar a tendência da semana passada.

Para Paulo Santos, médico de família, especialista em investigação clínica e um dos autores do projeto Metis, uma plataforma do Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços da Saúde (CINTESIS) e da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP), reconhece que os números o deixam “preocupado”. As comparações com a Europa feitas por este projeto (que tem como finalidade desconstruir a linguagem científica para ser acessível ao público em geral) já tinham dado o sinal de alarme há algumas semanas, ao revelar que Portugal estava numa rota de divergência face à tendência de queda verificada na maioria dos seus pares europeus.

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Os dados dos últimos cinco dias, recolhidos pelo Observador, indicam que Portugal é quase o único país da União Europeia (o outro foi o Luxemburgo) que tem vindo a aumentar o número de novos casos por 100 mil habitantes.

A Suécia, o outro país que, tal como Portugal, é persona non grata nos países da União Europeia com uma epidemia mais controlada, continua com um rácio mais elevado que Portugal. No entanto, o número de novos casos semanais por 100 mil habitantes registados de 15 a 21 de junho na Suécia diminuiu em 27,1% em relação à proporção calculada na semana anterior, revelam os dados do Our World in Data. Em Portugal aumentou 9,5%, segundo a mesma fonte. Aliás, desde maio que “todo o resto da Europa estava com tendência a descer exceto nós e a Suécia”, nota Paulo Santos.

Mas, ao contrário de Portugal, a Suécia assumiu desde o início da pandemia uma abordagem distinta da maioria dos países com um regime menos restritivo à mobilidade dos cidadãos e das atividades permitidas mesmo durante o pico. Por exemplo, os restaurantes nunca chegaram a fechar.

Esta evolução da pandemia, uma tendência que é visível nas estatísticas semanais, está a deixar os especialistas apreensivos e também pode explicar o desabafo do primeiro-ministro na reunião do Infarmed, que não gostou que Marta Temido, a ministra da Saúde, tenha usado o termo “confinamento” referindo-se ao período de isolamento vivido pelos portugueses durante o estado de emergência.

No entanto, não somos o único país nessa situação. Houve outros sete país que viram o número de novos casos por 100 mil habitantes aumentar da semana de 8 a 14 de junho para a seguinte, todos eles com taxas superiores à portuguesa: Roménia (+57,1%), Bulgária (12,5%) , Luxemburgo (+75%), Alemanha (+33,3%), Eslovénia (285,7%), Eslováquia (141,2%) e Croácia (1100%).

A diferença é que os cidadãos de qualquer um destes países continuariam a poder entrar na Dinamarca (que impôs um máximo de 20 novos casos semanais por 100 mil habitantes), Letónia ou Lituânia (25 novos casos por 100 mil habitantes), por exemplo, enquanto Portugal continuaria de fora, por terem quadros mais estáveis e controlados.

Quanto à Finlândia, com regras mais apertadas e que volta as costas a quem tem pelo menos oito novos casos semanais por 100 mil habitantes, passa assim a barrar a Roménia e a Bulgária, mas abre a porta à Polónia e Países Baixos. Portugal continua longe dos números exigidos pelos finlandeses.

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Estes países estão a rever os critérios usados para permitir ou proibir a entrada de residentes outros países — a Dinamarca este sábado, o Reino Unido na próxima segunda-feira. Paulo Santos considera que o critério de 20 novos casos diários por 100 mil habitantes que foi usado por exemplo pela Dinamarca para justificar as restrições à entrada de pessoas vindas de Portugal “não tem base científica” e é sobretudo “político”.

Para o especialista, terá sido usado como limite porque a maioria dos países estava já abaixo desse valor de crescimento. Aliás, pelos números mais recentes os países “até podiam adotar critérios mais restritivos”, uma vez que a maioria deles está a registar menos 10 casos novos por dia por 100 mil habitantes, diz.

Lisboa e Algarve são únicas regiões com rácio semanal acima de 20

Portugal tem sido um país heterogéneo na forma como a Covid-19 tem atacado o território nacional. A epidemia eclodiu na região Norte em março e daí espalhou-se sobretudo para Lisboa e Vale do Tejo (as zonas com maior densidade populacional de Portugal Continental), poupando mais o Centro, o Sul e o Alentejo, que registaram menos casos diários e rácios menos alarmantes.

Mas os dados oficiais da Direção-Geral da Saúde (DGS) provam que a maré já mudou. A esmagadora maioria dos novos casos diários de Covid-19 em Portugal são de Lisboa e Vale do Tejo, que viu os números subirem de forma constante desde 3 de maio — quando o país deixou de estar em estado de emergência e passou para o estado de calamidade, e apenas um dia antes do início da primeira fase de desconfinamento — e que ultrapassou os números do Norte na quarta-feira.

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É isso mesmo que testemunham os cálculos dos novos casos semanais de Covid-19 por 100 mil habitantes desde 4 de maio até 21 de junho. Na primeira semana de desconfinamento português, Lisboa e Vale do Tejo registou um rácio de 33 novos casos por 100 mil habitantes enquanto o Norte tinha 25. Esta última região viu a proporção de novos casos em função da população baixar até à ultima semana de maio (dois casos por 100 mil habitantes) para depois aumentar, mas só ligeiramente, nas semanas seguintes.

Mas Lisboa e Vale do Tejo, por outro lado, não teve descanso. Da primeira para a segunda semana de maio, durante a primeira fase de desconfinamento, o rácio de novos casos semanais de Covid-19 por 100 mil habitantes baixou de 33 entre 4 e 10 de maio para 27 entre 11 e 17 de maio — o valor mais baixo desde a época do desconfinamento. A partir daí, os números subiram em flecha: na semana de 15 a 21 de junho, o rácio era de 53 novos casos semanais de Covid-19 por 100 mil habitantes. É um aumento de 96,2% em relação aos valores mais baixos desde que o país começou a regressar à vida normal.

Não são os únicos números que se destacam. Até há bem pouco tempo, o Algarve era das regiões menos afetadas pela Covid-19 e o rácio mais elevado que havia registado tinha sido uns meros quatro casos de infeção pelo novo coronavírus em cada 100 mil habitantes na semana entre 1 e 7 de junho. No entanto, duas semanas depois, os números mudam: o Algarve passou a ter 29 novos casos por 100 mil habitantes — mais 2800% que na semana anterior.

O Sul era já a segunda região com a maior proporção  de casos em função da população, apenas ultrapassada por Lisboa e Vale do Tejo. Em terceiro lugar está o Alentejo, até agora uma das regiões mais pacatas em termos de novos casos diários de Covid-19, com 12 novos infetados semanais por 100 mil habitantes entre 15 e 21 de junho — seis vezes mais do que na semana anterior.

Mais testes, mais casos? Não necessariamente, dizem especialistas

O motivo esteve estampado nas manchetes dos jornais há vários dias: as regiões tiveram surtos de grandes dimensões, ora em ambiente empresarial, ora em lares de idosos, ora motivados por ajuntamentos que ultrapassavam os limites impostos pelas autoridades — é o caso de Lagos, numa festa de aniversário que juntou dezenas de pessoas, ou de “festas privadas” e “arraiais disfarçados” em Lisboa.

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Para o governo e para as autoridades de saúde havia, no entanto, outros dois fatores a entrarem na equação e a condicionarem os valores: o descuido dos jovens, por um lado, e, por outro, o facto de Lisboa e Vale do Tejo, a região mais preocupante, estar supostamente a testar muito mais do que outras zonas do país, o que resultaria na identificação de mais casos positivos, muitos deles assintomáticos.

Mas não é isso que sugerem os dados divulgados na quinta-feira pela Câmara Municipal do Porto, com as contas do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge. Segundo um comunicado de imprensa publicado esta semana, a autarquia de Rui Moreira argumenta que, “nas últimas semanas, o número de testes realizado na região Norte é semelhante ao número de testes realizado na região de Lisboa, não sendo por isso atribuível a descoberta de novos casos à realização de testagem acrescida numa ou noutra região”.

Paulo Santos reconhece que Portugal é dos países que mais testam: está “entre os três ou quatro” onde se realizam mais testes, aponta. Mas isso não conduz necessariamente a uma subida na identificação de casos. Veja-se, por exemplo, o caso da Dinamarca, onde o número de testes também é dos mais elevados sem que isso resulte num maior número de casos, nota o especialista em medicina geral e familiar.

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Esse foi um dos argumentos defendidos pelos especialistas que se reuniram esta semana com o governo e com o Presidente da República. Várias fontes ouvidas pelo Observador relataram que António Costa tentou justificar a subida do número de infetados com o aumento da testagem, mas Baltazar Nunes, epidemiologista do Instituto Nacional de Saúde Pública, e Rita Sá Machado, da Direção-Geral da Saúde, “desconstruíram o argumento dos testes”.

Segundo uma fonte ouvida pelo Observador, o que os peritos disseram foi que, apesar de Portugal estar de facto a fazer mais testes, estando em “nono lugar nos testes feitos por milhão de habitantes”, ou seja, na “metade superior dos 27 Estados-membros da UE”, está no fundo da lista quando o critério é a taxa de casos positivos por teste realizado. Nesse caso, “a taxa de positivos é muito elevada”. Atrás de Portugal só mesmo a Bulgária e a Suécia.

De acordo com Paulo Santos, uma das questões passa pelo critério para testar. Em Portugal, a abordagem é testar toda a gente em contacto com um infetado e não apenas os que têm sintomas; e consideram-se infetados quem testa positivo, sem ter em consideração a situação clínica. Por outro lado, aponta o especialista, os testes já provaram que não são totalmente fiáveis: há pessoas que testam negativo e depois sabe-se que estariam infetadas — os falsos negativos. E poderá haver muitos desses casos no país, avisa o médico.

É também por isso que o rastreio em massa não será a solução mais útil, defende. O que é preciso é reforçar e cumprir as medidas de distanciamento social — seja o uso de máscara, sejam os limites a aglomerações. “É o método barreira”, que foi aliás retomado nas medidas de recuo anunciadas para a Grande Lisboa.

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Para o especialista, as novas regras aprovadas esta semana vão no sentido correto, mas questiona a eficácia da distinção de medidas por freguesia, cujos limites não são evidentes para a população e até para as forças de segurança numa área com a dinâmica urbana da Grande Lisboa. “Não faz sentido. Em alguns casos bastará atravessar a rua para se aplicarem outras regras”.  O médico aponta ainda o que considera ser um “discurso errático” por parte das autoridades de saúde que não está a ajudar: “Ao mesmo tempo que se avisam para os perigos de assistir a um jogo de futebol, dizem que é seguro andar de avião”.

Os resultados estão à vista e preocupam. Não só por razões de saúde pública, mas também ao nível da imagem externa de Portugal, com consequências gravosas para a economia. Com estes rácios de crescimento, uma situação periférica e o pouco peso que tem, “Portugal é visto como dispensável”.

O próximo grande teste à imagem externa de Portugal virá do Reino Unido que esta segunda-feira vai anunciar que países os britânicos podem visitar como turistas sem fazer quarentena no regresso. Os olhos da Europa estão colocados no país e não por boas razões.

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Ainda esta sexta-feira, o Governo teve de desmentir energicamente o El País quando o jornal escreveu que três milhões de pessoas estavam confinadas em Lisboa, o que foi corrigido este sábado. E os responsáveis políticos multiplicam-se em declarações que procuram recordar o registo positivo de combate à pandemia que Portugal teve até há pouco tempo.

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