Nas últimas duas semanas, Portugal foi um dos países da União Europeia que teve um maior aumento do número de infetados por Covid-19 por milhão de habitante. Os dados trabalhados pela plataforma de informação sobre saúde Metis, criada por médicos especialistas em medicina geral e familiar, mostram que duas semanas que terminaram a 9 de junho, o número de novos casos identificado em Portugal foi o segundo mais alto da União Europeia, mais Reino Unido. Apenas a Suécia apresenta valores mais elevados, tal como indicou na edição desta sexta-feira o Jornal de Notícias.

Novos casos e mortalidade no Reino Unido e nos países da União Europeia.

Estes resultados – divulgados pela plataforma que acompanha a evolução do Covid-19 em Portugal e na comparação com outros países europeus – ainda não devem representar um sinal de alarme, mas devem fazer “soar campainhas”, afirmou ao Observador Paulo Santos, o investigador que está a trabalhar a evolução dos dados nacionais e europeus.

É preciso mais tempo para perceber se esta situação é uma tendência que deve preocupar ou se resulta, por exemplo, de um critério mais abrangente de realização de testes de rastreio do que outros países, o que resulta no aparecimento de mais casos. Foi, aliás, essa explicação que deu esta sexta-feira Graça Freitas, a diretora-geral de Saúde, quando afirmou que as autoridades portuguesas estão a conduzir “uma procura muito ativa de casos”.

Porque tem Portugal tantos casos de coronavírus? Houve “procura muito ativa de casos”, diz DGS

Paulo Santos, que é professor na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto e investigador do Cintesis, dá o exemplo da Alemanha, que optou por não testar pessoas assintomáticas no regresso ao trabalho fora de casa. Se por um lado, o médico espera “que seja só isso”, por outro lado, alerta para o aumento do número de pessoas internadas em hospital e também em unidades de cuidados intensivos nos últimos dias.

Uma análise do Observador à evolução dos números diários do Covid reportados nos boletins da Direção~Geral de Saúde indica que o número de internados estava em queda mais ou menos contínua, com algumas interrupções de um dia ou dois dias, desde meados de abril. Os doentes internados em cuidados intensivos também baixavam desde 20 de abril, com alguns saltos de apenas um dia ou dois dias. No entanto, os números reportados a partir da segunda semana de junho, em particular desde 8 de junho e até esta sexta-feira, vão no sentido contrário: mais pessoas internadas e mais doentes nos cuidados intensivos.

O especialista explica que um período de 15 dias é o mais adequado para perceber tendências. Por outro lado, e na comparação com outros países é preciso ter em conta mudanças nos critérios de contagem como a que aconteceu em Espanha que levou à limpeza de mais 9000 casos da lista de infetados. Será preciso esperar mais uns dias para perceber se esta tendência se mantém e se pode ser atribuída ao relaxar das regras de confinamento a partir de meados de maio.

Gráfico comparativo da evolução de novos casos por 100 mil habitantes

No gráfico comparativo da evolução do número de casos por habitantes (neste caso 100 mil habitantes) por país europeu disponibilizado pela Metis é possível perceber que viragem na tendência de queda que se estava a registar em Portugal desde abril, acontece por volta dos 70 dias após a pandemia ter chegado a Portugal (no início de março), o que coincide com a segunda semana de maio. Isto significa que há quase 30 dias que o aparecimento de novos infetados por 100 mil habitantes tem estado a subir de forma mais ou menos consistente.

Por outro lado, sabemos que estes novos contágios estão concentrados entre 80% a mais de 90% na região de Lisboa e Vale do Tejo, em particular nos concelhos da Grande Lisboa: Lisboa, Sintra, Loures, Odivelas e Amadora.

Corrigida a referência ao projeto Cintesis.