As teses de que o comportamento dos jovens e o aumento dos testes são os responsáveis pelo aumento dos contágios por Covid-19 — que têm sido defendidas pelos governo e pelo Presidente da República — foram contrariadas pelos especialistas na reunião com a elite política esta quarta-feira, na sede do Infarmed, em Lisboa. Segundo várias fontes partidárias ouvidas pelo Observador, o primeiro-ministro António Costa fez, à porta fechada, uma intervenção de 15 minutos, onde tentou justificar o aumento do número de infetados com o aumento da testagem, mas os especialistas contrariam por completo essa tese. Tanto Baltazar Nunes, epidemiologista do Instituto Nacional de Saúde Pública, como Rita Sá Machado, da Direção Geral da Saúde, “desconstruíram o argumento dos testes”. Entre os especialistas também houve quem alertasse para uma “segunda vaga” ou uma “segunda onda” que pode recomeçar a partir de Lisboa.

Os especialistas explicaram que os testes não podem ser a justificação para o aumento de casos porque há outros fatores que têm de ser tidos em conta, como “o número de testes positivos por teste realizado”. Segundo uma fonte ouvida pelo Observador, o que os peritos disseram foi que, apesar de Portugal estar de facto a fazer mais testes, estando em “nono lugar nos testes feitos por milhão de habitantes”, ou seja, na “metade superior dos 27 estados-membros da UE”, está no fundo da lista quando o critério é a taxa de casos positivos por teste realizado. Nesse caso, “a taxa de positivos é muito elevada”. Atrás de Portugal só mesmo a Bulgária e a Suécia.

Marcelo Rebelo de Sousa, ainda assim, partilhou da tese do primeiro-ministro quando fez declarações aos jornalistas no final da reunião — mesmo que o aumento da testagem não tenha sido uma conclusão dada pelos especialistas. Dentro de portas, o Presidente da República também tinha feito uma questão sobre se os jovens têm um desconfinar diferente que propicie o contágio. Mas esse aviso em forma de puxão de orelhas aos jovens que o Presidente da República tem dado nas últimas semanas também não teve suporte técnico.

Segundo líderes partidários ouvidos pelo Observador, os especialistas concordaram que os jovens têm, pela sua natureza, um desconfinar mais “pujante”, mas que não há sinais de que esteja a existir um contágio mais elevado nesse grupo etário. Tirando o caso da festa de Lagos, em que a maioria dos infetados (já vão em 115) são jovens, a maior parte dos surtos não estão relacionados com comportamentos negligentes ou despreocupados dos jovens. O único dado que podia ir ao encontro dessa tese é que os especialistas confirmaram que “a proporção de casos com menos de 20 anos tem aumentado nas últimas semanas”, mas isso inclui, por exemplo, crianças.

Relativamente a festas e pequenos ajuntamentos, os especialistas também contrariaram a narrativa das autoridades nos últimos dias. Segundo os epidemologistas e técnicos, o primeiro fator de contágio em Lisboa tem sido, “em primeiro lugar, a coabitação, em segundo lugar o contexto laboral e só em terceiro lugar o contexto social”.

O Presidente da República fez ainda uma pergunta sobre a pressão hospitalar nos cuidados intensivos e os especialistas disseram o que Marcelo Rebelo de Sousa explicou cá fora: que o Serviço Nacional de Saúde está a “responder bem” e que não há sinais de os cuidados intensivos — mesmo na região de Lisboa — estarem em perigo de entrarem em “rutura”. Apesar disso, alertam que houve “uma interrupção da tendência de decréscimo das hospitalizações, incluindo Unidades de Cuidados Intensivos, estando no entanto a uma capacidade comportável“.

Outra das preocupações dos especialistas foi com eventos de “super-transmissão”. O especialista Manuel Carmo Gomes foi claro relativamente à necessidade de travar eventos em que podem ser contagiadas dezenas ou centenas de pessoas de uma só vez.

Rt de Lisboa é o mais baixo, mas isso quer dizer pouco

Apesar de Lisboa estar no olho do furacão, o Rt de Lisboa é atualmente o mais baixo do continente. Isso mostra, segundo explicou uma fonte presente na reunião ao Observador, a “complexidade da questão”. Nas notas finais da apresentação inicial que fizeram, os especialistas começaram por explicar que Portugal não é um caso isolado e que “a maioria dos países que iniciaram o desconfinamento apresentaram valores do Rt acima de 1 ou muito próximo desse valor””. Não esconderam, no entanto, que “Portugal apresenta o Rt acima de 1 desde 18 de maio (o máximo de 1,09)” e que “há uma tendência de crescimento”.

Festa em parque de campismo de Grândola na origem de surto com 20 infetados

Os especialistas explicaram ainda que o Rt tem estado acima de 1 desde 29 de abril e o valor máximo nesse período foi de 1,15. Em Lisboa, como disse o Presidente da República à saída, o Rt está nos 1,08, o que é melhor que as restantes regiões (a Região Norte, por exemplo, está nos 1,2). No entanto, o que os epidemiologistas explicaram, segundo fonte presente na reunião, foi que “quanto mais casos novos houver mais difícil é o Rt subir“. Ou seja, o índice fica mais fixo e menos variável. Com uma média de 300 novos casos a registarem-se na região de Lisboa, para o Rt subir para 2 seria preciso haver cerca de 600 novos casos na mesma região. O que quer dizer que o índice de transmissão, por si só, não é um argumento suficiente. “O Rt tem de ser visto sempre associado ao número de novos casos”, diz a mesma fonte, sublinhando que um índice de transmissão sempre superior a 1 desde final de abril, desde que começou o desconfinamento, “preocupa” os especialistas.

15 a 20% dos casos sem controlo da cadeia de transmissão

Mas o que mais preocupa são os casos em que não se consegue identificar as cadeias de transmissão. E esses casos são já “um quinto do total”. A percentagem apontada pelos epidemiologistas foi de 15 a 20% de casos em transmissão comunitária, o que levanta receios sobre os chamados “super disseminadores”. “Todos os novos surtos, como o de Lagos, começam com um super-disseminador, e isso pode vir a acontecer cada vez mais na região de Lisboa”, disse uma fonte partidária ouvida pelo Observador.

Ao longo da reunião, os técnicos explicaram ainda que a Comissão Nacional de Proteção de Dados já aprovou uma aplicação móvel que permite controlar melhor o contágio, tal como o vice-presidente da bancada do PSD, Ricardo Batista Leite explicaria no final em declarações aos jornalistas.

[Como se inicia uma cadeia de transmissão? Uma ficção animada, inspirada em dados reais:]