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Nuno Gomes, o suplente mais goleador da seleção nacional de todos os tempos (16 golos)

EPA

Nuno Gomes, o suplente mais goleador da seleção nacional de todos os tempos (16 golos)

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Nuno Gomes. "Fiz férias na Grécia após o Euro2004"

Canoísta de primeira água, guarda-redes de andebol ou avançado de futebol. E agora? As melhores histórias de Nuno Gomes com Manuel José, Souness, Terim, Mancini, Scolari, Bruno Alves, Figo e JVP.

A ideia nasce em Amarante. Um minuto pela cidade banhada pelo Tâmega e já levo com um poster XXL de Nuno Gomes, à porta da loja de desporto, ali perto da belíssima Igreja de São Gonçalo. Envio a fotografia ao dito cujo e a resposta é imediata. “Amigo: se precisares de alguma coisa, avisa.” Se precisar? Atravesso a ponte, viro à esquerda para uma ruela mínima e a meio caminho, eureka, aqui está o que preciso: choiriço assado com pom. Mais uma mensagem, mais um palavra puxa palavra. Às tantas, combina-se a entrevista: 3.ª feira, dia 28, no Hotel Amazónia, às 1530.

Meu dito, meu feito. À minha frente, Nuno Gomes. Campeão nacional de juniores pelo Boavista, bicampeão nacional de seniores pelo Benfica, vencedor da Taça de Portugal pelo Boavista, vencedor da Taça de Portugal pelo Benfica, vencedor da Taça de Itália pela Fiorentina, campeão europeu sub-18 por Portugal. Em matéria de golos em grandes competições, três no tal Euro sub-18 em 1994, quatro no Mundial sub-20 em 1996, um no Jogos Olímpicos-96, quatro no Euro-2000, um no Euro-2004, um no Mundial-2006 e um no Euro-2008. Em traços gerais, sem puxar pela cabeça e com muitos eheheheheh pelo meio, eis o extraordinário currículo de um homem do Norte com passado benfiquista. Um clássico.

Que tal Amarante?

Bem bom, mas não comi o choiriço nem o pom.
Eisch, vê se não falhas para a próxima.

Continuas a ir lá muito?
Por acaso, já não vou desde o Verão, mas adoro aquilo.

Foi lá que começou tudo?
Tudo. Ali no rio Tâmega ou então nos poços de água da praia Aurora. Era de manhã à noite, com os meus amigos. Apanhávamos sol, jogávamos à bola e a nadar. É isso. Aliás, há um detalhe: eu praticava canoagem.

C-a-n-o-a-g-e-m?
Eheheheh. Amarante sempre teve alguns atletas de canoagem e eu pratiquei canoagem na Associação Desportiva de Amarante até aos 13/14 anos.

Porque gostavas?
Gostava, gostava. E fazia-me bem. Até tinha algum jeito. Cheguei a competir e tudo, com um colega. Por acaso, ainda tenho algumas medalhas de primeiro, segundo e terceiro lugares em casa.

Provas nacionais ou regionais?
Regionais, ali em Gaia, Crestuma, Lever. Na altura, treinava comigo um rapaz chamado Joaquim Queirós, que, mais tarde, até foi aos Jogos Olímpicos. Para a cidade de Amarante, isso foi um acontecimento, uma alegria imensa.

Canoagem e futebol, é isso?
Também joguei andebol.

"Era guarda-redes de andebol, jogava como avançado no futebol e fazia canoagem. Naquele tempo, metia-me nas coisas pelos amigos. Se um amigo jogasse andebol e um outro praticasse canoagem, ia a reboque dos dois. Cheguei a ter problemas numa época em que estava inscrito em várias modalidades na Associação do Porto. Chamaram-me a atenção para esse facto e, olha, foi assim que se perdeu um grande canoísta."

A-n-d-e-b-o-l?
Era guarda-redes. Acho que foi só uma época, eheheheh. Naquele tempo, metia-me nas coisas pelos amigos. Se um amigo jogasse andebol e um outro praticasse canoagem, ia a reboque dos dois. Cheguei a ter problemas numa época em que estava inscrito em várias modalidades na Associação do Porto. Chamaram-me a atenção para esse facto e, olha, foi assim que se perdeu um grande canoísta [Nuno Gomes parte-se a rir].

Optaste pelo futebol?
E não me arrependo nada. A verdade é que gostava mais de futebol do que qualquer outra modalidade. Olhava para a canoagem como um desporto de Verão. Quando percebi que tinha de continuar a ir aos treinos fora daquela época de calor para apanhar frio e chuva dentro da água gelada, ’tá quieto. Apanhar chuva por apanhar, mais vale ser atrás de uma bola. Assim foi. Comecei a ir ver jogar o Amarante com o meu pai. E comecei a jogar em torneios entre freguesias. Ainda se chamava futebol de salão, num ringue de pedra em Amarante. Depois passei para o futebol de sete, num pelado perto do parque florestal. Depois entrei no Amarante. Um senhor, que agora se chamaria scout ou olheiro, viu-me a jogar e aconselhou-me para a equipa, que iria participar no primeiro campeonato nacional de infantis. Salvo erro, acho que foi o primeiro nacional de infantis.

Já eras avançado?
Já, já. Já queria ficar bem à frente, à espera da bola. Era uma equipa jeitosa e até ganhávamos alguns torneios.

Cola-se aí o apelido artístico Gomes ao teu nome?
Era o tempo do Fernando Gomes, do FC Porto, um dos maiores goleadores do campeonato. Como eu também ganhava o troféu de melhor marcador desses torneios e tinha já o cabelo comprido, um primo meu que era o treinador dessa equipa começou a chamar-me Gomes. Quando fui aos treinos da tal equipa de infantis do Amarante, o treinador chamou por um Nuno Ribeiro, eu disse presente e ele atirou ‘tu é que és o Gomes, não é?’. Ficou desde aí.

"A final com a Grécia foi a 4 Julho e eu faço anos no dia 5. Quando cheguei a casa, já para lá da meia-noite, tinha uma festa surpresa organizada pela família. Só me apetecia meter os convidados fora de casa. Depois? Depois, fui de férias para a Grécia. Ya, depois do Euro-2004, fui de férias para a Grécia. E acreditas se te disser que passei uma semana em Creta no mesmo hotel da seleção grega? O dono desse hotel ofereceu uma semana aos campeões europeus e metade dessa seleção apareceu lá. À noite, quando ia jantar, lá apanhava com aquela malta toda. Fyssas, incluído. Ainda me pagaram um copo. Era o mínimo, também. Eheheheheh."

Sempre?
Anos mais tarde, tive uma chatice com o Nelo Vingada. Quer dizer, nem era uma chatice. A minha camisola deveria dizer Nuno Ribeiro e eu quis meter Gomes. Por essa altura, já tinha feito sub-15, sub16, sub-17, tinha sido campeão europeu sub-18 e o Nuno Gomes já estava bem enraizado. Só que o mister dizia que não fazia sentido, ‘porque és Ribeiro no meu e tens de largar essa conotação.’

E tu?
Ò mister, compreendo, gosto muito do nome Ribeiro, o da minha família, mas já quase nem olho quando me chamam Nuno Ribeiro.

E?
Acho que ficou Ribeiro, sabes?

Eheheheh. Quanto tempo jogaste no Amarante?
Três anos, esse dos infantis e dois nos iniciados.

E depois?
Mudo-me para o Boavista.

Assim, simples?
No ano anterior, estive vai-não vai para ir.

Só que?
Os meus pais não me deixavam ir para o Porto. Ainda não havia autoestrada, eram duas horas e pico para ir de Amarante para o Porto. Além disso, era muito novo.

Um ano depois?
Tanto chateei a cabeça dos meus pais que acabei por ir, eheheh. Fui para os juvenis do Boavista.

Complicado?
Os meus pais não viam com muitos bons olhos, sobretudo preocupados com a situação escolar. E, já agora, também preocupados com a mudança para o Porto, com o ir viver sozinho. A sorte foi que um colega meu do Amarante foi comigo.

Quem?
O Flores. Era o Carlitos. Também ele de uma família de pessoas ligadas ao futebol, porque o pai e o irmão foram jogadores do Amarante. Portanto, fomos os dois para a mesma equipa e para a mesma casa. Esse pormenor acabou por ser decisivo, embora tivesse passado esse Verão a convencer a minha mãe e depois o meu pai. Lá fomos.

Havia o Lar do Boavista?
Ainda não. Nos primeiros dois ou três meses, ainda vivemos na casa de um diretor.

Quem?
O senhor Túlio. Ele ainda está no Boavista, volta e meia ainda o vejo no estádio.

E?
Transformaram uma antiga sede do Boavista na Avenida da Boavista em Lar do Jogador e fomos todos para lá.

Todos, quantos?
Éramos uns 15, de todas as idades e de vários sítios do país, uns até da Guiné-Bissau, como o Bambo.

Xiiiii, o Bambo. Era mais novo que tu?
Não, era mais velho.

Ah pois, até jogou o Mundial sub-20 na Austrália, em 1993. E tu, sozinho num quarto?
Cinco num quarto: eu, o Flores, o Nelo de Lever ou Crestume, o Vítor Roriz do Braga e um David de Arcos de Valdevez.

E a equipa, era boa?
Fomos campeões nacionais de juniores.

Bem, g’anda honra.
O Boavista era forte nas camadas jovens. Dou-te um exemplo: três anos antes, o Boavista foi campeão nacional de juvenis.

"Fomos campeões nacionais de juniores no Boavista. Nesse ano, o quadrangular final foi entre Benfica, Boavista, Setúbal e Braga. Portanto, Porto e Sporting de fora. Foi atípico, porquê? O Setúbal também tinha uma bela equipa e jogámos aqui na penúltima jornada. Empatámos e eu mais o Tavares, os goleadores da equipa, fomos expulsos. No último jogo, era para ver quem marcava mais golos entre Boavista-Braga e Benfica-Setúbal. E ganhámos seis ou sete. Fiz quatro golos e o Tavares, um ou dois. Suspensos, nós? O castigo não chegou a tempo. Quando me cruzo com malta do Setúbal, como Sandro e Bruno Ribeiro, eles dizem-me sempre que tenho uma faixa em casa que lhes pertence."

Quem era a vossa equipa?
Havia jogadores com carreira na 1ª divisão, como Mário Silva, Ricardo Silva, Jorge Silva, Ivo 

Como foi esse título de campeão nacional de juniores?
Um pouco atípico, devo admitir. Ainda hoje, digo isso quando estou com a malta de Setúbal.

Então?
Geralmente, o quadrangular final inclui Porto, Benfica, Sporting e um intruso. Pois bem, nesse ano, foi Benfica, Boavista, Setúbal e Braga. Portanto, Porto e Sporting de fora. Foi atípico, porquê? [Nuno começa a rir-se] O Setúbal também tinha uma bela equipa e jogámos aqui na penúltima jornada. Empatámos e eu e o Tavares, os goleadores da equipa, fomos expulsos. No último jogo, era para ver quem marcava mais golos entre Boavista-Braga e Benfica-Setúbal. E ganhámos seis ou sete.

E tu estavas suspenso?
Fiz quatro golos e o Tavares, um ou dois.

Como?
Fui expulso, só que o castigo não chegou a tempo. Quando me cruzo com malta do Setúbal, como Sandro e Bruno Ribeiro, eles dizem-me sempre que tenho uma faixa em casa que lhes pertence.

Quem era a vossa equipa?
Havia jogadores com carreira na 1ª divisão, como Mário Silva, Ricardo Silva, Jorge Silva, Ivo Afonso.

Isso é o ano em que és campeão europeu sub-18?
É um ano depois ao título europeu, em Mérida. Que alegria. Na final, ganhámos à Alemanha nos penáltis.

https://www.youtube.com/watch?v=lwjdOrDe9r0

Marcaste algum penálti?
Não, era o último da série. É engraçado. Não sei porquê, ficava sempre para último. Quero dizer, sei mais ou menos porque escolhia sempre ficar em último.

Então?
Das duas, uma: ou não chegava a minha vez ou era o herói. Eheheheh. Dessa vez, não foi preciso o meu contributo. Ganhámos 4-1.

Difícil, esse Europeu?
Muito, a Holanda tinha o Seedorf, por exemplo, e a França o Vieira. Só que conseguimos dar-lhes a volta e trazer a taça. Foi um momento mágico.

É o passaporte para o Mundial sub-20, no Qatar?
Isso mesmo. Aí, voltámos a ganhar à Holanda, na fase de grupos. Éramos nós os dois mais Honduras e Argentina, com aquele golo do Dani.

Do que te lembras dessa aventura?
Muita coisa. Primeiro, a distância de casa. Depois, o mundo completamente novo. Fazia-nos confusão a hora da reza, com os altifalantes. Já voltei ao Qatar depois disso e aquilo não está nada igual: cresceu e de que maneira. Lembro-me bem do calor. De sair do avião e sentir o bafo quente. De fazer o aquecimento no balneário em vez de ser no relvado, antes do jogo para o terceiro e quarto lugares, com a Espanha. A FIFA até esteve para adiar esse jogo por umas horas.

Esse jogo é mítico.
Estamos a perder 2-0 ao intervalo e damos a volta na segunda parte, com dois golos meus e um do Dani. Essa Espanha é a do De la Peña, Morientes, Raúl, Roger, Salgado.

E esse Portugal?
Bem, além de grandes jogadores, era uma malta muito unida. Madureira, o capitão, Dani numa forma espetacular, Bruno Caires a pautar o jogo, Agostinho em grande forma, Rui Óscar à direita, Quim na baliza, o suplente dele era o Avelino, Mariano à esquerda, José Soares e Alfredo Bóia a centrais, mais o Beto, Edgar Ribeiro, Carlos Filipe, Ramires, Peixe, Diogo.

Esse Mundial sub-20 foi a meio da época.
Eisch, pois foi. Vê lá, estava a confundir com os Jogos Olímpicos 1996. Aí, foi o início de época. A equipa também era boa, só que não subimos aos pódio. Foi quase, eheheheh. Não dava mesmo, levámos cinco na pá e muitos outros ficaram por marcar. Se fores ver esse Brasil, minha Nossa Senhora: Bebeto, Roberto Carlos, Ronaldo, Aldair, Rivaldo, Zé Elias, Dida.

https://www.youtube.com/watch?v=ryMPwmRE7lA

Lembro-me de um jogo com a Argentina, em que o Simeone lesionou o Nuno Espírito Santo.
Fui aí que marquei o golo, 1-1. Na baliza, Bossio.

Eisch.
Essa Argentina também tinha uma equipazo: Simeone, Ortega, Crespo, Sensini, Zanetti, Claudio Lópes, Ayala, que dava pau nas horas.

Chegaste dos Jogos Olímpicos e?
Sem férias praticamente nenhumas, reentrei no Boavista e fiquei no plantel, com o Manuel José a treinador. Houve um jogo particular, de apresentação, com o Sporting em que entrei uns minutos. O primeiro jogo a sério foi com o MyPa. Entrei outra vez a meio e marquei no primeiro toque na bola. Essa equipa do Boavista era jeitosa: Artur na frente, o Bobó em grande estilo, o Alfredo à baliza, Jaime Alves, Nogueira, Casaca, Paulo Sousa, Nogueira.

Tudo malta fixe?
Impecável. Já os via em ação desde o tempo em que ainda jogava nos juvenis e foi a melhor formação que podia ter tido.

Os teus pais estavam no estádio no dia do teu primeiro golo?
Estavam, claro. Iam a todas, nunca falhavam.

"Manuel José foi dos treinadores mais importantes que tive. Pela aposta, pelo trabalho de campo, pela paciência, pelo ensinamento. Muitas vezes, ficava comigo a finalizar depois do treino. É assim: eu gostava muito de tocar na bola, de sair da minha posição, e ele chamava-me a atenção para o facto de me concentrar no facto de ser o número 9, só de área, porque o clube e até a seleção precisavam de um homem assim."

E o Manuel José?
Foi dos treinadores mais importantes que tive. Pela aposta, pelo trabalho de campo, pela paciência, pelo ensinamento. Muitas vezes, ficava comigo a finalizar depois do treino. É assim: eu gostava muito de tocar na bola, de sair da minha posição, e ele chamava-me a atenção para o facto de me concentrar no facto de ser o número 9, só de área, porque o clube e até a seleção precisavam de um homem assim.

E tu?
Gostava mais de jogar com outro avançado ao meu lado, porque assim podia ir procurar jogo a outras paragens enquanto o outro ficava mais firme na grande área. Eu tinha um problema: se ficasse muito tempo sem tocar na bola, entrava em parafuso. Só que os ensinamentos do Manuel José mostraram-me o outro lado e, como é lógico, bebi dessa cultura do avançado 9 puro.

Sais do Boavista porquê?
Verão de 1997.

Havia mais interessados, além do Benfica?
Foi uma época especial, porque fazia dupla com o Jimmy Hasselbaink. As defesas preocupavam-se muito com ele e eu lá aparecia para marcar e tal, eheheheh. Tanto ele como eu fizemos muitos golos e isso chamou a atenção de outros clubes.

Esse é o Boavista do Mário Reis?
Primeiro é João Alves, depois é Mário Reis. É ele que ganha a Taça de Portugal, precisamente ao Benfica.

E já tinhas assinado pelo Benfica ou…?
Já, já. Assinei pelo Benfica muito antes, uns três meses antes. Até te posso dizer que foi numa outra eliminatória da Taça, em que viemos jogar ao Estoril. Toda a equipa seguiu caminho para o Porto e eu fiquei em Lisboa. Fui jantar com o meu empresário José Veiga mais o presidente Manuel Damásio e diretor-desportivo Toni. Falámos e regressei ao Porto, com o João Loureiro. Por coincidência, Boavista e Benfica na final da Taça.

Já era público o acordo?
Siiiim. Quando fui reconhecer a relva do Jamor, antes de nos irmos equipar, os adeptos do Benfica não só me aplaudiram como também aplaudiram o Sánchez, que também ia para o Benfica na época seguinte.

Portanto, 13 contra nove.
Eheheheheh. Houve até malta que desconfiou um bocadinho, mas fomos profissionais e vamos lá ver a estatística desse jogo: 3-2 para nós, com um golo meu e dois do Sánchez. Além disso, havia a vontade e o sonho de vingar uma outra final da Taça entre Benfica e Boavista em que o Futre parte a loiça toda.

Ahhh, o 5-2 para o Benfica?
Esse mesmo. Nesse dia, estava em Amarante, num casamento de um familiar. Lembro-me que, de repente, arranjei uma televisão e vi o jogo. Havia essa vontade e também o sonho de sair em beleza do Boavista.

Já tinhas amigos no Benfica?
O João [Pinto], o Calado, o Bruno Caires. Já não me lembro se o Bruno Basto já lá estava.

Foi complicado a adaptação a Lisboa?
Hoje, as duas cidades são muito parecidas. Na altura, e estamos a falar de uma coisa há 20 anos, a diferença era maior. Lisboa era mais confusa, com mais trânsito. Quando vim para cá, escolhi um apartamento perto da Luz, ali em Telheiras, porque era perto do Estádio da Luz. Assim, não me perdia. Eheheheheheh. Nos primeiros dias, fiz o caminho umas quantas vezes e fiquei safo, eheheheh.

E o aspeto desportivo?
Não foi fácil. Três meses depois da minha chegada, muda-se o presidente (Vale e Azevedo no lugar do Manuel Damásio), a direção e o treinador.

Quem era no início?
Manuel José.

Ahhhhh.
Pois é, Manuel José. Depois foi o Shéu, Mário Wilson e Souness.

Que tal o Souness?
Ele era bom treinador [Nuno detém-se a olhar para o horizonte à procura das palavras certas], só que ele quis fazer as coisas à maneira dele sem perceber que estava num país diferente e num clube diferente. Eles chateava-nos muito porque queria que fossemos à sua imagem, mais guerreiros. Só que há jogadores e jogadores, todos diferentes: eu jogo assim, o João joga assado, o Calado cozido e ele pedia-nos sempre a mesma coisa.

https://www.youtube.com/watch?v=egDbLy8p1bQ

Como o fazia?
Entrava muitas vezes nos treinos para nos dar porrada, eheheheh. Para ver se nos espicaçava. Sou apologista de que nós é que temos de nos adaptar aonde estamos e não o contrário. Ora bem, isso não aconteceu com o Souness: ele chegou e impôs a sua lei sem prestar atenção a quem o rodeava. Eu, que joguei em Itália, não podia chegar a Itália e dizer ‘vocês não entendem nada disso, isto não é assim’ aos italianos. Temos de nos entrosar no ambiente, conhecer a realidade, não é?

"Ninguém explicou o motivo da nossa saída da equipa. Ainda por cima, o Benfica perdeu esse jogo por 1-0. No dia seguinte, já se dizia que eu e o João tínhamos saído à noite para as Vespas, uma discoteca famosa no Funchal. Aliás, o programa de televisão d'Os Donos da Bola faz uma reportagem em que o nosso colega Nuno Luz está a entrevistar pessoas à porta dessa discoteca. Ah é verdade, era Carnaval nesse fim-de-semana e houve um jornal que escreveu que eu e o João fomos mascarados para as Vespas. Enfim. Essa informação enganadora nunca foi desmentida e, claro, o clube expôs-se desnecessariamente."

Houve uma confusão com o Souness na Madeira, não foi?
Eu e o João chegámos atrasados a um passeio da equipa, perto do hotel, antes do almoço às 11, num dia de jogo às três da tarde com o Marítimo. Adormecemos e chegámos atrasados, facto. Quando chegámos à porta do hotel, já estava a equipa a voltar do passeio. Então nós entrámos no grupo e fomos para a mesa. Fizemos um bocado de conta que nada se tinha passado, eheheh. Almoçámos, fomos buscar as coisas aos quartos, entrámos no autocarro e chegámos ao Estádio dos Barreiros.

O que vem aí?
Estamos a ver a relva, antes de nos equiparmos, e o Souness vem ter comigo. Ao meu lado, o João. Na altura, o João falava pouco inglês e o Souness dirige-se a mim.

E o quê?
‘Tens de traduzir para o João; vocês faltaram ao passeio e nem pediram desculpas à equipa; por isso, começam o jogo no banco.’ Pelo tom de voz do Souness, o João dizia-me para contar o que estava a acontecer. Pedi-lhe para esperar pelo fim. O Souness acabou de falar e foi-se embora. Eu comuniquei então a decisão do Souness ao João e ficámos tristes, claro. O Souness quis ganhar o grupo e cortar o mal pela raiz. Fiquei chateado, óbvio, mas bastou-me uns minutos para perceber que ele estava certo. Nada a dizer sobre a decisão.

Assunto encerrado?
Errrr.

Então?
O problema cresceu.

Cresceu?
Porque ninguém explicou o motivo da nossa saída da equipa. Ainda por cima, o Benfica perdeu esse jogo por 1-0. No dia seguinte, já se dizia que eu e o João tínhamos saído à noite para as Vespas, uma discoteca famosa no Funchal. Aliás, o famoso programa de televisão d’Os Donos da Bola faz uma reportagem em que o nosso colega Nuno Luz está a entrevistar pessoas à porta dessa discoteca. Ah é verdade, era Carnaval nesse fim-de-semana e houve um jornal que escreveu que eu e o João fomos mascarados para as Vespas. Enfim. Se há coisa que nunca fiz, é ter saído à noite em vésperas de jogos. Essa informação enganadora nunca foi desmentida e, claro, o clube expôs-se desnecessariamente.

Como ficou a tua relação com o Souness?
Há outro pormenor curioso desse dia: o Pepa, com 17 ou 18 aninhos, saltou para a titularidade no meu lugar e veio pedir-me desculpa no balneário. Disse-lhe ‘ò Pepa, por amor de Deus, não me peças desculpa; entra em campo, parte aquilo tudo e marca uns golos.’ Ele estava nervoso e preocupado, eheheh. De resto, sobre o Souness, ele foi aquele jogador à antiga inglesa: ninguém se metia à frente dele. A ele, fazia-lhe confusão os portugueses não serem assim, viris. Só que nós temos outras valências, que devidamente exploradas até dão jeito. Por isso, houve ali um certo atrito e, às vezes, as suas opções de nos mandar para o banco baseavam-se no facto de querer mais músculo em campo. Ele dizia-nos isso mesmo e tudo bem: ele era o treinador e a sua opinião é soberana. Ele é que mandava, ele é que sabe quem joga e quem fica de fora. Só que houve uma situação com ele em 2000.

Ah, estragaste-me a surpresa. Aqui está a foto.
Na véspera desse jogo com a Inglaterra, para a primeira jornada do Euro-2000, ele disse umas coisas sobre a seleção portuguesa, sobre o João, sobre o Rui, sobre o Vítor.

E sobre ti?
O titular do Humberto era o Pauleta, só que ele estava suspenso pelo cartão vermelho visto na última jornada de qualificação, com a Hungria. Subiu então o Sá ao onze e ele lesiona-se também, na semana do jogo com a Inglaterra. Sobro eu, vá. Eheheheheh. Perguntam então a Souness o que acha de mim.

E ele?
‘Nuno Gomes é quem vai jogar? Então o Tony Adams não vai ter problema nenhum, basta-lhe mostrar os dentes.’ Como quem diz, o Nuninho vai tremer e vai fugir ao choque. Ele não gostava mesmo dos portugueses, ou porque fazíamos demasiados floreados com a bola ou porque não éramos duros. Se calhar também não gostava do Nené, porque não sujava os calções. É um pouco por aí, eheheheh.

E o jogo em si?
Com 2-0 aos 20 minutos, lembro-me de questionar tudo aquilo e pensar ‘meu Deus, vamos levar um cabaz, uns cinco ou seis’. A verdade é que continuámos a jogar como até aí, sem alteração do nosso estilo, e chegámos ao 2-2 antes do intervalo.

Boa boa. Que tal o intervalo?
Estávamos muito confiantes na reviravolta, na vitória, só que, de repente, havia alguém que avisava ‘cuidado com o Beckham’ ou ‘cuidado com o Shearer’. Ou seja, estávamos entusiasmados e, ao mesmo tempo, alertados para o perigo da Inglaterra.

O 3-2 é teu.
Grande passe do Rui, um passe à maestro. È o meu primeiro na seleção AA, aos 24 anos de idade.

E é com o Tony Adams aqui na foto.
Se tu fores ver, ele entrou como se fosse vida ou morte. Eu chuto e tiro logo o pé. Se não o tirasse, ainda ali estava.

Consegue-se dormir nessa noite de euforia?
Pouco, pouquíssimo. A adrenalina é imensa.

Agora tenho esta fotografia.
É a meia-final com a França. A malta ficou um pouco de cabeça perdida. Aqui, a caminho do balneário, estava a oferecer a camisola ao senhor, que não tinha culpa nenhuma embora pensasse que sim.

Então?
Na altura, não tinha visto imagens televisivas e não me pareceu mão. Por isso, aquele senhor tinha-nos tirado o sonho de chegar à final. Queria dar-lhe a camisola para se lembrar de nós. Ainda bem que não a levou porque ela está lá em casa, guardadinha. E ainda bem que não há mais fotos.

Porquê?
Um pouco mais adiante, já no túnel, atirei a camisola contra ele e acertei-lhe na nuca. Foi por esse gesto que apanhei os seis meses de suspensão das competições internacionais. Tal como eu, o Sérgio Conceição e o Paulo Bento também foram suspensos.

Quando te falam desta meia-final, pensas o quê?
Ainda bem que este folclore todo, protagonizado por nós, não belisca a campanha das quatro vitórias seguidas com Inglaterra, Roménia, Inglaterra e Turquia. Ou seja, quando se fala do Euro-2000, as pessoas lembram-se mais da campanha de resultados e não tanto deste final triste. Depois, vamos lá ver, a França tinha uma equipa grandiosa, era a campeã mundial em título e ganhou esse Europeu. E, no instante anterior ao penálti, o Barthez deve ter feito a defesa da vida dele a um cabeceamento do Abel Xavier. Se aquela bola entrasse, tudo era diferente. Se. Paciência, fizemos uma figura desportiva bem positiva. Depois, houve aquela parte do tilt [Nuno Gomes faz uma careta].

Se isso aconteceu com as pessoas lá em casa, imagino dentro de campo.
Bem sei, bem sei, mas lá dentro temos de ter nervos de aço.

Levaste seis meses?
Fomos ouvidos pela UEFA e tive acesso ao relatório do árbitro, em que li coisas falsas.

Falsas?
O árbitro dizia que tinha feito coisas que, na verdade, não fiz.

Então o que se passou?
Naquela molhada, tudo à volta dele, alguém lhe fez alguma maldade. Quando ele se virou, viu-me à sua frente e pensou que tivesse sido eu. Não fui, foi o colega do lado. Isso prejudicou-me, porque levei seis meses e não pude jogar na seleção nem na Taça UEFA pela Fiorentina. Ou seja, perdi o comboio da titularidade na seleção. Quando voltei da suspensão, já com o Oliveira no lugar do Humberto, sentei o rabiosque no banco de suplentes.

Pois é, Fiorentina. Este é dos primeiros jogos?
Nãããã, esse já é o meu segundo ano na Fiorentina. Sabes porquê?

Então?
Vês aqui isto ao lado do símbolo? É a prova de que éramos detentores da Taça de Itália.

A tua estreia, aliás, é na Taça da Itália.
Certo, em Salerno, com a Salernitana. Ganhámos 5-0, marquei três golaços, todos a passe do Rui.

Quem era o treinador?
O Fatih Terim. É ele quem me leva para a Fiorentina. Era ele o selecionador da Turquia durante o Euro-2000 e eu marco dois golos nos quartos-de-final, lembras-te?

Claro que sim, 2-0.
O Fatih Terim interessa-se por mim e quer muito que vá para a Fiorentina. Na altura, já estava a fazer a pré-época no Benfica, até estive presente na apresentação da nova camisola. Havia alguns empresários a chatear-me e alguns clubes teoricamente mais fortes a falar comigo.

Tais como?
Olha, o Liverpool. O israelita Ronny Rosenthal, antigo jogador do clube e já então empresário, está sempre a dizer-me que fui o único a negar-lhe a ida para o Liverpool.

Em vez de Liverpool, foste para a Fiorentina. Por ti?
Sim, sim. Embora percebesse que o Vale e Azevedo já tivesse chegado a acordo com a Fiorentina, ainda antes de me sentar com os responsáveis. Mas a insistência telefónica do Fatih Terim e a amizade com o Rui foram fatores determinantes.

E que tal viver em Florença?
Ia entrar por aí, Florença é uma cidade espetacular. Viver ali durante dois anos foi uma experiência inesquecível, já para não falar da cultura tática, sobretudo defensiva. Fui posto à prova num campeonato mais difícil que o nosso, em que o catenaccio é rei e senhor. Sinto que amadureci em Itália e, passe a modéstia, voltei a Portugal como melhor jogador.

E marcaste o golo que vale a Taça de Itália.
Um-um ao Parma, em Florença. Isso foi em 2001 e acho que a Fiorentina nunca mais ganhou nada. Tens de ver isso [challenge accepted e Nuno Gomes tem razão, zero tituli para a Fiorentina nos últimos 16 anos].

Ainda é o Terim?
Não, o Terim já tinha ido para o Milan. O treinador era o Roberto Mancini em início de carreira. Curiosamente, anos mais tarde, encontro-o em Inglaterra. Eu no Blackburn e ele no Manchester City. Como Blackburn é uma cidade típica inglesa, mais industrial, eheheheheh, pedi para viver com a família em Manchester, numa zona recatada, a 45 minutos, uma hora de caminho. Um dia, estou a sair de casa para beber um café e encontro-o, juntamente com dois adjuntos. É engraçado porque ele virou-se para mim e ‘Nuuuuno, foste tu a dar-me o meu primeiro título de treinador.’ E eu ‘mas tu não gostavas de mim’. E ele, ‘não gostava de ti?’. Então, não se lembra?, disse-lhe. E não, não gostava. Na estreia dele à frente da Fiorentina, joguei a titular. No segundo jogo, banco. E, daí em diante, passava lá a vida. Quando chega a altura do mercado de Inverno, o adjunto do Mancini, um bom homem chamado Gregucci, ia bater-me à porta do quarto nos estágios.

Porquê?
A perguntar-me porque é que eu não aceitava a proposta do PSG.

Ias para França?
Eles queriam trocar-me por um Leandro. Que não o Leandro Amaral. Esse já era da Fiorentina. Lembras-te dele?

Assim de repente, não.
No dia em que a Fiorentina me leva de Lisboa para Florença, eles ainda passam no Porto e sacam o Leandro Amaral, que já estava feito com o FCP, exames médicos incluídos.

Eisch, já me lembro.
Coincidência das coincidência, quem é que me liga ontem assim do nada? Leandro Amaral. Viu-me nas redes sociais e meteu conversa comigo. Está nos EUA, vê bem.

C’um caraças. De volta ao PSG.
Não queria nada disso, só pensava em Itália e na Fiorentina.

Impasse total?
Fechou a janela do mercado e continuei na Fiorentina.

E eles?
Ficaram um pouco magoados comigo.

Quem era o titular no ataque?
Enrico Chiesa.

Ahhhhhhh, sim.
Nessa final da Taça de Itália, tínhamos ganho 1-0 em Parma. Fiquei o jogo todo no banco. Na 2.ª mão, estávamos a perder 1-0 em casa e o Mancini mandou-me aquecer. Aos 60-e-tal minutos, marquei o empate. No fim do jogo, o Mancini deu-me um forte abraço, daqueles que valem mil palavras, sabes? Okay, isso é como pedir desculpa.

"Só para veres, na segunda época da Fiorentina, não recebemos salário durante oito meses e descemos de divisão. No Verão seguinte, o do arranque da minha terceira época na Fiorentina, é-nos comunicado o fim do clube durante o pequeno-almoço. Já tinha havido algumas movimentações: cada dia que passava, o número de jogadores no estágio era cada vez menor."

A tua relação melhorou com o Mancini?
Ele saiu de repente. Começou a ver que aquilo estava mal parado e deixou de aparecer. Pura e simplesmente. Saiu ele e o presidente desapareceu do mapa. Só para veres, na segunda época, não recebemos salário durante oito meses e descemos de divisão. No Verão seguinte, o do arranque da minha terceira época na Fiorentina, é-nos comunicado o fim do clube durante o pequeno-almoço. Já tinha havido algumas movimentações: cada dia que passava, o número de jogadores no estágio era cada vez menor.

Como é que vocês regressaram a Florença?
Não regressámos, porque aconselharam-nos a não o fazer. Estava o caos em Florença, com os adeptos a queimar as casas do presidente entretanto desaparecido do mapa. Naqueles dias de indecisão, já estava de olho no Benfica. Como quem diz, se a Fiorentina acabar, volto para Portugal e para o Benfica. Naquele dia, ao pequeno-almoço, vejo malta a chorar entre dirigentes, roupeiros e jogadores. Dada a notícia, despedimo-nos todos ali, no meio das montanhas, e voltei a Portugal.

De onde?
De Verona. A caminho do aeroporto, liga-me um amigo meu empresário italiano e diz-me para esperar em Itália. Encontramo-nos no aeroporto e ele mete-me em contacto com um dirigente da Roma. Disse-lhes para esperar, porque o meu objetivo era chegar a Lisboa e sentar-me com o Benfica.

E a Roma esperou sentada?
Eheheheh. Assinei com o Benfica, na era do Manuel Vilarinho, quase quase a do Luís Filipe Vieira. Estava de volta a Portugal.

Pronto para levar com o Bruno Alves?
Prontíssimo, eheheheh. Essa foto é daquele 2-0 no Dragão.

Yup, dois golos teus.
Aqui, o Bruno estava alterado. Muito mesmo, eheheheheh. Sou sincero, foi um lance em que o provoquei. Como já estávamos a ganhar, trocávamos a bola no meio-campo e o Bruno achou que estávamos a brincar. Primeiro, fez-me uma rasteira já mais violenta. Protestei por aquela entrada dura, à Bruno Alves, vá. E ele reagiu assim. Como tal, foi expulso. Seja como for, amigos como dantes. Já o somos há muito tempo e não era aquilo que ia perturbar a amizade, até porque lhe reconheço inúmeras qualidades, como a virilidade. O Souness iria gostar dele, eheheheh.

E esta foto aqui?
Ahhh, campeões.

Quando, em 2005 ou 2010?
Dois mil e cinco, sem dúvida. Aqui estamos a chegar à Luz, desde o aeroporto. Empatámos 1-1 no Bessa e fomos de autocarro até Pedras Rubras, via Avenida da Boavista. A cidade estava toda de vermelho, foi bonito. Em Lisboa, mais do mesmo, muita festa. Foi um campeonato difícil e o nosso plantel tinha jogadores como Simão, Nuno Assis, Petit, Ricardo Rocha, Luisão, Mantorras, já numa fase difícil da carreira. E depois a velha raposa, o Trapattoni. Ele tinha a máxima do ‘estamos mais perto de ganhar o jogo se não sofrermos nenhum golo’.

Era mesmo assim?
Primeiro, não se sofre. Depois, ganham-se os jogos. Ele, à partida, entendeu o nosso plantel e as nossas dinâmicas. Se vires bem, o Trapattoni usou uma base de 14/15 jogadores, não mais. E estava sempre preocupado com os jogadores.

Quais?
O Simão, claro. Se o Simão estivesse fisicamente assim-assim, o Trapattoni já não devia dormir bem, eheheheh.

E tu?
Boa pergunta.

Aqui há história.
E das boas.

Conta, vá. Sem medos.
A época anterior acabou mais tarde que o previsto, por culpa do Euro-2004. Como chegámos à final, as minhas férias começaram mais tarde e, por consequência, a minha pré-época não arrancou ao mesmo tempo da dos meus companheiros.

Muito bem. Mais?
A isto, acrescenta-se o fato de me ter lesionado no jogo com a Inglaterra, nos quartos-de-final.

Lesionaste-te, como assim?
Rotura parcial dos ligamentos. Não sabes tu nem sabe ninguém. Magoei-me e tive de continuar a jogar. Entrei a meio das meias-finais com a Holanda e também joguei como suplente na final com a Grécia.

E doía?
Joguei na base do sacrifício, sim.

Ouch.
A final com a Grécia foi a 4 Julho e eu faço anos no dia 5. Quando cheguei a casa, já para lá da meia-noite, tinha uma festa surpresa organizada pela família. Só me apetecia meter os convidados fora de casa, eheheheheh

[Nuno faz uma ligeira pausa; olha para o ar, depois para a mesa e cá vai disto]
Isto dava um bom título: e fui de férias para a Grécia.

Hãããã?
Ya, depois do Euro-2004, fui de férias para a Grécia. Eheheheheh. Já tinha tudo marcado antes do Euro, óbvio. Nunca esperei que a minha sina fosse aquela. Bem é melhor nem desbobinar mais o assunto, senão…

O quê, há mais material?
Se há mais? Acreditas se eu te disser que passei uma semana em Creta no mesmo hotel da seleção grega?

Quê?
O dono desse hotel ofereceu uma semana aos campeões europeus e metade dessa seleção apareceu lá. À noite, quando ia jantar, apanhava com aquela malta toda. Fyssas, incluído. Ainda me pagaram um copo. Era o mínimo, também. Eheheheheh.

Que coincidência bizarra.
Ora bem, estive parado nesses 10 dias de férias em Creta e isso fez-me pensar que a dor tinha desaparecido. Erro. Ao fim do segundo treino no Benfica, a dor voltou e fui queixar-me. Fiz uma ressonância e detectaram a rotura. Quando o Trapattoni soube disso, deu-me nas orelhas.

Como?
‘Nuno, como é que eu vou fazer sem ti?’ Eheheheh. O Trapattoni era mesmo assim, eterno preocupado com o estado físico dos jogadores.

Fora isso?
Adorava falar de futebol. Via os jogos todos e debatia-os a torto e a direito. Aquela coisa de analisar a tática, o adversário. Ele e o Álvaro tinham conversas intermináveis sobre isso. Por acaso, fiquei surpreendido com a saída dele no Benfica. Ganhámos o campeonato, perdemos a Taça e ele foi, se não me engano, para a Alemanha. Estugarda ou assim.

E esta foto?
[Nuno Gomes encosta-se à cadeira e concentra-se na foto] O Benfica conviveu com dois momentos uffff, delicados, drásticos: Fehér e Rui Baião. Conhecia-os. Melhor o Fehér, com quem joguei. Com o Rui Baião, só cheguei a treinar. Quando se fala de Fehér naquela noite em Guimarães, lembro-me da impotência. Como estava lesionado, fiquei em casa a ver o jogo e não sabia o que fazer. Primeiro por desconhecimento de causa, depois porque ninguém me atendia o telefone, depois ainda porque não havia notícias. E eu a pensar se pegava no carro para ir a Guimarães, se ficava em casa ou se ia para o estádio. Quando a equipa chegou à Luz, juntei-me a ela e estávamos todos destroçados. O Fehér era um jovem, bom rapaz, cheio de valor, cheio de energia, que se expressava cada vez melhor em português. A sua família também era especial, daí que tenhamos sentido a necessidade de o acompanhar até casa. Infelizmente, são momentos maus, do pior.

Viveste momentos maus, do pior, só no campo desportivo?
[Nuno pensa e sorri].

Pergunto-te porque, às vezes, os adeptos do Benfica chamavam-te Nulo Golos.
Pois, é uma piada fácil. Nuno, Nulo, Gomes, Golos. Os meus números estão aí. Houve uma época, a do Koeman, precisamente aquela em que marco dois golos ao Porto no Dragão, que estava isolado na lista dos melhores marcadores a cinco jornadas do fim.

Porquê a cinco jornadas do fim?
Porque me lesiono, no Restelo, e nunca mais jogo. Aliás, só volto a jogar no Mundial-2006, com o México. E depois com a Alemanha, em que marco ao Kahn, no 3.º e 4.º lugares, a passe do Figo. Na altura da lesão, tinha 15 golos.

E sem penáltis.
Por acaso, um. Ao Braga – o marcador oficial era o Simão. Tinha 15 e assim fiquei. Sabes quem foi o melhor marcador do campeonato? Meyong, com 17. Antes disso, por muito que marcasse, havia o Mário Jardel. Esse não dava hipótese a ninguém. Portanto, marquei os meus golos, só que o tribunal da Luz é cruel, eheheheh. Também me chamavam Amélia, por causa do cabelo, ou bailarina. É assim, as pessoas embirram. Eu também embirro quando as pessoas viram de repente na estrada e não avisam com o sinal, eheheh.

"Há um golo que falho em Barcelona, com o Espanyol. Está 3-2 para eles e tenho o 3-3 nos pés. Se marcasse, íamos para a meia-final da Taça UEFA. É uma jogada do Rui Costa, ele cruza e a bola está quase lá dentro. Em vez de empurrar com o pé, vou de carrinho. Como é que te explico, eheheheh? Faço o carrinho e não calculo bem a velocidade da bola. Eu atiro-me, a bola bate-me nas pernas e eu fico ali sem saber como empurrar a bola para a baliza."

Qual é assim o golo-não mais clamoroso da tua carreira?
Eheheheh, e tu insistes. ‘Tou tramado. Há um golo que falho em Barcelona, com o Espanyol. Está 3-2 para eles e tenho o 3-3 nos pés. Se marcasse, íamos para a meia-final da Taça UEFA. É uma jogada do Rui Costa, ele cruza e a bola está quase lá dentro. Em vez de empurrar com o pé, vou de carrinho. Como é que te explico, eheheheh? Faço o carrinho e não calculo bem a velocidade da bola. Eu atiro-me, a bola bate-me nas pernas e eu fico ali sem saber como empurrar a bola para a baliza.

Compreendo.
Epá, já falhei golos inexplicáveis. Daqueles que ficamos a olhar para o ar ou para o pé ou para a relva, como quem culpa um elemento nada a ver connosco. Já não me lembro qual o treinador que me disse isto: ‘os jogadores não deviam mostrar aquilo que sentem’. Porque é difícil falhar um golo e não meter as mãos à cabeça. Isso não só transmite ao público das bancadas e do sofá que estamos desesperados como também estamos a admitir uma culpa. Mas isso dos golos falhados acontece a qualquer um e nunca me tirou o sono. Nunca, mesmo.

Este não foi um golo fácil.
Eheheh, boa boa. Espanha, Euro-2004. Só interessava a vitória e o golo é meu, de fora da área. E olha lá as mãos dos espanhóis na cabeça. Pânico, eheheheh. Como quem diz, já fomos. Esse jogo tem uma curiosidade: o Scolari gostava que um jogador falasse antes do jogo. Nós dávamos um abraço no meio do balneário, ele dizia umas palavras e depois indicava o jogador para falar, aleatoriamente. Naquela noite, fui eu o eleito. Curiosamente, substituo o Pauleta ao intervalo e o golo do 1-0 é meu. E é até um golo que foge um pouco à minha maneira de jogar, porque respeitava as tabelas e o um-dois, sobretudo do Figo e do Rui Costa. Nesse instante, o Figo passa-me a bola e eu não respeitei o movimento dele, não respeitei o Figo nem respeitei ninguém. Aquilo nem é pensar pela minha cabeça, é só o meu instinto a funcionar. Às vezes, acusavam-me de ser altruísta demais. Foi um pouco por aí. Recebi a bola e percebi que os defesas estariam à espera que respeitasse o movimento do Figo. Vai daí, decidi ficar com a bola e atirei à baliza.

É a última imagem. Vejo-te muitas vezes ao lado de Ronaldo, tanto nos treinos como fora do campo. Não fazia ideia dessa ligação.
O Ronaldo de 2004 era um pouco o Nuno Gomes em 2000, sabes? Como ele era o mais novo do grupo, conhecia bem essa sensação e gostava de falar com ele para fazê-lo sentir-se à vontade. Quatro anos depois, no Euro-2008, ainda com Scolari, era eu o capitão e ele o vice. Entendiamo-nos bem, tanto dentro como fora do campo.

Falaste do Scolari e não és tu um dos que o segura naquele murro ao Dragutinovic?
Segurei-o, sim senhor. Ele viu ali uma coisa suja no cabelo do minino, como ele dizia, e foi lá limpar. Só pode. Eheheheheh. Percebi que o mister estava alterado e decidi intervir. Ou seja, se não respeitei o movimento do Figo no lance do 1-0 à Espanha, também aqui não respeitei o movimento do Scolari na direção do Dragutinovic. Eheheheh.

Afinal, esta é que é a última fotografia do dia.
Xiiiiiii, só tens esta foto?

Só.
Ainda bem. Deve haver outras bem mais preocupantes, esta ainda se salva, vá. O Paulo Gonzo a tentar explicar-me alguma coisa.

Que acontecimento é este?
O hino do Mundial-2002, tenho essa ideia. Havia mais como eu: Figo, Abel Xavier, João Pinto, Ricardo, Nélson. E até antigas glórias, como Gomes, Hilário. Olha, foi hilário. Dia bem passado, eheheh.

Game over. Ou…? Isso é que era doce. Na sala ao lado, um jovem sorridente aguarda Nuno Gomes e pede-lhe para tirar uma fotografia. Durante o “olhò passarinho”, Nuno ouve a história de Frederico Seruya. “O Nuno foi o meu primeiro ídolo, ainda hoje me recordo daquele golo ao Barthez na meia-final do Euro-2000. Por infelicidade, os meus irmãos gravaram o Super Pai em cima desse golo na cassete VHS.” Vê, agá, ésse. Que maravilhoso final de entrevista. Calma, só mais um toque. De Frederico. “Dez anos depois, o Nuno voltou a marcar ao Barthez, na Luz. E por duas vezes.” Finito. Agora sim.

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