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A Netflix quer ‘engolir’ a Warner Bros., um nome centenário de Hollywood, que nasceu ainda nos loucos anos 20. A gigante de streaming está disposta a dar 72 mil milhões de dólares (61,8 mil milhões de euros) para ficar com vários ativos da empresa, incluindo os estúdios de cinema e televisão, o streaming HBO Max e a marca HBO, responsável por sucessos como Sopranos ou A Guerra dos Tronos.
A notícia do negócio caiu com estrondo no mercado esta sexta-feira. A Netflix está disposta a dar 27,75 dólares por ação da Warner Bros. Discovery (WBD), totalizando os tais 72 mil milhões de dólares. Nos detalhes do acordo foi explicado que os acionistas da WBD vão receber 23,25 dólares em cash e 4,50 dólares em ações da Netflix por cada título que tenham da WBD na altura do fecho do negócio. Em equity (valor patrimonial), o negócio está estimado nos já referidos 72 mil milhões de dólares, já o valor empresarial chega aos 82,7 mil milhões de dólares (cerca de 71 mil milhões de euros).
Esta é a maior aquisição já anunciada pela Netflix, que começou como uma pequena empresa de aluguer de DVD pelo correio. Com o passar dos anos, a Netflix passou para o streaming e hoje em dia é a maior neste mercado: tem 300 milhões de subscritores em 190 países. E já foi muito além das séries: também tem no catálogo filmes, documentários, reality shows e até jogos. A aposta mais recente têm sido as transmissões em direto, incluindo wrestling.
A Warners Bros. Discovery já passou por várias etapas ao longo dos anos. Aliás, o próprio nome Warner Bros. Discovery resulta de uma fusão entre a Warner Media e a Discovery, fechada em 2022, por 43 mil milhões de dólares, perto de 40 mil milhões de euros. Desta forma, foram unidos os conteúdos de marcas de cinema e entretenimento, como a HBO, à informação e desporto (CNN e a Eurosport).
Três anos depois, a Netflix sai vencedora de uma guerra de licitações para mudar novamente a marca Warner Bros. Mas não compra a totalidade de ativos da companhia: a Netflix ficará com a área de entretenimento e streaming, assim como com os estúdios de televisão e cinema.
Já os ativos ligados a canais de cabo globais — Discovery, CNN, entre outro — ficam fora do acordo. Vão passar para outra empresa independente, chamada Discovery Global. Em comunicado, foi explicado que esta mudança tem conclusão “expectável para o terceiro trimestre de 2026”. Esta empresa também deverá ser cotada em bolsa.
O negócio entre a Netflix e a WBD terá ainda de passar pelo crivo regulatório. A Netflix estima que sejam precisos entre “12 a 18 meses” para que o negócio possa chegar a bom porto. A dimensão da Netflix, que quer aliar-se a uma empresa relevante e histórica no audiovisual, levanta dúvidas no âmbito regulatório.
Qual é a razão para a Netflix querer a Warner Bros. Discovery?
A resposta é simples: conteúdo. A WBD é dona de um vasto portefólio, resultante da sua presença centenária em Hollywood. “Ao combinar a incrível biblioteca de programas e filmes da Netflix — desde clássicos intemporais como Casablanca e Citizen Kane até favoritos modernos como Harry Potter e Friends — e com os nossos títulos que definiram a cultura, como Stranger Things, KPop Demon Hunters e Squid Game, poderemos fazer isso ainda melhor”, disse Ted Sarandos, em comunicado. “Juntos, podemos oferecer ao público mais do que eles adoram e ajudar a definir o próximo século de narrativas.”
Netflix fecha acordo para compra da Warner Bros. Discovery por 71 mil milhões de euros
“Sei que alguns estão surpreendidos por estarmos a fazer esta aquisição — e eu certamente compreendo porquê”, admitiu o co-CEO da Netflix, numa chamada com analistas esta sexta-feira. “Ao longo dos anos, temos sido conhecidos como construtores, não compradores… Mas isto é uma oportunidade rara que nos vai ajudar a conquistar a nossa missão de entreter o mundo e unir as pessoas através de grandes histórias.”
▲ Ted Sarandos, à esquerda, co-CEO da Netflix
Getty Images
A Netflix tem interesse em reforçar o catálogo de conteúdos, até porque enfrenta concorrência crescente de empresas no streaming, nomeadamente a Disney, que também tem um catálogo considerável, pois é dona também da Fox, Pixar, Lucasfilms e também da Marvel. Na apresentação ao mercado, a Netflix explicou que pretende “manter as operações” da WBD, tanto na área de cinema como televisão.
Caso o negócio chegue a bom porto, a Netflix ganharia igualmente uma vantagem na área da distribuição cinematográfica, onde a WBD tem um longo legado. Por agora, a Netflix revelou que pretende manter o calendário de lançamentos em sala de cinema.
Mas até esse tema já foi alvo de críticas: os operadores temem que a Netflix altere por completo a lógica vigente, nota a CNBC. Mesmo quando aposta em grandes produções de cinema, a Netflix privilegia o lançamento nas suas plataformas em vez da apresentação em salas de cinema.
A Cinema United, a maior associação desta área, criticou fortemente a escolha da Netflix para ficar com os ativos da WBD. “A proposta de aquisição da Warner Bros. pela Netflix representa uma ameaça sem precedentes para o setor de exibição global”, afirmou o CEO Michael O’Leary em comunicado, citado pela CNBC. “O impacto negativo desta aquisição afetará cinemas desde as maiores redes até salas independentes com um único ecrã em pequenas cidades nos Estados Unidos e em todo o mundo”, alertou.
Que conteúdos tem a Warners Bros. Discovery?
O portefólio da WBD é extenso: a empresa tem ativos na área dos estúdios de cinema e de televisão, a Warner Bros. e a DC Studios. No cinema, é responsável por duas das franquias mais populares da indústria, como os filmes de Harry Potter e Superman. A lista de ativos completos na sétima arte inclui a Warner Bros. Pictures, a DC Studios e também a New Line Cinema.
Na televisão, é dona dos estúdios Warner Bros. Television, instalados em Burbank, na Califórnia. A empresa produziu vários sucessos mundiais para televisão, como Friends (1994 – 2004) e A Teoria do Big Bang (2007-2019). Além disso, conta no seu catálogo com clássicos do cinema, como Casablanca, Citizen Kane ou O Feiticeiro de Oz. É também a responsável por séries como Abbott Elementary ou Running Point, esta última integrante do catálogo da Netflix.
Além disso, é ainda dona do canal de televisão HBO e do streaming HBO Max. Foi a partir da HBO que saíram sucessos mundiais como Sopranos, A Guerra dos Tronos ou, mais recentemente, Succession ou White Lotus. Também está na área de jogos e experiências de consumo, com o ativo Mortal Kombat. Usando a propriedade intelectual do universo Harry Potter, também se destacou com o título Hogwarts Legacy, que gerou mais de mil milhões de dólares em receitas.
▲ A série A Guerra dos Tronos é um dos ativos que integra o catálogo da Warner Bros. Discovery
De onde surgiu a oportunidade para este negócio?
Tudo começou em junho de 2025, quando a WBD anunciou os planos para dividir as suas áreas de negócio: separar a atividade de streaming e estúdios da sua rede global de canais, ficando com duas empresas independentes (e também cotadas em bolsa). A WBD Global Networks (WBD GN) ficaria com os conteúdos desportivos, os canais noticiosos e também de entretenimento. Já a WBD Streaming & Studios (WBD S&S) — que poderá agora passar para as mãos da Netflix — seria mais focada na produção de conteúdo audiovisual e na plataforma de streaming.
Em outubro, a Warner Bros. admitiu que tinha os seus ativos à venda, após ter recebido propostas de vários interessados. Em comunicado, a empresa declarou que ia começar uma revisão de “alternativas estratégicas” à luz do “interesse não solicitado” que recebeu de diversas partes — tanto para adquirir a empresa como um todo ou só para a área da Warner Bros., especificamente. Porém, na altura não abriu o jogo sobre os interessados.
Warner Bros. Discovery recebe propostas de venda e analisa alternativas estratégicas
Com o passar do tempo, foi-se tornando cada vez mais claro quem eram os interessados: além da Netflix, também a Paramount Skydance e a Comcast foram a jogo. Segundo a CNBC, todas as empresas alteraram as suas ofertas algumas vezes para tentar ultrapassar a concorrência.
O que pode acontecer ao serviço de streaming HBO Max?
A Netflix anunciou que pretende manter as atuais operações da Warner Bros e “apoiar-se nos seus pontos fortes”. Um deles é o streaming: a HBO Max tem cerca de 130 milhões de subscritores em todo o mundo.
Porém, por agora é ainda incerto o destino da HBO Max — os executivos da Netflix explicaram que “ainda é bastante cedo para ir aos detalhes”, durante uma chamada com investidores. Mas a empresa destacou que poderia ser vantajoso ter um possível pacote (bundle) para juntar os serviços de streaming Netflix e HBO Max. “Vimos que alguns destes bundles e modelos, se forem construídos corretamente, podem ter todo o tipo de benefícios a nível de retenção e envolvimento”, declarou Greg Peters, co-CEO da Netflix.
▲ A série Friends é um dos sucessos do catálogo da WBD
Como ficam os canais controlados pela WBD?
A WBD é dona de vários canais de cabo, que não estão incluídos neste acordo de transação e deverão passar para a empresa independente WBD Global Networks.
A companhia é dona de diversos canais, na área da informação, entretenimento e desporto. A lista inclui a CNN, TVN, TNT, TLC, Food Network ou o Adult Swim. Também tem o canal de animação Cartoon Network. No desporto, a aposta mais conhecida é a Eurosport.
Em junho, quando anunciou a vontade de dividir áreas de negócio, a WBD revelou que tinha 1.100 milhões de espectadores únicos à escala global.
Negócio ainda tem de passar pelo crivo da concorrência. O que pode acontecer?
Numa chamada com analistas, feita após o anúncio do acordo, Ted Sarandos afirmou que está “altamente confiante em relação ao processo regulatório”. Porém, segundo a imprensa especializada e alguns analistas, a realidade deverá ser outra. Muitos apontam que é expectável que o negócio suscite dúvidas, tanto nos EUA como na Europa.
Em território norte-americano, nem a Casa Branca nem Donald Trump emitiram comentários sobre o negócio. Numa nota de research citada pelo Deadline, o analista Blair Levin, da New Street Research, afirmou que “é mais provável do que improvável” que o Departamento de Justiça dos EUA tente travar a operação. No entanto, o analista especializado em questões de policy e regulação salienta que o Presidente dos EUA poderá ter um papel relevante nesta discussão. Ou até que a Netflix possa vir a dar passos para tentar reduzir o “imposto de transação Trump” — por exemplo, fazer promessas de produzir mais séries nos EUA, para tentar ganhar pontos com o líder da Casa Branca.
“À luz do atual ambiente regulatório, isto [negócio] suscitará espanto e preocupações. O player dominante combinado de streaming será fortemente escrutinado”, alerta Paolo Pescatore, analista da PP Foresight, em declarações citadas pela Reuters.
Se o negócio cair por terra por questões regulatórias ou por questões de mercado, a Netflix acordou pagar uma taxa de rescisão de 5,8 mil milhões de dólares (4,98 mil milhões de euros) à Warner Bros, escreve a Bloomberg. Já a Warner Bros. Discovery comprometeu-se a pagar à Netflix 2,8 mil milhões de dólares (2,4 mil milhões de euros).
Como reagiram os concorrentes?
Este anúncio da aquisição põe fim a uma guerra de licitações para ficar com os ativos da Warner Bros. Discovery.
Não há, para já, reações oficiais após o negócio ter sido divulgado. Mas a Paramount Skydance, gerida por David Ellison, filho do dono da tecnológica Oracle, ter-se-á queixado, ainda antes do fecho do acordo, da forma como o negócio estava a ser conduzido. Foi pelo menos essa a informação avançada pela CNBC, esta quinta-feira, que citou uma carta enviada pelos advogados da Paramount a David Zaslav, CEO da WBD. Na missiva, foi contestada a “equidade e adequação” do processo.
“Tornou-se crescentemente claro, através da informação dos media e outros formatos, que a WBD parece ter abandonado a aparência e a realidade de um processo de transação justo, abdicando assim das suas obrigações para com os acionistas, e embarcado num processo míope com um resultado predeterminado que favorece um único licitante”, citou a CNBC.
Segundo o Deadline, a escolha da Netflix terá sido até uma surpresa, já que muitos em Washington acreditavam que a Paramount estaria numa posição mais favorável a nível regulatório. Tudo porque a família Ellison, agora à frente da Paramount, tem proximidade com Donald Trump.
Como está a ser visto o acordo pelo mundo político?
Este anúncio está a ser criticado por alguns senadores, tanto republicanos como democratas. Ainda durante a fase de licitações pelos ativos da WBD, os republicanos no Congresso alertaram que ter a Netflix a absorver a HBO Max e o catálogo de conteúdos da Warner Bros resultaria na redução de escolha para o consumidor. E, em última instância, dava uma “inaceitável” fatia do mercado de streaming à Netflix.
O republicano Mike Lee, do Utah, afirmou ainda na quinta-feira, quando foram avançadas as primeiras notícias sobre o negócio, que a operação representava uma “ameaça concorrencial séria”, que deveria “enviar um alarme às autoridades de concorrência em todo o mundo”.
“Esta potencial transação, se se materializar, levanta sérias questões concorrenciais — mais do que a qualquer outra transação que já vi na última década. Quando a Netflix tem concorrência real, os espectadores e os artistas ganham”, escreveu na rede social X.
Learning about Netflix’s ambition to buy its real competitive threat—WBD’s streaming business—should send alarm to antitrust enforcers around the world
This potential transaction, if it were to materialize, would raise serious competition questions—perhaps more so than any… https://t.co/hnbLZOwgjI
— Mike Lee (@BasedMikeLee) December 4, 2025
Já a senadora democrata Elizabeth Warren declarou o acordo como “um pesadelo”. “Uma fusão entre a Netflix e a Warner Bros criaria um gigante da media com controlo de quase metade do mercado de streaming — ameaçando forçar os norte-americanos a pagar preços mais altos por subscrições e ter menos opções sobre o que e como assistir, além de colocar os trabalhadores americanos em risco”, disse Warren num comunicado citado pela Reuters.