O resultado da autópsia feita há 30 anos era claro. “Foi esfaqueada oito vezes na zona do coração e sufocada em simultâneo”, anunciava Rémi Landais, procurador-geral de Soissons, uma comuna francesa a cerca de 100 quilómetros a nordeste de Paris. Falava ao jornal Le Parisien, que em 1994 ainda publicava exclusivamente em papel, três semanas depois de o corpo de Nadège Desnoix, de 17 anos, ter sido encontrado num trilho, não muito longe do liceu Júlio Verne, que frequentava nessa localidade francesa.
No artigo do jornal diário informava-se que foram entrevistadas “cerca de meia centena de testemunhas e conhecidos da jovem”, descrita como uma “bela ruiva”. O namorado da adolescente foi ouvido pelas autoridades e investigado, mas apesar de ser suspeito por defeito, nada apontava para ele. Tudo foi “em vão”, assumia-se no artigo com o título: “A morte de Nadège permanece inexplicável.”
En mai 1994, une ado de 17 ans, Nadège Desnoix, est retrouvée étranglée et lardée de coups de couteau sur un sentier à Château-Thierry. Son cartable est jeté dans un buisson. 27 ans plus tard, un suspect a été placé en garde à vue, confondu par l'ADN https://t.co/Q16hZFHIrA pic.twitter.com/olTsZx8mpK
— Jérémie Pham-Lê (@jpham_le) November 30, 2021
Durante anos a fio, as pistas recolhidas no local do crime foram seguidas, bem como traçado o perfil de um possível assassino. Na calha das autoridades francesas chegou a estar Michel Fourniret, um serial killer que em 2008 foi condenado pela morte de sete jovens mulheres (com idades entre os 12 e os 22 anos) e que ao longo dos anos foi confessando vários outros crimes em parceria com a então companheira que atraia as raparigas — incluindo um de apenas nove anos, desaparecida desde 2003.
Nadège encaixava no perfil das vítimas de Fourniret — pela idade e aparência física — mas não em toda a linha. A autópsia não revelou sinais de que tivesse sido agredida sexualmente antes de morrer, e a violação prévia era comum em todos os homicídios atribuídos ao assassino em série francês, que morreu de doença prolongada, em 2021, quando estava a cumprir pena de prisão perpétua. Ao todo, entre 1987 e 2003, o francês matou 11 pessoas.
Nenhuma das vítimas identificadas era, no entanto, a adolescente de 17 anos encontrada sem vida em Soissons. E isso até já era um dado quase certo para as autoridades, que conseguiu recolher uma amostra de ADN do elástico que Nadège usava no momento em que foi esfaqueada e asfixiada. Era possível comparar os vestígios com o perfil genético de Fourniret e de outros serial killers franceses — e os resultados chegaram sempre negativos para a compatibilidade com estes suspeitos ou para pessoas próximas da jovem que cederam amostras de ADN.
Em 2021, soube-se que havia uma explicação para a ausência de resultados conclusivos: o ADN do assassino da adolescente não figurava no banco de dados francês, mas houve um match nesse ano que mudou tudo. A amostra de Pascal Lafolie, hoje com 58 anos, entrou no sistema quase por acaso e, após ser cruzada com a amostra antiga, correspondeu com clareza à da pessoa que tocou no elástico de Nadège, em 1994. Esta segunda-feira, o homem identificado há quatro anos começou a ser julgado no Tribunal de Aisne, em França.
O caso de violência doméstica que levou a polícia francesa até ao suspeito
Perto do sítio onde o corpo de Nadège Desnoix foi encontrado estava a sua mochila, que carregava no caminho para a aula de eletromecânica aonde nunca chegou e, a poucos metros desta, uma rosa recém-colhida e um cordão de nylon. Os dois objetos sempre foram considerados das maiores pistas encontradas no local do crime, mas revelaram-se inúteis para a investigação quando se percebeu que não continham vestígios biológicos rastreáveis.
▲ Foi uma amostra de ADN recolhida em 2021 que guiou a polícia até Pascal Lafolie
ALEKSANDAR PLAVEVSKI/EPA
Até 2021. Quando avançou a notícia dos resultados positivos do cruzamento do dois ADN, a 1 de dezembro desse ano, o Le Parisien revelou que o nome do suspeito era Pascal Lafolie, que descrevia como “um pai com um longo histórico de crimes sexuais“, mas que tinha conseguido esconder da Justiça o seu “crime mais sórdido por quase 30 anos”.
Lafolie já tinha sido condenado por agressão sexual a uma menor, em 1997, e por violação, em 2002, recorda o Liberátion. Cumpriu as penas a que foi condenado, reintegrou-se na sociedade e só em 2021, quando foi investigado no âmbito de uma acusação de violência doméstica, com uma companheira a acusá-lo de lhe ter dado uma estalada, o seu ADN foi recolhido e a amostra cruzada com aquela que tinha sido encontrada no elástico da adolescente em 1994.
Perante os resultados inesperados, o homem, na altura com 54 anos, foi detido no seu local de trabalho e chegou até a ser noticiado que admitiu às autoridades, em sede de primeiro interrogatório, uma agressão sexual contra a jovem, seguida do seu assassinato, em 1994. Vários jornais franceses davam conta de um relato pormenorizado, embora fragmentado, daquela fatídica manhã de terça-feira, 24 de maio de 1994, por parte de Pascal L.
Contou à polícia que o seu caminho se cruzou com o da vítima, dez anos mais nova do que ele (ao tempo dos factos tinha 27 anos) quando estava a viajar para Château-Thierry, uma cidade na região de Aisne, para visitar a filha da então companheira.
Descreveu tudo o que se passou após ver a rapariga a caminhar como um crime de oportunidade: passou pela jovem e não resistiu ao impulso pedófilo. Chegou mesmo a confessar à polícia: “Não pensei que sexo oral acabasse em homicídio.” Tendo em conta as declarações que deu à polícia quando a sua ligação ao caso foi descoberta, nada fazia crer que, de um momento para o outro, passasse a negar ser o homicida de Nadège Desnoix. Mas foi mesmo isso que aconteceu: atira agora as culpas para o irmão, que já morreu.
Lafolie pode ser condenado a 30 anos de prisão
No dia em que Nadège morreu, vários dos colegas disseram que a tinham visto, horas antes, no café local. Terá sido no percurso a pé entre o estabelecimento e a escola que foi abordada pelo assassino. Se em 2021 Pascal Lafolie apresentava uma versão dos factos em que o encontro se tinha dado de um para um, recentemente alterou tudo o que tinha dito antes e admitiu a presença de uma terceira pessoa no local do crime.
Já em prisão preventiva, e enquanto aguardava julgamento, negou qualquer envolvimento direto no homicídio da jovem. Contou que no dia em que se cruzou com Nadège Desnoix estava a levar o irmão a uma reunião. Foi então que o familiar, em circunstâncias que não esclarece, terá começado a agredir a adolescente e que Pascal Lafolie interveio, justificando dessa forma — através de um ato de defesa — a presença de traços de ADN no elástico da rapariga.
Foi nesse momento que o irmão lhe terá dado várias pancadas na cabeça que, assegura, fizeram com que sofra de “lapsos de memória” em relação ao que se passou nesse dia em específico. Antes da sessão de julgamento desta segunda-feira, a sua advogada, Justine Devred, reforçou a mesma ideia: “A sua capacidade de se lembrar não está completa, são acontecimentos que datam de há mais de trinta anos.”
E não é só a alegada falta de memória que a defesa tenta que abone a seu favor. O facto de o irmão, que agora acusa de ter morto a adolescente, ter morrido poucos meses antes de Lafolie ser preso, torna-o no bode expiatório perfeito, já que não se pode defender. No entanto, a sua intervenção está praticamente descartada pelos investigadores, que exumaram o corpo para recolher amostras de ADN que não se revelaram compatíveis ou relevantes para o caso.
Na manhã desta segunda-feira, já sentado no banco dos réus do Tribunal de Aisne, o homem de 58 anos voltou a declarar-se inocente, desta vez formalmente. “Admito ter estado lá, mas não admito ter cometido este homicídio“, afirmou. O Le Parisien, a reportar da sala da audiências, descreveu-o com cabelo grisalho, a usar óculos e a vestir um fato de treino cinzento claro.
Chegou ao tribunal por volta das 9h15, algemado e escoltado por três polícias, manteve-se impassível e de “olhar perdido no espaço”, enquanto o tribunal introduzia os factos do homicídio cometido em 1994.
Na sala estiveram presentes os irmãos de Nadège Desnoix, que se fazem representar pelo advogado Gérard Chemla, que afirmou aos meios de comunicação social presentes: “Ele fechou-se num sistema de defesa estúpido”, denunciando a criação de um cenário de suposta falta de memória numa tentativa de ilibação.
Revelou ainda que os seus clientes não esperam que seja ele a pessoa “que lhes dirá a verdade”. Têm a expectativa que fique provado em tribunal que Lafolie é mesmo o autor deste homicídio que demorou três décadas a ser resolvido graças à amostra de ADN.
A leitura da sentença do caso é esperada esta quinta-feira, com o principal suspeito a habilitar-se a uma pena de prisão máxima de exatamente 30 anos, o mesmo período de tempo em que não se soube quem foi o autor da morte de Nadège Desnoix.