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FOTOILUSTRAÇÃO INÊS CORREIA/OBSERVADOR

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O combate paralelo à esquerda: os "ziguezagues", a discrição e o silêncio de Seguro

Primeiras sondagens mataram qualquer sonho que pudesse existir. O silêncio de Seguro, que ignorou os rivais, impediu a criação de momentos de campanha. Agora, arriscam-se a ter uma noite desastrosa.

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Foi uma campanha paralela que, de tão paralela que foi, quase desapareceu dos radares. De forma algo poética, acabou, precisamente, como começou: num passa-culpas sobre a responsabilidade de não ter havido uma convergência em torno de um único candidato. Numa altura em que o país parece ter guinado política e sociologicamente à direita, os três partidos à esquerda do PS partiram para esta eleição com o objetivo de fazerem uma demonstração de vitalidade. A considerar todas as sondagens realizadas até aqui, provarão exatamente o contrário do que pretendiam. Se atingirem os mínimos históricos que os estudos de opinião indicam que vão atingir, a pergunta no dia a seguir às eleições é de que forma é que Livre e, sobretudo, PCP e Bloco de Esquerda vão conseguir sobreviver.

Jorge Pinto, António Filipe e Catarina Martins foram os pontas de lança das estratégias dos respetivos partidos. E conheceram sortes diferentes ao longo das duas semanas de campanha. Jorge Pinto começou com um quase-anúncio de desistência, arrependeu-se pelo caminho, manteve-se na corrida e terminou a campanha com um quase-anúncio de desistência — para logo depois negar esse mesmo quase-anúncio de desistência.

António Filipe arrancou tímido, com ações minimais, virou o registo na segunda semana e mostrou, mais uma vez, que a máquina do PCP tem uma capacidade de mobilização assinalável. Mas continua a afundar nas sondagens e já se vai temendo o pior dos cenários. Catarina Martins fez uma campanha deliberadamente solitária, sem a participação dos notáveis, tentando provar que era maior do que o partido — isto mesmo tendo no currículo dois dos quatro piores resultados da história recente do Bloco. Arrica-se a somar mais um mau recorde.

Com uma agravante transversal aos três. Um dos grandes objetivos de Pinto, Filipe e Martins era condicionar António José Seguro e obrigá-lo a “dizer alguma coisa de esquerda”. Esperava-se que o socialista enfrentasse uma campanha difícil, que o iria obrigar a entrar num debate muito próprio com as candidaturas à sua esquerda e a fazer concessões — na agenda, no discurso, nas causas. Mas as primeiras sondagens, com Seguro a balançar entre o primeiro e o segundo lugares, dinamitaram essas aspirações dos partidos à esquerda do PS. Tentando provocar reações ao candidato socialista, acabaram a falar sozinhos — e a discutir entre si.

Pinto. Acabar por começou: à procura de um sentido

Presidential candidate Jorge Pinto (R) during an election campaign event in Santo Ovídio, Vila Nova de Gaia, Portugal, 15 January 2026. The Portuguese will elect their new president on 18 January. FERNANDO VELUDO/LUSA

FERNANDO VELUDO/LUSA

Os jornalistas que acompanham a caravana de Jorge Pinto sabiam o que ia acontecer. Tinham recebido um texto com embargo, que só deveria ser noticiado depois da intervenção do candidato apoiado pelo Livre no comício noturno de quinta-feira. Surpreendentemente, no penúltimo dia da primeira volta da campanha eleitoral, Jorge Pinto sugeria aos seus apoiantes e simpatizantes que votassem em António José Seguro. E nem foi preciso esperar pela noite: no Porto, na única arruada da campanha, Jorge Pinto fez praticamente um apelo ao voto no socialista.

“Estou confortável com a ideia de as pessoas votarem de maneira consciente. Se isso levar a que votem noutras candidaturas com medo que outras passem à segunda volta, cá estarei para o receber, compreender e aceitar”, disse o candidato, alertando para o “risco real” de haver uma segunda volta só com candidatos da direita. Teria tanto de genuíno (vontade efetiva de impedir que isso aconteça), como de tático (se tiver um resultado perto ou abaixo do 1% sempre poderá dizer que tinha desistido). Era a saída possível para uma campanha esteve muito longe de ser aquilo com que o Livre sonhou.

A primeira semana do candidato apoiado pelo Livre passou a ser uma espécie de contenção de danos. Danos causados pelo próprio candidato, que, reagindo a uma notícia do Observador, não só admitiu desistir como, no debate a 11 na RTP, desafiou os outros candidatos a fazerem o mesmo. Passaria os dias seguintes a negar essa vontade para terminar a campanha outra vez dizer coisas diferentes: na rua, no Porto, apontou para o voto em Seguro; na carta aberta, fez o mesmo; no comício, horas depois, desmentiu tudo isto.

Seja como for, o tal “pacto republicano” de que falou várias vezes Jorge Pinto nunca teve resposta. Ou melhor: teve a resposta dos adversários, que o apoucaram; e teve a resposta dos inquiridos nas sondagens, que o puseram taco a taco com o candidato de fantasia, Manuel João Vieira. Os diferentes posicionamentos relativamente a uma possível desistência levaram António Filipe a acusá-lo de “ziguezaguear” e Catarina Martins a tratá-lo, no mínimo, com condescendência.

A partir desse momento, Jorge Pinto passou focar-se num objetivo claro: mostrar que ia continuar na corrida. E para isso, sempre que uma sondagem surgia, era importante que o candidato a desvalorizasse ou que nem reagisse à mesma. Questionado várias vezes sobre uma possível desistência, Jorge Pinto afastou esse cenário. Mesmo no último dia em que podia retirar a candidatura (quarta-feira), voltou a ouvir-se a mesma questão. E o candidato mais jovem a Belém declarou: “O assunto está encerrado”. Não estava, como se viu 24 horas depois.

Depois de falar aos jornalistas durante a arruada no Porto e depois de publicar uma carta aberta aos simpatizantes da sua candidatura (o tal texto com embargo que os jornalistas tinham recebido) onde apontava para a utilidade do voto útil em Seguro, Jorge Pinto fez novas declarações aos jornalistas desdizendo-se. “Aquilo que disse e que me parece, até, uma lapalissada, é dizer que ninguém é dono dos votos de ninguém. O voto útil seria na minha candidatura. Ou acha que eu estou nesta candidatura para pedir às pessoas para não votarem em mim? É evidente que não. [Essa interpretação] é uma surpresa para mim. Se calhar é excesso de transparência da minha parte, excesso de honestidade.”

Não é transparência, nem honestidade; é mesmo confusão. Ainda assim, houve pelo menos uma tentativa de dar alguma lógica à campanha. Ao quinto dia, Rui Tavares apareceu no terreno, não mediu as palavras e avançou com uma crítica direta a António José Seguro, que faz “a política do costume”. “Não me orgulharia de ter um Presidente que ache que não se pode combater [as intenções da direita e extrema-direita de fazer uma revisão constitucional errada]. É um Presidente da República que vai chegar lá e não vai fazer nada do que um Presidente deve fazer. Não conseguirá defender a democracia.”

Rui Tavares tentava assim provocar uma reação do socialista e devolver algum ânimo à campanha de Jorge Pinto. Sem sucesso. Reapareceu dois dias depois e provocou, uma vez mais, o candidato apoiado pelo PS. Num comício em Almada onde se fez a festa com comida cabo-verdiana e música brasileira ao vivo, o líder do Livre atirou ao socialista por este “não dizer se era de esquerda ou não”. “Depois lembrou-se de vir dizer que era. E depois, a seguir ao debate com o Jorge Pinto, finalmente percebeu que havia uma revisão constitucional em risco.” Enquanto pegava no microfone, com a voz elevada e de dedo em riste, desafiou António José Seguro: “Diz-nos o que é que fazes se quiserem mudar a Constituição. Diz-nos como lutas. Diz-nos como a fazes cumprir”.

Uma vez mais, o mesmo resultado: silêncio. Seguro não reagiu e a partir dessa noite Jorge Pinto parecia decidido alterar a forma de fazer política, passando a seguir a deixa do líder. Aguerrido e de microfone em punho, no primeiro comício da segunda semana de campanha, o candidato apoiado pelo Livre mudou a abordagem. Num encontro com cerca de 70 apoiantes, Jorge Pinto atirou a todos os candidatos, mesmo àqueles que até então tinham saído ilesos: Gouveia e Melo e Seguro.

Poucas semanas depois de assumir que estaria disposto a desistir pela candidatura do socialista, Jorge Pinto estava agora a acusar o socialista de falta de firmeza. “António José Seguro faz lembrar aquele professor que, vendo um bully e um agressor na escola, vai lá e diz: ‘Façam as pazes’. E a seguir vira costas e espera que a situação se resolva”, começou por dizer, referindo-se à revisão Constitucional feita pela direita. E dúvidas houvesse sobre a forma como via agora o candidato socialista, Jorge Pinto foi mais além: “É preciso um Presidente da República firme, que diga que a situação não pode continuar.”

Nem isso pegou. Valeram as experiências. Em Miranda do Douro, no café Buteko, dentro das muralhas do castelo, com noite cerrada, 3.ºC lá fora e as ruas desertas, ouviu-se, entre o português e mirandês, o reconhecimento do esforço do candidato. “Precisamos é de pessoas assim. É o único a vir cá”.

Jorge Pinto não ouviu, mas foi o melhor elogio que podem fazer à sua campanha: apesar de tudo, foi a sítios onde quase nenhum outro foi. Será um prémio de consolação. Isso e a aparente convicção de que o seu percurso não terminará por aqui. Como disse a meio da campanha, muitos dos atuais “grandes líderes” só o são por terem continuado a persistir.

Filipe. A discrição de uma campanha que servia para resistir

O candidato às eleições presidenciais, António Filipe (C), acompanhado por João Ferreira (E), vereador da Câmara Municipal de Lisboa (CML), durante uma ação de campanha em Queluz, Sintra, 13 de janeiro de 2026. Os portugueses elegem o novo Presidente da República em 18 de janeiro. ANTÓNIO COTRIM/LUSA

ANTÓNIO COTRIM/LUSA

João Oliveira, uma das figuras mais reconhecidas e acarinhadas do e no PCP, vai servindo de cicerone ao candiato. Percorrem juntos a rua de comércio de tradicional de Évora, terra natal do eurodeputado e antigo líder parlamentar do partido. De porta em porta, Oliveira vai apresentando o candidato, que ia cumprimentando os comerciantes e agradecendo por o receberem naquele espaço. Muitas pessoas parecem indiferentes à passagem de um candidato presidencial ali tão perto.

Mesmo dentro das lojas, não conseguem arrancar mais do que um “boa sorte, vamos ver” à maioria dos trabalhadores que os recebem. Entre os que de facto mostram interesse em António Filipe, o sentimento é comum: aflição com a situação política e o crescimento da direita. “Isto está muita difícil, muito confuso“, lamentou um dos possíveis eleitores ao candidato. António Filipe responde com a honestidade que o foi caracterizando nos dias de campanha. Tenta não dramatizar ainda mais a hecatombe que pode estar para chegar. “Cá estamos. O país não há de ir ao fundo”, diz.

O PCP está em perda eleitoral há anos consecutivos. Depois do fim oficial da ‘geringonça’, ou do que sobrava dela, e da maioria absoluta de António Costa, em 2022, o partido enterrou a conversa da convergência à esquerda e optou por percorrer só o caminho da resistência. Nas últimas autárquicas de Lisboa, ignorou todas as pressões para se unir a Alexandra Leitão e mostrou orgulho nisso mesmo.

Nestas presidenciais, António Filipe foi o primeiro candidato da esquerda a anunciar a candidatura e nunca deu para o peditório da desistência em nome de António José Seguro. O resultado prático foi uma campanha a dois ritmos, feita em torno de um candidato que, apesar da larguíssima experiência política, pareceu pouco confortável com a ideia de ser ele o grande protagonista de uma campanha.

António Filipe já o admitiu: é um homem discreto, pouco dado a extravagâncias ou comportamentos que saiam do seu modo de estar. Quem o viu a interagir com os eleitores pôde verificar que faz por não incomodar e não se impor. E também foi possível notar que cresceu sempre que teve uma figura mais extrovertida  a complementar a sua campanha e encher espaços vazios, quando a conversa não fluía tão facilmente.

Foi evidente para todos que António Filipe está mais à vontade noutro tipo de ambientes. E isso notou-se na maior dificuldade com que respondia às perguntas dos jornalistas que acompanharam a caravana do comunista. Nas intervenções diárias que teve no fim de almoços ou jantares com apoiantes e nas sessões públicas de esclarecimento foi diferente: foi nesses momentos, presumivelmente porque resultam de um tempo de preparação diferente, que António Filipe foi conseguindo introduzir alguma novidade à sua campanha. Reações pensadas para as notícias da atualidade ou indiretas para os adversários na corrida. Essas “bocas” saíram-lhe sempre melhor no púlpito do que aos microfones da comunicação social.

Apesar e tudo, nunca recuou um centímetro na estratégia definida: António José Seguro foi sempre o alvo a abater e qualquer conversa sobre convergência à esquerda foi sempre atirada para o domínio do surrealismo. Jorge Pinto foi despachado em dois tempos (no início e no fim, quando o candidato do Livre  voltou a embrulhar-se na conversa da desistência) e o socialista — de quem António Filipe é amigo há mais de 40 anos — foi a pinhata humana da campanha do candidato do PCP.

“Fazer de conta que se é de esquerda e pactuar com políticas de direita só beneficia a direita e a extrema-direita. Porque se alguém, afirmando-se de esquerda ou em nome da esquerda faz políticas de direita, a esquerda fica com a fama e a direita fica com o proveito”, chegou a dizer a determinada altura. “A moderação é conversa de quem quer deixar tudo na mesma, ou para pio. Não precisamos disso. Isto não vai lá com apelos à moderação. Vai lá com políticas de esquerda. E para enfrentar o peso que a direita tem hoje na vida política nacional, é preciso uma perspetiva de esquerda.”

Com o relógio a apertar, a reta final da campanha permitiu, apesar de tudo, ver um outro lado de António Filipe. Em Almada, ainda que tendo ao seu lado a líder parlamentar comunista Paula Santos, o candidato fez de ponta de lança de uma arruada com mais de uma hora. Mais enérgico e menos tímido que o habitual, distribuiu cravos e beijinhos, e atirou flores para as janelas (quando falhou, garantiu que a culpa era dos “guarda-redes”).

Numa papelaria, até mostrou uma capacidade de improviso a que inexistiu ao longo da campanha. Depois de ter aconselhado os eleitores a “jogarem pelo seguro“, e percebendo que acabava de repetir um dos slogans de campanha de um dos adversários a Belém, lá corrigiu e acrescentou que “não se assinam contratos de seguro sem ler as letras pequeninas”. De um outro apoiante, ouviu uma referência à música pimba — “Se estás à rasca, chama o António” — e rapidamente corrigiu: “Sim, mas tem de ser o António certo”, brincou.

Os comícios em Lisboa e no Porto, que serviram como transição da primeira para a segunda semana da campanha oficial, representaram um boost inegável para a campanha de António Filipe. Os dias que se seguiram serviram de reconhecimento que as caras conhecidas faziam falta à candidatura. E se noutros momentos pareceu satisfeito a deixar que Paulo Raimundo, João Oliveira ou João Ferreira roubassem as atenções, os momentos finais de campanha mostraram que talvez o melhor António Filipe surja quando está fora da zona de conforto. As sondagens, essas, são as que são: seria muito surpreendente se o comunista fosse muito além dos 2%.

“Independentemente daquilo que seja o resultado destas eleições, estarei cá, depois das eleições, para continuar a lutar por aquilo que sempre lutei ao longo da minha vida”, prometeu António Filipe. Mas nem a possível vitória moral que está ao alcance do comunista, que seria ficar à frente de Catarina Martins e Jorge Pinto, poderá dar lugar a um clima de festa nas hostes comunistas. Quereria apenas dizer que o Bloco de Esquerda está numa crise maior que o PCP e que o Livre, que ia mostrando uma tendência de crescimento, tem um eleitorado menos fidelizado do que se poderia supor.

Depois há outro dado mais cruel a pesar nas contas que se vão fazendo no partido: o Bloco pode estar em crise e o Livre pode estar, como se viu, insuflado; mas, a confirmar-se a tendência das sondagens, nem assim António Filipe e os comunistas se conseguem destacar — aliás, na última sondagem da Intercampus, realizada para o Now, o comunista não só aparece atrás de Catarina Martins e Jorge Pinto como só reúne mais 0,5 pontos percentuais nas intenções de voto do que uma candidatura como a de Manuel João Vieira.

Dentro do partido, sabe o Observador, ainda existe a fé de que António Filipe tenha conseguido fixar eleitores antes dos apelos ao voto útil por parte de Seguro e da quase desistência de Jorge Pinto virem marcar a campanha. De qualquer forma, talvez compreendendo que há pouco tempo para gerir os estragos de uma campanha que não terá corrido exatamente como queria, o candidato começou a pesca pelos eleitores indecisos quase 48 horas antes de chegar à reta final. Olhando para as sondagens, a estratégia faz sentido: todas mostram que uma larga fatia da população pode mesmo dar uso ao dia de reflexão para decidir em quem votar.

Martins. A liderança do pelotão que pode significar um mínimo histórico

LUSA

As campanhas eleitorais também se prestam a estranhas e simbólicas coincidências. Catarina Martins está na Sala dos Reitores da Universidade de Lisboa a participar numa conversa aberta sobre tecnologia e futuro proporcionada. Lá ao longe, num canto, pintado a verde e roxo em estilo expressionista, está o retrato da figura que o Bloco de Esquerda queria mesmo apoiar nestas eleições presidenciais: António Sampaio da Nóvoa.

O partido esperou, insistiu e voltou a esperar. Só depois de levar a definitiva nega do antigo reitor e candidato presidencial nas presidenciais de 2016 é que Catarina Martins decidiu avançar — a mesma Catarina Martins que ainda em maio de 2024 protagonizou uma corrida eleitoral europeia para esquecer. Apesar de tudo, decidiu repetir a experiência e fazê-lo à sua maneira: praticamente sozinha e sem a companhia na estrada dos principais nomes do Bloco de Esquerda.

Os notáveis do partido estiveram pouco presentes. E quando aconteceu de estarem presentes, não falaram, limitaram-se a assistir. Foi isso que fizeram Mariana Mortágua — que apareceu uma vez desde que a campanha oficial começou — ou de Francisco Louçã, que teve uma presença discreta na conversa que juntou um grupo de cerca de 20 pessoas na Reitoria da Universidade de Lisboa.

A liderança de Mariana Mortágua e o ensaio de um regresso de Francisco Louçã deram ao Bloco o pior resultado legislativo desde a fundação do partido. Mesmo com uma cara conhecida — a de Catarina Martins — era preciso tentar fazer diferente, porventura. A antiga coordenadora do Bloco partiu sozinha para a estrada e tentar ditar a agenda à esquerda, com pequenas ações de campanha que foram passando pouco pela rua — havendo dias de campanha sem um ponto da agenda a promover encontros da candidata com desconhecidos.

Apesar de ser empática com feirantes e fregueses, Catarina Martins não está perto de ser um sucesso em feiras. Poucas pessoas se aproximam espontaneamente da candidata para trocar palavras e afetos. Quem o faz não se mostra particularmente confiante para esta eleição: “Desta vez não vais ganhar, pois não? Mas dá  cá um abraço”, pediu-lhe uma mulher na Feira de Torres Novas.

A antiga líder do Bloco não se presta muito a fazer números para as câmaras e as conversas com feirantes encaminham-se sempre para a política. Não gosta manifestamente da campanha-espetáculo. A caravana minimal também se prestou a isso: foi uma “campanha assumidamente sem meios”. De resto, Catarina Martins só dormiu uma noite num hotel — ainda na pré-campanha nos Açores. O próprio diretor de campanha, Ricardo Moreira, tirou férias para poder liderar a logística desta candidatura à Presidência. “Depois tenho o problema de conseguir explicar às minhas filhas que em agosto vamos ter umas férias mais curtinhas”, chegou a contar o próprio.

Além destes casos, o voluntariado também foi necessário para, por exemplo, montar e desmontar palcos e púlpitos. Foi a pequena equipa de dois homens que já está encarregue desse trabalho nas eleições do Bloco de Esquerda que deu uma ajuda para esta campanha presidencial. Valeu a sorte de terem material já adaptado a Catarina Martins —  um púlpito utilizado nos comícios tem um degrau que amovível para o qual a eurodeputada sobre quando discursa.

Quanto ao mais, Catarina Martins foi aparecendo acompanhada por grupos pequenos de apoiantes e alguns independentes — mas nada que se compare ao poder de mobilização do PCP. O alvo foi sempre um: António José Seguro. Sem que o socialista alguma vez lhe tivesse dado troco, e com a depressão provocada pelos números minimais das sondagens, a campanha de Catarina Martins foi empalidecendo ao longo dos dias.

A eurodeputada foi-se esquivando ao máximo de responder às provocações dos adversários e adotou o comportamento de candidata responsável que quer realmente discutir o país. Jorge Pinto e António Filipe ainda foram alimentando um bate-boca, mas a bloquista manteve-se fora da querela — o facto de ir surgindo à frente das sondagens também lhe dá uma vantagem especial. A verdade é que a luta à esquerda foi morna por outro motivo: em tempo de vacas magras, não há grandes incentivos para lutas fratricidas.

O melhor resultado possível — mostrar que a esquerda à esquerda do PS ainda está viva — é, neste momento, muito improvável. Assegurar que fica à frente da liga dos últimos será um fraco consolo, mas, ainda assim, um consolo. Os bloquistas acreditam que o ciclo atual pertence à direita, no país e no mundo. É preciso começar hoje a lançar as sementes para preparar o fim desse mesmo ciclo. No entanto, estas presidenciais dificilmente servirão para dar esse primeiro passo.

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