Quando Bruna Alves voltou a casa, depois da intervenção cirúrgica que lhe colocou um CDI (cardiodesfibrilhador implantável), percebeu que as escadas da casa onde mora, numa aldeia do Reguengo do Fetal, no concelho da Batalha, se assemelhavam ao Everest, a partir dali. Qualquer movimento a cansava e lhe doía. Mas sabia que, para viver, era aquela a sua tábua de salvação, a que se agarrou a partir do Hospital de Santa Cruz (HSC), que já há meses lhe monitorizava o coração, os desmaios súbitos, a vida por um fio. Tinha 29 anos.
Desde muito nova que se cansava a fazer qualquer esforço físico, até nas aulas de ginástica da escola. Nascera com “um sopro”, como tantas crianças, mas à medida que foi crescendo o coração parecia querer abrandar. Depois de muitos exames e consultas, uma médica do Hospital de Santo André, em Leiria, decidiu enviá-la para o HSC, para a consulta de arritmologia. E aí, o médico Pedro Galvão Santos não mais a largou. Tal como sucede com cada um dos familiares e amigos que estão a seu lado, todos os dias. Ainda não se sabe ao certo o que provoca os desacertos no coração de Bruna. “O nosso coração tem uma parte mecânica e outra elétrica, e é esta última que não funciona bem, não sabemos o porquê”, conta ela. Como se ainda ninguém tivesse identificado o fusível danificado.
Por esta altura, o coração de Bruna bate mais forte: traz com ela a Benedita, que virá anunciar o novo ano de 2026. Na maternidade Bissaya Barreto, em Coimbra, que deverá receber mãe e filha nos primeiros instantes de vida, há-de estar uma equipa de cardiologia a acompanhar o parto.
João e Bruna conheceram-se nos corredores do Instituto Politécnico de Leiria, ao tempo das respetivas licenciaturas em solicitadoria. Ela é natural da aldeia de Milagres, concelho de Leiria. Ele é nascido e criado na aldeia de Torrinhas, envolta pela Serra de Aire, na freguesia de Reguengo do Fetal, onde hoje moram. Quando conheceu Bruna, no final de 2013, a rapariga faladora e independente, nada fazia prever que a vida futura se fizesse no fio da navalha.
João transpira bonomia e fala das dificuldades cardíacas da mulher (casaram em 2023) com uma leveza desconcertante. “Habituámo-nos a viver com os ‘aparelhómetros’, a estar alerta, a viver um dia de cada vez, um segundo de cada vez”, conta ao Observador. Primeiro vieram os desmaios, depois a frequência cardíaca a baixar, as indisposições. Quando finalmente Bruna foi encaminhada para o HSC, era tempo de pandemia e João não podia acompanhá-la nas consultas. Foi nessa altura “que lhe colocaram um dispositivo, uma espécie de pen USB, que servia para lhe monitorizarem o coração à distância”, recorda. Foi, de resto, o que a salvou, quando em 2022 o coração quase parou. Uma vez acionado, a equipa médica do hospital contactou-a, e dias depois estava a colocar o CDI. Quando regressou a casa, Bruna vinha “com muitas limitações”, recorda João, que passou a ser uma espécie de sombra da então namorada. “Tinha de a ajudar a fazer tudo, desde deslocar-se de um lado para o outro, dar-lhe banho, ajudar a vestir, qualquer tarefa mais básica… ela não conseguia”.
O casal é muito envolvido na vida social da aldeia, desde a organização do arraial de agosto, na capela, até ao quotidiano da coletividade, ambas a dois passos da casa onde moram. Quando Bruna voltou a casa, depois da cirurgia para colocar o CDI, faltavam poucos dias para a festa anual. “Ela tentou ir à procissão, mas percebeu logo que não ia conseguir. Foi um momento muito complicado”, conta João, que já viveu ao lado dela “vários sustos”, dois deles muito sérios: “Da primeira vez foi quando ela começou a sentir-se mal, desmaiou na casa de banho, vomitou. E outra, também grave, foi quando estávamos no NorteShopping, no Porto. De repente olhei para ela e parecia que ela ia ficar-se ali. Mudou de cor, foi como se estivesse a passar para outro lado”. Nas palavras da própria Bruna, sentiu-se “mesmo a passar por uma experiência paranormal, aquela imagem que as pessoas descrevem de ver uma luz branca, de ver a vida a passar-lhe à frente. Sentia o coração a bater cada vez mais lento, como se fosse parar”. Durou segundos, mas parecia a eternidade.
Joana e Bruna conheceram-se em 2020, através dos maridos. Ninguém diria que não cresceram juntas, tal é o nível de proximidade entre ambas, “mais do que amigas, somos como irmãs”, explicam. Os laços foram apertando ao correr dos anos, ganharam intimidade, partilhavam muita coisa. Quando o problema cardíaco de Bruna se agravou, obrigando à cirurgia, já outra operação (a uma hérnia discal) tinha ficado para trás. E ao saber da partida que o coração da amiga lhe pregara, Joana pensou para si: “Só espero que não seja uma coisa tão grave como a operação às costas”. Mal sabia que não era comparável, e que o cansaço persistente da amiga a levaria a outra cirurgia. Conta que sempre se esforçou para não lhe transmitir a sua preocupação, que é constante, “para que ela não fique ainda pior”. Católica e “muito crente”, Joana chegou a sentar-se com a mãe, a rezar, “para que corresse tudo bem” durante a operação.
Depois da implantação do CDI, e do regresso a casa, a debilidade de Bruna era indisfarçável. Quando foi visitar a amiga pela primeira vez, deparou-se com um cenário que não mais esquece: “Ela não conseguia fazer nada. Foi de tal maneira que me despi e entrei com ela para a banheira, para a ajudar a tomar banho”, conta. Nessa época, Joana Liberal vivia em Pombal, a mais de 50 km de distância. Aos fins de semana ficava em casa do então namorado, e tentava estar o mais presente possível na vida da amiga Bruna, para ajudar no que fosse preciso. “Tento sempre, ainda hoje, ter um lado quase protetor com a Bruna, porque sei que ela abusa dela própria, às vezes, nas tarefas domésticas”, sublinha. “Acredito que não foi por acaso que Deus nos juntou”, admite, encarando este desafio de estar ao lado da amiga como se fosse uma missão.
Clarinda Vilarinho é uma espécie de segunda mãe de Bruna. A distância entre a sua casa e a do filho João é curta, faz-se bem a pé, e foi ela quem valeu à nora nos dias mais difíceis que se seguiram à cirurgia ao coração. Até então, Clarinda nunca ouvira falar das limitações que um problema cardíaco poderia causar na autonomia individual. Só quando Bruna voltou para casa, naquele agosto de 2022, teve essa consciência. “Ajudei-a da maneira como eu podia, em tudo o que estava ao meu alcance. Era mais na parte da comida, e de tratar das tarefas domésticas, da roupa”, recorda a sogra. “Mostrei-me sempre disponível para tudo o que precisasse, até ir à casa de banho”, recorda, já que o nível de dependência de Bruna era mesmo grande.
Nas semanas que se seguiram à cirurgia, a família quase se mudou para casa de João e Bruna. “Fazia o almoço e almoçávamos todos aqui”, lembra Clarinda, aludindo a um período que terá durado cerca de dois meses.
Entretanto, Bruna foi recuperando as forças e ganhando autonomia. Agora, três anos depois, Clarinda prepara-se para ajudar de novo, e de forma mais intensa, assim que nascer a neta Benedita.
A mãe de Bruna, Susana Alves, mora a cerca de meia hora de distância, de carro. “É perto, mas não é a mesma coisa do que estar aqui ao lado”, diz, antecipando uma espécie de punição interior que deixa antever. Além disso, aquele foi um período também difícil para a mãe, que fora igualmente operada à coluna.
Desde pequena que Bruna lhe inspirava cuidados: “Um dia ela caiu na banheira, quando estava a tomar banho, ainda pequenina. Levámo-la ao hospital, e lá lhe detetaram o sopro no coração”, conta. “Para nós foi sempre uma situação normal, sabíamos que iria ser sempre acompanhada, mas também não valorizámos muito, nem imaginámos que viessem estes episódios todos.” A filha cresceu com toda a normalidade. Por saber o quanto a mãe “é uma pessoa ansiosa”, Bruna escolhe bem “o que lhe pode contar”, e por isso nunca detalhou muito sobre os exames e consultas em Lisboa. Mas o episódio no Porto preocupou-a muito. E a cirurgia também. Para mais, Susana também “estava muito mal, não conseguia andar”.
O apoio à filha ficou assim condicionado, limitado aos telefonemas e vídeochamadas. “Eu sinto que naquela altura não fui a melhor pessoa para a minha filha porque não pude vir ajudá-la, quando ela tanto precisava”. Susana emociona-se, ainda hoje, quando recorda esses momentos. “Eu sei que não fui melhor porque não podia, mas isso mexe um bocado comigo”, afirma.
O cardiologista Pedro Galvão Santos é especialista em arritmologia. Conheceu Bruna Alves em 2021, referenciada pelo Serviço de Cardiologia do Hospital de Santo André, em Leiria, numa altura em que a jovem solicitadora já sabia que sofria de uma patologia grave, mas sem que os médicos conseguissem identificá-la por completo. Cabia-lhe então “identificar a causa daqueles desmaios, tendo em conta que os exames deixavam ali alguns sinais de alerta”. “Tivemos de fazer um estudo mais aprofundado, porque infelizmente não é pelo facto de uma pessoa ser jovem e saudável que não pode vir a ter qualquer coisa grave”, afirma. Bruna já fizera todos os exames “mais básicos” (eletrocardiograma, ecocardiograma, prova de esforço), e até uma ressonância magnética ao coração. “O problema é que existem muitas alterações que não se manifestam através de eletrocardiograma e que nós ainda não conhecemos o que é que está por trás disso. Muito provavelmente é uma alteração genética, que também pode provocar estas arritmias.”
No caso de Bruna, acabou por ser aquilo que era expectável: “Tinha um coração ‘perfeitinho’ no ecocardiograma, não estava dilatado, era um coração forte, as válvulas funcionavam bem. Mas, depois, no Holter [aparelho que guarda a informação elétrica do coração durante 24 horas] tinha uma coisa que são extrassístoles ventriculares mais frequentes”, conta o médico. Só por si, esse fator não seria alarmante (cerca de 60 a 70% da população pode manifestá-lo), mas “a Bruna tinha duas coisas que, aí, me preocuparam um bocadinho: o número – apesar de não ser exagerado, eram polimórficas, não vinham sempre do mesmo sítio; e a caraterística dos desmaios. Eram súbitos”. Foi nessa altura que a equipa do Santa Cruz decidiu avançar para um “registador de eventos implantável” (o tal chip subcutâneo), com uma bateria que dura dois anos e meio, e que permite uma monitorização do ritmo cardíaco.
A 23 de julho de 2022, em pleno NorteShopping, registou uma das alterações preocupantes. A 4 de agosto, menos de duas semanas depois, Bruna estava na sala de operações a receber um CDI. Porém, Pedro Galvão sublinha que esse não foi o episódio mais grave: “Tínhamos um registo, em que a Bruna diz que sentiu apenas uma pequena tontura, mas para nós estava ali a documentação de uma arritmia mais grave e que, se for mantida, pode pôr em causa a sua vida.”
Com o CDI, o cardiologista considera que a equipa “conseguiu proteger a Bruna da morte súbita”. Para todos os efeitos, está referenciada como doente com “fibrilhação ventricular idiopática”. “O idiopático é exatamente porque não sabemos a causa, provavelmente relacionada com alguma alteração genética que ainda não conhecemos”, sublinha Pedro Galvão, que não se cansa de elogiar “a forma fantástica com que a Bruna encarou isto tudo”. “Alguém que fuma muito, que é muito obeso, que tem hipertensão arterial e que tem diabetes, tem muitos fatores de risco para ter um enfarte, por exemplo”. E sublinha: “No caso da Bruna, que não tem nada disso, é um bocadinho mais revoltante, é difícil aceitar esta doença. Não é fácil estar numa consulta e dizerem-nos que temos uma arritmia, que é muito grave, que pode provocar morte súbita e temos de a proteger disso”.
Quanto à gravidez, o cardiologista nunca viu qualquer risco acrescido, “precisamente porque a parte mecânica cardíaca está mantida”. A única recomendação foi mesmo “ter a garantia de que haveria uma equipa de cardiologia por perto”, no momento do parto, “que pode perfeitamente ser natural”.
O que Bruna Alves sente, de cada vez que se lembra do dia 23 de julho de 2022, sentada a uma mesa da área de restauração do NorteShopping, é que “bateu à porta do céu, mas não era a hora de entrar”. Descreve o momento com total realismo, os batimentos cardíacos a diminuir lentamente, o ar de pânico de João, ela a querer agarrar-se à vida. Aqueles segundos foram dramáticos, mas na opinião da equipa médica, não necessariamente os mais perigosos para a sua sobrevivência. O hospital contactou-a depois de ver o alerta registado (através do tal chip que lhe implantara), e um dia depois estava na consulta. “Disseram-me que o meu coração tinha estado em pausa durante 12 segundos, e que se estivesse mais dois, precisava de ser reanimada na hora. Ou então morria.”
Nessa altura, Bruna já percorrera vários médicos, desde que, em 2020, começaram os desmaios, as tonturas, o cansaço súbito. Antes de ser encaminhada para as consultas de cardiologia da ULS da Região de Leiria, já consultara um médico no privado, que lhe diagnosticara “a doença do nó sinusal”, sem mais explicações nem medicação. Uma vez feitos tantos exames, quando chegou ao HSC, em Lisboa, tinha esperança de ficar boa, de lhe encontrarem “o defeito no coração, para o poder tratar”.
Desde a infância e adolescência que sempre se lembra de “não conseguir fazer as provas de resistência nas aulas de educação física”, porque se cansava demasiado. Mas a vida correu, sem percalços, até 2020. Era o tempo da pandemia e isso implicava não poder levar acompanhantes às consultas. Foi talvez o que mais a marcou. Quando recebeu o CDI ainda as regras se faziam à luz da Covid. Bruna lembra-se da sensação da solidão que sentiu. Mas o pior foi mesmo quando acordou da operação: “Foi o momento mais assustador da minha vida. Acordei cheia de dores. E tal como já tinha adormecido muito nervosa, acordei igual. Não podia mexer a perna direita, porque era onde tinha sido a entrada para o cateterismo [procedimento médico invasivo que ajuda a diagnosticar e a tratar doenças de coração], antes da operação. Quando me tentei levantar, sentia-me tão mal, que acabei por desmaiar. Lembro-me de acordar depois com uma equipa imensa à minha volta”. Nessa altura, o médico disse-lhe que provavelmente tinha sido um ataque de ansiedade.
Ainda no hospital, Bruna percebeu as limitações que teria pela frente, e que durante vários meses a impediram de trabalhar, ou mesmo de fazer a sua vida normal em casa. Primeiro eram os pensos, as ligaduras, os fios e cabos que a ligavam a máquinas várias; depois foi a debilidade física que se anunciou. “Ainda hoje não consigo bem levantar o braço esquerdo”, conta, num domingo de sol que anuncia festejos de São Martinho na aldeia de Torrinhas, na casa que foi dos avós de João, agora recuperada pelo casal.
A chegada de Benedita está prevista para 9 de janeiro de 2026, na Maternidade Bissaya Barreto, em Coimbra. “A minha primeira preocupação foi saber se podia ter um parto normal, e se havia a tal equipa de cardiologia de que o dr. Pedro me falou. E garantem-me que sim, que está praticamente ao lado, no Hospital da Universidade”. As duas estruturas fazem parte da mesma ULS de Coimbra.
Com o tempo, recuperou muita da condição física, ainda que não na totalidade. O CDI ainda nunca funcionou, “embora já tenha estado perto”. Mas agora sabe que se as tonturas e desmaios se prolongarem, há um mecanismo que lhe salva a vida.
Antes de sair, temos três perguntas relacionadas com o artigo que acabou de ler. É um mini-questionário muito rápido e totalmente anónimo.
Participe aqui.
Arterial é uma secção do Observador dedicada exclusivamente a temas relacionados com doenças cérebro-cardiovasculares. Resulta de uma parceria com a Novartis e tem a colaboração da Associação de Apoio aos Doentes com Insuficiência Cardíaca, da Fundação Portuguesa de Cardiologia, da Portugal AVC, da Sociedade Portuguesa do Acidente Vascular Cerebral, da Sociedade Portuguesa de Aterosclerose e da Sociedade Portuguesa de Cardiologia. É um conteúdo editorial completamente independente.
Uma parceria com:
Com a colaboração de: