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O Observador publica um capítulo do livro "Carlucci vs. Kissinger - Os EUA e a Revolução Portuguesa", de Bernardino Gomes e Tiago Moreira de Sá. Leia o retrato da chegada de Frank Carlucci a Portugal.

AFP

O Observador publica um capítulo do livro "Carlucci vs. Kissinger - Os EUA e a Revolução Portuguesa", de Bernardino Gomes e Tiago Moreira de Sá. Leia o retrato da chegada de Frank Carlucci a Portugal.

AFP

O dia em que Carlucci aterrou na revolução portuguesa /premium

Frank Carlucci chegou a Portugal em 1975, quando o processo revolucionário estava a acelerar. Com um currículo impressionante, teve de lidar imediatamente com as ameaças de Otelo e os avanços do PCP.

Frank Carlucci, embaixador dos Estados Unidos em Portugal no período do pós-25 de Abril, morreu este domingo, aos 87 anos. Antigo oficial da Marinha e diplomata, teve um papel importante ao longo de quatro administrações norte-americanas. Chegou a Portugal em 1975 e permaneceu durante os tempos decisivos do Verão Quente. Deixou Portugal três anos depois, em 1978. Em 2004, foi condecorado com a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique pelo então primeiro-ministro, Pedro Santana Lopes.

O Observador publica um capítulo do livro “Carlucci vs. Kissinger — Os EUA e a Revolução Portuguesa”, de Bernardino Gomes e Tiago Moreira de Sá, da editora D. Quixote, onde é retratada a chegada de Frank Carlucci a Portugal.

“Carlucci vs. Kissinger – Os EUA e a Revolução Portuguesa”, de Bernardino Gomes e Tiago Moreira de Sá (D. Quixote)

“Frank Carlucci chegou a Portugal a 18 de Janeiro de 1975. Onze dias antes, o embaixador reuniu-se pela última vez com Henry Kissinger em Washington e o diálogo então mantido encontra-se transcrito num memorando elaborando por Arthur Hartman.

Começando por referir que o encontro ocorreu a pedido de Carlucci, que pretendia saber «qual era a opinião sincera» do Secretário de Estado «sobre como lidar com o governo português» e «quais a suas preocupações relativamente aos desenvolvimentos políticos em Lisboa», o documento acrescentava que a conversa foi dominada pelas questões da ajuda económica dos Estados Unidos a Portugal e das eleições para a Assembleia Constituinte. Em relação ao primeiro tópico a avaliação era favorável: «Os portugueses, com a previsível excepção do Partido Comunista, reagiram entusiasticamente à oferta de assistência económica feita a 13 de Dezembro.» Já quanto ao sufrágio havia motivos de preocupação, pois «os comunistas tinham lançando recentemente uma campanha para desacreditar a honestidade do processo de recenseamento dos eleitores e exigiam o adiamento indefinido das eleições»; porém, apesar disso, havia algum optimismo, pois «o sufrágio estava marcado o mais tardar para 31 de Março» e mesmo «algum atraso, talvez até ao aniversário do derrube do governo de Caetano a 25 de Abril», embora possível, «não era motivo de preocupação», uma vez que «o Movimento das Forças Armadas permanecia comprometido com a sua realização», sendo mesmo esse «o primeiro assunto importante sobre o qual o Partido Comunista tinha tomado uma posição contrária à do MFA». Ainda a respeito das eleições para a Constituinte, foi discutida a situação dos partidos políticos no período pré-eleitoral; estes pareciam «estar a superar algumas das suas dificuldades de organização e prontos para a campanha», sendo a grande excepção «o partido do ministro dos Negócios Estrangeiros, Mário Soares» que «estava perto da desordem completa», havendo mesmo «rumores de que Soares ia resignar ao cargo no governo de modo a dedicar-se a tempo inteiro ao PS».

Na entrevista que nos concedeu Frank Carlucci recordou este encontro com Henry Kissinger nas vésperas da sua partida para Portugal. Segundo ele, o Secretário de Estado foi «muito claro» nas suas instruções: «deter o avanço dos comunistas e preservar a integridade da NATO».

Podemos então constatar que por esta ocasião, e na linha do que vinha acontecendo desde Outubro de 1974, existia ainda no governo dos Estados Unidos uma réstia de esperança numa evolução favorável aos seus interesses do processo político português e uma vontade de actuar de modo a influenciá-lo no sentido desejado.

O Secretário de Estado [Kissinger] foi «muito claro» nas suas instruções: «deter o avanço dos comunistas e preservar a integridade da NATO».

A prova disso mesmo está no conteúdo de mais uma reunião de Kissinger com o seu staff do Departamento de Estado, datada de 6 de Janeiro de 1975. Logo no início do encontro o responsável pela política externa norte-americana pressionou os seus colaboradores para agirem e de modo rápido: «– As eleições são no final de Março. (…) gostaria de ter uma análise sobre o ponto em que estamos e quero igualmente que o programa de ajuda [económica] tenha início. (…) queremos ser visíveis.» E, confrontado com as objecções de Arthur Hartman, segundo as quais era importante que Carlucci estivesse em Lisboa antes que o programa de ajuda fosse iniciado, de molde a identificar as áreas prioritárias de acção, Kissinger reforçou o seu desejo de urgência na acção: «– Podemos começar a mostrar que estamos a fazer alguma coisa? (…) Não temos ninguém nessa embaixada que possa identificar-nos um projecto de um milhão de dólares que não seja controverso? (…) Não temos ninguém em toda a embaixada que possa ir falar com Costa Gomes e dizer: “Que projecto vocês querem que nós comecemos dentro daqueles que estão disponíveis?”».

Henry Kissinger

Foi justamente este desejo do Secretário de Estado de ser «visível» em Portugal que presidiu à sua decisão de escolher para a embaixada em Lisboa um diplomata com o perfil de Frank Carlucci.

Na realidade o seu currículo era impressionante. Nascido em Scranton, Pennsylvania, licenciou-se na prestigiada Universidade de Princeton, em 1952, tendo ainda frequentado a igualmente reputada Harvard Graduate Scool of Business Administration, entre 1954 e 1955. Um ano depois, entrou para a carreira diplomática, onde adquiriu uma vasta experiência e uma reputação de hard-liner: primeiro na África do Sul, entre 1957 e 1959; depois no Congo, entre 1959 e 1963, período que coincidiu com a independência da antiga colónias belga e a subsequente guerra civil; ainda no Zanzibar, durante a revolução que conduziu à sua unificação na Tanzânia, em 1964-1965; finalmente, no Brasil, entre 1964 e 1969, onde trabalhou directamente com Vernon Walters numa época marcada pelo golpe militar que derrubou João Goulart. De regresso a Washington, ocupou entre 1969 e 1974 vários cargos no governo, como por exemplo, director of the Office of Economic Opportuniy, deputy director of the Office of Management and Budget e under secretary of the Department of Health, Education and Welfare, o que lhe permitiu adquirir influência na complexa estrutura de poder americana, facto ainda reforçado pela relação de amizade com Donald Rumsfeld, seu colega de quarto na Universidade de Princeton e chief of staff do Presidente Gerald Ford, e com Vernon Walters, o número dois da CIA.

Isto é, os Estados Unidos nomeavam para a embaixada em Portugal um diplomata muito experiente, com credenciais em situações revolucionárias e, mais importante de tudo, com peso político em Washington.

Em larga medida devido a este currículo, a chegada de Frank Carlucci a Lisboa foi desde logo envolta em polémica, havendo a destacar um episódio simultaneamente caricato e significativo. Quando o embaixador ainda estava a instalar-se no edifício da Avenida Duque de Loulé, Otelo Saraiva de Carvalho, à época comandante-adjunto do Copcon, afirmou aos jornalistas que Carlucci talvez pertencesse à CIA e que, nesse caso, não era bem-vindo e não podia garantir a sua segurança, comentário imediatamente divulgado nos meios de comunicação social. Alarmado com as possíveis reacções de Washington a esta declaração surpreendente, que, em sua opinião, podia servir de pretexto para uma intervenção americana no país, Costa Gomes telefonou a Mário Soares pedindo-lhe que falasse com o diplomata e lhe apresentasse um pedido de desculpas em nome do Presidente da República e do governo, bem como todas as garantias relativamente à sua segurança. Soares chamou Carlucci ao palácio das Necessidades para lhe transmitir esta mensagem oficial, contudo, antes de poder acabar, o embaixador atalhou a conversa: «– Não há qualquer problema, já telefonei ao chefe do Copcon e até o convidei para almoçar.»

Quando o embaixador ainda estava a instalar-se no edifício da Avenida Duque de Loulé, Otelo Saraiva de Carvalho, à época comandante-adjunto do Copcon, afirmou aos jornalistas que Carlucci talvez pertencesse à CIA e que, nesse caso, não era bem-vindo e não podia garantir a sua segurança, comentário imediatamente divulgado nos meios de comunicação social. 

Uma vez instalado, o diplomata começou de imediato a trabalhar, definindo uma agenda de actividades assente em cinco prioridades que foi pondo progressivamente em prática: tornar a embaixada «operacional»; «conhecer as “figuras públicas”»; tornar-se «visível à imprensa»; «trabalhar num programa da AID»; estabelecer «discretamente ligações com a Igreja».

A sua primeira prioridade residiu assim em organizar a embaixada, facto para que muito contribuiu a conversa por ele mantida ainda em Washington com Lawrence Eagleburguer, durante a qual este último se referiu à embaixada em Lisboa como «a pior do mundo». Carlucci escolheu então uma nova equipa, constituída por um conjunto de diplomatas da sua confiança a quem atribuiu funções muito específicas: Herbert Okun era o deputy chief of mission, ficando ainda com a incumbência de acompanhar o Partido Comunista, dado tratar-se de um especialista em assuntos soviéticos; Richard Melton devia seguir as actividades de todos os partidos políticos, com especial destaque para os socialistas; Robert Schuler tinha por missão seguir os militares, com particular atenção ao MFA; Ralph Jordan ficou responsável pelas ligações aos meios de comunicação social; Jim Ferrer foi encarregado dos assuntos económicos. Além disso, o embaixador centralizou toda a troca de informações com Washington, assumindo em conjunto com Okun a redacção dos telegramas enviados para o Departamento de Estado, bem como a análise dos documentos recebidos.

Otelo Saraiva de Carvalho

Uma vez organizada a estrutura-base da embaixada, Carlucci dedicou-se à sua segunda prioridade, que consistiu em conceber um sistema de contactos com os líderes portugueses de forma a compreender a realidade do país. O próprio diplomata explicou o seu método: «Estabeleci o objectivo de encontrar-me com três dirigentes políticos por dia ao longo dos dois primeiros meses. Defini uma série de almoços e cocktails de modo a conseguir avaliar por mim próprio a situação. A ideia era reunir-me com dirigentes de todas as áreas políticas – Sá Carneiro, Freitas do Amaral, Rosa Coutinho. Apenas excluí os comunistas.»

As duas prioridades seguintes eram significativas: os contactos com a comunicação social e com a Igreja. Quanto à primeira, Carlucci afirmou posteriormente: «Tornei-me acessível à imprensa, demasiado acessível segundo Washington.» Já em relação à segunda disse o embaixador: «Estabeleci discretamente contactos com a Igreja. Não que alguma vez lhes tenha pedido para fazerem alguma coisa, mas ia falar com o Cardeal Patriarca, almoçava com ele e percebi qual era a visão da Igreja. Pensava que a Igreja era muito importante e na realidade a chamada contra-revolução começou com os padres das aldeias no Norte de Portugal; assim, a Igreja desempenhou um papel importante.»

O próprio diplomata explicou o seu método: «Estabeleci o objectivo de encontrar-me com três dirigentes políticos por dia ao longo dos dois primeiros meses. Defini uma série de almoços e cocktails de modo a conseguir avaliar por mim próprio a situação. A ideia era reunir-me com dirigentes de todas as áreas políticas – Sá Carneiro, Freitas do Amaral, Rosa Coutinho. Apenas excluí os comunistas.»

O último elo do sistema organizado por Carlucci com o intuito de influenciar o curso dos acontecimentos em Portugal consistiu na concepção e implementação de um programa de ajuda no âmbito AID, compreendendo intervenções na área da saúde, como o primeiro sistema de serviços médicos de emergência; no sector da habitação, com um programa de casas sociais; no campo militar, com um projecto para «voltar a profissionalizar as Forças Armadas portuguesas»; e, finalmente, no plano da administração pública, através da «organização de uma escola de gestão na Universidade Católica».

De acordo com os primeiros telegramas enviados pelo novo embaixador em Lisboa para Washington, a sua avaliação inicial da realidade portuguesa combinava elementos de optimismo e de preocupação. Logo a 22 de Janeiro, Carlucci enviou um extenso telegrama para o Departamento de Estado relatando os principais problemas portugueses e, como não podia deixar de ser, sublinhou a existência do conflito em torno da questão da «unicidade» sindical, assunto que dominou o panorama político nacional do início do ano de 1975 e que significou a ruptura definitiva entre o PS e o PCP.

Mário Soares

O documento descrevia o conteúdo de uma conversa com um dirigente do Partido Socialista, não identificado. Este começou por revelar que «havia uma forte pressão dentro do PS para que abandonasse a coligação do governo» pelo facto de este ter aprovado na generalidade o diploma da «unicidade» sindical; porém, acrescentou que «o MFA estava a tentar afastar-se da associação pública ao PCP» e isso, mais «o apoio extremamente significativo da Igreja», permitiu aos socialistas «introduzirem alterações consideráveis ao diploma da “unicidade” sindical», ao ponto de «poderem agora trabalhar livremente dentro dos sindicatos apesar de os comunistas controlarem a sua superestrutura». Ainda segundo a mesma fonte, «a declaração do Movimento das Forças Armadas relativamente à realização das eleições era destinada a compensar a derrota do PS e do PPD no diploma da “unicidade” sindical», e isso era «extremamente importante pois o PCP ia perder claramente o sufrágio». Carlucci concordou com esta perspectiva moderadamente optimista, mas concluiu com uma séria advertência: «Agora que os militares reafirmaram publicamente a sua posição os comunistas têm que tomar medidas fortes de modo a impedir a realização das eleições.»

O conflito entre os comunistas e os socialistas em torno da questão da «unicidade» sindical também dominou as atenções do Departamento de Estado nesta fase da revolução portuguesa e contribuiu para uma renovada preocupação com o futuro do país, o que ficou muito claro num importante diálogo mantido a 20 de Janeiro entre Henry Kissinger e os seus principais colaboradores.

O problema foi introduzido por Wells Stabler em termos reveladores da perspectiva de Washington: – «Há outra vez uma dessas confrontações em Lisboa entre o Movimento das Forças Armadas e os comunistas, de um lado, e os socialistas democráticos e o Partido Popular Democrático, do outro, relativamente ao movimento sindical unitário. Penso que os socialistas e os populares democráticos vão permanecer no governo. Mas é outra vez uma dessas situações onde há uma constante espécie de viragem à esquerda cada vez que existe uma confrontação.» Deixando perceber que em sua opinião o principal problema residia em Vasco Gonçalves e que era ele quem estava por detrás deste conflito, Kissinger, repetindo o que já havia dito por ocasião da tomada de posse do II Governo Provisório, comentou: «– Quando Vasco Gonçalves foi nomeado primeiro-ministro recebi um telefonema de Espanha dizendo que ele era um comunista. Mencionei isto em Washington e todos me asseguraram que era.» E, sublinhando que já nem sequer fazia diferença saber se essa informação era verdadeira, o Secretário de Estado acrescentou: «– Todas as suas acções vão no sentido de contribuir para uma situação onde, ou os comunistas governam, ou tornam-se o elemento-chave num grupo militar que governa.» A opinião de Wells Stabler ia no mesmo sentido: «– Penso que em todos os casos onde houve uma confrontação ele [Vasco Gonçalves] esteve do lado dos comunistas, se não motivou mesmo uma viragem ainda mais à esquerda»; já sobre a questão da «unicidade do movimento sindical», frisou que era «particularmente séria» uma vez que aquele estava «sob o controlo de Cunhal e dos comunistas». Henry Kissinger estava particularmente pessimista quanto à capacidade de o PS fazer frente ao PCP na questão sindical, «ou em qualquer outra»; de resto, a sua opinião relativamente ao líder dos socialistas não era a melhor: «– Soares parece-me sempre o tipo clássico de Kerensky, entendendo as coisas com três semanas de atraso.» Mas o momento mais revelador foi aquele em que a conversa derivou para as possíveis acções que os EUA podiam levar a cabo no país, incluindo a hipótese de recorrer à CIA. Apesar de algumas partes não estarem totalmente explicadas, pela sua importância transcrevemos o diálogo então mantido:

«Mr. Stabler: – O partido de [Soares] está em má forma. De qualquer maneira, Carlucci está agora a fazer o possível para arranjar uma qualquer solução – um projecto específico que possa começar a ser implementado.

Secretary Kissinger: – Do que está a falar? Refere-se a um projecto da AID?

Mr. Stabler: – Sim.

Secretary Kissinger: – Pensava que ia dizer que ele ia utilizar a CIA. Não vamos a esse extremo.

Mr. Stabler: – Temos de ir por aí, ainda que através de um projecto específico, utilizando uma parte dos fundos de 10 milhões.

Secretary Kissinger: – Tenho vindo a dizer isso há quatro semanas. Isso não faz qualquer espécie de diferença. (…) Isto não pode ser feito no plano económico. Neste momento, não há uma base económica para tomar estas decisões. Quando diz que ele vai desenvolver um projecto, quanto tempo isso demora?

Mr. Stabler: – Ele espera ser capaz de o fazer de imediato.

Secretary Kissinger: – O que quer isso dizer?

Mr. Stabler: – Bem, ele está já em contacto com Soares e a embaixada tem estado em contacto com os portugueses que são responsáveis por isto (…). Secretary Kissinger: – Ele vai encontrar-se com Costa Gomes?

Mr. Stabler: – É esse o plano. Frank [Carlucci] espera apresentar as suas credenciais amanhã ou depois.

Secretary Kissinger: – Por favor, pode dizer ao Frank que o que queremos é celeridade e não brilhantismo económico.»”

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