Índice
Índice
“Peço desculpa. Desculpa pelo que fiz.” Estas palavras são do primeiro-ministro que era tido como aborrecido, moderado, mas livre de polémicas. Esta foi, aliás, uma das principais premissas que levou Keir Starmer a vencer as eleições gerais no Reino Unido em 2024 com uma sólida maioria. O líder do Partido Trabalhista até poderia nem entusiasmar por ser mais pragmático do que ideológico, mas os britânicos estavam cansados das controvérsias do Partido Conservador, que esteve à frente dos desígnios do país durante 14 anos. Nem dois anos depois da vitória, o primeiro-ministro está cada vez mais numa posição mais frágil — e, esta quinta-feira, retratou-se publicamente. O motivo? A nomeação para embaixador do Reino Unido nos Estados Unidos da América (EUA) de Peter Mandelson — o homem que chamou “melhor amigo” a Jeffrey Epstein, acusado de montar uma rede sexual com menores.
Este é o escândalo mais significativo do curto mandato de Keir Starmer — e poderá gerar repercussões significativas na política britânica. Antes de nomeá-lo embaixador do Reino Unido nos Estados Unidos, o primeiro-ministro admitiu que sabia das ligações entre Peter Mandelson e Jeffrey Epstein, que se tornaram óbvias com a divulgação de 3,5 milhões de ficheiros pelo Departamento de Justiça norte-americano nos últimos dias. Os dois homens tinham uma relação bastante próxima, segundo mostram os e-mails. E também há fotografias: numa delas, vê-se o britânico de cuecas ao lado de uma mulher de robe.
Ainda que soubesse da ligação entre os dois homens, Keir Starmer alegou que não sabia da profundidade da relação entre Jeffrey Epstein e Peter Mandelson. Antes de ser apontado no cargo, o primeiro-ministro questionou os contornos da relação com o trabalhista que já se envolvera em outros escândalos no passado. Mesmo assim, o chefe do executivo britânico terá ficado esclarecido e terá, assim, dado luz verde à nomeação para embaixador.
Epstein files show Peter Mandelson pictured in his underpants https://t.co/eAcDJSKiLv pic.twitter.com/ovK5ioIiPA
— Standard News (@standardnews) February 1, 2026
Em sua defesa, Keir Starmer apontou baterias contra Peter Mandelson, acusando-o de mentir. “Peço desculpa por ter acreditado nas mentiras de Mandelson e tê-lo nomeado”, concedeu esta quinta-feira o primeiro-ministro, numa conferência de imprensa em East Sussex. Apesar do mea culpa, este poderá ter sido um dos primeiros capítulos desta história, já que foram abertas investigações para entender os detalhes da nomeação do amigo de Jeffrey Epstein.
A oposição vai continuar a explorar este tema, em particular Nigel Farage. O partido de direita radical, Reform UK, está em primeiro lugar nas sondagens e está cada vez mais a acentuar a vantagem. A conservadora Kemi Badenoch, que lidera um partido em queda livre e com cada vez mais desfiliações, ganha uma oportunidade para se impor na cena mediática. Mas, mesmo dentro do Partido Trabalhista, há cada vez mais críticos da atuação do primeiro-ministro que virou o Labour para o centro.
O político experiente que já tinha trabalhado com Blair no centro do furacão
Peter Mandelson é um político com experiência governativa no Reino Unido: foi deputado e integrou os executivos do Partido Trabalhista liderados por Tony Blair e Gordon Brown. Tal como Keir Starmer, era um trabalhista próximo do centro político, longe da ala esquerda que fora liderada por Jeremy Corbyn entre 2015 e 2020. O regresso de um primeiro-ministro de centro-esquerda a Downing Street foi a oportunidade perfeita para ensaiar um comeback à política, de onde se havia afastado durante anos.
▲ Peter Mandelson e Tony Blair
PA Images via Getty Images
O historial de Peter Mandelson não era propriamente imaculado. O antigo ministro nos executivos trabalhistas já se tinha envolvido em polémicas no passado. No final dos anos 90, com Tony Blair enquanto primeiro-ministro, o governante não declarou as verbas de um empréstimo que pediu a outro ministro — e acabou por ser afastado do Executivo por isso. Ainda com aquele chefe do executivo à frente do Reino Unido, regressou ao Executivo, mas outra controvérsia assombrou o nome de Peter Mandelson: a de que teria facilitado a nacionalidade britânica (em troca de subornos) ao milionário indiano Srichand Hinduja.
Depois de ter integrado os governos de Tony Blair, Peter Mandelson foi escolhido para o cargo comissário europeu do Comércio, no que foi visto como um ressuscitar político. O britânico trabalhou de perto com o antigo primeiro-ministro português e ex-presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso. Regressou aos governos trabalhistas quando Gordon Brown se tornou chefe do executivo. Quando David Cameron venceu as eleições em 2010, afastou-se da política ativa. O interregno foi longo, dado que os conservadores dominaram a cena política britânica até 2024.
Nos anos seguintes, trabalhou na área do lobbying, na banca e participava em várias conferências internacionais. Em 2020, após Keir Starmer ser nomeado o novo líder trabalhista na sequência do fiasco eleitoral de Jeremy Corbyn, o atual primeiro-ministro pediu ajuda a Peter Mandelson para recentrar o partido e ultrapassar a antiga liderança. Quem terá tido um papel fundamental na ligação entre os dois homens foi Morgan McSweeney, o poderoso chefe de gabinete do atual líder do executivo.
▲ Peter Mandelson e Keir Starmer
POOL/AFP via Getty Images
Aliás, a imprensa britânica refere que Morgan McSweeney fez pressão a Keir Starmer para que o primeiro-ministro desse o aval para que Peter Mandelson fosse nomeado embaixador do Reino Unido nos Estados Unidos da América (EUA). Havia vários nomes em cima da mesa, mas a influência do chefe de gabinete terá sido fundamental para que o antigo ministro fosse eleito. A experiência governativa, a passagem pela Comissão Europeia e a rede de ligações que tinha em Washington fizeram a balança pender para Peter Mandelson.
O cargo de embaixador britânico nos Estados Unidos é talvez o mais importante na diplomacia do Reino Unido. Convém que as relações entre Londres e Washington sejam as mais cordiais possíveis, ainda para mais com Donald Trump: um Presidente imprevisível e com pouca paciência para protocolos diplomáticos. Esse cargo foi confiado a Peter Mandelson, ainda que já houvesse, quando foi escolhido, pelo menos a perceção de que estaria ligado no passado a Jeffrey Epstein.
A BBC também avançou que, antes da nomeação como embaixador, Keir Starmer fez três questões a Peter Mandelson (enviadas por e‑mail através de Morgan McSweeney) sobre a sua ligação ao milionário norte‑americano: por que é que manteve contacto com Epstein depois de este ter sido condenado; por que razão foi noticiado que teria ficado hospedado numa das casas de Epstein enquanto o milionário estava na prisão; e se estava associado a um projeto de caridade fundado por Ghislaine Maxwell, a ex‑namorada do milionário condenada a 20 anos de prisão.
▲ Morgan McSweeney, o chefe de gabinete de Keir Starmer que terá feito pressão para nomear Peter Mandelson como embaixador nos EUA
Getty Images
As respostas de Peter Mandelson terão deixado Keir Starmer mais tranquilo, tendo em conta que nomeou o antigo governante como embaixador britânico nos Estados Unidos. Mas não durou muito tempo no cargo: apenas seis meses. Os primeiros ficheiros do caso Epstein já mostravam as ligações entre o diplomata e o milionário. E já foram fundamentais para que fosse demitido do cargo de líder da diplomacia de Londres em Washington.
As ligações entre Mandelson e Epstein e como Starmer fez um mea culpa
Se o primeiro lote de documentos do caso Epstein provocaram a sua demissão, esta última tranche ainda causou efeitos mais negativos para a carreira política de Peter Mandelson. Os e-mails e fotografias mostram uma relação bastante próxima entre o antigo embaixador e Jeffrey Epstein. O tom usado nos contactos era informal e até provocador. Quando foi libertado depois de ter estado preso em 2009, o milionário norte-americano enviou mensagem ao amigo britânico a celebrar e a dizer que ia celebrar com “Graça e Modéstia (os nomes de duas strippers)”.
“Como é que estás a sentir a liberdade?”, retorquiu Peter Mandelson. “Sinto-a de uma forma fresca, firme e cremosa”, respondeu Jeffrey Epstein. “Seu malandro”, atirou o britânico. Em 2003, o antigo embaixador assinou o livro feito na sequência do 50.º aniversário do milionário norte-americano, em que o descrevia como o seu “melhor amigo”. Há fotos que provam a ligação entre os dois — e o ex-governante dos executivos trabalhistas esteve na ilha e andou no jato privado do empresário dos Estados Unidos.
Lord Mandelson described Jeffrey Epstein's release after he served his sentence for child sex offences as 'Liberation Day!'
Mandelson asked Epstein how they should celebrate
Epstein responded with a crude joke about two strippers: 'With grace and modesty (these are the names of… pic.twitter.com/i4WuDmP5ZK
— Steven Swinford (@Steven_Swinford) February 4, 2026
Perante estas informações, o Governo britânico ficou debaixo de fogo: o que teria motivado Keir Starmer a nomear um embaixador tão próximo de Jeffrey Epstein? E nem se tratava simplesmente da amizade. Existem também indícios de que, durante o Governo de Gordon Brown, Peter Mandelson terá fornecido informações ao milionário norte-americano para alterar uma proposta governamental no âmbito financeiro.
As críticas da oposição subiram de tom perante estas informações. Dentro do Labour, a insatisfação interna crescia. As medidas financeiras, o endurecimento da política migratória e a centralização na figura de Keir Starmer têm irritado a ala mais à esquerda do partido. Além disso, as sondagens mostram os trabalhistas em queda livre. Embora tendo obtido uma vitória folgada em 2024, existem cada vez mais dúvidas se o primeiro-ministro birtânico tem capacidade para continuar o mandato.
Para conter os danos, o Executivo britânico pediu uma investigação parlamentar urgente à conduta do ex-embaixador nos Estados Unidos, em que ficou prometida “total transparência”. Em paralelo, Peter Mandelson desfiliou-se dos trabalhistas e abandonou a Câmara dos Lordes. A polícia metropolitana de Londres abriu também um inquérito para tentar entender a conduta do ex-governante.
Em reação a esta onda de contestação crescente, Keir Starmer abriu o jogo esta quinta-feira e pediu desculpa diretamente às vítimas da rede sexual montada por Jeffrey Epstein. “Viveram com o trauma que muitos de nós não conseguem minimamente compreender e tiveram de viver isto outra vez“, lamentou o primeiro-ministro. “Tinha sido publicamente conhecido durante algum tempo que Mandelson conhecia Epstein, mas nenhum de nós sabia a profundidade da escuridão da sua relação.”
“Quando mais informações surgiram, ele foi questionado sobre se tinha aceitado presentes. Ele disse que Epstein era alguém que não conhecia bem. Isso era uma mentira“, declarou Keir Starmer, que acusou o antigo embaixador de o “enganar”. Prometeu ainda que Peter Mandelson vai sofrer as consequências de ter ocultado a proximidade ao milionário norte-americano: “Deixem-me ser claro: ninguém está acima da responsabilização das suas ações e ninguém, por mais bem relacionado que seja, deve exercer um cargo se não consegue cumprir os mínimos da honestidade”.
Oposição ataca Starmer — e pede moções (de confiança e de censura). Labour dividido sobre o que fazer
Com os dados que vieram a público, ainda não é claro se Peter Mandelson terá mesmo enganado Keir Starmer. A investigação parlamentar e das autoridades deverá dar clareza aos contornos da nomeação do antigo embaixador norte-americano. Até lá, Keir Starmer terá de aguentar esta polémica e esperar que a onda mediática baixe. A demissão estará, por agora, fora de questão. “Fui eleito para um mandato em 2024 para mudar o país para melhorar e é isso que estamos a fazer”, assinalou na conferência de imprensa desta quinta-feira.
▲ Primeiro-ministro não se deverá demitir
Lukas Coch/EPA
O mal parece já estar feito, contudo, ainda para mais um líder impopular. A taxa de aprovação de Keir Starmer já era baixa antes do escândalo: 71% dos inquiridos de uma sondagem tinham uma opinião negativa sobre o mandato do trabalhista, de acordo com um estudo de opinião da YouGov publicado a 26 de janeiro. E a popularidade do primeiro-ministro britânico não deverá melhor após esta controvérsia.
Ouvidos pelo jornal Guardian, vários membros do Partido Trabalhista (em anónimo) revelaram desilusão e irritação com o sucedido. “É simplesmente indefensável. Todos eles sabiam da relação do Peter com Epstein e deram-lhe o trabalho na mesma”, criticou um. Outro antigo ministro salientou que os trabalhistas deviam ser “aqueles que não fazem este tipo de coisas”: “É tempo para um novo começo, quanto mais cedo, melhor”. Um deputado também desabafou: “A confiança é finita. Pessoalmente, não tenho a certeza de que confiaria em mim mesmo para apoiar o primeiro-ministro numa moção de confiança”.
O líder dos Liberais Democratas, Ed Davey, abordou, esta quinta-feira, a possibilidade de haver uma moção de confiança na Câmara dos Comuns. “A população britânica não pode aguentar que esta novela trabalhista se arraste, como o Partido Conservador fez com Boris Johnson. Keir Starmer devia dizer: ‘É tudo ou nada’. Devemos ter uma moção de confiança para ver se os deputados trabalhistas mantêm a confiança no primeiro-ministro, para que o Governo consiga ultrapassar isto e comece a focar-se em mudar aquilo que o país precisa”.
Por sua vez, os conservadores estão a ponderar avançar com uma moção de censura. A líder do Partido Conservador tem insistido nessa ideia e até já apelou a que os trabalhistas revoltados com Keir Starmer se juntem aos tories. “Estou pronta para falar a sério sobre uma moção de censura. Porque a Grã-Bretanha não está a ser bem governada”, escreveu Kemi Badenoch nas suas redes sociais.
Nigel Farage, cujo partido Reform UK está em primeiro lugar nas sondagens, também não perdeu tempo a enfraquecer ainda mais Keir Starmer. “É o maior escândalo na política britânica em mais de um século”, proclamou, destacando que é pior que o Partygate, numa alusão ao escândalo das festas em Downing Street durante a pandemia de Covid-19. “Envolve sexo, envolve dinheiro, envolve a Família Real. Envolve a divulgação de informação sensível e confidencial”, prosseguiu o dirigente partidário.
Com maioria absoluta na Câmara dos Comuns, o Partido Trabalhista terá de escolher se se alia a Keir Starmer ou se o pressiona a apresentar uma moção de confiança ou de censura. Em resposta aos críticos dentro do seu partido, o primeiro-ministro britânico salientou que “cada minuto” que o país passa a discutir o escândalo é perdido. E esgrimiu outro argumento, lembrando os bons resultados de Nigel Farage: “Devemos unir o país, entender que ser britânico é ser tolerante, razoável, compassivo e diverso. Devemos lutar contra isso e contra a divisão tóxica do Reform”.
Num cenário em que Starmer perca o apoio da bancada parlamentar ou seja forçado a demitir‑se, o Labour terá de desencadear um processo interno de liderança para escolher o novo líder e o novo primeiro‑ministro. Mas será preciso unanimidade no Partido Trabalhista — que ainda está a tentar perceber a dimensão do escândalo e quais serão as repercussões.
Um líder já frágil sob pressão — é neste estado que se encontra Keir Starmer. O primeiro-ministro espera tranquilizar o partido que lidera e que as investigações em curso não o comprometam mais. Porém, a sua reputação ficará manchada e surgem cada vez mais dúvidas sobre a veracidade do argumento de que os trabalhistas são diferentes — mais ordeiros e menos controversos — do que líderes conservadores como Liz Truss ou Boris Johnson.
[Dezenas de portuguesas, recrutadas numa escola de yoga e tantra em Lisboa, acabaram em sites de sexo na internet. Elas, e mulheres de vários outros países, tinham em comum serem seguidoras de uma seita controlada por um guru manipulador. Ouça o segundo episódio de “Os segredos da seita do yoga”, o novo Podcast Plus do Observador. Uma série em seis episódios, narrada pela atriz Daniela Ruah, com banda sonora original de Benjamim. Pode ouvir aqui, no site do Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E pode ouvir aqui o primeiro episódio.]