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O final de “The White Lotus”: riso nervoso, ansiedade e sangue

Depois uma terceira temporada que muitos apelidaram de “lenta”, eis que o final explica (quase) tudo e volta a colocar Mike White no trono televisivo. Assim sendo: onde é que acontece a temporada 4?

[este texto texto quase não tem spoilers, mas, se segue “The White Lotus”, termine os oito episódios primeiro e depois volte]

Chiça! Apre! Caramba, pá! É esta a versão kids friendly do palavreado que vociferei nesta soalheira manhã de segunda-feira ao terminar a terceira temporada de The White Lotus. Como poderão recordar nesta minha resenha, vi os primeiros seis episódios em modo privilegiadinha, antes de aterrarem na Max, no dia 23 de Fevereiro. Desde esse dia, fui lendo queixas sobre o ritmo dos primeiros episódios, o ambiente morno na estância tailandesa e a falta de interesse das personagens. O facto é que apesar dos posts de “Sou só eu que estou a achar esta temporada uma seca?”, bateram-se records de audiência. E só uma nota de rodapé sobre esta premissa do “sou só eu”. Em primeiro lugar: não, não és só tu. Se fizeres um bocadinho de introspecção, saberás que não és assim tão original para teres uma opinião singular. Além disso, só estás fazer esse post porque sabes perfeitamente que há mais quem partilhe da tua opinião e vais ter likes. E esta carapuça que acabei de tricotar cabe-me perfeitamente, que já comecei “n” posts assim.

Mas voltemos ao que interessa e o que interessa não sou eu, certamente. Esta temporada voltou a ser um sucesso e Mike White deve estar com os bolsos tão cheios de dinheiro que vai fazer a próxima temporada na Lua, só para arranjar faturas de combustível para o contabilista.  E como esta série começa sempre com a dúvida “Quem é que quinou?”, aguardo com curiosidade a nova localização de  hotel da cadeia, que será a última morada de alguém. Ou alguéns. Calma, eu sei que a palavra não existe, mas soou-me bem para o efeito.

Fui revirando os olhos placidamente a quem dizia que ver esta terceira temporada lhe deixava a vista sonolenta e fui repetindo em surdina o mantra “esperem pela pancada”. Porque personagens que são verdadeiros mil folhas de podridão humana não cabem numa story e muito do gozo que me dá ver esta série passa por descobrir a fenda no estuque veneziano e ir descascando devagarinho e com paciência, até encontrar os alicerces em avançado estado de composição. Porque a construção dos níveis estratosféricos de tensão que se atingem neste resort sem falhas, recheado de falhados morais, não acontece por geração espontânea. Não é uma tenda da Quechua que é só dar dois abanões e está.

Garanto que não me acho intelectualmente superior por ter apreciado desde o início este decadente e complexo mural que White voltou a pintar com sucesso e desdém. E cada um com a sua opinião e não vou julgar ninguém por isso. Para ser honesta, se calhar julgo um bocado, porque eu também sou um um tanto ou quanto má pessoa e estou cheia de fendas no estuque. Coisa esquisita de se escrever, mas agora já está. Julgo mesmo, processem-me. Primeiro, porque claramente tenho demasiado espaço livre na minha cabeça, o que me permite debruçar-me sobre questões que são mãos cheias de nada. Segundo, porque este meu julgamento tem tanto impacto da tributação de trocas comerciais numa ilha exclusivamente habitada por focas e pinguins. Mas eu tenho melhor cabelo.

Antes de avançar, queria acrescentar uma menção honrosa a que me escusei no artigo anterior: não referi o incrível Sam Rockwell (Três Cartazes à beira da Estrada, Jojo Rabbit, Confissões de uma Mente Perigosa), porque não queria ser spoiler. A personagem de Sam é Frank, um velho amigo de Rick. Juntos protagonizam uma das melhores cenas da temporada, onde Frank descreve um período, como dizer, experimental da sua vida sexual. Frank diz coisas como “Sou um branco de meia-idade por dentro também? Ou por dentro posso ser uma rapariga asiática?” E a cara de Rick e as suas respostas monossilábicas são um poema. Agora, sim. Avancemos.

Durante as últimas semanas, assisti à multiplicação dos novos e inevitáveis memes The White Lotus: com a soberba Parker Posey e o seu Lorazepam; com o trio de amigas tóxicas que vaticinei que muita gente iria identificar ou identificar-se, consoante a terapia estiver em dia; e com os irmãos Rattlif que, como dizer, prestaram uma homenagem à Guerra dos Tronos e vou deixar assim. Entendedores entenderão. Tive de esperar até ao dia de hoje para ver o par de episódios finais da temporada. Quer dizer, ter não tive. Mas resolvi dar-me esse presente de ver os dois capítulos que fecham esta viagem à Tailândia de uma assentada só.

Nos últimos dias andei nas redes sociais com os olhos semicerrados, para evitar spoilers acerca do episódio Killer Instincts (e não sei se não será a melhor forma de olhar para as redes sociais). E se valeu a pena. Vou tentar não desvendar demais, o que é extremamente difícil porque me apetece escalpelizar cada cena de fio a pavio, cada linha de diálogo, cada frame. Mas se tiverem mesmo muito interessados nisso, mandem-me um mail e escusamos de estar aqui a desperdiçar o tempo das pessoas. O sétimo episódio é um esplendor de edição, com uma luta num ringue de Muay Thai como pano de fundo, que vai sendo intercalada com as lutas mais ou menos metafóricas dos diversos personagens que almejam o knock out técnico no adversário. No entanto, a maioria está a levar na boca como gente grande.

[Já saiu o quarto episódio de  “O Misterioso Engenheiro Jardim”, o novo PodcastPlus do Observador que conta a história de Jorge Jardim, o empresário que, na verdade, era um agente secreto que liderou missões perigosas em todo o mundo, tentou criar um país e deu início a um clã de mulheres aventureiras. Pode ouvir aqui, no Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no YoutubeMusic. E pode ouvir aqui o primeiro episódio, aqui o segundo e aqui o terceiro episódio]

A começar pelo pai Rattliff, que está prestes a levar com uma acusação de fraude nos queixos e não sabe se a família vai sobreviver ao “rebenta a bolha de privilégio” que se avizinha. E quando ouve a mulher a dizer coisas bonitas como “Se perdêssemos tudo, honestamente, não sei se quereria viver. Acho que com esta idade, não é suposto eu viver uma vida desconfortável. Não tenho essa força.”, ou no caso do filho mais velho “Não tenho mais nada além disto. Se não tiver sucesso, não sou nada. E eu não aguento não ser nada.”… Parecendo que não, não estão a facilitar a coisa ao patriarca. Quanto às três amigas quebram o pacto de não-agressão e é um fogo de artifício de ressentimento que só visto. Enquanto isso, o Frank está a ajudar o Rick a fazer contas com o passado e o passado, na vida real.

“Então e o último episódio?” O último episódio chama-se Amor Fati e não é um episódio, é um filme. Interpretem isso como quiserem, mas eu acho que percebem o que eu quero dizer. “E o que é lá isso de ‘Amor Fati’? Uma tatuagem de um serralheiro mecânico lamechas, que quis fazer uma surpresa à sua mais que tudo, Maria de Fátima de seu nome?” Não, não sejam parvos. Que sentido é que isso faz? ‘Amor Fati’ é o amor ao destino. É a aceitação da vida, tragédias incluídas. Se vocês tiveram intolerância a esoterismo, cenas shanti shanti e tatuagens de mandalas como eu, devem estar com refluxo gástrico por esta altura, mas garanto que no final da série tudo vai fazer sentido.

O oitavo episódio, que fecha a temporada tailandesa que é um mimo, tem 86 minutos de tensão, tristeza, riso nervoso, ansiedade, raiva e deslumbre. Teve coisas que percebi que iam acontecer, outras que não antevi, mas fazem todo o sentido e outras que ainda estou estou a digerir. Nota mental: tomar Omeprazol antes de ver o último episódio da próxima temporada de The White Lotus. Dito isto, a primeira temporada continua no topo do pódio de forma imbatível, mas também acho que esta terceira não tentou lutar por esse lugar. Manteve a identidade “WL”, mas traçou um caminho próprio e gostei muito, muito disso. É a menos cómica e esperançosa e a mais negra, triste e sangrenta das temporadas.

A determinada altura, o filho de Belinda diz-lhe “Coisas boas acontecem a boas pessoas”. E esta frase nesta série é o mesmo que um contagem regressiva numa bomba, numa série de ação dos 80, com uma pequena diferença: o herói não só não vai cortar o fio certo, como a bomba lhe vai rebentar nas trombas e de bónus, ainda dizima uma família de suricatas, crias incluídas. E o realizador vai-nos obrigar a ver isso com zoom e em câmara lenta. Juízo final: Eu cá gostei. O que é que isso diz sobre mim? Sintam-se à vontade para me julgar.

PS: só um fait divers para fecho de conversa. Então o compositor Cristóbal Tapia de Veer (com um nome destes tinha que ser artista e dos que usam chapéus, ou não?) pegou-se com o Mike White porque não chegaram a consenso sobre a versão do tema para o genérico desta temporada? E já se sabe que quem paga, manda e quem recebe, obedece e White levou a dele avante e o genérico ficou descaracterizado sem o marcante coro e houve backlash, como se diz agora, e isso permitiu que eu lesse a seguinte frase no Guardian: “no one on the show realised how attached people were to the ooh-loo-loo-loos” — e só por isto valeu a pena esta quezília toda. E eu tenho esperança que eles um dia façam as pazes, porque sou uma idealista, e que os “ooh-loo-loo-loos” voltem.

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