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José Carvalho fazia parte da direção do PSR quando, a 28 de outubro de 1989, foi assassinado à porta do partido

José Carvalho fazia parte da direção do PSR quando, a 28 de outubro de 1989, foi assassinado à porta do partido

José Carvalho foi esfaqueado há 30 anos. Foi a primeira vez que skinheads mataram em Portugal /premium

Seis anos antes de Alcindo, José Carvalho foi esfaqueado à porta do PSR, em Lisboa, e a extrema-direita neonazi tornou-se um perigo visível em Portugal. Pedro Grilo, o homicida, fugiu da prisão.

Em Berlim, a queda do muro estava por dias e na Hungria, à semelhança do que acontecera na Polónia, o regime comunista tinha acabado de chegar ao fim. Por cá, Mário Soares estava no primeiro mandato como presidente; Cavaco Silva era um primeiro-ministro em estado de graça e maioria absoluta (ainda a cinco anos do buzinão da 25 de abril); e Jorge Sampaio e Marcelo Rebelo de Sousa — que ainda não tirava selfies, mas  já “fazia coisas”, como nadar no Tejo, trabalhar na recolha de lixo ou conduzir um táxi — digladiavam-se pela presidência da Câmara Municipal de Lisboa.

Apesar da aparente acalmia política, nos muros de Lisboa e Porto multiplicavam-se cada vez mais as cruzes célticas e suásticas e as inscrições que exigiam “morte aos pretos” e exaltavam “skins” e MAN, o Movimento de Ação Nacional assumidamente racista e fascista criado em 1985 na Amadora “contra a democracia que destrói o Estado, corrói a nação e desorganiza o povo”.

Ainda assim, nos jornais, que ainda traziam em lista as localizações das caixas multibanco a funcionar ou das gasolineiras abertas 24 horas por dia em Lisboa e Porto, pouco se lia sobre o assunto. Uma realidade que mudaria ainda antes de o muro cair e acabar com a divisão das Alemanhas.

Militantes do PSR numa ação para apagar símbolos racistas em Lisboa

LUSA

Se, antes de 1989, o fenómeno skinhead passava ao lado da generalidade da população portuguesa, à faixa mais à esquerda, política e culturalmente, não era bem assim. “Desde meados dos anos 80 que os skins batiam, faziam e aconteciam. Não se podia passar na Rua Nova do Almada, que era onde tinham a sede. Mais para o final da década, houve uma série de ataques: ao Rock Rendez-Vous; ao Bar Oceano, que era do João Grosso, que, em maio de 1989, já tinha ficado sem um testículo [depois de ter tentado socorrer um jovem de origem indiana que estava a ser atacado]; ao Bar Palmeiras, que era a sede do PSR… Iam aos sítios onde sabiam que chateavam. Lembro-me de que, em 1986, já tinham ido ao PSR, mas estava lá imensa gente e levaram um enxerto de porrada, foram corridos. Ao longo desses anos, foram em crescendo”, explica ao Observador José Falcão, então membro do Partido Socialista Revolucionário (PSR).

Tanto escalaram que, na madrugada de 28 de outubro de 1989, mataram pela primeira vez. “Eu estava lá, podia ter sido eu. Queriam matar um de nós”, desabafa José Falcão, 68 anos, três décadas depois.

Quando, à 1h24 da madrugada daquele sábado, o alerta chegou à divisão da PSP da Rua da Mouraria, a uns 350 metros de distância, José da Conceição Carvalho, 36 anos, já tinha sido esfaqueado com uma navalha de ponta e mola no coração, mas ainda estaria vivo, declarou o relatório da autópsia, consultado pelo Observador. Apesar de o Hospital de São José ser mesmo ali ao lado, só à 1h50 deu entrada na urgência. À 1h55 estaria morto. A tragédia, essa, já tinha começado a acontecer uma série de horas antes.

O autor do crime — que chegou a admitir “ter xinado alguém” naquela noite, mas que, depois, garantiu sempre que estava inocente — acabou condenado, fugiu da prisão por estar “revoltado”, deu entrevistas e voltou a entregar-se para cumprir o resto da pena. Pedro João Oliveira do Carmo Andrade Grilo tinha, na altura, 18 anos. À PJ diria que só a violência o fazia “descarregar” a tensão que as suas “ideias agressivas” lhe provocavam.

Da Cova da Piedade à Rua da Palma

Era uma noite de sexta-feira que se previa de festa, tanto de um lado como do outro. No centro de Lisboa, na Rua da Palma, no edifício que hoje serve de sede ao Bloco de Esquerda (nascido em 1999 da junção de PSR, União Democrática Popular (UDP) e Política XXI), era, como todas as sextas entre setembro e julho, noite de concertos. Já do outro lado do rio, na Cova da Piedade, um grupo de amigos com filiação à causa skinhead reunia-se em casa de um deles, Melchior Santos, para o jantar de despedida da sua vida de civil: no dia seguinte, ia para Tancos, cumprir o serviço militar como voluntário junto das tropas paraquedistas do Exército.

Ao todo, além de Melchior, dos pais e do irmão, estiveram no jantar outros dez rapazes e duas raparigas. Depois de comerem e beberem — cerveja, mas sobretudo vinho —, decidiram ir até Lisboa. Apanharam primeiro um autocarro da Rodoviária Nacional para Cacilhas, depois o barco para o Cais do Sodré. O resto do caminho, até à zona do Martim Moniz e da Almirante Reis, fizeram-no a pé. Seriam 23h30 quando chegaram à porta do Bar Palmeiras, onde os cabeças de cartaz da noite eram Censurados e NAM, o Núcleo de Atrasados Mentais que, abertamente, afrontava o falso palíndromo MAN.

Em 1987, o partido já tinha sido alvo de um ataque de cabeças rapadas no Bairro Alto e ali também não era a primeira vez que apareciam. Tanto que, explica ao Observador José Falcão, até já tinha sido debatida a possibilidade de passarem a manter a grande porta de madeira do Palmeiras fechada: “Só passámos a fazê-lo depois da morte do Zé”.

Todos os fins de semana, às sextas e aos sábados, havia concertos de punk rock, num palco improvisado em cima de dois tijolos, aberto a qualquer banda com vontade de se apresentar e simpatia pela causa antimilitarista — isso e sistema de som próprio, que na sede do PSR não existia qualquer tipo de equipamento.

Em troca do espetáculo, o partido da esquerda radical oferecia o jantar, cozinhado ali mesmo, invariavelmente pelos responsáveis pelo bar, José Carvalho e José Falcão, e rachava a receita da bilheteira. “Todos as bandas lá tocaram, todas. Os Sitiados, os Peste e Sida, os Xutos, os Rádio Macau, na altura em que ainda nem se chamavam Rádio Macau. Bastava inscreverem-se. Às vezes vinham-me com cassetes, para eu ouvir, dizia-lhes logo que nem pensar, já me bastava ter de os ouvir na noite do concerto! Faziam o check sound enquanto fazíamos o jantar, depois comíamos todos juntos, íamos ao café, e só depois é que abríamos a porta. A entrada era paga, dava para uma mejeca, mais nada. Metade era para pagar a cerveja, o resto para a banda, para ajudar as despesas de transporte”, recorda José Falcão.

José Carvalho foi o primeiro ativista político a ser morto em Portugal

Naquela noite, aconteceu tudo como era habitual. Até que o grupo de cerca de quinze skinheads chegou e começaram as provocações. À primeira, não passou disso mesmo: em declarações à Polícia Judiciária, no dia seguinte, vários dos membros do grupo de extrema-direita explicaram que só ali tinham ido para ver os concertos e que tinham especial interesse pela atuação da banda Dogue Dócil, de Vanda Gonçalves, namorada de um deles, Fontinha. Garantiram também que, depois de lhes ter sido barrada a entrada, tinham dispersado.

Igualmente em declarações logo no dia 28 de outubro de 1989 à Polícia Judiciária, José Falcão confirmou a tentativa e explicou que a vocalista dos Dogue Dócil não tinha aparecido, o que até tinha atrasado o resto dos concertos. Explicou também que, justamente por saber que o namorado da cantora, que mais tarde chegaria a fazer parte dos Peste e Sida, e os amigos eram “da extrema direita” e provocavam “conflitos”, não os deixou entrar.

Hoje, 30 anos depois, recorda-se de que, quando voltaram à carga, perto da 1h da madrugada, os skinheads já não traziam o casal consigo: “O Fontinha assim que viu aparecer a mulher bateu-lhe, deu-lhe um estalo tal que partiu a mão. Ela foi com ele de táxi para o hospital”. Dentro em breve, o próprio José Falcão estaria também dentro de uma ambulância, também a caminho de São José. Nessa altura, ainda tinha esperança de que os ferimentos de José Carvalho não fossem tão graves assim, mas um dos paramédicos rapidamente lhe garantiu: o amigo já estava morto.

“Atacaram-nos, armados com merdas, tacos de basebol e não sei mais o quê, e eu só me lembro de tentar chegar à porta da sede, tínhamos umas barras de ferro para trancar as portas que estavam sempre para lá a um canto, só queria ir buscar uma, não tínhamos nada para nos defendermos. Consegui entrar, foram segundos. Quando saí o Zé estava no chão.”
José Falcão, ex-militante do PSR e fundador do SOS Racismo

Quando o grupo de skinheads regressou, no interior do Bar Palmeiras estariam cerca de 200 pessoas. Lá fora, à entrada do beco que dava acesso ao bar, para além de Falcão e Carvalho, estavam outros cinco militantes e simpatizantes trotskistas. Todos desarmados, garante o ex-dirigente do partido entretanto extinto.

Do outro lado, a acreditar nos depoimentos dos vários membros do grupo à polícia, havia pelo menos um bastão de ferro, uma navalha e muitas pedras. “Naquela noite não foram para ir ao bar, foram mesmo para matar”, conclui hoje José Falcão. “Eram uns 15, não eram os oito que foram a julgamento. Atacaram-nos, armados com merdas, tacos de basebol e não sei mais o quê, e eu só me lembro de tentar chegar à porta da sede, tínhamos umas barras de ferro para trancar as portas que estavam sempre para lá a um canto, só queria ir buscar uma, não tínhamos nada para nos defendermos. Consegui entrar, foram segundos. Quando saí, o Zé estava no chão.”

Centenas de pessoas participaram no funeral de José Carvalho, no cemitério de Benfica

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No auto de inquirição de José Teixeira Fernandes Ramalho, um dos membros do grupo, de apenas 15 anos, pode ler-se outra das versões dos acontecimentos: “Cerca da 1h15 da manhã o grupo decide ir passar à porta do PSR, para ver como é que eles reagiam. Pelo sim pelo não, abasteceram-se de pedras e de tudo quanto pudessem lançar. Ao passarem em frente à porta do partido, um indivíduo que ali se encontrava, de bigode e cabelo encaracolado, quase a tocar os ombros, dirigiu-se ao Américo e deu-lhe com um bastão no braço esquerdo, reagindo então todo o grupo, lançando pedras e todos os outros objetos que tinham apanhado, para as pessoas que se encontravam à entrada da sede do partido. De todos os elementos do movimento, apenas quatro se envolveram em luta direta com os militantes do PSR. Foram eles o Américo, o Mechior, o Grilo e o Gabriel”.

Pedro Grilo contra Zé da Messa

O “indivíduo de bigode” era José Carvalho, o Zé da Messa, como era conhecido, alcunha devida a 18 anos de trabalho como operador de montagem na fábrica de máquinas de escrever com o mesmo nome, em Mem Martins. Da Beira Alta, mas criado na zona da Venda Nova, Amadora, tinha voltado temporariamente a viver com os pais, vendedores de frutas e legumes, e estava, na altura, desempregado. A Messa, para onde entrara com apenas 14 anos, fechara de vez em 1985, depois de meses de salário em atraso e de luta da comissão de trabalhadores, pela qual José Carvalho dava a cara e as pernas, encabeçando marchas de protesto de 30 quilómetros até São Bento.

"Esta extrema-direita muito especial, que nada tem a ver com a extrema-direita política que vemos agora, estes grupos neonazis que se dedicavam à violência e se juntavam à noite em batidas para caçar negros, já era conhecida das autoridades políticas e policiais, talvez não do grande público. Mas o assassinato de um ativista político nunca tinha acontecido, foi um choque."
Francisco Louçã, fundador do PSR e amigo de José Carvalho

Já “Grilo” era Pedro João Oliveira do Carmo Andrade Grilo, 18 anos, o estudante repetente do 11º ano que, logo na tarde seguinte, quando as autoridades o foram buscar ao apartamento no Laranjeiro onde vivia com a mãe e a irmã, Ana Luísa, um ano mais velha, admitiu “ter xinado alguém” — mas que, a partir de então, sempre negou ter cometido o crime.

Quando morreu, ao fundo do beco da Rua da Palma, José Carvalho era um destacado dirigente do PSR, fundador do movimento antimilitarista Tropa Não, responsável pelo jornal Combate e pelo apoio aos jovens do partido. Quinze anos antes, tinha ele próprio cumprido o serviço militar, tendo sido um dos principais impulsionadores dos SUV (Soldados Unidos Vencerão). Logo após o homicídio, Francisco Louçã, líder fundador do PSR, descreveu José Carvalho como um revolucionário pacifista que “amava a vida”.

Em comunicado, o partido classificou a sua morte como “um assassínio político, inédito no nosso país desde a morte trágica do padre Max e de Maria de Lurdes. Prova que os fascistas, minoritários e marginais na sociedade portuguesa, estão organizados e ativos”. Hoje, ao Observador, Francisco Louçã recorda o choque nacional que a morte de José Carvalho, seu amigo muito próximo, que chegara até a viver em sua casa, provocou: “Esta extrema-direita muito especial, que nada tem a ver com a extrema-direita política que vemos agora, estes grupos neonazis que se dedicavam à violência e se juntavam à noite em batidas para caçar negros, já era conhecida das autoridades políticas e policiais, talvez não do grande público. Mas o assassinato de um ativista político nunca tinha acontecido, foi um choque. Tanto o Governo como a Presidência da República, na altura, reagiram muito rapidamente”.

Pedro Grilo, então um anónimo e pouco brilhante aluno da Cooperativa de Ensino do Laranjeiro, onde a mãe, Natalina Andrade Grilo, dava aulas noturnas de Português, passou a ser presença diária nos jornais portugueses, finalmente despertos para os perigos associados aos “cabeças rapadas”: “Movidos por ideias de extrema-direita, com legitimação de conceitos como a segregação racial, os ‘skinheads’ têm revelado a sua presença no nosso País de forma mais ativa nos últimos tempos”, escreveu a Capital, logo no sábado.

Para além de se terem multiplicado os artigos a explicar, mais do que a ideologia, a estética do movimento skinhead, com ilustrações de botas Doc Martens, calças de ganga manchadas com lixívia, camisas Fred Perry ou t-shirts brancas “género Freddie Mercury”, blusões de aviador, anéis de picos e cabeças rapadas, também se tornaram muito mais frequentes as referências a agressões do género.

Uma das bandeiras do MAN era a "morte à democracia"

Até à madrugada de 10 junho de 1995, em que o cabo-verdiano Alcindo Monteiro foi espancado e assassinado por um grupo de skinheads que espalhou, numa comemoração do “Dia da Raça”, o terror no Bairro Alto, os ataques repetiram-se sobretudo em Lisboa e no Porto, onde, apenas dois meses depois da morte de José Carvalho, o estudante angolano Francisco Faustino foi agredido e deixado inconsciente na linha do comboio.

No espectro oposto, a mais visível consequência do homicídio do Zé da Messa foi a fundação, em 1990 e pela mão de Filomena Aivado, Rosana Albuquerque e José Falcão, que ainda hoje lhe preside, da associação SOS Racismo. “Com a morte do Zé, o pessoal começou a juntar-se para discutir o que fazer. ‘Vamos bater-lhes?’ Tínhamos as moradas deles também, mas não fazia sentido nenhum, era um problema político, tinha de ser resolvido de forma política. O SOS Racismo nasce assim, até então o movimento anti-racista não existia em Portugal e só tínhamos conhecimento dos casos que davam em morte, não havia mais nada.”

"Refere como certo que quando está com um copo a mais, estas ideias agressivas tornam-se ainda mais frequentes, criando-lhe mesmo um estado de tensão enorme, que só descarrega através da violência."
Auto do interrogatório de Pedro Grilo à Polícia Judiciária

Enquanto isso, era escalpelizada a vida de Pedro Grilo, imediatamente detido e apontado como autor material do crime. Loiro e de olhos azuis, foi descrito pela mãe, também funcionária do serviço de bibliotecas itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian, e pelos vizinhos como um “rapaz bem comportado”, que se teria metido com as companhias erradas e nada teria a ver com o crime. No relatório de doze páginas que o Instituto de Reinserção Social remeteu ao 1.º Juízo Criminal de Lisboa, Pedro Grilo foi descrito como um jovem marcado por uma “relação difícil e traumática” com o pai, com quem, desde os 12 anos, não mantinha qualquer tipo de contacto, que teria encontrado “suporte emocional” no “grupo de amigos”.

Vários episódios revelados aos jornais por antigos professores e colegas — como o da vez em que, numa aula prática de construção civil, ainda na Escola Secundária Emídio Navarro, em Almada, Pedro Grilo e outros dois colegas, “também skins”, tinham atirado uma série de tijolos à cabeça do professor, peripécia que lhes valeu um processo disciplinar, com direito a suspensão — provaram que não seria bem assim.

Como se não bastasse, ele próprio, interrogado pela PJ, admitiu uma certa propensão para a violência. “Já pertence a este grupo desde março de 1988, assumindo comportamentos de grupo, sendo certo que, por vezes, se ultrapassa a si próprio, ou seja por ser dos mais jovens do grupo e para mostrar valor, tudo isto aliado a um comportamento, segundo diz, explosivo (…) faz com que sucedam comportamentos agressivos da sua parte, segundo os outros elementos, algumas vezes desajustados. Refere como certo que quando está com um copo a mais, estas ideias agressivas tornam-se ainda mais frequentes, criando-lhe mesmo um estado de tensão enorme, que só descarrega através da violência”, pode ler-se no auto do interrogatório a que foi sujeito às 17h do dia após o crime.

Pedro Grilo foi condenado a 12 anos de prisão em março de 1991. Cinco meses depois, fugiu do Estabelecimento Prisional do Linhó

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A navalha que guardava no seu quarto de pós-adolescente, dentro da caneca dos lápis e das canetas, e que a própria mãe entregou às autoridades, não tinha sido a arma do crime, provou-se rapidamente. Mas, e foi o próprio Pedro Grilo quem o confirmou às autoridades, nessa noite, ele tinha saído armado, sim, mas com a ponta e mola que o amigo José Ramalho lhe tinha emprestado. Sobre Grilo, Ramalho disse à PJ: “Não o viu utilizar qualquer navalha, no entanto, salienta que ele tinha uma, isto de certeza absoluta, porque fora o próprio depoente que lha dera, a pedido dele, antes da viagem para Lisboa. O próprio Grilo fez questão de a mostrar, quando alguém se meteu com ele, e tirou-a do bolso e disse ‘Olha aqui’. Depois conhece o Grilo e sabe que em situação de conflito não olha a meios para se vingar, ao ponto mesmo de espetar uma navalha, não para matar, mas para marcar. Mesmo, quando ele bebe mais uns copos fica implicativo e agressivo, mesmo para os próprios colegas”.

Defendido em tribunal por José António Barreiros, descrito na altura pelos jornais como “um dos melhores advogados do País” (e que, 30 anos depois, recusou comentar o caso), Pedro Grilo disse-se sempre inocente. Chegou a ter o escritor e poeta David Mourão-Ferreira, chefe da mãe na Gulbenkian, a depor em seu favor, recordou fonte próxima da defesa ao Observador, mas, a 21 de março de 1991, quando o coletivo de juízes do Tribunal de Monsanto divulgou a sentença, foi considerado culpado de homicídio voluntário qualificado e condenado a 12 anos de prisão. Américo Silva, Melchior Santos e Gabriel Ferreira foram considerados coautores do homicídio e condenados, respetivamente, a 7, 6 e 5 anos de prisão. Miguel e Filipe Temporão, irmãos, foram condenados a penas entre os 15 e os 18 meses de prisão, suspensas durante três anos.

Quatro anos e quatro meses a monte

Apesar do que poderia parecer, a história estava longe de acabar, e não graças ao recurso que José António Barreiros remeteu ao Supremo Tribunal de Justiça, garantindo à imprensa que, se Pedro Grilo não fosse ilibado, penduraria a toga — não foi e não pendurou, em 2019 continua a exercer. No dia 22 de agosto de 1991, cinco meses depois de ter sido condenado, Pedro Grilo, então com 19 anos, evadiu-se da prisão do Linhó, numa fuga que os jornais consideraram “rocambolesca”: juntamente com outros dois detidos, apanhou boleia na carrinha que todas as quintas-feiras levava a roupa suja para lavar em Tires.

Pedro Grilo esteve a monte durante quatro anos e quatro meses

Dias após a fuga, todos os jornais replicavam as palavras de Natalina Andrade Grilo, a quem o filho teria ligado, pelo menos duas vezes, de cabines telefónicas: Pedro Grilo “andava revoltado por estar preso e ser inocente”, tinha fugido em “sinal de protesto” e garantia que não ia “fazer nenhum disparate”: “Entrego-me quando o julgamento for anulado”, disse à mãe. Depois, a 31 de agosto, apareceu na primeira página do Expresso, em entrevista exclusiva concedida “algures nos arredores de Lisboa, curiosamente nas proximidades da cadeia de Tires”: “Entrego-me quando o Supremo garantir novo julgamento”.

Ao semanário, Pedro Grilo voltou a garantir que não matara José Carvalho e descreveu a vida em cativeiro, primeiro em Caxias, depois no Linhó — “O que mais me impressionou foi ter de conviver com indivíduos que, cá fora, cometeram violações e outros crimes assim. Eu nunca concordei com isso, sempre achei isso bastante asqueroso, e conviver com esses indivíduos, estar inserido no meio deles, meteu-me sempre muita impressão. Mais ao princípio, como com os homossexuais. Mas depois uma pessoa vai-se habituando”.

“Lamento sinceramente que tenham decidido desta forma em relação ao meu caso. (...) O que eu tenho a salientar é que eu estou inocente. Não matei o José Carvalho e é lamentável que estejam enxovalhando a memória deste homem que morreu de uma forma tão grosseira.”
Pedro Grilo, num vídeo enviado à RTP em 1992

Assegurou também não ter recebido qualquer ajuda na fuga e revelou como a leitura de Papillon, o clássico das fugas da cadeia, na altura o livro mais requisitado em todo o sistema prisional português, o tinha inspirado: “Relata a história de um indivíduo condenado por homicídio e que é inocente. Precisamente por isso, tem muito a ver comigo. Foi uma leitura muito do meu agrado e deu-me bastante força para esperar”.

Ao todo, Pedro Grilo esteve a monte durante quatro anos e quatro meses. O que significa que, em janeiro de 1992, quando o Supremo Tribunal confirmou a decisão da primeira instância, mas reduziu de 12 para 11 a sua pena, ainda estava em fuga. Na altura, enviou uma declaração em vídeo à RTP, onde aparecia de poupa, em vez de cabelo rapado: “Lamento sinceramente que tenham decidido desta forma em relação ao meu caso. (…) O que eu tenho a salientar é que eu estou inocente. Não matei o José Carvalho e é lamentável que estejam enxovalhando a memória deste homem que morreu de uma forma tão grosseira”.

Também à RTP, José António Barreiros reagiu à confirmação do veredicto falando em “erro judiciário”. Em setembro desse mesmo ano, em entrevista ao Jornal, apresentado como “o advogado dos casos que dão manchete”, fez questão de demarcar Grilo do movimento de extrema-direita. “Imaginei um filho meu que, de repente, tivesse caído na sedução destes jovens como os skinheads, envolvido numa grande complicação. Achei que devia ser defendido na medida em que fosse possível, até pela própria defesa penal, tirá-lo desse sector. E já no fim ele estava demarcado dos skinheads que o consideravam do outro lado da barricada. Só que a justiça fez o que fez e o Grilo acabou por fugir, marginalizou-se. É hoje um indivíduo revoltado face à sociedade. Se o desfecho tivesse sido outro, estaria recuperado.”

No final de dezembro de 1995, no rescaldo do homicídio de Alcindo Monteiro e da emissão de um muito tardio mandado internacional para a captura de Pedro Grilo por parte da Interpol, foi José António Barreiros quem negociou a entrega do homicida de José Carvalho ao então diretor dos serviços prisionais, mesmo a tempo de passar o Natal na Prisão-Escola de Leiria. Na altura, o Independente revelou que, graças ao acordo conseguido pelo advogado, Pedro Grilo, então já com 24 anos, iria cumprir apenas dois terços da pena, devendo ser libertado no verão de 2000.

Depois , em março de 1996, saiu no Público uma pequena notícia a explicar que, apesar de ter sido condenado a mais oito meses de prisão pela fuga do Linhó, Pedro Grilo iria beneficiar da amnistia de 1994, pelo que só lhe restariam nove anos de pena. O mesmo jornal revelaria cinco anos mais tarde, em 2001, doze depois da morte do dirigente do PSR, que Pedro Grilo estava já em liberdade condicional, com termo de residência e obrigação de boa conduta até agosto de 2003.

Menos de um mês após a morte, o militante do PSR foi homenageado em concerto

É a última notícia conhecida sobre ele, que, nos quatro anos de fuga às autoridades, terá vivido em Espanha, a apanhar laranjas e a trabalhar em restaurantes, tendo como única companhia um cão a que chamou Cronos — e que ainda terá tentado levar para a cadeia, quando se entregou, em 1995, contou a revista Visão na altura.

Sepultado no dia 29 de outubro de 1989 no cemitério de Benfica, numa cerimónia que juntou centenas de amigos e militantes do PSR, José Carvalho foi homenageado menos de um mês depois num concerto que reuniu algumas das maiores bandas nacionais. Trinta anos depois, continua a sê-lo: no próximo dia 9 de novembro, o SOS Racismo vai lançar um livro sobre o militante e o seu “combate contra a extrema-direita”.

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