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TIAGO ALBUQUERQUE/OBSERVADOR

TIAGO ALBUQUERQUE/OBSERVADOR

O Livro Branco da Pandemia. Como é que Portugal passou de bom a mau aluno no confinamento? /premium

Se fomos rápidos a ir para casa em março de 2020, também fomos rápidos a voltar à rua, antes de conseguirmos esmagar a curva. Na segunda onda não confinámos e, na terceira, fizemo-lo demasiado tarde.

    Índice

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[O Livro Branco da Pandemia é um trabalho dividido em seis partes. Um ano depois da chegada do vírus a Portugal, o Observador olha para aquele que foi o percurso do país ao longo destes 12 meses e para seis problemas — confinamento, erros de comunicação, lares, rutura do SNS, falta de dados e vacinas — e oferece as recomendações de um painel de especialistas.

Nesta primeira parte, analisamos como é que Portugal passou de bom a mau aluno no confinamento. Desconfinámos demasiado cedo na primeira onda? Por que motivo não confinámos na segunda vaga? Qual foi o impacto do Natal? Os especialistas ouvidos pelo Observador — os pneumologistas Filipe Froes e António Diniz — respondem a estas questões e fazem recomendações sobre o que deveria ser feito para evitar os mesmos erros.]

Problema

O problema tem uma data certa quando olhamos para o calendário da pandemia — 28 de janeiro de 2021. Nesse dia, Portugal atingiu os piores números de sempre. Pela primeira e única vez houve mais de 16 mil novos casos num dia (16.432) e as mortes passaram as três centenas (303), número que se repetiria três dias depois, a 31 de janeiro, o pior mês de sempre desde que o coronavírus entrou em Portugal. Como é que chegámos aqui? A explicação, para os especialistas ouvidos pelo Observador, está na forma como confinámos e desconfinámos em cada movimento da curva.

Nesse final de janeiro, o país chega ao pico da terceira e maior onda da pandemia, quando o vírus já não é novidade. Faltavam 33 dias para a Covid-19 assinalar o primeiro aniversário de chegada a Portugal e, na bagagem, o país levava dois confinamentos, escolas encerradas por duas vezes, e dez estados de emergência. Apesar disso, com 16 mil contágios num dia, o pico da primeira vaga (1.035 casos num dia) parecia uma miragem.

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Se fomos rápidos a ir para casa em março, por medo do desconhecido, dizem os pneumologistas Filipe Froes e António Diniz, fomos rápidos a voltar para a rua, antes de conseguirmos esmagar a curva. A bola de neve começa a rolar. As mensagens políticas tornam-se incoerentes e a adesão dos portugueses às regras de segurança diminui. Os festejos do 25 de Abril, o verão que se desejou com turistas no Algarve, a vaga de novembro que nunca levou a um confinamento (apesar de muito pior do que a de março), a leveza das regras no Natal e o regresso tardio ao confinamento são as marcas no trilho que conduziu os portugueses aos números de janeiro.

Capítulo 1

Primeiro confinamento: o milagre português 

  • A 3 março de 2020, surgem mais 8 países assinalados a vermelho no mapa da Organização Mundial de Saúde como registando a presença do coronavírus. Portugal é um deles. Na véspera, a ministra Marta Temido anunciou os dois primeiros casos de infeção no país. Para além da China (onde estão 80 mil dos cerca de 90 mil casos contados em todo o mundo), o novo coronavírus já chegou a 72 países.

Portugal é rápido na resposta e, 16 dias depois, o país entra em confinamento. Nesse 19 de março, o boletim da DGS dá conta de dois mortos e 142 contágios nas 24 horas anteriores. As escolas já estão, há três dias, de portas fechadas e tenta-se, a todo o custo, evitar os cenários de guerra que se vivem em Itália ou em Espanha.

“Foi na altura certa”, diz António Diniz. O seu colega Filipe Froes, também pneumologista do Hospital Pulido Valente, concorda. “Na primeira onda tivemos uma atitude mais proativa, provavelmente fruto de algum medo que se apoderou da população e do poder político, e confinámos proativamente. Fomos dos primeiros países a confinar e fizemo-lo numa altura em que o nível de atividade pandémica em Portugal era muito baixo. Isso fez com que se colhesse imensos benefícios do confinamento.”

O confinamento dá frutos, os números descem e o “milagre português”, como é chamado, ganha espaço na imprensa internacional em artigos da alemã Der Spiegel ou do britânico The Telegraph. Portugal torna-se o exemplo de como lidar com a doença.

Ouça aqui o Explicador com o pneumologista, Filipe Froes, o epidemiologista, Manuel Carmo Gomes, o virologista, Pedro Simas e a ex-ministra da Saúde, Ana Jorge.

“Encontrar, testar, rastrear, isolar e vacinar”

Capítulo 2

Primeiro desconfinamento: demasiado e demasiado cedo

  • De 19 de março a 3 de maio contam-se exatamente 45 dias. Passadas essas 7 semanas, os portugueses voltam a sair de casa, com um espírito semelhante ao do verão de 2016, quando a seleção portuguesa de futebol venceu o Euro. Portugal sente-se o melhor da Europa.

Na vizinha Espanha, a pandemia corre mal. Em abril, o primeiro-ministro Pedro Sánchez sonha com um líder da oposição colaborativo como Rui Rio, “que fez um discurso emotivo ao desejar sorte a António Costa”, enquanto a oposição espanhola deseja uma ministra da Saúde fotocópia de Marta Temido. O jornal El Pais destaca a prudência da governante, que explica aos espanhóis como se fez o milagre português.

Estaríamos assim tão bem?

  • Nos sete dias anteriores ao confinamento (12 a 18 de março), Portugal assiste a uma média diária de 83 novos casos e não se chega a registar uma morte por dia (0,28). Camas ocupadas: 123.

Quando, a 3 de maio, desconfinamos, o cenário é pior.

  • Entre 26 de abril e 2 de maio, as médias diárias dizem-nos que há 20 mortes e 277 novos contágios a cada 24 horas. Todos os dias, 947 camas de hospital estão ocupadas por doentes Covid — 7 vezes e meia mais do que quando o país se refugiou em casa.

“Alertei várias vezes: aquilo que se dizia que era o milagre português nunca foi milagre nenhum. Estávamos melhor em alguns indicadores do que países que nos são próximos, como Itália e Espanha, mas havia muitos países na Europa que estavam melhores do que nós, como os nórdicos ou a Alemanha”, diz António Diniz, que acredita que deveríamos ter tido maior prudência nos festejos. “Devíamos ter tido cuidado com a apreciação que fazíamos e com aquele sentimento, muito típico nosso: quando as coisas começam a correr um bocadinho melhor, somos os maiores. Havia um espírito de auto satisfação e inchámos, inchámos, inchámos.”

Filipe Froes é coordenador da Unidade de Cuidados Intensivos Médico-Cirúrgicos do Hospital Pulido Valente

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Esse otimismo teve uma consequência que se viria a pagar caro, explica Filipe Froes, coordenador do gabinete de Crise da Ordem dos Médicos para a Covid-19. “Deram-nos uma deficiente perceção do risco e da dimensão da pandemia. Ficámos convencidos de que o nosso sistema nacional de saúde tinha uma grande capacidade de resposta, que os nossos serviços de vigilância eram muito eficazes e que a fundamentação da decisão política era um processo adequado.” Só que não eram, diz. O espírito de invencibilidade já se tinha espalhado, tão rápido quanto o vírus.

Outro erro, aponta, é que desconfinámos sem nunca ter capacidade de descer abaixo dos 150, 200 novos casos por dia. A curva da pandemia nunca foi esmagada.

António Diniz, coordenador da Estrutura Hospitalar de Contingência de Lisboa, disse-o na altura e repete-o. O desconfinamento é “precoce” porque o R está pouco abaixo de 1 na globalidade do país, na região de Lisboa está acima de 1, e não se preenchem os critérios da Organização Mundial de Saúde para desconfinar. “Foi feito de forma precipitada, ligeira, levou-se no sentido de que tudo ia correr bem — outra característica portuguesa. Não é por acaso que chegámos aqui. Há um caldo que se foi formando.”

Capítulo 3

O verão: a “festividade” e o tempo perdido

  • Apesar da contestação, o 25 de Abril celebra-se na Assembleia da República. O 1.º de Maio junta centenas, em vez de milhares, de pessoas em Lisboa, enquanto o 13 de maio se faz sem peregrinos no Santuário de Fátima. Três dias depois, António Costa pede aos portugueses que regressem à rua, mas com cautelas. Os transportes públicos circulam com dois terços da capacidade, reabrem cafés e restaurantes, e os alunos dos últimos anos do secundário voltam às escolas. Lisboa mantém restrições mais apertadas.

“Quando é que notei que havia o risco de algo não correr bem? Foi quando houve a discussão sobre as comemorações do 25 de Abril e estava prevista uma coisa muito mais exuberante do que aquela que foi. Era preciso cuidado porque as pessoas não se esquecem quando as medidas lhes parecem incoerentes”, argumenta António Diniz. “Manter a coerência é muito importante. E saber comunicar é reflexo dessa coerência, tem de haver clareza na transmissão das decisões. Se as pessoas sentirem que quem está a decidir tem um rumo coerente traçado, se isso for transmitido com clareza, seguem as indicações.”

  • Com o verão cada vez mais próximo, o dever cívico de recolhimento acaba a 1 de junho, retomam-se os julgamentos presenciais e os restaurantes podem funcionar na sua capacidade máxima desde que assegurem distância e acrílico entre clientes.
  • Um mês depois, a 1 de julho, o teletrabalho deixa de ser obrigatório e os ginásios estão a funcionar.
  • A meio caminho, a 16 de junho, Costa afirma à CNN que Portugal é seguro para os turistas, depois de já ter pedido aos portugueses para fazerem férias cá dentro. As praias, que agora têm semáforos de utilização a que nem todos ligam, voltam a receber banhistas.

O sol brilha, já ninguém diz “novo” antes de coronavírus e a vida ganha alguns contornos de normalidade. Menos para os especialistas. Esses alertam: o inverno está a chegar e estamos a perder o verão. “Foi um tempo perdido. Houve folga para preparar melhor as coisas e não foram preparadas. Havia a ideia de que quanto mais turistas viessem, melhor. Era a loucura. A final da Champions em Portugal [23 de agosto] foi um momento de grande festividade”, recorda António Diniz.

O próprio Plano de Outono/Inverno do Ministério da Saúde foi apresentado a 21 de setembro, véspera do começo da nova estação, e nunca passou de uma versão não consolidada.

  • A 16 de junho, quando o primeiro-ministro fala à CNN, a média do mês diz-nos que todos os dias há 302 novos contágios em Portugal, para além de 7 mortes e 421 camas ocupadas nos hospitais por doentes Covid.
  • No final do mês, todos os indicadores sobem menos os óbitos (5,5 mortes diárias).
  • Em junho, por dia, há 322 novos infetados e 430 camas ocupadas. Em relação a maio, há mais contágios, mas o vírus assusta menos: as mortes e os internamentos, em enfermarias e cuidados intensivos, estão em queda.

Capítulo 4

A aproximação do inverno: a “saída mais fácil” e o “assobia para o lado”

  • Antes da época balnear encerrar, ainda se realiza a Festa do Avante (com lotação reduzida a um terço) e numa reunião no Infarmed, a 7 de setembro, o Governo é avisado de que a situação epidemiológica se agrava desde agosto. Dois dias depois, o país assiste ao maior número de contágios desde 20 de abril (646). Costa insiste que um novo confinamento não é opção e pede aos portugueses que sejam “muitíssimo disciplinados”.

“Quando olho para todo este percurso, há uma coisa que me preocupa verdadeiramente. Tenho a sensação que quem decide tem uma ideia subjacente e à mínima oportunidade de aplicar essa ideia, independentemente do que os outros dizem, e podem ser muitos, opta pela saída mais fácil. Parafraseando uma música muito em voga é a variante assobia para o lado”, argumenta António Diniz.

E foi assim, “assobiando para o lado”, que Portugal atravessou o calor do verão. A curva nunca foi esmagada.

  • Em julho, em média, há 5 mortes e 287 casos por dia. Em agosto, 2,8 óbitos e 223 contágios. No mês em que o coronavírus chegou a Portugal, a média de mortes diárias era de 5,5 e a de contágios 257.
  • A 14 de setembro arranca o ano letivo e as aulas presenciais.
  • Quatro dias depois, o primeiro-ministro reúne de emergência o seu gabinete de crise e avisa os portugueses de que os contágios diários podem chegar a mil.
  • A 21 de setembro, a DGS recomenda o uso de máscaras em espaços públicos.

O mundo não para, o vírus também não, e os dois hemisférios estão igualmente iluminados. É o equinócio de outono. O inverno está a chegar.

Capítulo 5

Natal: o agravamento e o alívio

  • Em outubro, o novo normal é haver mais de mil contágios por dia, com a média mensal nos 2.120 casos. As mortes diárias são, em média, 17. Portugal passa de situação de contingência para situação de calamidade. Apesar disso, a 24 de outubro, há ajuntamentos no Algarve para assistir ao Grande Prémio de Fórmula 1. Na Nazaré, 5 dias depois, a polícia dispersa a multidão que foi ver as ondas gigantes.

Novembro mostra o pior da pandemia, com uma média diária de 66 mortes e 5.119 contágios. A segunda vaga tem o seu pico no dia 19, com quase 7 mil (6.994) casos. Nesse dia, morrem 69 pessoas e 3.017 doentes Covid ocupam as camas dos hospitais. Portugal regressa ao estado de emergência, a 6 de novembro, de onde tinha saído a 3 de maio, com imposição de recolher obrigatório e proibição de circular entre concelhos. Não há confinamento.

“A declaração do estado de emergência, a 6 de novembro, é feita tardiamente. A nossa curva já tinha começado a crescer pelo menos 15 dias antes e tardámos a impor restrições”, sublinha António Diniz. Sem ter conseguido esmagar a curva no verão, Portugal entra no outono com mais casos diários do que outros países. “Qualquer oscilação, quando se está num nível superior, manifesta-se com muito mais perigosidade.”

António Diniz é coordenador da Unidade de Imunodeficiência do Hospital Pulido Valente e da Estrutura Hospitalar de Contingência de Lisboa

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

A 11 de novembro, António Costa diz que não sabia que ia ser assim: “Nós, como todos os outros países da Europa, não previmos que esta segunda vaga surgisse tão cedo.”

Numa altura em que por todo o mundo se começa a discutir como vai ser o Natal, um outro problema agrava-se em Portugal. A Covid-19 continua a ser vista como uma doença que só faz mal aos mais velhos. Há uma ideia errada da gravidade da pandemia.

“Durante todo este tempo, só se via a mortalidade dos mais idosos e essa imagem desvirtuou o impacto da doença em todos os grupos etários. Há pessoas mais novas que não morrem, mas que estão meses internadas. Esta imagem não passa ou por deficiente explanação ou por um modelo comunicacional que pretendia sobretudo tranquilizar as pessoas”, defende Filipe Froes. Isso impediu que todos percebessem a importância de aderir às medidas de prevenção e alguns se sentissem validados a desrespeitar as regras. “A pandemia foi um teste à nossa cidadania e à nossa capacidade de resposta individual e coletiva.”

  • A 5 de dezembro, dia em que se registam 6.087 contágios, António Costa anuncia o alívio de restrições para o Natal, apesar dos avisos contrários de vários especialistas.

“Chegámos à altura de Natal e fizemos aquela espécie de confinamento. Quando é feita a declaração de que se vai aliviar o Natal nós estamos com mais casos por dia do que quando é feita a declaração do estado de emergência em 6 de novembro [5.550]. Isto é, no mínimo, imprudente”, sublinha António Diniz.

Portugal, defende António Diniz, habituou-se a lidar com uma situação completamente anormal. “Assustámos-nos com 20 casos, subimos até aos 40 e quando voltamos a descer aos 20 achamos que estamos ótimos. É um disparate. Passado algum tempo tentou-se corrigir o tiro, dizendo que no Natal sim, no Ano Novo não, mas já se passou a mensagem de descontração. A clareza da mensagem é totalmente atropelada pela incoerência das decisões.”

Filipe Froes considera que o Natal é um momento crítico. “Há uma decisão mal fundamentada — pandemia significa decidir na incerteza, e nem sempre temos capacidade de tomar as melhores decisões. Nesse caso, temos de monitorizar muito bem para, se for preciso corrigir, fazê-lo em tempo oportuno. A decisão que foi tomada para o Natal não foi monitorizada e quando começamos a apercebermo-nos da sua verdadeira dimensão reagimos tardiamente e a dois tempos.”

Capítulo 6

O novo confinamento: demos “um mês de avanço ao vírus”

  • Depois do Natal, a curva pandémica entra a acelerar em 2021. O confinamento começa a 15 de janeiro, com 10.663 contágios nesse dia. Uma semana depois, num dia que regista 13.987 novas infeções, as escolas encerram. É a terceira onda, um tsunami ao pé da primeira.

“Se tivéssemos conhecimento do quadro da variante inglesa, teríamos definido regras mais apertadas no Natal. Na altura não tínhamos esse conhecimento”, afirmou António Costa, em janeiro, num programa televisivo. Mas a argumentação não convence os especialistas.

“O crescimento da curva era de tal forma evidente que se impunha tomar medidas agressivas. Fosse a variante inglesa ou não, havia aumento da incidência nos mais jovens. Estava ali uma coisa. Estava ali uma evidência. Havia números. Fechou-se os olhos àquilo que toda a Europa estava a fazer. Não se quis olhar para esses dados. A decisão de não fechar as escolas foi irracional e custou tempo, vidas e economia ao país”, acusa António Diniz.

Filipe Froes faz análise semelhante. “Fizemos um ‘confingimento’ a 15 de janeiro e só a 22 encerrámos as escolas. Isto significou um mês de avanço ao vírus, em pandemia, no inverno, e numa altura em que a variante que se começa a transmitir na comunidade é a britânica que tem maior transmissibilidade. Associámos à variante britânica, a variante lusitana. E criámos a variante luso-britânica, que é a britânica associada à decisão mal fundamentada, à monitorização não realizada e ao atraso na correção — aquela a que o dr. Diniz chama assobia para o lado.”

Conclusão

“O que fizemos de bem no primeiro confinamento, em que fomos pró-ativos, fizemos de mal no segundo, em que fomos reativos”, conclui Filipe Froes. “Se tínhamos sido dos primeiros a confinar na primeira onda, fomos dos últimos na terceira — quase forçados devido à situação catastrófica e à iminente ruptura da resposta sanitária — e na segunda nem confinámos. Passámos de ir à frente do vírus para ir muito atrás do vírus.” Pior, defende o médico, em janeiro os portugueses começaram a sentir as desvantagens do confinamento, sem as vantagens.

Também a capacidade de antecipação, fundamental numa pandemia, desapareceu. Os sistemas de monitorização, sobrecarregados, deixaram de ser capazes de fornecer dados que permitissem em tempo real perceber para onde ia o vírus. Os inquéritos epidemiológicos, que permitem rastrear e quebrar cadeias de transmissão, foram ficando cada vez mais atrasados. E nem todos aqueles que deviam ser testados o foram.

“O modelo de decisão tem política a mais e conhecimento a menos. Há um processo deficiente de integração do conhecimento e que tenha capacidade de transformar dados em raciocínio. Em medicina não podemos usar este modelo de gestão de conhecimento: se tiver um doente com cancro não posso ouvir à segunda-feira os imagiologistas, à quarta os oncologistas e à sexta os cirurgiões”, acrescenta Filipe Froes. Têm de ser consultados ao mesmo tempo.

António Diniz conclui que “o máximo da incoerência” foi a versão inicial do segundo confinamento. Não só aconteceu tarde, como não foi suficiente e falhou uma das medidas mais importantes. “Não tem lógica fazer-se um confinamento com 52 exceções e em que não se toma a medida absolutamente crucial de encerrar escolas.”

Em dezembro, defendeu que as escolas deveriam fechar para alunos acima dos 12 anos. Em janeiro, isso era impraticável. “Já tinham de ser todas. Podíamos ter evitado esta situação, muito mais devastadora, de ter creches e ensino primário encerrados. Se se tem olhado de frente, se não se tem assobiado para o lado, hoje poderíamos estar com um confinamento menos grave, menos rigoroso e menos durável no tempo.”

Voltar a ganhar capacidade de antecipação é urgente e, para isso, o desconfinamento é crucial, defende António Diniz. “É imperioso que o próximo desconfinamento seja feito com cabeça, tronco e membros e não com cabeça, posta e rabo.”

Recomendações

Para evitar uma situação semelhante à de janeiro, há várias recomendações que podem ser seguidas.

1) Capacidade de antecipação, planeamento e proatividade

  • É preciso estar à frente do vírus e isso só é possível com informação de qualidade e adesão das pessoas.

“O confinamento é jogar o ás de trunfo. Tem uma grande vantagem: quebra sempre as cadeias de transmissão. O difícil não é jogá-lo, é saber jogá-lo na altura certa e saber jogar sem o ás de trunfo”, resume Filipe Froes.

Para evitar fechar o país, é preciso uma capacidade muito grande de diagnóstico, em tempo útil, de rastreio da população de risco e de surtos, explica o médico. Não pode haver atrasos nos inquéritos epidemiológicos, porque isso significa perder o rasto ao vírus. É absolutamente necessário haver adesão total da população às medidas de controlo.

2) Clareza da mensagem política

  • A mensagem política tem de ser clara e coerente porque só assim se consegue a adesão da população às medidas. 

António Diniz exemplifica com o fecho das escolas e com a falha de promessa do Governo de que no atual ano letivo todos os alunos teriam computador e internet. “Quando sabemos que a adjudicação dos computadores é feita em dezembro, é devastador. A ideia que passa, justa ou injusta, é a de que as escolas não fecharam porque o Governo tinha medo de ficar exposto a uma coisa que não realizou. É terrível que esta questão se coloque sequer no espírito das pessoas porque isto mina a confiança entre a liderança e os liderados.”

O médico diz que quem vai decidir o futuro da pandemia serão as pessoas, mas a sua adesão depende do nível de confiança que mantêm nas decisões do Executivo. “Desbaratou-se a confiança que se ganhou no primeiro confinamento com sucessivas incoerências, falta de clareza, e que leva a que as pessoas sintam autoridade para não cumprirem as regras.”

3) O que mudar nas reuniões de especialistas no Infarmed

  • Encontros entre especialistas e poder político sim, mas num modelo diferente do atual. As várias áreas de saber devem estar representadas (epidemiologistas, clínicos, médicos de saúde pública) para que dos dados apresentados se gere conhecimento.

“O Reino Unido tem uma comissão científica permanente para fundamentar a decisão. Não é o Governo que ouve as diferentes partes da ciência, que as questiona, para tomar decisões. A informação está desintegrada e quem faz a integração é o poder político, que muitas vezes não tem capacidade de interligar a informação dispersa pela epidemiologia, pela saúde pública e pelos clínicos”, defende Filipe Froes.

Para António Diniz, as reuniões no Infarmed deviam ter um objetivo preciso e servir para fazer as perguntas certas: “O que é que eu preciso de fazer? Em que ponto é que estamos? E o que é que preciso de fazer para evitar chegar a tal ponto ou conseguir chegar a tal ponto? Isto consegue-se com um trabalho de equipa em que estão simultaneamente epidemiologistas, saúde pública, clínicos, estatistas… Cada um deles detém uma parte do conhecimento e é do conjunto destas partes todas que se consegue responder.”

4) O papel da DGS não pode ser de observador passivo

  • Em Portugal, é a Direção Geral de Saúde que deve integrar a informação apresentada pelas várias áreas de saber e formular pareceres que sustentem as decisões políticas.

A Alemanha tem o Instituto Robert Koch, o Reino Unido tem a Public Health England. “Há uma estrutura que tem a responsabilidade de fazer isso: a DGS. Compete-lhe, mais do que fazer normas, reunir pessoas e transmitir às entidades políticas qual a opinião que se gerou, qual o parecer que têm em relação à evolução da situação, e o que é, no seu entender, necessário fazer. Depois, a entidade política aceitará ou não”, sustenta António Diniz, que diz que Manuel Carmo Gomes foi o primeiro a fazê-lo na última reunião no Infarmed em que participou.

5) As linhas vermelhas de Manuel Carmo Gomes devem servir de alerta

  • Há três máximos que se forem ultrapassados exigem medidas imediatas: Rt superior a 1,1;  percentagem de testes positivos acima dos 10% (idealmente 5%); incidência maior do que 2 mil casos diários (200 em UCI).

Filipe Froes e António Diniz concordam com as linhas vermelhas traçadas pelo epidemiologista Manuel Carmo Gomes na reunião do Infarmed de 9 de fevereiro. “Há três coisas importantes, a positividade dos testes, o Rt e a incidência dos casos. Precisamos de saber que se conjugarmos de uma forma, estamos arrumados. Em contrapartida, se conseguirmos baixar aqui ou ali, equilibramos. Se conseguirmos baixar mais ainda, temos folga. Lapidar foi uma frase de Angela Merkel, na primeira vaga, quando disse aos alemães: se conseguirmos baixar o Rt até x estamos confinados durante este tempo, se for y é mais tempo. Isto é clareza. A isso chama-se liderança, goste-se ou não da pessoa”, argumenta António Diniz.

6) Desconfinar de forma faseada e seguindo lógica regional

  • Faseado e baseado em indicadores que têm de ser monitorizados de uma forma contínua em tempo real. 

Como é que desconfinamos? “Temos de provar que sabemos jogar à sueca, sem ser com o ás de trunfo — isso é o desconfinamento”, diz Filipe Froes. “Deve ser feito a nível de regiões, nunca nacional, alicerçado em indicadores dessas regiões, onde tem de se incluir a incidência da doença, o RT dessa região, a taxa de positividade dos testes, o número de internamentos em enfermaria e UCI, a taxa de letalidade (indicador de recursos e gravidade) e taxa de cobertura vacinal dos grupos prioritários”, acrescenta.

A abertura das escolas deve ser progressiva, começando pelas creches, cada momento deve ser monitorizado numa perspetiva de premiar as melhores regiões, de maneira a envolver as pessoas. “As pessoas têm de perceber que são parte ou do problema ou da solução. O desconfinamento, e salvar o nosso país, é uma tarefa de todos.”

O segredo do desconfinamento, conclui o pneumologista, passa pela adesão maciça das pessoas ao cumprimento permanente das medidas de prevenção e controlo. “Não serve de nada começar a abrir os diferentes setores se as pessoas não respeitarem o uso da máscara, a lavagem das mãos, o distanciamento e o diagnóstico quando tiverem sintomas.”

Participaram neste volume:

Filipe Froes
Médico pneumologista
Coordenador da Unidade de Cuidados Intensivos Médico-Cirúrgicos do Hospital Pulido Valente, em Lisboa, é também investigador da Universidade Nova de Lisboa e coordenador do gabinete de crise para a Covid-19 da Ordem dos Médicos. É consultor da Liga Portuguesa de Futebol, da Direção Geral da Saúde e membro do Conselho Nacional de Saúde Pública.

António Diniz
Médico pneumologista
Coordenador da Unidade de Imunodeficiência do Hospital Pulido Valente e da Estrutura Hospitalar de Contingência de Lisboa. Foi diretor do Programa Nacional para a Infeção HIV/sida. Membro do gabinete de crise para a Covid-19 da Ordem dos Médicos. É consultor da  Direção Geral da Saúde.

Os restantes especialistas convidados para o painel do Livro Branco da Pandemia:

Roberto Roncon
Médico internista e intensivista
Especialista em Medicina Interna e Medicina Intensiva, trabalha no Centro Hospitalar Universitário de São João, no Porto, onde é coordenador do Centro de Referência de ECMO (Oxigenação por Membrana Extracorporal). Dá ainda aulas de Fisiologia na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto.

Ricardo Mexia
Médico de Saúde Pública e epidemiologista
Membro do Departamento de Epidemiologia do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge, trabalha essencialmente no âmbito das doenças transmissíveis, com foco na investigação e controlo de surtos. Dá aulas como assistente convidado na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa e na Universidade do Algarve. É presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública e vice-presidente da Secção de Controlo de Doença Transmissível da Federação Europeia de Saúde Pública.

Tiago Correia
Professor e investigador
Dá aulas na Unidade de Saúde Pública Internacional e Bioestatística do Instituto de Higiene e Medicina Tropical e é investigador sénior do Global Health and Tropical Medicine, do mesmo organismo, e investigador associado do Centro de Investigação e Estudos de Sociologia do Instituto Universitário de Lisboa. É membro do Centro Colaborador da Organização Mundial de Saúde para as Políticas e Planeamento da Força de Trabalho em Saúde e da comissão executiva da Sociedade Europeia para a Saúde e Sociologia Médica.

Os outros volumes do Livro Branco da Pandemia:

 Os erros de comunicação:

O Livro Branco da Pandemia. Onde é que a comunicação com os portugueses falhou?

O impacto nos lares de idosos

O Livro Branco da Pandemia. Porque é que morreram tantos utentes de lares de idosos?

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