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TIAGO ALBUQUERQUE/OBSERVADOR

TIAGO ALBUQUERQUE/OBSERVADOR

Livro Branco da Pandemia. Faltaram dados para gerir a Covid-19 em Portugal? /premium

São várias as queixas sobre a informação disponível: os dados são poucos, escassos, e não abrangem todas as necessidades para se encontrar as melhores respostas para conter a pandemia.

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[O Livro Branco da Pandemia é um trabalho dividido em seis partes. Um ano depois da chegada do vírus a Portugal, o Observador olha para aquele que foi o percurso do país ao longo destes 12 meses e para seis problemas — confinamento, erros de comunicação, lares, rutura do SNS, falta de dados e vacinas — e oferece as recomendações de um painel de especialistas.

Neste volume, analisamos a qualidade dos dados disponíveis sobre a pandemia. Temos dados públicos suficientes? E têm qualidade? Há transparência da parte do Governo? Os especialistas ouvidos pelo Observador, os pneumologistas Filipe Froes e António Diniz e o investigador do Instituto de Higiene e Medicina Tropical da Universidade Nova de Lisboa Tiago Correia, respondem a estas questões e fazem recomendações sobre o que deveria ser feito para evitar os mesmos erros.]

Problema

Os investigadores queixam-se, a Ordem dos Médicos queixa-se, os autarcas queixam-se e até o primeiro-ministro se queixa de que lhe falta informação suficiente para tomar decisões informadas. Em Portugal, a qualidade e a quantidade de dados da pandemia têm sido alvo de críticas desde o início.

Há ou não um problema com a informação em Portugal? “Os dados são poucos, são escassos, não abrangem as necessidades, muitas vezes são atrasados e estão, muitas vezes, indisponíveis às pessoas”, resume o pneumologista António Diniz.

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Para perceber a importância de ter acesso à informação é preciso viajar até à pré-história do novo coronavírus. A 14 de janeiro de 2020, o título parecia apocalíptico: “Novo vírus misterioso. OMS alerta para contágios em massa e pede a hospitais de todo o mundo para se prepararem.” Há mais de um ano, a Organização Mundial de Saúde alertava para algo que ainda não tinha nome definitivo. O que tinha eram números, dados, que mostravam como aquele vírus desconhecido se comportava na China e como tinha feito o seu caminho até à Tailândia.

Os valores eram baixos — 1 morto, 41 contágios e 700 pessoas vigiadas num país de 1,4 mil milhões de habitantes —, mas para os epidemiologistas era o primeiro alerta de que algo muito mau estava a caminho. Confirmou-se: a 11 de março, a OMS declarou a Covid-19 como pandemia, quase um mês depois de Marc Lipsitch, epidemiologista e professor em Harvard, ter avisado que a pandemia global estava a caminho. Como foi possível prever? Com base numa das ferramentas mais preciosas para combater um vírus: dados de qualidade, e em quantidade, para poder fazer análises, prever cenários e preparar respostas para conter a sua propagação.

Capítulo 1

O pedido da academia (e os homens grávidos)

  • A 17 de março de 2020, um grupo de cientistas e responsáveis de escolas de medicina pede ao Governo todos os dados de doentes suspeitos de Covid em Portugal, positivos ou não. O objetivo era claro: pôr investigadores a trabalhar esses dados e encontrar formas de refrear o vírus.

Quando a academia pediu, o Governo respondeu que sim. A comunidade científica, em carta enviada ao primeiro-ministro, dispunha-se a procurar soluções para lidar com o novo vírus, mas precisava de acesso aos dados. Todos os dados. Num “cenário de emergência”, assumia que se a evidência científica era “necessária agora, os dados para a sustentar eram necessários ontem”.

Uma semana depois, no Parlamento, António Costa anuncia que a Direção Geral de Saúde vai libertar os dados — aqueles que a academia queria no espaço de horas, não de dias. Estávamos a 24 de março de 2020. Quase um mês depois, ainda não tinham chegado ao destinatário.

A 10 de abril, a DGS lança um formulário para os investigadores terem acesso à informação — os académicos viriam a queixar-se de que era “um formulário de acesso a um novo formulário” — e, nesse mês, as primeiras informações são libertadas. Em agosto, depois de terem recebido o ficheiro seguinte (o segundo), os cientistas fazem as primeiras queixas: é uma base de dados incompleta, com erros graves, onde surgem homens grávidos e doentes com 134 anos.

Homens grávidos, desconhecimento de doenças prévias e 90% dos mortos identificáveis. DGS cedeu dados incompletos e com erros aos cientistas

“A qualidade dos dados é miserável”, dizia então Luís Antunes, investigador da Universidade do Porto. Cristina Santos optou por não avançar com o seu projeto. A investigadora do Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde (Cintesis) queria perceber como é que as doenças pré-existentes podem agravar a situação dos doentes Covid. Os dados eram tão fracos que desistiu.

“Os dados públicos são insuficientes para que de uma forma transparente a comunidade académica consiga fazer as suas reflexões. E em outros países temos esses dados”, defende Tiago Correia. Para o investigador do Instituto de Higiene e Medicina Tropical da Universidade Nova de Lisboa, esconder os dados é “uma opção deliberada” do Governo.

“Não são públicos de propósito, e isso não é de agora. As áreas de governação têm ainda uma enorme dificuldade na divulgação de dados. Se eu quiser dados de execução orçamental, é facílimo encontrar, mas sobre saúde não encontro”, diz o investigador. “Há uma desconfiança por parte dos decisores políticos em fornecer dados brutos. O poder político tem esses dados. Se não tivesse era ainda mais grave.”

Tiago Correia refere-se a dados como, por exemplo, a caracterização demográfica dos internados em unidades de cuidados intensivos. Ou dados que permitissem traçar o perfil do doente Covid durante a primeira vaga. Isso teria ajudado a chegar a soluções à medida do problema, evitando outras mais genéricas e menos eficazes.

“Não há nenhum argumento plausível para que dados desta natureza não sejam tornados públicos. Há um argumento usado que é: os dados assustam e tem de se gerir a informação para que as pessoas não fiquem assustadas sem motivo. Isto é de um paternalismo enorme”, acusa Tiago Correia. “Dá azo à desconfiança, ainda mais quando aparece um homem grávido. Há erros nos dados de todos os países, mas quando nos são fornecidos dados processados, e poucos, e não aqueles que sabemos que estão a ser recolhidos, ficamos a pensar no porquê desta opção”, conclui.

António Diniz é médico pneumologista e coordenador da Estrutura Hospitalar de Contingência de Lisboa

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Capítulo 2

O boletim diário (mas insatisfatório)

  • Depois dos primeiros casos Covid positivos confirmados em Portugal, em março de 2020, a DGS passa a publicar um boletim diário com informação relativa às últimas 24 horas. A informação foi evoluindo, mas pouco.

“O boletim… Acho espantoso como um ano depois, o tipo de dados que é fornecido aos cidadãos é exatamente o mesmo que era dado em março de 2020. Não há mais nada? Acho completamente insatisfatório”, argumenta o pneumologista António Diniz, coordenador da Unidade de Imunodeficiência do Hospital Pulido Valente, em Lisboa.

Todos os dias, a DGS revela o número de pessoas contagiadas nas últimas 24 horas, os óbitos, o número de camas ocupadas nos hospitais (em enfermaria e cuidados intensivos), os recuperados da doença, os casos ativos e o número de pessoas em vigilância. Às segundas-feiras, acrescenta a distribuição geográfica dos casos através da incidência cumulativa a 14 dias por concelho.

“Para o público em geral, os boletins epidemiológicos são suficientes para descrever genericamente a situação em que estamos. Para pessoas como eu, académicos, ou para pessoas que queiram fazer as suas próprias reflexões, os dados não são nada úteis. São opacos e não há notas metodológicas”, acrescenta o investigador Tiago Correia.

Filipe Froes, também pneumologista do Pulido Valente, soma outro problema: “Uma das fragilidades do boletim é ser dado o valor de internamentos em números absolutos.” E dá o exemplo de uma enfermaria de 100 camas onde todos os dias, de segunda a domingo, há 10 óbitos, 20 altas e 30 entradas.

“A situação parece favorável porque mantemos os internamentos em 100. Por trás disso, há 70 óbitos, 140 altas e 210 admissões. A estabilidade do número absoluto representou um turnover diário de 30% que não temos capacidade de manter durante muito tempo. Estamos a entrar em rutura, estamos a ter um movimento que nos consome, mas passa a imagem completamente errada de uma estabilização”, acrescenta.

Quando se fala de cuidados intensivos, essa falsa estabilidade pode esconder óbitos. “Imagine: um dia temos 900 internados em cuidados intensivos, no dia seguinte, 890. Há 200 óbitos nessas mesmas unidades. Passa-se a ideia de que há menos 10 doentes internados, quando tivemos 190 internamentos. Esse valor, num dia, é quase 20% da nossa capacidade total e pode levar à rutura”, defende Filipe Froes, coordenador do gabinete de crise para a Covid-19 da Ordem dos Médicos.

Outro dado que permitiria tirar várias conclusões é o do local dos óbitos. Os doentes morrem em casa ou no hospital? Para além de permitir calcular o número de movimento diário nos hospitais, também mostraria se Portugal faz (ou não) medicina de catástrofe. Se a maioria dos idosos morrer em casa ou nos lares é sinal de que, por algum motivo, não chegou às unidades de cuidados intensivos.

O que seria ideal?  “Vejam o que os EUA fazem. Eu consigo perceber muito melhor a situação da pandemia nos EUA não estando lá do que a situação em Portugal estando cá. E posso dar também o exemplo da Alemanha”, argumenta Tiago Correia.

No início da pandemia, a 9 de abril de 2020, uma carta aberta de cientistas e médicos criticava a informação prestada pela DGS e apontava como bons exemplos o repositório de dados da Proteção Civil Italiana ou o dashboard da epidemia em Singapura. Também oferecia ajuda técnica (e voluntária) para encontrar melhores soluções para disponibilizar os dados.

Escrita pela Associação Portuguesa de Ciência de Dados para o Bem Social, foram apontadas 12 falhas ao boletim. Entre elas, lia-se:

  • Boletins diários em formato não-estruturado, cuja extração de dados não é trivial.
  • Constantes mudanças no formato do boletim, o que dificulta abordagens mais avançadas para extração automática de dados.
  • Constantes mudanças nos indicadores clínicos disponibilizados, o que causa incertezas no planeamento de potenciais análises e projetos científicos.
  • Existência de dados processados dentro dos boletins em formatos completamente imperscrutáveis. Dados bloqueados, impossibilitando qualquer outra análise.
  • Ausência de notas metodológicas o que leva a exercícios especulativos.
  • Inconsistências pontuais entre valores totais e a respectiva divisão em subgrupos.

Pode ler aqui a carta “Por uma melhor estratégia de dados da Direção-Geral de Saúde no combate à epidemia Covid-19 em Portugal” na íntegra.

Filipe Froes é médico pneumologista e coordenador do gabinete de crise para a Covid-19 da Ordem dos Médicos

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Capítulo 3

A fonte da informação (dados a mais, dados a menos)

  • Os primeiros erros de duplicação foram conhecidos em abril de 2020, devido à multiplicação de fontes de informação. A DGS passou a considerar apenas os dados do Sistema Nacional de Vigilância Epidemiológica (SINAVE), mas o problema não desapareceu.

O Porto foi o caso paradigmático em 2020. No último domingo de março havia 417 casos no município. No dia seguinte eram 941. Na terça-feira, o valor acumulado caía para 462. A informação chegava sempre pelo mesmo mensageiro, o boletim da DGS. Qual era então o problema? A Direção Geral de Saúde ia beber a várias fontes — SINAVE e Administração Regional da Saúde (ARS) do Norte — e deu-se uma duplicação de dados.

Para resolver o problema, a DGS passa a considerar só os dados do Sistema Nacional de Vigilância Epidemiológica (SINAVE) — sistema informático onde médicos e laboratórios registam casos de doenças infecciosas. Isso comporta um novo problema, assumido desde logo pela DGS. Os casos com informação completa rondam os 70% do total de casos confirmados. Haverá subnotificação.

Nem um mês se tinha passado e há nova duplicação de casos no Norte, nos boletins de 25 a 30 de abril: 422 contágios dão entrada duas vezes, devido a um erro no sistema de contagem. Por esta altura, a DGS já só olha para o SINAVE e para as suas duas plataformas, a LAB, para laboratórios, e a MED, para médicos. Mas as bases de dados não comunicam entre si e a integração de dados não é automática.

O que aconteceu é que casos positivos, sem número de utentes, foram inseridos no SINAVE LAB e o sistema considerou, por defeito, que eram novos casos. Não eram. “Esta correção mostra-nos mais uma vez a necessidade do robustecimento da nossa base tecnológica de suporte ao SINAVE que tem um conjunto de operações que não são automáticas”, disse na altura a ministra Marta Temido.

Em julho, novo problema. Desta vez, há dados a menos e não a mais. Desde 6 de junho que o boletim da DGS mostra que um quarto dos concelhos de Portugal não tem nenhum novo caso de infeção. Entre eles estão Porto e Matosinhos, por exemplo, onde continua a haver admissões Covid nas urgências locais.

Graça Freitas admite, na altura, que a estatística a nível local é mais precisa do que a do boletim e que os dados por concelho referem-se apenas aos notificados no SINAVE MED. Isso não impediu o Governo, em abril, de proibir os delegados de saúde pública de cada câmara municipal de divulgar as estatísticas locais, defendendo a centralização da informação no boletim da DGS. Vários autarcas avisaram que não iam respeitar a ordem.

Aos médicos e laboratórios, Graça Freitas deixa um recado: a DGS depende das suas notificações atempadas para identificar novos contágios. “Todos os dias existe um processamento dos dados no sentido de agregar os dados clínicos e laboratoriais à mesma pessoa, confirmar o estado de doente Covid-19 e identificar duplicados”, explicava então a diretora-geral de Saúde.

Dois dias depois, a 6 de julho, o Governo reconhece o problema. “Precisamos de uma melhor integração de plataformas”, diz António Lacerda Sales, secretário de Estado da Saúde. Passada uma semana, e para evitar novos erros, o Executivo promove uma intervenção profunda no sistema de vigilância epidemiológica. O objetivo é integrar o SINAVE LAB e o SINAVE MED.

A 16 de novembro, surge o BI SINAVE, que garante a unificação de todas as notificações laboratoriais e clínicas referentes à mesma pessoa, através do número de utente.

Os problemas parecem ter diminuído, mas, já em fevereiro de 2021, o diretor regional da Saúde da Madeira afirma que o sistema está a atribuir casos a mais ao arquipélago. “Existem pessoas que residem no Continente português, mas estão referenciadas como se residissem na Madeira [morada fiscal] e, quando isto acontece, o caso é automaticamente adicionado à Madeira”, afirma Herberto Jesus, citado pela revista Visão.

Capítulo 4

As queixas de António Costa (e o modelo Infarmed)

  • A 24 de junho é o primeiro-ministro quem se queixa, durante uma reunião à porta fechada no Infarmed, da clareza da informação — à falta dela, diz, não consegue avaliar as melhores decisões a tomar.
     

É à porta fechada que o primeiro-ministro faz as suas queixas. O verão tinha começado, a situação na região de Lisboa agrava-se e o Governo e o Presidente da República passam a mensagem de que tudo se deve ao aumento da testagem e do comportamento despreocupado dos jovens. Na nona reunião entre especialistas e poder político no Infarmed, a 24 de junho, pela primeira vez António Costa é contrariado pelos epidemiologistas: não há evidência científica para sustentar aquela mensagem.

A irritação de Costa passa para a imprensa. Um primeiro-ministro “visivelmente aborrecido”, escrevia a Visão, deixa claro que, se algo falhar, a culpa não será sua: a falta de clareza dos dados que lhe têm chegado impedem-no de avaliar as medidas a tomar. O problema de então, mantém-se: informação há, mas é complexa e técnica. Os especialistas não apontam estratégias a seguir, soluções “chave na mão”, como Costa desejaria.

Filipe Froes, crítico desde o início do modelo de reuniões do Infarmed, apontou diversas vezes para esse problema. Num encontro onde epidemiologistas apresentam informação, sem outras áreas de saber presente (clínicos, médicos de saúde pública), cabe ao poder político digerir toda a informação, sem ter capacidade para o fazer.

“Nas últimas reuniões, os epidemiologistas perceberam a importância da integração da informação e têm estabelecido alguns contactos com outros profissionais para fundamentar melhor as suas decisões. Manuel Carmo Gomes é disso exemplo e o país tem uma dívida de gratidão pelo trabalho excelente que ele fez com a sua equipa: perceberam a importância de integrar informação para gerar conhecimento que fundamente as decisões políticas”, argumenta o coordenador do gabinete de crise da Ordem dos Médicos.

Para além disso, Filipe Froes acredita que muitas vezes não são feitas as perguntas certas a quem está a apresentar dados (que são pouco abrangentes), e falta aquilo que, por exemplo, o Reino Unido tem: uma comissão científica permanente para fundamentar a decisão do Executivo. “Não é o Governo que ouve as diferentes partes da ciência, que as questiona, para tomar decisões.”

Apesar das queixas do primeiro-ministro, nem sempre as decisões do Governo foram baseadas na evidência científica disponível. Aconteceu com o fecho das escolas quer no primeiro confinamento quer no segundo. Em março de 2020, os diretores pediam o encerramento das escolas, mas o Conselho Nacional de Saúde Pública desaconselhou-o. António Costa tomou a decisão política de fechá-las. Em janeiro de 2021, os diretores queriam as escolas abertas, enquanto os epidemiologistas aconselhavam o ensino à distância para alunos acima dos 12 anos. Costa tomou a decisão política de mantê-las abertas. Sete dias depois, optou pelo seu fecho.

António Diniz diz ter a sensação de que o Governo tem, sobre cada tema, uma decisão pré-definida e toma-a, seja qual for a evidência científica. “À mínima oportunidade que tenha de aplicar essa ideia, independentemente do que os outros, e podem ser muitos, estejam a dizer, opta pela saída mais fácil”, diz. “Na questão das escolas, em janeiro, bem podiam ter a informação toda, e as recomendações todas, que seguiram outro caminho. Baseado em quê? Em quem não apresentou a informação.”

O pneumologista refere-se às declarações do primeiro-ministro de que não havia consenso entre os especialistas sobre o fecho das escolas e que teria, por isso, de tomar uma decisão política. O único epidemiologista que publicamente defendeu a manutenção de todas as escolas abertas foi Henrique de Barros.

“Era evidente que o encerramento das escolas estava fundamentado, havia dados dos contágios por idades. Não consigo perceber em que se fundamentou a parte contrária”, argumenta António Diniz.

Tiago Correia é investigador do Instituto de Higiene e Medicina Tropical

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Capítulo 5

O sistema de vigilância (e os rastreios e os testes por fazer)

  • Em janeiro de 2021, os inquéritos epidemiológicos em atraso chegaram a ser mais de 50 mil. Sem estes, fundamentais para identificar quem contactou com infetados, também a nova estratégia de testagem da DGS (testar todos os contactos de doentes positivos) fica em risco.

Quando, a 2 de fevereiro passado, a ministra da Saúde anunciou na Assembleia da República que o número de rastreadores quase triplicou desde dezembro de 2020, a Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública, presidida por Ricardo Mexia, não lançou foguetes.

Pelo contrário, Ricardo Mexia queixou-se de, uma vez mais, o país correr atrás do prejuízo. O reforço devia ter sido feito antes (como pediu várias vezes), e não depois de o sistema de vigilância ser incapaz de dar conta dos inquéritos epidemiológicos. Os números não enganam: a 27 de janeiro havia 40 mil questionários por fazer.

A 10 de fevereiro, no Parlamento, o cenário era confirmado por António Lacerda Sales, secretário de Estado adjunto e da Saúde, com a nuance da recuperação: “Foi possível reduzir, em duas semanas, de 56 mil para 4 mil os inquéritos pendentes.”

Apesar da diminuição, 4 mil inquéritos significam que os contactos de 4 mil doentes ficam por rastrear: não se quebram cadeias de transmissão e não se cumpre a nova estratégia de testagem da DGS. Só é possível testar todos os contactos se todos os contactos estiverem identificados.

Dias depois há nova diminuição e a 16 de fevereiro existiam 999 inquéritos epidemiológicos por finalizar no país, segundo a DGS, numa altura em que professores, médicos, enfermeiros e até militares são chamados para reforçar as equipas.

Há outro problema a associar-se aos inquéritos não feitos. Na maioria dos casos, não é possível detetar a origem do contágio. Na reunião do Infarmed de 19 de novembro, no pico da segunda onda da pandemia, André Peralta Santos, da Direção-Geral da Saúde, afirmava que em 81,4% dos casos de Covid-19 as autoridades não sabem onde a infeção aconteceu. Ou seja, em Portugal os sistemas de vigilância epidemiológica só conseguem chegar à origem de 19% dos contágios. Todos os restantes acontecem por transmissão comunitária, o que quer dizer que não se sabe de onde vêm, nem como acontecem.

Já nesta terceira onda, a 13 de janeiro, dois dias antes do segundo confinamento, o Público escrevia que, à porta fechada, na reunião do Infarmed, o Governo era informado de que a maioria dos casos positivos ocorridos depois do Natal não tiveram o controlo epidemiológico adequado. Em 87% dos casos desconhece-se a origem da infeção — ou porque as pessoas não sabiam apontá-lo, ou porque nunca foram contactadas pela equipa do sistema de vigilância.

“Termos 87% de casos de origem desconhecida é o exemplo típico da qualidade da informação. Algumas das tomadas de decisão basearam-se em 13% dos casos”, lamenta António Diniz, lembrando situações em que membros do Governo negaram haver casos de transmissão nos transportes públicos ou nas escolas. “Como é que se pode dizer isto? Como se, no caso dos transportes, as pessoas fizessem um teste à entrada e outro à saída. A negação deve ser evitada. Nas escolas, o Governo podia dizer que os surtos  não eram significativos e apresentava a informação. Não o fez”, reforça o pneumologista.

Só muito recentemente, o Ministério da Educação disponibilizou alguns dados sobre surtos em escolas, depois de obrigado pelo tribunal, na sequência de uma ação movida pela Fenprof.

Tiago Correia não tem dúvidas de que a falência dos sistemas de vigilância foi um dos grandes problemas na luta contra o SARS-CoV-2. “Há duas formas de controlar a pandemia, ou por aplicações móveis ou por rastreios epidemiológicos. Não há outra forma”, diz. “Os sistemas de vigilância falharam completamente por falta de mãos. Não tenho a certeza se funcionariam se houvesse mãos suficientes, para isso precisávamos de ter experimentado ter os recursos humanos necessários.”

Conclusão

Desde o início da pandemia que são feitas acusações de falta de transparência ao Governo e às autoridades de saúde. A queixa de falha na transmissão de dados sobre a pandemia já foi feita pela Ordem dos Médicos, sindicatos do setor da saúde (e não só), autarcas e partidos de direita e esquerda.

Os dados públicos são escassos, comprometendo algumas reflexões que deveriam permitir fazer.

Os sistemas de vigilância epidemiológica, responsáveis por recolher alguns dos dados mais importantes, têm demonstrado sofrer de vários problemas, não só técnicos, mas também de falta de recursos humanos.

Recomendações

Para evitar que os mesmos problemas se repitam, há várias recomendações que podem ser seguidas.

1) Transparência

  • a) Transparência do Governo e das autoridades de saúde sobre a evolução da pandemia

“A transparência devia ter existido e não existiu desde o início”, defende António Diniz. “Não digo que tenham escondido dados, mas por motivos vários omitiram-nos.” O médico frisa que, por vezes, os dados até existem, mas estão num canto tão inacessível da internet que ninguém lhes consegue chegar. Outras vezes, surgem em formatos que não permitem ser analisados a não ser que sejam copiados, manualmente, um a um, para um novo formato. “Se recebo uma tabela de mil linhas não editável, o que me estão a dizer é para não eu trabalhar esses dados”, argumenta o pneumologista.

António Diniz lembra que são os portugueses que nomeiam os seus representantes e, como tal, “têm direito a ter a informação e o Governo tem obrigação de a dar, até porque a transparência fortalece a confiança”. Assim, são de evitar todas as omissões, atrasos ou bloqueios na prestação de informação.

  • b) Disponibilização de dados detalhados e de fácil processamento

Todos os dados existentes devem ser fornecidos desagregados, de forma transparente, para que as pessoas que queiram possam usá-los, defende Tiago Correia.

António Diniz gostava também de que as autoridades competentes respondessem a algumas questões: “Gostava de ter um relatório feito pela DGS com todos os dados que tem, devidamente trabalhados, e dizendo ‘os dados que recolhemos sistematicamente são estes, permitem-nos saber isto, a conclusão é esta’. É isso que fazem os homólogos da DGS nos países civilizados.”

2) Melhorar os sistemas de vigilância epidemiológica

  • a) Reforçar as equipas dos sistemas de vigilância epidemiológica, responsáveis pelos inquéritos feitos aos doentes Covid que permitem quebrar cadeias de transmissão

Tiago Correia não tem dúvidas de que os sistemas de vigilância falharam por falta de mãos. Uma vez que os rastreios epidemiológicos são a principal ferramenta para detetar e quebrar cadeias de transmissão, defende que esta falha tem de ser corrigida. E basta? “Não tenho a certeza se funcionariam se houvesse mãos suficientes, para isso precisávamos de ter experimentado ter os recursos humanos necessários.”

António Diniz afirma mesmo que se a DGS tem falta de recursos humanos deve dizê-lo frontalmente para que o problema seja reconhecido e resolvido. “Há escassez de recursos humanos? Digam. É importante saber que, por vezes, temos de tomar decisões com base em dados limitados.”

  • b) Aumentar a testagem: todos os contactos de risco de uma pessoa Covid positiva devem ser testados 

Um dos dados mais importantes durante uma epidemia é saber quantas pessoas, em cada momento, estão infetadas. Para sabê-lo é preciso testar a população e, no caso concreto do SARS-CoV-2, testar todos aqueles que mantiveram um contacto de risco com um infetado e que podem, por isso, ter sido contagiados. Garantir que essa pessoa não continue a espalhar o vírus é fundamental para quebrar cadeias de transmissão.

“É espantoso como desde o verão, e até janeiro, existia uma norma da DGS sobre testagem que nem sequer dizia que os contactos de alto risco deveriam todos ser testados. Sete meses depois é que se vem a corrigir isso. Sete meses perdidos”, conclui António Diniz.

Participaram neste volume:

António Diniz
Médico pneumologista
Coordenador da Unidade de Imunodeficiência do Hospital Pulido Valente e da Estrutura Hospitalar de Contingência de Lisboa. Foi diretor do Programa Nacional para a Infeção HIV/sida. Membro do gabinete de crise para a Covid-19 da Ordem dos Médicos. É consultor da  Direção Geral da Saúde.

Tiago Correia
Professor e investigador
Dá aulas na Unidade de Saúde Pública Internacional e Bioestatística do Instituto de Higiene e Medicina Tropical e é investigador sénior do Global Health and Tropical Medicine, do mesmo organismo, e investigador associado do Centro de Investigação e Estudos de Sociologia do Instituto Universitário de Lisboa. É membro do Centro Colaborador da Organização Mundial de Saúde para as Políticas e Planeamento da Força de Trabalho em Saúde e da comissão executiva da Sociedade Europeia para a Saúde e Sociologia Médica.

Filipe Froes
Médico pneumologista
Coordenador da Unidade de Cuidados Intensivos Médico-Cirúrgicos do Hospital Pulido Valente, em Lisboa, é também investigador da Universidade Nova de Lisboa e coordenador do gabinete de crise para a Covid-19 da Ordem dos Médicos. É consultor da Liga Portuguesa de Futebol, da Direção Geral da Saúde e membro do Conselho Nacional de Saúde Pública.

Os restantes especialistas convidados para o painel do Livro Branco da Pandemia:

Roberto Roncon
Médico internista e intensivista
Especialista em Medicina Interna e Medicina Intensiva, trabalha no Centro Hospitalar Universitário de São João, no Porto, onde é coordenador do Centro de Referência de ECMO (Oxigenação por Membrana Extracorporal). Dá ainda aulas de Fisiologia na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto.

Ricardo Mexia
Médico de Saúde Pública e epidemiologista
Membro do Departamento de Epidemiologia do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge, trabalha essencialmente no âmbito das doenças transmissíveis, com foco na investigação e controlo de surtos. Dá aulas como assistente convidado na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa e na Universidade do Algarve. É presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública e vice-presidente da Secção de Controlo de Doença Transmissível da Federação Europeia de Saúde Pública.

Os outros volumes do Livro Branco da Pandemia:

 A estratégia de confinamento/desconfinamento:

O Livro Branco da Pandemia. Como é que Portugal passou de bom a mau aluno no confinamento?

 Os erros de comunicação:

O Livro Branco da Pandemia. Onde é que a comunicação com os portugueses falhou?

 Os lares de idosos:

O Livro Branco da Pandemia. Porque é que morreram tantos utentes de lares de idosos?

A resposta do SNS

O Livro Branco da Pandemia. Porque é que o Serviço Nacional de Saúde quase colapsou?

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