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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

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O quarto submerso, as obras na rua ilegal e o lar ainda por abrir. Como dois idosos morreram em Fernão Ferro na tempestade Cláudia

Moradores apontaram as responsabilidades para as "lentas" obras promovidas pela autarquia ao longo do último ano. Câmara do Seixal atribui culpas ao facto de ser uma construção de génese ilegal.

Cláudio ainda estava em casa quando, de manhã e ao telefone, uma amiga lhe pediu para ver se os pais idosos estavam bem no rescaldo da depressão Cláudia. A rua em Fernão Ferro onde vivia o casal não costuma enfrentar problemas quando se aproximam temporais, mas a chuva foi intensa e Cláudio saiu de casa na Quinta do Conde, a cerca de três quilómetros, para averiguar os possíveis danos. Mais perto do seu destino, deparou-se com uma forte corrente de água pluvial que se havia acumulado na rua Santa Marinha e, ao fundo, a casa dos idosos de 88 anos completamente alagada.

O alerta foi emitido por volta das 9h da manhã de quinta-feira e após uma resposta “muito rápida” ao pedido, Cláudio e os bombeiros entraram pela casa adentro em busca dos idosos. O quarto onde Edviges e Raúl dormiam todas as noites há mais de 40 anos estava quase submerso e, quando as forças de segurança entraram naquele anexo, já nada havia a fazer.

O nível das águas subira em torno da casa. “Eram cerca de dois metros de altura”, descreve Cláudio ao Observador. Onde antes só se via um pinhal e um pequeno vale descampado, surgiu um pequeno lago. O aumento drástico da água deu-se durante a noite, pelo que de manhã o vizinho se deparou com o pátio da casa dos idosos parcialmente submerso. A água chegou a uma das janelas da fachada dianteira, como se pode observar numa fotografia captada pelo próprio e enviada ao Observador perto das 9h.

▲ A casa dos idosos no momento em que Cláudio acorreu ao local

DR

O elevado volume de água terá surpreendido o casal que ficou com os acessos ao quarto bloqueados e inundados. O anexo onde Edviges e Raúl dormiam encontrava-se a um nível inferior ao resto da casa — precisamente no início do vale que se situa nas traseiras da residência —, pelo que a água, ao entrar para dentro da divisão, subiu demasiado.

Quando as autoridades chegaram ao local na manhã de quarta-feira, foram obrigadas a partir uma das janelas na parte da frente da casa, e ainda um muro dentro da propriedade do casal, de modo a conseguirem entrar nas instalações. Quando finalmente conseguiram ultrapassar esta barreira, encontraram os idosos já em paragem cardiorrespiratória.

▲ As imediações da casa e o vale que ficou totalmente inundado durante a noite. Vizinhos e familiares em choque com a morte de Edviges e Raúl

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

As obras de “reconversão” e as casas de génese ilegal. Moradores e autarquia discordam sobre origem do problema

Pouco acontecia naquela parte de Fernão Ferro. Esta quinta-feira, a rua estreita onde passam poucos carros ficou repleta de veículos dos bombeiros e da GNR. Encostado a uma parede estava um grupo de vizinhos do casal, a comentar o que havia acontecido durante a noite. “Em mais de 40 anos, nunca aconteceu uma coisa assim”, referem.

Até há cerca de um ano, a rua Santa Marinha limitava-se a uma faixa de terra batida, relatam. Agora, neste mesmo espaço, vê-se entulho a preencher o espaço entre as casas e algumas sarjetas que parecem ter sido instaladas recentemente — e os moradores questionam se estas estariam funcionais. “Provavelmente nem estão ligadas”, atira um, apontando os dedos à autarquia, numa opinião partilhada pelos vizinhos que prestam apoio aos familiares das vítimas.

“Eu acho que as obras têm influência nisto tudo”, confessa o filho mais velho do casal. “Eles moravam aqui há 40 e tal anos e nunca aconteceu nada assim. Agora, depois destas obras, a água fica aqui toda entupida”, continua Francisco. Na sua ótica, e de muitos outros, este projeto da Câmara Municipal do Seixal para a requalificação da via poderá estar relacionado com a tragédia.

No local, poucas horas depois de terem chegado as autoridades, o vereador com o pelouro da Proteção Civil afastou qualquer responsabilidade autárquica neste caso isolado, quando confrontado pelos jornalistas sobre as queixas apresentadas pelos moradores. “Os moradores todos têm opiniões nestes momentos”, referiu Joaquim Tavares, afirmando que não está em condições de garantir que houve uma relação de causa-efeito.

Assim, não admitindo que as obras iniciadas há mais de um ano tenham sido o fator decisivo para este alagamento sem precedentes, o responsável camarário acrescenta que a casa do casal — como a grande maioria na região — foi construída numa “área urbana de génese ilegal” (AUGI). “É no contexto dessa realidade que estão a ser realizadas obras pela administração da AUGI, que é quem tem a competência nessa matéria”, disse também.

Joaquim Tavares diz que esta ocorrência surge depois de “uma situação muito particular, de uma grande intensidade da chuva”, mas que situações semelhantes “existem há muitos anos e os problemas que tiveram nunca foram desta natureza”. Para o vereador, só havia uma forma de evitar este desenlace trágico: “Não deveria ter havido estas construções nestes sítios”. Questionado se a solução passaria por demolir a casa — antes do episódio desta quinta-feira — o responsável pela Proteção Civil no Seixal admite que não estar a par do processo específico da residência afetada, nem sobre possíveis diligências feitas no passado em relação à sua segurança.

“Está numa situação de construção ilegal, como estão tantas outras na região”, responde aos jornalistas, confirmando que, internamente, “estão a ser vistas soluções para que se possa desativar estas habitações”. Nenhuma das potenciais soluções passa, no entanto, por legalizá-las: “Não, está numa zona ilegal, como é que podia ser legalizada?”.

À Rádio Observador, o presidente da Câmara Municipal do Seixal reforça as palavras transmitidas pelo vereador, esclarecendo que “quase toda a freguesia de Fernão Ferro é de génese ilegal” e que, nesse sentido, a casa do casal de 88 anos que morreu esta quinta-feira estava numa zona “em obras de reconversão”. Sem reagir também às preocupações apresentadas pelos moradores, Paulo Silva acrescenta que cerca de três mil lotes na freguesia estão inseridos neste mesmo plano de reconversão — processo com vista à legalização das construções — que esperam ter concluído até 2030.

“O senhor vereador diz que é ilegal, mas depois recebem os IMIs, recebem tudo… A questão é essa”, reagiu Francisco, o filho mais velho do casal, às declarações da autarquia sobre o episódio. Com várias suspeitas em cima da mesa sobre o que poderá ter estado na origem deste incidente, a Polícia Judiciária chegou ao local rapidamente para assumir as rédeas da investigação, tendo começado imediatamente a inspecionar a casa, a falar com testemunhas e a fotografar as imediações da residência.

▲ Elementos da Polícia Judiciária a efetuar diligências nas imediações da casa onde morreu o casal de 88 anos em Fernão Ferro

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O lar que não abriu, o botão de pânico e a “vida normal”. O quotidiano do casal de 88 anos de Fernão Ferro

Aos 88 anos, Edviges e Raúl continuavam a habitar sozinhos naquela casa que tinham construído há mais de quatro décadas. Mesmo já em idades avançadas, o casal “estava bem de saúde”, adianta ao Observador o filho Francisco. “O meu pai via mal, mas andava. A minha mãe também andava, com uma bengalinha mas andava bem”, continua. Viviam uma vida “normal, sossegadinhos” em Fernão Ferro. Mas com 88 anos, Francisco sublinha que os pais precisavam de um acompanhamento regular no seu quotidiano.

Todas as manhãs, duas funcionárias da Associação de Reformados, Pensionistas e Idosos de Fernão Ferro (ARPIFF) deslocavam-se até ao lote 151 da rua Santa Marinha para auxiliar o casal octogenário. Ajudavam nas tarefas domésticas e traziam o almoço. À tarde, esta responsabilidade acabava por ser partilhada entre os dois filhos, que também vivem nas proximidades. As quintas-feiras eram o único dia da semana em que a rotina era outra. As auxiliares transportavam os idosos para as instalações da ARPIFF a cerca de 3 km de distância, onde passavam as manhãs, sob atenção permanente das enfermeiras contratadas.

“Ao sábado e domingo, íamos sempre tomar café, ia buscá-los, tomávamos o nosso café, tratávamos do almoço — às vezes até era ela quem o cozinhava. Era uma vida normal”, desabafa Francisco, à porta da casa dos pais. Contudo, revela ao Observador que há mais de um ano, Edviges e Raúl haviam sido admitidos no lar da ARPIFF, para estarem acompanhados 24/7, mas que por um alegado “excesso de burocracia”, a abertura oficial das instalações para internamento ainda não estava calendarizada. Ao Observador, a ARPIFF rejeitou prestar quaisquer declarações sobre o tema.

▲ As imediações da casa e o vale que ficou totalmente inundado durante a noite

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Paulo Silva, o presidente da Câmara Municipal do Seixal, afasta qualquer tipo de atraso do lado da autarquia para a abertura do lar, referindo tratar-se de um investimento de três milhões em conjunto com fundos do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR). O projeto estava aprovado, como explica o autarca, mas na sequência de uma “fiscalização da Segurança Social” adicional, foi necessário levar a cabo “obras extra” nas instalações. Já terão sido concluídas e, na semana passada, confirma que houve uma última vistoria — com parecer positivo — e que, por este motivo, deverá começar a funcionar ainda este mês.

Apesar de estarem bem de saúde, Francisco conta ao Observador que a mãe transportava um “botão de pânico” ao peito a todas as ocasiões, com o objetivo de alertar os familiares mais próximos em caso de emergência. “É ideal para idosos. Aquilo lia as suas informações [vitais] e quando se sentia mal, era só carregar e aquilo lançava um alarme. Mesmo se deixasse apenas cair o botão, aquilo emitia um aviso”, explica o filho mais velho. Referindo casos de falso alarme que aconteceram no passado, sublinha o bom funcionamento do aparelho na sua generalidade.

Questionado sobre o facto de não ter sido emitido qualquer alerta durante a madrugada, quando o quarto onde dormiam se encheu com água, Francisco acredita que o botão deverá ter ficado submerso e, por esse motivo, terá deixado de funcionar. Antes, também podia telefonar para a mãe através do número associado ao aparelho, mas agora a chamada vai direta para o correio de voz.

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