Henrique Gouveia e Melo, destacado nas sondagens para as eleições presidenciais, pode ter concorrência militar na corrida a Belém. O major-general Isidro Morais Pereira, militar na reforma e comentador regular de temas militares em meios de comunicação social, diz ter sido tentado por “inúmeras pessoas” e está mesmo a ponderar uma candidatura presidencial. O Observador sabe que o Chega vai ouvir Isidro Morais Pereira — há uma reunião marcada para o início de julho. O major-general não rejeitaria de “forma alguma” o apoio de André Ventura.
Numa entrevista ao Observador que será publicada na íntegra esta quinta-feira, e que poderá ser ouvida na rádio Observador a partir das 19h30, Isidro Morais Pereira confirma que está seriamente a pensar ser candidato presidencial, remete para depois das eleições autárquicas uma decisão final e diz que nunca enjeitaria um apoio do Chega. “Não enjeito o apoio dos partidos porque os partidos fazem parte da democracia portuguesa. O Chega mereceu um apoio significativo dos portugueses, teve mais de um milhão de votantes, é o segundo partido mais representado na nossa Assembleia da República. Não há razão nenhuma para que não aceitasse esse apoio.”
Apesar de não ter tomado ainda uma decisão, Isidro Morais Pereira diz que recebe diariamente incentivos de muitas pessoas para avançar. “Tenho alguma dificuldade em negar quando as pessoas me pedem para servir a causa do país, das pessoas. Toda a minha vida foi dedicada ao serviço público .O que me fascina é poder continuar a servir as pessoas. Agora não com uma farda”, explica. Terá ainda de falar com os seus mais próximos e perceber que condições existem para entrar na corrida presidencial. Nunca antes das eleições autárquicas. “Ainda iria muito a tempo.”
Com Gouveia e Melo descartado, outro militar pode agradar ao Chega
O nome de Gouveia e Melo sempre foi pouco consensual dentro do Chega, com o próprio André Ventura a admitir publicamente que não era “absolutamente unânime“. E se é verdade que o líder do Chega disse ter uma “boa opinião” relativamente ao almirante, também é verdade que a forma como Gouveia e Melo se foi demarcando publicamente do partido foi um gatilho suficiente para que Ventura tomasse uma decisão: o Chega quer ter um candidato próprio a Belém.
Mas o contexto político mudou profundamente desde essa eleição. Com a queda do Governo, novas eleições e a consagração de André Ventura como líder da oposição, o presidente do partido acabou por reconhecer, mesmo sem retirar definitivamente a candidatura, que está focado nesse papel e no Parlamento. Ao que tudo indica, será preciso encontrar uma alternativa a Ventura — e é aí que pode entrar a solução Isidro Morais Pereira.
[A polícia é chamada a uma casa após uma queixa por ruído. Quando chegam, os agentes encontram uma festa de aniversário de arromba. Mas o aniversariante, José Valbom, desapareceu. “O Zé faz 25” é o primeiro podcast de ficção do Observador, co-produzido pela Coyote Vadio e com as vozes de Tiago Teotónio Pereira, Sara Matos, Madalena Almeida, Cristovão Campos, Vicente Wallenstein, Beatriz Godinho, José Raposo e Carla Maciel. Pode ouvir o 6.º episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E o primeiro episódio aqui, o segundo aqui, o terceiro aqui, o quarto aqui e o quinto aqui]
O nome do major-general chegou aos ouvidos do Chega nos últimos tempos e, sabe o Observador, o partido aceitou uma reunião com Isidro Morais Pereira para o início do mês de julho. Diogo Pacheco Amorim e Ricardo Dias Pinto vão conversar com o possível candidato a Belém, sendo que uma próxima reunião com André Ventura só deverá acontecer mais à frente, caso o partido considere viável a hipótese e quando o processo estiver noutro estágio de maturação.
Ainda que a opção de apoiar um militar seja positiva para o eleitorado do Chega — mais ainda quando Gouveia e Melo se afastou e altos dirigentes do partido vão assumindo que não faz qualquer sentido dar apoio a alguém que não o quer e que até passou a ostracizar o Chega —, Ventura poderá ter dificuldades em apoiar um militar que não tenha hipóteses sérias de disputar as eleições — é preciso ainda testar a verdadeira popularidade de Isidro Morais Pereira.
Com um novo militar em campo, Ventura passaria a ter nas mãos uma solução para alguns problemas: não sendo ideal ir a eleições nesta fase em que o Chega precisa de se focar na liderança da oposição, tinha um candidato para apoiar, não ficava fora da corrida e até a questão do mediatismo poderia ser menos um problema, tendo em conta que o major-general é presença assídua nos espaços de comentário — na CNN Portugal e também no programa “Gabinete de Guerra” da rádio Observador.
Por outro lado, e ao contrário de Gouveia e Melo, Isidro Morais Pereira está disponível para receber o apoio do Chega, recusando-se a colocar de parte o partido, assumindo que teria obviamente outro “conforto” em ir às urnas com o apoio de um partido que nas últimas eleições legislativas teve mais de um milhão de votos.
▲ Isidro Morais Pereira (Facebook)
As críticas ao almirante
A entrada de Gouveia e Melo na corrida e a expectativa, alimentada pelo conjunto de sondagens entretanto publicadas, de que os portugueses estão dispostos a ver um militar de novo em Belém motiva ainda mais Morais Pereira. E ainda que se tente distinguir do almirante, Isidro Morais Pereira não nega que o exemplo daquela candidatura o motiva. “Tenho a convicção de que os portugueses têm, neste momento, uma inclinação para um comportamento mais institucional“, diz.
“Tenho a noção de que há uma franja significativa da população que gostaria de ver um homem que merece ser Presidente. Ser Presidente é ter dedicado uma vida à causa pública e o exemplo vivo de alguém que dedica uma vida à causa pública, até com o sacrifício da própria vida, são os militares”, reitera o comentador. “Existe um conjunto muito significativo da sociedade portuguesa que olha para um militar como um homem digno”.
Mas nunca apoiará Gouveia e Melo. “Não me revejo na personalidade do almirante Gouveia e Melo. Há duas formas de estar na vida pública e nas Forças Armadas: olhar para os subordinados, para a missão, para o conjunto e e a olhar para si próprio. É sempre numa perspetiva de chegar mais longe e de carreira. Não me revejo nesse tipo de postura.”
Morais Pereira fala em concreto da repreensão pública feita por Gouveia e Melo a 13 militares que recusaram embarcar no NRP Mondego, na Madeira. “As coisas não se tratam assim, as repreensões dão-se no recato dos gabinetes e os louvores dão-se publicamente. Há coisas que retratam a personalidade das pessoas. Os portugueses querem um Presidente com personalidade, um homem que olha para os outros antes de olhar para si mesmo. Um homem que está disposto a continuar a servir a causa pública. Não sei se Gouveia e Melo é o homem indicado”, justifica.
“Não direi que o homem é um vazio de ideias, mas de facto algumas vezes tem muita dificuldade em manifestá-las. Uma das razões que me pode motivar seriamente a considerar mais este desafio na minha vida enquanto servidor da República é dar aos portugueses outras opções. Se os portugueses querem um militar, se se reveem num perfil de um militar, por que não dar-lhes outra possibilidade? Há outros militares que têm um outro tipo de pensamento, uma postura diferente”, diz Morais Pereira na entrevista.
[Leia a entrevista de Isidro Morais Pereira na íntegra]
“Vai haver tempo para as pessoas se aperceberem de quem é, de facto, Gouveia e Melo”