O Chega e a moção de censura
Jaime Nogueira Pinto
A intervenção de André Ventura foi de grande radicalidade e não teve resposta. E embora praticamente em todos os quadrantes ideológicos se mantenha a crítica a Luís Neves, era garantido que a moção de censura do Chega – por ser do Chega – não passaria e não passou.
A verdade e a realidade estão partidarizadas ideológica e politicamente; não têm substância, só dependem de quem a diz ou propõe. É triste, mas é assim.
O Governo e a moção de censura
André Azevedo Alves
Numa sessão em que brilhou o ex-líder da IL Rui Rocha – com questões directas e assertivas que deixaram Luís Neves notoriamente desconfortável e, uma vez mais, sem respostas adequadas – o resultado foi o pré-anunciado, não colocando em causa a continuidade em funções do governo. Apesar do mal-estar crescente dentro do governo e da AD com a manutenção de Luís Neves como MAI, não houve sinais públicos desse mal-estar durante a discussão da moção mas a cumplicidade das bancadas que apoiam o governo contrastou com declarações como as de Duarte Pacheco, que não se coibiu de afirmar que permanência de Luís Neves no Governo “envergonha o PSD“.
Mesmo rejeitada, a moção de censura acentua o desgaste do governo, ainda que mais pela exposição contínua ao caso Luís Neves e pela não substituição do MAI do que pela moção propriamente dita. Talvez por isso Luís Montenegro tenha achado que este seria um bom dia para anunciar uma descida do IRS e um bónus aos pensionistas, fiel à estratégia adoptada de procurar desviar atenções até que os portugueses se cansem do caso.
Certo é que o governo fica depois de hoje um pouco mais “colado” ao PS – e ambos associados a um bloco central unido na defesa aparentemente incondicional e ilimitada de Luís Neves. Deverá ter ainda uma palavra a dizer o Presidente da República António José Seguro, numa altura em que começa a não ser claro se é Luís Montenegro quem mantém a confiança no seu MAI ou se é Luís Neves quem vai, pelo menos para já, continuando a manter a confiança no seu Primeiro-Ministro.
O PS e a moção de censura
Miguel Santos Carrapatoso
José Luís Carneiro estaria sempre numa posição delicada. Qualquer decisão que não fosse a aprovação da moção de censura seria aproveitada por André Ventura para sugerir que o PS está atrelado ao Governo. Mas os socialistas não querem, não desejam e não podem ir a votos neste momento, pelo que a única saída possível era mesmo o chumbo da moção. No limite, e atendendo às sucessivas sondagens que têm saído, até é bom para o PS deixar Montenegro nesta aparente trajetória descendente, enquanto reclama o título de oposição responsável. “Nunca interrompas o teu adversário enquanto estiver a cometer um erro.” Coisa diferente é a habilidade com que Carneiro tratou o caso Luís Neves — que foi nenhuma. Por variadíssimas razões, os socialistas passaram demasiado tempo mais preocupados com teses de conspiração e em defender o ministro dos ataques de Ventura. Quando tudo se tornou demasiado embaraçoso, Carneiro engrossou a voz e exigiu (com um ar muito constrangido) a cabeça de Neves. Mas era já demasiado tarde para apagar a imagem inicial. Lição para futuro: responsabilidade não deve ser sinónimo de passividade.
O Livre e a moção de censura
Rui Pedro Antunes
A cerca sanitária que a esquerda em tempos prometeu ao Chega tem tido alguns buracos, desde logo nas chamadas coligações negativas. O mesmo se repetiu na moção de censura, em que esse muro se tornou num queijo suíço. PS, PCP e BE preferiram abster-se na moção apresentada por André Ventura (mesmo discordando das motivações e do objeto definido) a levantarem-se ao mesmo tempo que os partidos que apoiam o Governo para votar contra a moção.
O Livre foi, assim, o único à esquerda que se manteve firme a votar contra uma moção do Chega. E com isso marcou uma posição: tudo o que venha do Chega, tem o voto contra do partido. O posicionamento do Livre, por um lado, capitaliza o mais radical voto anti-Chega (dos que defendem que se deve votar sempre contra Ventura). Por outro, não mostrou um (imaturo) pudor de se levantar ao mesmo tempo que a PSD, CDS e IL. Esse lado de aproximação ao centro já tinha, aliás, sido testada quando Rui Tavares se ofereceu para ir a São Bento discutir o orçamento. O Livre quer alargar a base e, para isso, precisa, a espaços, de se demarcar do PS. Neste caso: missão cumprida.