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Oprah faz 65 anos: a força e os fracassos da rainha da TV /premium

Dietas, abuso sexual, negócios falhados, ascensão meteórica. Nasceu na pobreza, fez-se estrela da telerrealidade e foi acusada de maquilhar a América. Descubra os altos e baixos da apresentadora.

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Como é que Oprah se tornou Oprah? Eis uma pergunta que tanta gente faz há vários anos. A apresentadora mais célebre dos EUA, “a rainha da televisão”, como já lhe chamaram, e que, em rigor, já não é apresentadora de televisão – o famoso Oprah Winfrey Show terminou em 2011, depois de 25 anos no ar, com exibição portuguesa na SIC Mulher –, aparece hoje descrita pela revista Forbes como “empresária, filantropa e celebridade”. Foi nisso que ela se tornou. É também a Forbes que calcula a fortuna de Oprah em 2,6 mil milhões de dólares, um valor astronómico, é certo, mas muito abaixo dos lugares cimeiros da famosa lista dos mais ricos, liderada por Jeff Bezos, fundador da Amazon, com 136,7 mil milhões. Foi a primeira mulher negra americana a entrar para este “ranking”, há 16 anos (a única entrada referente a Portugal tem o nome da empresária Maria Fernanda Amorim, que vale 4,7 mil milhões).

Para mudar as voltas ao destino e apanhar o elevador social – essa velha narrativa “self-made”, a que também se chama “sonho americano” –, Oprah Gail Winfrey conheceu um percurso de altos e baixos que merece ser recordado na semana em que completa 65 anos.

[Vídeo: Como a miúda pobre “borbulhou” até ao topo]

A miúda pobre do Mississípi tem agora um império, com uma revista que vende mais que a Vogue americana  (“The Oprah Magazine“, criada há 18 anos) e um canal por cabo de relativo sucesso (OWN, no ar desde 2011). É dona de quatro mansões nos EUA, a mais recente das quais comprada há menos de um ano por 8,2 milhões de dólares na ilha de Orcas, estado de Washington, e faz questão de viajar em jato privado, um Gulfstream G650, considerado um dos melhores do mundo.

Mas mantém a imagem de quem nunca se esqueceu de onde veio. Há uma década, numa palestra perante estudantes, afirmou: “Não completamos o ciclo do sucesso até termos ajudado alguém a subir de patamar e a conseguir uma vida melhor.”

A fama de uma desconhecida

Até 1985, a imprensa americana de grande circulação mal tinha olhado para ela. Nesse ano, é referida pela primeira vez no “New York Times”, de passagem, em artigos sobre “A Cor Púrpura”, filme de Steven Spielberg, com Whoopi Goldberg‎, em que Oprah fez de Sophia. “Um papel que agarrou com elegância”, escreveu o jornal, passaporte para nomeação aos Óscares como Melhor Atriz Secundária. Foi o primeiro filme em que entrou, tinha 32 anos e via-se como uma pessoa ambiciosa, curiosa e simpática.

Nos anos seguintes, foi atriz em séries e telefilmes em catadupa, mas só em 2014 voltou a entrar numa longa-metragem de relevo, com “Selma: A Marcha da Liberdade”, de Ava DuVernay, que ajudou a produzir, razão pela qual recebeu indicação nominal aos Óscares na categoria de Melhor Filme.

Finalmente, em março de 1986, o “New York Times” dedica duas colunas, numa página de seis, à jovem promessa. Começa assim, o artigo: “Oprah Winfrey apresenta um muito popular ‘talk show’ em Chicago, mas diz que, por vezes, quando se olha ao espelho, vê uma pobre miúda de óculos horríveis com aros rococó”.

O texto descrevia o êxito de Oprah como apresentadora e citava-a sobre a chave do sucesso em televisão. Uma frase premonitória de quem já sabia perfeitamente o segredo da TV comercial: “O mais importante é mostrarmos o nosso lado fraco, as pessoas gostam dessa honestidade, sentem-se melhor consigo mesmas”.

https://www.youtube.com/watch?v=QQBnZnqopBs

Foi nesse mesmo ano de 1986 que aquele “talk show” na estação local Chicago WLS-TV, pertencente à cadeia CBS, passou a ser retransmitido em dezenas de outras estações locais americanas. Chamava-se ”AM Chicago” e passou a “’The Oprah Winfrey Show”, o início de audiências recorde nos EUA e da fama planetária.

Ainda estudante na Tennessee State University tinha feito rádio e aos 19 já era repórter e pivô da WTFV. Em 1976 passou a apresentadora do programa “People Are Talking” na estação WJZ, em Baltimore, e as boas audiências levaram a WLS-TV a convidá-la para o “AM Chicago”, em janeiro de 1984. Foi um êxito. Reza a lenda que o produtor musical Quincy Jones, autor da banda-sonora de “A Cor Púrpura”, a terá visto uma vez naquele mesmo canal e lembrou-se de sugerir a Steven Spielberg que lhe desse um papel no filme.

Infância pobre e violação

Parecendo fácil, o percurso desta mulher foi marcado por grandes desaires. E nem no nome próprio as coisas foram simples. Nascida a 29 de Janeiro de 1954 na pequena cidade rural de Kosciusko, estado do Mississípi, onde a população não chegava às sete mil pessoas e hoje pouco passa dessa cifra, Oprah foi registada como Orpah (informação que a própria confirmou há alguns anos nas redes sociais), mas a dificuldade que muitos tinham em pronunciar o nome levou-a a modificá-lo.

Filha de Vernon Winfrey, então com 20 anos e a trabalhar como barbeiro, e de Vernita Lee (1935-2018), então com 18 anos, empregada doméstica e mãe solteira, foi uma adolescente “precoce” e “irresponsável”. Viveu nesses anos em três estados diferentes: primeiro em Kosciusko, Mississípi, com a avó; depois em Milwaukee, Wisconsin, com a mãe; mais tarde em Nashville, Tennessee, com o pai.

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Se aprendeu a ler com a avó antes dos três anos, e logo em criança começou a falar no púlpito de uma igreja batista, também fugiu de casa aos 13, sob ameaças da mãe de que seria levada para uma escola interna. Foi então viver com o pai e aí se manteve até ser adulta. Da mãe não terá tido a atenção que esperava e do pai recebeu apenas disciplina.

Mais tarde, num programa de 1986, entrevistou vítimas de abuso sexual e revelou que também ela tinha sido violada anos 9 anos por um primo de 19 que a tinha convidado para comer um gelado. Voltou a ser violada por outros homens da família, incluindo por um companheiro da mãe, e daí resultou uma gravidez aos 14, que tentou esconder. O bebé nasceu prematuro e acabou por morrer no hospital, revelação feita em 1990 à imprensa por um familiar não identificado, o que deixou a apresentadora muito abalada. Terão sido os episódios mais sombrios da vida de Oprah e moldaram a sua personalidade. “Aprendi que esconder a vergonha foi o mais difícil de tudo”, afirmou.

A “oprificação”

Com óbvias características de líder carismática e ícone pop, terá conseguido tirar da obscuridade e da vergonha temas como a obesidade ou a homossexualidade. Diz-se que foram os programas dela a dar poder às negras americanas e a fazer das entrevistas íntimas com celebridades e anónimos uma marca fundamental do entretenimento televisivo (e não parece que o “daytime” português tenha escapado a isso).

Mas ela não é uma personalidade consensual, e nunca foi. Ainda na década de 90, o “Wall Street Journal” chamou “oprificação” ao efeito da apresentadora na sociedade americana, um efeito que consistia em “tornar a confissão pública uma forma de terapia”. Um crítico da “Spectator” acrescentou que “oprificação” não era mais que uma imagem totalmente maquilhada da América. Um registo de telerrealidade, antes de os “reality shows” serem inventados, uma exploração das emoções, em nome do negócio televisivo.

Estas são as “coisas preferidas” de Oprah Winfrey

Outra expressão corrente, “o efeito Oprah”, descreve o toque de Midas da apresentadora e a estação de economia CNCB chegou a ter um programa a que chamou “The Oprah Effect”. Ela foi capaz de promover as vendas de quaisquer marcas, sempre que falou delas no programa, e ainda hoje é assim, quando empresta a imagem a empresas ou produtos. De livros inócuos, fez “best-sellers”, por exemplo, e hoje aposta tudo na divulgação da Weight Watchers, uma empresa americana criada nos anos 60 para aconselhamento sobre dietas e perda de peso, da qual comprou 10% em 2015

Dietas e vacas loucas

De resto, as dietas têm sido um dos pesadelos da estrela. Ficou famoso o programa de 1988 em que levou para estúdio um carrinho com 30 quilos de gordura animal, exatamente o mesmo que teria perdido em quatro meses de dieta agressiva, período durante o qual disse que passou fome. Oprah afirmou mais tarde que se arrependia daquele estranho momento televisivo, mas ao longo dos anos partilhou com os espectadores outras tentativas de perder peso. Voltou sempre às curvas que a caracterizam e com as quais parece não conviver bem.

A alegada obsessão com o peso será a obsessão de muitas mulheres americanas, diz-se, e o assumir dessa faceta também ajudou a fazer dela uma figura lá de casa para muitas espectadoras.

Nos 25 anos em que se manteve no ar, ajudou a lançar a carreira de vários convidados, desde logo o antigo psicólogo Phil McGraw, que todos conhecem como Dr. Phil, comentador no “show” de Oprah a partir de 1998 e autor de um programa próprio desde há 17 anos.

“Entrar na órbita de Oprah não altera a nossa vida profissional, muda-a para sempre”, afirmou o polémico “especialista”. Dr. Oz, Gayle King, Suze Orman – todos passaram pelo programa e com isso ganharam fama e dinheiro.

Curiosamente, foi num momento baixo da carreira que Oprah conheceu Phil McGraw, durante o chamado julgamento das vacas loucas, em 1998. Um grupo de criadores de gado acusava a apresentadora de prejudicar a indústria em vários milhões, depois de ela ter afirmado no programa que por causa da doença das vacas loucas nunca mais iria comer carne. Oprah contratou então a empresa de Phil McGraw, para a ajudar a preparar a defesa, e esse encontro correu tão bem que ela decidiu contratá-lo como comentador residente. O caso levantou o tema do rigor científico com que se abordam estes temas nos programas de entretenimento, mas ela acabou absolvida.

Oprah a presidente?

Oprah marcou uma era na televisão e é hoje a mulher que muitos desejariam na presidência dos EUA, hipótese que ganhou consistência após o discurso de há um ano, na cerimónia dos Globos de Ouro, quando recebeu o prémio de carreira Cecil B. DeMille – a primeira afro-americana a quem o galardão foi atribuído.

No calor do movimento feminista Me Too, Oprah leu um discurso em teleponto, durante nove minutos, e apelou às mulheres para denunciarem os abusos de poder e o assédio sexual. Nas horas seguintes, as redes sociais e a imprensa punham a hipótese de ela se candidatar às presidenciais de 2020.

Há quem entenda que aquele discurso marcou uma viragem no que sempre teria sido uma atitude complacente da própria Oprah perante o poder. O discurso confessional dos programas e a mensagem de que a mudança e adaptação pessoais ajudariam as espectadoras, sobretudo as de contextos sociais desfavorecidos, não teria sido outra coisa que não uma aceitação da desigualdade.

Simpatizante do Partido Democrata, já em 2006 tinha feito uma sensacional aproximação à vida política, quando revelou publicamente que apoiaria a primeira candidatura de Barack Obama a presidente, o que o terá beneficiado e muito. Ele não se esqueceu: em 2013, atribuiu-lhe uma das mais altas condecorações americanas, a Medalha Presidencial da Liberdade.

Para já, é colaboradora do respeitado programa da CBS “60 Minutos”, onde assina algumas reportagens especiais sobre histórias de vida e casos dramáticos, e mantém a Oprah’s Angel Network, uma instituição de beneficência que já terá ajudado crianças necessitadas nos EUA e em África. No OWN (Oprah Winfrey Network), deverá manter-se como acionista até pelo menos 2025, partilhando dividendos com a Discovery Inc. O canal de “estilo de vida” e “conteúdos espirituais”, cujo arranque em 2011 obrigou a um investimento de 300 milhões de dólares, foi marcado por altíssima expectativa e baixíssimo retorno, a ponto de a empresária ter admitido inúmeros erros estratégicos, mas tem conseguido audiências fortes em alguns programas, muito à conta do público negro feminino com mais de 50 anos.

Uma sondagem da National Public Radio indica que uma maioria de americanos não apoia a eventual candidatura da apresentadora e a própria já repetiu: “Não quero ser candidata.” Mas a expectativa parece manter-se. Depois de conseguir quase tudo o que é possível na indústria do entretenimento, será ela a sucessora de Donald Trump?

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