Catarina Martins, prémio Bloco de Notas

Foi o bloco do Bloco de Esquerda. Chegou, subiu ao palco e dali anotou para o partido ouvir: o voto útil morreu, o poder absoluto do PS é o novo diabo (e agora é a sério), acabou-se o Governo de direita e dêem-nos força para irmos para o Governo. Quer dizer, a líder tentou conter um pouco as rédeas deste último objetivo, ao dizer que isso depende da vontade do povo: “Teremos a força para fazer parte de um governo quando o povo quiser”. Esta nota chegou, no entanto, demasiado tarde. É que enquanto Catarina Martins não estava no palco, lá estava algum dos altos dirigentes bloquistas a reclamar a prontidão do partido para o passo que se segue. Ou seja, a deixar claro que o partido que Catarina agora lidera perdeu a vergonha de equacionar uma entrada no Governo. Ou talvez a nota tenha chegado intencionalmente tarde.

Pedro Filipe Soares, prémio Bloco de partos

Não foi nada difícil fazê-lo pôr no mundo a primeiríssima lista autorizada dos melhores preparados no Bloco de Esquerda para integrarem um Governo. No carpool do Observador foi questionado sobre essa ambição e começou por não negar que ela exista no Bloco de Esquerda. Mais uma curva na estrada e já ditava nomes sem reservas, assumindo ali o que o partido que se apresentou no palco político como “contra-poder” tinha reservas de assumir com clareza e a viva voz até aqui. Para si guardou o papel de obstetra. Faz nascer vários governantes no partido, mas apenas isso. Pedro Filipe Soares prefere ficar de fora: “Não é uma pretensão que tenha. Há um sacrifício pessoal imenso, que não me parece que esteja disponível para ter”. Mesmo excluindo-se, a paternidade da primeira equação governativa do partido já ninguém lhe tira. Isso ou o prémio Bloco de Partos desta Convenção.

Mariana Mortágua, prémio Bloco em Construção

Mariana quer, Pedro sonha e a obra nasce. Ou não. Nem só de blocos se faz uma construção. Tudo começou com “o Chico” — como Louçã é carinhosamente tratado pelos mais próximos no Bloco — a dar música ao seu partido com uma espécie de “ó meu amor algum dia, havemos de chegar ao Governo”. E disse que, nesse dia, longínquo ou não, Mariana Mortágua haveria de ser ministra das Finanças. Em vez de esvaziar o balão e baixar expectativas, Mariana Mortágua, em uníssono com o núcleo duro, arregaçou as mangas disse que já tinha projeto (políticas de esquerda), já tinha mão de obra (ministeriáveis), só faltava o capital (de votos nas legislativas) para avançar com a obra. “Sim, queremos ser Governo”, disse sem medos no último dia da convenção. O Bloco chega-se à frente a dizer que quer ir para o Governo e Mariana é uma das obreiras. Embora já esteja a imaginar Mortágua a apertar “Dijsselbloems” como se fossem “Salgados” nas reuniões do Eurogrupo, falta a outra parte: o PS. O Bloco fala como se não precisasse dos socialistas para governar e, esse sim, parece o regresso à utopia. Falar num Governo de esquerda como se o “penacho” fosse o PS é ir subindo na construção com grande probabilidade de queda. Roubando versos à Construção de um outro Chico (o Buarque) — também querido no Bloco — o partido até pode até subir “na construção como se fosse máquina” e se não erguer “no patamar quatro paredes sólidas”, pode acabar na fatalidade de tropeçar “no céu como se fosse um bêbado“. Ainda assim, prémio Construção para Mariana Mortágua.

Marisa Matias, prémio Euro Bloco

Tal como a Mariza fadista, a Marisa do Bloco já nem precisa de apelido. Só Marisa, chega. Ou, simplesmente, Marisa, como era o nome do seu programa de cometário na TVI. Marisa Matias esteve na melhor votação do Bloco em 2009 (quando era a número dois de uma lista que elegeu três eurodeputados). Em 2014, foi pela primeira vez cabeça-de-lista e conseguiu ser eleita, embora o Bloco tenha perdido dois lugares. Ainda assim, Marisa impôs-se como “senhora Europa” no Bloco e, na Convenção, fica mais uma vez clara forma com que é tratada pelos militantes bloquistas. Coube-lhe a ela apresentar perante os delegados a moção de Catarina, de Pedro Filipe Soares e dos outros “notáveis”. É, sem dúvida, uma das vencedoras da Convenção: foi, em ombros, empurrada de novo para a Europa e ouviu muitos elogios. Ganha por isso, o prémio Euro Bloco.

Luís Fazenda, prémio Bloco de Cimento

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

O resistente, ou o último dos fundadores. No final da Convenção, Luís Fazenda subiu ao palco como um dos nomes que compõem a Mesa Nacional, que é o órgão dirigente máximo entre convenções. Ou seja, é o último dos fundadores a manter-se como dirigente ativo. Enquanto Francisco Louçã e Fernando Rosas influenciam por fora, estando muito presentes da comunicação social, Fazenda mantém-se como guardião da génese bloquista — por dentro.

Mas Fazenda não é só o guardião das fundações, é também o guardião da União Democrática Popular (a UDP), a corrente marxista-leninista que se juntou ao PSR, trotskista, e à Política XXI, social-democrata, para dar forma ao Bloco de Esquerda. Nos discursos dos três fundadores vivos, que os bloquistas ouvem com a máxima atenção, pode dizer-se que Louçã foi o que mais se entusiasmou com a ideia de o Bloco estar a crescer e a assumir responsabilidades (eventualmente governativas), Rosas apadrinhou os novos voos do BE (“ousem lutar, ousem vencer”), e Fazenda pôs os pés na terra: mais força para o Bloco, claro, quanto mais melhor, mas não se esqueçam das amarras do tratado orçamental e das orientações neo-liberais da Comissão Europeia e do Eurogrupo que o PS não vai largar. Tudo para dizer: cuidado com o casamento com os socialistas porque se é para casar com o Eurogrupo, então não.

Por isso, Bloco de cimento.

Ricardo Robles, prémio Bloco de Apartamentos

A luta contra a especulação imobiliária não saiu do discurso de Catarina Martins. O que saiu do discurso (e dos ecrãs da convenção) foi o nome daquele que antes era o principal rosto dessa luta: Ricardo Robles, o vereador do BE em Lisboa que foi afastado depois de ter sido noticiado que ele próprio poderia vir a beneficiar financeiramente dessa mesma especulação imobiliária. A direção do Bloco assumiu o erro, na altura, e deixou o bloquista cair. Como se percebeu nesta Convenção, a queda foi de vários andares.

Arrumado logo na primeira intervenção, Catarina Martins falou de “erros” aos militantes, com um pormenor: em nenhum momento nomeou aquele que chegou a ser uma estrela em ascensão dentro partido: “A decisão de um nosso vereador de vender um prédio de família em Lisboa”, foi um desses erros, e mais não disse sobre ele. No domingo, no vídeo de balanço dos últimos dois anos que foi projetado nos ecrãs, foi como se Robles nunca tivesse existido.

Este fim de semana, ficou em casa mas leva na mesma o prémio Bloco de Apartamentos.

António Costa, prémio Bloco Central

O diabo agora é outro. Dois dias de convenção bloquista deixaram claro que o alvo a abater é uma maioria absoluta do PS. Porque, como fizeram questão de lembrar quase todos os dirigentes que subiram ao palco, os socialistas, sozinhos, têm a tendência natural de virar para o centro-direita (prova disso é o programa eleitoral do PS em 2015, como disseram várias vezes). Sem a influência da esquerda, o PS não tinha descongelado pensões e tinha liberalizado os despedimentos, disse Catarina Martins.

José Gusmão sugeriu mesmo que o PS só fez os atuais acordos com a esquerda por ser a única forma de chegar ao poder. Nada do que se passou nestes três anos serve, por isso, de garantia de que o PS não vai voltar ao seu posto habitual, mais perto da direita, numa próxima oportunidade, que pode ser já em 2019. Será que o PS “se vai lançar ao Rio?”, ironizou o bloquista.

António Costa não foi ao Casal Vistoso, terá assistido a partir de casa, mas mandou em sua representação a secretária de Estado adjunta, Mariana Vieira da Silva, que viu com naturalidade as ambições dos bloquistas: “em ano eleitoral todos os partidos em ano eleitoral querem ser governo”, disse no final.

Por tudo isto, com medo que António Costa se lance ao Rio: prémio Bloco Central.

Francisco Louçã, prémio Bloco Infantil

Foi um regresso à sala de estar da nossa infância, quando havia o “Agora Escolha” e o Bloco A e o Bloco B para decidir, e por vezes passava um bloco infantil pelo meio. Os bonecos, enquanto se fazia a difícil escolha entre Michael Knight e o seu Kitt ou mais um episódio do Duarte e Companhia. Na sua intervenção, Francisco Louçã pareceu sempre mais inclinado a escolher o profissional justiceiro do carro moderno, em vez do grupo de detetives risíveis do Citroen 2 cavalos. Chegou contra “os rufias que tomaram conta da direita” e as fake news que são “terreno fértil para o crescimento da extrema-direita e dos populismos”. E ainda a pôr o partido que ajudou a fundar como “a segurança contra esse imenso partido da corrupção, que vai dos submarinos aos vistos gold e às Parcerias Publico-Privadas”. Os maus a ganharem aos bons. Bom, na verdade Louçã prefere vestir ele mesmo a fatiota de super herói do espaço, bem ao modo Buzz Lightyear do Toy Story para dizer ao seu partido que vá “até ao infinito e mais além”. Só lhe faltou chegar com um equipamento propulsor nas costas, mas se calhar era excessivo, tendo em conta que a distância que tem mantido das grandes decisões do Bloco desde que saiu também não obriga a fazer um percurso assim tão longo.

José Soeiro, prémio Bloco de Pedra

Apareceu com uma luva, uma pedra e uma t-shirt (com uma inscrição sobre os cuidados informais) no palco e arrancou da sala um dos maiores aplausos do primeiro dia da Convenção — no segundo também foi um dos mais aplaudidos quando chamado a assumir o seu lugar na Mesa Nacional do partido. José Soeiro escolheu aquele símbolos para representar, respetivamente, os trabalhadores de limpeza, os trabalhadores das pedreiras e o trabalho do Bloco no Parlamento. Merece o prémio Bloco de Pedra, mas não só pela originalidade de ter transportado uma para o palco da Convenção. Olhemos para Soeiro antes como merecedor do Bloco de Pedra… filosofal. É o deputado que tem nas mãos os quentes temas laborais em que o partido põe a esperança de poderes incríveis, quem sabe de transformar metal em ouro (nas negociações com o Governo naquelas matérias) ou chegar mesmo ao elixir da juventude que prolongue no Bloco aquela irreverência juvenil que o lugar ao lado do PS parece ter feito acomodar-se.

Moção M, prémio Bloco de Samba

Se o mundo ficar pesado
Eu vou pedir emprestado
A palavra poesia

Esta quadra não o mostra, mas a letra do Samba da Utopia termina com a palavra “Utopia”. Durante a convenção, a moção M, assumiu-se como a esquerda do Bloco de Esquerda e foi partilhando as intervenções críticas (e o Samba da Utopia) na página do movimento no Facebook: “Um Bloco que não se encosta”. Foi dali, da extrema-esquerda da sala, que os jovens estudantes e precários definiram a sua estratégia. Foram os críticos mais ferozes da atual direção: são contra a geringonça, querem um Bloco mais radical, que regresse às raízes de partido anti-sistema e não encostado ao sistema. Ganha o prémio Bloco de Samba, porque fez-se ouvir no sambódromo do Casal Vistoso, mas ainda tem muito que sambar para se afirmar como um caso sério. É a moção autocarro: tem 40 votos, cabem todos num.