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epa12623303 Government supporters stage a rally near the Mireflores Palace demanding the 'return' of Venezuelan President Nicolas Maduro, Caracas, Venezuela, 03 January 2026. US President Donald Trump has announced that the United States has 'successfully captured' Venezuelan President Nicolas Maduro and his wife following a series of large-scale military strikes on Caracas on 03 January 2026. The Venezuelan government has accused Washington of launching a wave of military attacks against civilian and military targets across the country early 03 January morning.  EPA/MIGUEL GUTIERREZ
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MIGUEL GUTIERREZ/EPA

MIGUEL GUTIERREZ/EPA

Os erros do Iraque, os custos militares prolongados e a Europa à espreita. Que impacto pode ter a questão da Venezuela nas contas dos EUA?

Os EUA assumiram a liderança da Venezuela durante um período de transição. Mas caso a situação se prolongue — como aconteceu no Iraque — o impacto pode ser negativo, alertam especialistas.

A promessa foi feita por Donald Trump pouco depois de ter garantido que os EUA iriam gerir a Venezuela durante um período de transição após a captura de Nicolás Maduro. “Não nos vai custar nada, porque o dinheiro a sair do chão é considerável”. Foi assim que o Presidente dos EUA quis tranquilizar a sua base de apoio (mais preocupada com a gestão interna e a inflação) e apontou ao objetivo de lucrar com a exploração do petróleo venezuelano.

“Queremos segurança lá, mas vamos reconstruir e não vamos gastar dinheiro”, especificou ainda Trump. Mas se o dinheiro conseguido com esta exploração pode demorar cinco a sete anos para gerar retorno, há ainda dúvidas quanto aos gastos militares que os EUA terão de fazer para assegurar o controlo do poder na Venezuela. Se é certo que, formalmente, o governo do país sul-americano está entregue à agora Presidente Delcy Rodriguez, chávista, sucessora de Maduro, mas que supostamente terá de cumprir ordens de Washington, os norte-americanos têm uma equipa — com o secretário de Estado, Marco Rubio, e o secretário do Departamento da Guerra (antiga Defesa), Pete Hegseth — a colaborar com a antiga vice-presidente para uma “transição democrática”.

“A ação do fim de semana na Venezuela também levanta questões fiscais. Não está claro como, se é que, os EUA pretendem atuar na Venezuela, mas as incursões militares carregam um custo fiscal”, disse Paul Donovan, economista-chefe do suíço UBS. Ouvidos pelo Observador, peritos em geopolítica manifestam que a ação militar em solo venezuelano não representará grandes despesas, o que poderá mudar se esta operação se prolongar no tempo. Para isso, dizem que os EUA têm que aprender com os erros do passado.

“Os EUA são uma potência mundial e, sendo uma potência mundial, têm muito mais recursos disponíveis do que todos os outros países. O que os EUA fizeram foi fragilizar politicamente o governo da Venezuela. O que vamos assistir nos próximos dias é uma tentativa dos EUA aproveitarem a fragilização, ameaçando sempre com o retorno de uma opção de natureza militar. Essa opção é dispendiosa e tem riscos. (…) A colocação de forças no terreno mostrou-se desastrosa naquilo que foram as últimas intervenções militares no Iraque ou no Afeganistão”, resume o major-general Arnaut Moreira.

epa12624868 US President Donald Trump speaks during a news conference at the Mar-a-Lago Club in Palm Beach, Florida, USA, 03 January 2026. Venezuelan President Nicolas Maduro has been charged in the US after he was captured and flown out of Venezuela, following a series of airstrikes that mark an extraordinary escalation in the Trump administration's months-long campaign against the country.  EPA/NICOLE COMBEAU / POOL

▲ “Não nos vai custar nada, porque o dinheiro a sair do chão é considerável”, disse Trump sobre a gestão da Venezuela

NICOLE COMBEAU / POOL/EPA

Ataque cirúrgico a Maduro foi a “opção mais barata”. Mas os EUA têm recursos que mais nenhum país tem

A operação “Resolução Absoluta”, que resultou na captura de Nicolás Maduro e da primeira-dama Cilia Flores, apostou no secretismo para conseguir o objetivo. Mas não foi por ter sido discreta que envolveu poucos meios, bem pelo contrário. As mais de 150 aeronaves utilizadas, o navio que levou o casal para os EUA e as equipas constituídas por militares de topo representam um gasto avultado.

As cinco horas de missão escondem uma preparação de meio ano que, naturalmente, representou gastos para os Estados Unidos da América. “As despesas de operação são imensas, mas são equivalentes a um grande treino conjunto. Não seriam muito maiores do que foram da operação real”, disse António José Telo, antigo professor catedrático de história na Academia Militar.

Assim, independentemente dos custos já realizados para conseguir capturar Maduro, as grandes dúvidas prendem-se com o que poderão ser os próximos gastos, tendo em conta que o próprio Trump admitiu vir a realizar mais ataques — que até já estavam preparados — para conter qualquer reação da Venezuela. “A opção dos EUA  é uma opção mais barata, esta dos ataques de natureza cirúrgica como forma de pressão, mas sem deslocar efetivos militares para uma ocupação efetiva do território venezuelano”, explica Arnaut Moreira.

Trump prometeu e cumpriu: derrubou Maduro. EUA assumem controlo político da Venezuela, mas vai resultar?

Mesmo que sem a aplicação da força, continua a existir presença militar, pelo menos, a vigiar o território agora controlado pelos norte-americanos. No entanto, o major-general explica que a despesa com essa mobilização iria acontecer sempre. “As forças navais que os Estados Unidos têm destacadas custam dinheiro, independentemente do sítio onde estiverem”.

“O orçamento da defesa norte-americana não é gravemente afetado se as forças se mantiverem, se os navios se mantiverem em operações naquela zona. A operação dos navios custa dinheiro em qualquer parte do mundo. O que faz subir tremendamente os custos é uma ocupação de natureza territorial, porque a partir desse momento é preciso instalar bases, sistemas antiaéreos. Isso é uma coisa que custa caríssimo. Do ponto de vista dos gastos, esta opção de manter aquele dispositivo naval, pode não comportar gastos excessivos, porque de qualquer maneira, aquelas tripulações teriam que ser pagas, independentemente do lugar onde estivessem”.

Mas José Telo desvaloriza e lembra que o problema da dívida norte-americana (a maior, em termos absolutos, de todos os países) “dura há 50 anos”, pelo que não é a decisão de atacar Caracas e gerir, temporariamente, a Venezuela que provocará um rombo nas contas da Casa Branca. “Desde há 50 anos que a dívida americana cresce, cresce, cresce a um ritmo impressionante todos os anos. Neste momento são 39 biliões. Portanto, não é um problema a curto prazo”.

Os dois especialistas apontam para o poderio norte-americano, para salientar que se trata de uma potência com recursos fora do alcance de outros países — tanto a nível económico como em termos militares. Assim, a decisão tomada por Trump de capturar o inimigo venezuelano terá sido ponderada tendo em conta todos os fatores.

“No leque das várias opções, a opção militar é apenas uma das que os EUA dispõem para tratar o problema da Venezuela”, com o objetivo de aproximar Washington de Caracas e iniciar um diálogo que com Maduro, destaca Arnaut Moreira, não era possível.

epa12628901 Captured Venezuelan President Nicolas Maduro and his wife, Cilia Flores, arrive at the Wall Street Heliport during their transport to the federal courthouse for their arraignment in New York, New York, USA, 05 January 2026.  EPA/Stringer

Stringer/EPA

EUA terão aprendido com erros cometidos no Iraque? “Plano diferente” na Venezuela pode tornar “negócio” viável

Enfatizando o poder e a vastidão de recursos dos norte-americanos, os peritos apontam num sentido comum que pode traduzir o sucesso, do ponto de vista dos EUA, da ação em terreno venezuelano. O petróleo, e a sua extração, ditarão os festejos da Casa Branca.

“Se o petróleo começar a funcionar dentro do que era a produção normal antes de o regime de Maduro ter arruinado por completo a indústria, se isso acontecer em poucos meses, a situação económica é recuperável. Será uma fonte muito grande de rendimento para as empresas americanas e logo também indiretamente para os Estados Unidos”, disse José Telo. “Do ponto de vista financeiro e económico, é um excelente negócio se o projeto americano funcionar, coisa que não é certa”.

No entanto, o futuro deste “excelente negócio” pode estar envolto em mais incertezas do que certezas, podendo uma recuperação de “poucos meses” não passar de uma expectativa bastante otimista. O ex-ministro da Economia António Costa Silva (e antigo líder da Partex, a empresa da Fundação Gulbenkian para a exploração de petróleo) já explicou ao Observador que a reabilitação da infraestrutura petrolífera do país pode custar até 100 mil milhões de dólares e demorar cinco a sete anos a gerar retorno.

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O antigo professor catedrático reforça que a intenção dos EUA é aproveitar “para sempre” a exploração de petróleo, independentemente do tempo que demorar até começar a dar retorno financeiro. “É uma produção muito importante, que não está a chegar aos mercados há anos. De repente, passa a chegar ao mercado, ainda por cima com uma distribuição que passa a depender dos Estados Unidos e não da Venezuela. Vai alterar significativamente, não só os preços do petróleo, mas também a circulação do petróleo”.

Ainda assim, a grande dúvida que pode afetar a viabilidade económica da ação em solo venezuelano prende-se com a postura norte-americana, que terá de ser diferente da que se viu no passado em outras ocasiões. “A colocação de forças no terreno mostrou-se desastrosa naquilo que foram as últimas intervenções militares no Iraque ou no Afeganistão, em que os resultados de natureza política não foram conseguidos através da aplicação do instrumento militar durante largos períodos de tempo”. Portanto, Arnaut Moreira acredita que os EUA terão “aprendido com estas lições” e “tenderão sempre a evitar uma intervenção de natureza militar que obrigue a ocupação através de tropas ou de controlo físico na Venezuela”.

A ideia de lição aprendida com os erros do passado é corroborada por José Telo. “Dá-me ideia que há aqui um plano diferente, porque as coisas não correram bem no Iraque”. Para o historiador, a intenção de “desmantelar o regime de Saddam Hussein” estragou os planos americanos — também, como se veio a verificar, centrados no petróleo.

“É diferente do Iraque, porque no Iraque havia aquela ideia do Bush que ‘estes países querem democracia ocidental’ e como tal, basta chegar lá e de repente tornam-se todos democráticos e isto passa a funcionar maravilhosamente. Que é uma ideia completamente utópica para não se chamar outra coisa”. Essa visão, sustentada pelo professor catedrático no facto de a Casa Branca não ter atacado a cúpula do regime venezuelano, é mais “pragmática”. “Dá-me a ideia que há um acordo claro com a vice-presidente e, sobretudo, com os militares. Quem governa a Venezuela são os militares — que são numerosos. São 2300 generais, que é o triplo de generais que os Estados Unidos têm”.

Este “acordo” pode justificar a opção de Donald Trump afastar, por enquanto, a Nobel da Paz María Corina Machado do poder. Segundo revelou o Washington Post, o Presidente dos EUA tomou a sua decisão de colocar Delcy Rodriguez como Presidente depois de ler um documento da CIA que explicava que os aliados de Maduro estariam melhor posicionados para liderar um governo de transição — já que, ao contrário de Corina Machado, teriam o imprescindível apoio militar.

Assim, só tirando proveito da exploração do petróleo e “não tendo a intenção” de instalar uma democracia de um dia para o outro — o que “iria provocar uma situação semelhante à do Iraque” — é que os EUA podem tirar proveito económico da permanência na Venezuela.

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“De repente, com a situação da Venezuela, desapareceu a questão ucraniana”. Europa fica mais frágil?

Com os esforços concentrados na recuperação das esferas de influência no “quintal” dos EUA na América Latina, também os gastos estão mais voltados para essa zona do globo e longe da Europa. Como consequência, a ajuda norte-americana pode começar a escassear na Ucrânia, apesar dos apelos de Volodymyr Zelensky, que já confessou que sem a ajuda da Casa Branca, o seu país “vai perder a guerra” com a Rússia.

Estão os EUA a deixar de apoiar a Europa e a deixar os europeus encarregues dos seus próprios problemas? “Eu julgo que isso já aconteceu de alguma maneira”, desabafa Arnaut Moreira, que aponta outra preocupação. “De repente, com a situação da Venezuela, desapareceu a questão ucraniana”.

“E ao desaparecer, também os governos europeus se sentem menos pressionados a continuar a apoiar militarmente e financeiramente a Ucrânia. Portanto, de alguma maneira, o deslocar do foco das atenções mediáticas para a Venezuela vem efetivamente prejudicar o apoio europeu à Ucrânia”.

A possibilidade de a administração de Trump estar a abdicar de apoiar a Europa é, para José Telo, mais do que uma hipótese, uma realidade assumida pela Casa Branca. “Há uma coisa que não podemos acusar o Trump e a sua administração, que é de mentir”. Através de documentos oficiais públicos, os EUA têm manifestado “claramente” a vontade de se concentrar nas questões internas.

Explicador. Terras-raras, controlo de rotas e “fim da NATO”: o que é que a Gronelândia tem para poder ser o próximo alvo de Trump?

Esta atitude, com sucessivos avisos a outros países — desde a Dinamarca (pela Gronelândia) a Cuba e à Colômbia — mostram a atitude do Presidente Republicano. “O que ele está a dizer é “aprendam de uma vez que o mundo mudou e que o que valia anteriormente já não vale agora”.

José Telo acrescenta que a mudança não é “assim tão grande” e reflete-se no poder de veto que os “grandes países” sempre tiveram no Conselho de Segurança da ONU. “Os grandes têm direito de veto e se não gostarem de uma resolução do Conselho de Segurança, ela não avança. Pura e simplesmente. Basta um veto para ela parar. Os [países] pequeninos até podem estar no Conselho de Segurança, mas não têm esse direito de veto”.

Mesmo que “uma parte substantiva” do armamento dado à Ucrânia seja “pago pela Europa”, este “continua a ser fornecido pelos EUA”, o que mostra, segundo o professor, não só a dependência que existe dos americanos, mas também a impossibilidade de uma equiparação militar, que torna, por exemplo, uma tentativa de resistência militar pela Gronelândia impossível.

“Em termos militares, a Gronelândia é indefensável contra os Estados Unidos. Não tem defesa militar possível. A única defesa que tem é em termos políticos e diplomáticos. Nem que a Europa em peso se pusesse por trás da pequenina Dinamarca… não tem meios para isso”. Além de os países da União Europeia gastarem bem menos que os EUA, José Telo lembra que “não há coordenação” e que há meios repetidos entre cada país.

“Não há resposta possível que a Europa possa dar [em caso de ocupação da Gronelândia]. Não há resposta possível. Estaria sempre condenada ao insucesso. A defesa tem que ser no campo político e diplomático. É aí que várias coisas são possíveis”.

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