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Acompanhe o nosso artigo em direto sobre a captura de Maduro
A ameaça pairava no ar há meses. Os Estados Unidos da América (EUA) foram cercando a costa da Venezuela, enviaram os melhores equipamentos de guerra para as Caraíbas, levaram a cabo os primeiros ataques aéreos e até terrestres. Este sábado, foi o culminar de um detalhado plano para derrubar o líder do regime venezuelano, Nicolás Maduro, detido em Caracas e levado à força para território norte-americano. O Presidente descrito por Washington descrito como um “narcoterrorista” e “ditador” foi derrubado.
Chefiando o país desde 2013 como sucessor de Hugo Chávez, Nicolás Maduro era um líder cuja legitimidade internacional era questionada após as eleições presidenciais de 2024, principalmente após as acusações de fraude. Dentro de fronteiras, anos de inflação muito elevada, preços altos, repressão e condições de vida precárias para grande parte da população converteram o Presidente deposto numa figura impopular. O líder venezuelano mantinha-se no poder graças a umas leais Forças Armadas, à indústria petrolífera e a aliados estrangeiros como a Rússia, Cuba, a China ou o Irão.
Apesar de todas estas condicionantes, foi a pressão militar norte-americana que derrubou este sábado o regime, numa demonstração clara da Doutrina Monroe — que institui o controlo geopolítico do Hemisfério Ocidental pelos Estados Unidos. Intervindo diretamente na soberania de um país estrangeiro, a administração Trump assegurou que vai governar a Venezuela nos próximos tempos,numa solução que será, ao que tudo indica, provisória.
▲ Nicolás Maduro detido
Nas eleições de 2024, a oposição venezuelana recuperou da débâcle e do falhanço de Juan Guaidó em pôr fim ao regime de Nicolás Maduro. Liderado por María Corina Machado, um forte movimento popular apoiou a candidatura à presidência de Edmundo González, que garante ter vencido as presidenciais. Mas o desejo destes dois políticos não se deve concretizar em breve; numa conferência de imprensa este sábado, Donald Trump colocou de parte a possibilidade de as principais figuras da Venezuela assumirem o poder para já.
Os Estados Unidos estão a ultimar os pormenores sobre quem vai governar a Venezuela. Donald Trump referiu que estão a “designar pessoas” para liderar o país e que serão publicados mais detalhes em breve sobre a sua identidade. Com uma base eleitoral normalmente adversa a intervenções no estrangeiro, o líder norte-americano não recusou sequer o cenário de “botas no terreno” e de enviar militares dos EUA para o território venezuelano.
Como vão os EUA governar a Venezuela? Pode haver “botas no terreno” e através dos lucros de petróleo
O Presidente norte-americano afirmou que os Estados Unidos vão governar a Venezuela até que possa ser feita uma “transição segura, adequada e judiciosa”. Para colocar isso em prática, Donald Trump não pretende “envolver outra pessoa no poder”. Criticando a governação “horrível” do “ditador” e “terrorista” Nicolás Maduro, o chefe de Estado ambiciona ver “paz, liberdade e justiça para o grande povo da Venezuela”: “Isso inclui muitos daqueles que estão a viver nos Estados Unidos e querem voltar ao país”. “A população está livre outra vez”, acrescentou.
▲ Manifestante agradece a Trump pela queda de regime
AFP via Getty Images
Economicamente, as reservas de petróleo serão um grande atrativo para os Estados Unidos na gestão da Venezuela. Donald Trump admitiu que as “grandes petrolíferas norte-americanas vão gastar mil milhões de dólares” e “consertar as infraestruturas degradadas” do país. “Vão começar a fazer dinheiro para o país”, detalhou. Essa “riqueza” vai ser canalizada, prometeu o Presidente norte-americano, primeiro para o “povo da Venezuela” — mas também vai para os EUA “como uma forma de reembolso pelos danos causados” pelo antigo regime.
Este motivo económico estará inteiramente conectado com a gestão política. Donald Trump não recusou a hipótese de os Estados Unidos governarem a Venezuela “durante vários anos”, de forma a receber os tais “reembolsos”. E isso, garantiu, não “vai custar nada” aos bolsos dos norte-americanos, por causa dos lucros que vão gerar as riquezas naturais do país da América do Sul: “Queremos segurança lá, vamos reconstruir o país e não vamos gastar dinheiro.”
De qualquer forma, permanecem várias incógnitas na maneira como os Estados Unidos vão gerir a Venezuela: vão nomear uma equipa de transição norte-americana ou vão contar com venezuelanos? Que justificação legal vão usar? Na conferência de imprensa, Donald Trump foi parco em detalhes — e apenas referiu que o secretário de Estado, Marco Rubio, e o secretário do Departamento da Guerra (antiga Defesa), Pete Hegseth, estão a tratar do assunto.
▲ Protestos contra Estados Unidos em Caracas
Getty Images
Marco Rubio está também a tratar da transição de perto com Delcy Rodríguez. A antiga vice-presidente que tomou posse como Presidente de transição — tal como estipulava a Constituição venezuelana — foi bastante dura na reação inicial à captura de Nicolás Maduro, garantindo que “nenhum governo exterior” ia “dar ordens” à Venezuela.
Esta retórica dura contra os Estados Unidos — que também foi usada por outras figuras do regime, como o braço direito de Nicolás Maduro, Diosdado Cabello — não abrandou. Na conferência de imprensa, Donald Trump assegurou que Delcy Rodríguez está a colaborar com os Estados Unidos e terá dito que o atual regime vai “fazer o que os EUA precisarem”.”Ela não tem hipótese”, atirou o chefe de Estado norte-americano.
Mas a Presidente interina da Venezuela desafiou a presidência norte-americana após a conferência de imprensa. “Se há algo em que o povo venezuelano e este país são claros é que nunca voltaremos a ser escravos, que nunca voltaremos a ser uma colónia de qualquer império, seja qual for a sua natureza”, declarou Delcy Rodríguez, contrariando aparentemente a versão de que estaria a colaborar com os Estados Unidos.
▲ Presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez
Ronald Pena R/EPA
Esta atitude de contestação pode, ainda assim, custar caro a Delcy Rodríguez. Ao longo das últimas horas, Donald Trump nunca colocou de parte um novo ataque contra a Venezuela. Numa entrevista à Fox News, o Presidente norte-americano avisou que os EUA poderiam novamente atacar o país (ou mesmo os rostos políticos do regime) se se “mantivessem fiéis” a Nicolás Maduro: “O futuro será realmente muito mau para eles”. Apesar disso, o líder dos Estados Unidos já assinalava que acreditava que a “maioria se converteu” — e que deverá ceder o poder.
Sem um líder e ainda sob ameaça norte-americana, o regime venezuelano que foi liderado por Nicolás Maduro parece ter assumido que já não tem capacidade para enfrentar os Estados Unidos, embora conteste e use uma retórica hostil contra os EUA. Em paralelo, Donald Trump assumiu que os EUA terão uma certa “presença” militar, o que assusta muitos rostos que foram leais ao Presidente deposto: “Não temos medo de ter botas no terreno. Tivemos botas no terreno esta noite ao mais alto nível”.
Na Venezuela, apesar de figuras do regime de Nicolás Maduro terem pedido para as pessoas saírem às ruas, tem havido uma fraca mobilização popular em redor do Presidente venezuelano deposto. Segundo a imprensa da Venezuela, houve algumas manifestações de apoio nas últimas horas, é certo, mas foram limitadas e não tiveram grande impacto.
Oposição liderada por Corina Machado não deverá assumir o poder
Desde que Donald Trump regressou à Casa Branca, María Corina Machado tem feito vários elogios ao Presidente norte-americano e a Marco Rubio, com a esperança de que a atual presidência norte-americana interviesse e derrubasse o regime de Nicolás Maduro, o que seria um passo natural para que a oposição pudesse tomar posse. Este sábado, este desejo concretizou-se — mas não totalmente.
Horas após a operação militar norte-americana, a oposição venezuelana mantinha-se em silêncio e recusava fazer comentários. Antes da conferência de imprensa, María Corina Machado emitiu um comunicado em que celebrava o facto de Nicolás Maduro passar a “responder perante a Justiça Internacional pelos crimes atrozes cometidos contra os venezuelanos e contra cidadãos de muitas outras nações”.
“Chegou a hora de a soberania popular e a soberania nacional mandarem no nosso país. Vamos pôr ordem, libertar os presos políticos, construir um país excecional e trazer os nossos filhos de volta a casa. Lutámos durante anos, demos tudo, e valeu a pena. O que tinha de acontecer está a acontecer”, afirmou María Corina Machado, que considera que Edmundo González devia tomar posse como “legítimo Presidente da Venezuela”. “Deve assumir de imediato o seu mandato constitucional e ser reconhecido como comandante-chefe.”
▲ María Corina Machado, a líder da oposição venezuelana
MIGUEL GUTIERREZ/EPA
A oposição venezuelana garante que Edmundo González venceu as eleições presidenciais de 2024, guardando as atas como provas e até revelando a sua versão dos resultados, bastante diferente da oficial publicada pelo regime. Por causa disso, María Corina Machado assumia-se “preparada” para apoiar a tomada de posse do seu aliado político para concretizar a “transição democrática”.
Mas essa transição para a democracia não será feita por uma plataforma da oposição. Será feita pelos Estados Unidos. Sobre María Corina Machado, Donald Trump assinalou que não falou com a política antes da operação militar e atirou: “Acho que será muito difícil para ela ser a líder [da Venezuela]. É uma mulher muito simpática, mas não tem apoio ou respeito dentro do país“.
Nas intervenções públicas que foi fazendo, Donald Trump nem sequer precisou um horizonte temporal para que possa haver novas eleições ou um prazo para uma transição de poder, o que complica ainda mais os desejos da oposição de assumir o poder a curto prazo.
O regresso da Doutrina Monroe e os avisos à Colômbia e a Cuba
Em novembro de 2025, os EUA desvendaram a sua Estratégia de Segurança Nacional. E o documento deu detalhes sobre que política é que vão seguir na América Latina: “Após anos de negligência, os Estados Unidos vão reafirmar e fazer cumprir a Doutrina Monroe e restaurar a proeminência no Hemisfério Ocidental e proteger a pátria”.
Este sábado, Donald Trump voltou a evocar a Doutrina Monroe para justificar a ação militar na Venezuela. “Sob a nossa estratégia de segurança nacional, o domínio norte-americano norte-americano nunca mais será questionado. Estamos a consolidar o poderio norte-americano na nossa região“, afirmou o Presidente dos Estados Unidos.
Para a comunidade internacional, esta operação demonstra que os Estados Unidos farão tudo para reassumir o protagonismo na América Latina. Em 2025, os EUA já tinham apoiado certos candidatos em algumas eleições. Por exemplo, antes das legislativas na Argentina, Donald Trump concedeu um empréstimo de 20 mil milhões de dólares (cerca de 17 mil milhões euros) ao Governo de Javier Milei, cujo partido acabou por vencer o ato eleitoral.
▲ Donald Trump admitiu o retorno à Doutrina Monroe
PRESIDENTIAL PRESS SERVICE / HANDOUT/EPA
As ações militares na Venezuela mostram, pela primeira vez, que os EUA estão dispostos a usar a força militar para manterem a sua hegemonia no Hemisfério Ocidental. Estes ataques serviram, assim, como um aviso a governos na América Latina com os quais os Estados Unidos mantêm relações diplomáticas tensas, como a Colômbia liderada por Gustavo Petro ou a Cuba de Miguel Díaz-Canel.
Nos últimos meses, Donald Trump já deixou várias ameaças ao líder da Colômbia, ameaçando que Petro poderia ser o “próximo alvo” dos Estados Unidos depois da Venezuela. Este sábado, o Presidente norte-americano voltou a ameaçar o Presidente colombiano: “Ele está a produzir cocaína e estão a enviá-la para os Estados Unidos. Por isso, ele tem mesmo de ter cuidado”.
A mesma ameaça foi feita ao regime cubano liderado por Miguel Díaz-Canel. Donald Trump antecipou que se “acabará por falar sobre Cuba”, porque é um “Estado falhado”: “Queremos ajudar as pessoas. É muito similar [à Venezuela] no sentido de que queremos ajudar a população de Cuba, mas também queremos ajudar as pessoas que foram forçadas a sair de Cuba” e que vivem nos Estados Unidos.
▲ Gustavo Petro, Presidente da Colômbia, está sob a mira norte-americana
CARLOS ORTEGA/EPA
Na conferência de imprensa, Marco Rubio, filho de exilados cubanos e um dos críticos mais acérrimos de Miguel Díaz-Canel, foi ainda mais duro. Cuba é atualmente liderada por “homens incompetentes e senis”, destacando que a Venezuela estava a ser controlada por uma rede de espiões “cubanos”. “Aquela pobre ilha dominou a Venezuela”, lamentou o secretário de Estado que também é conselheiro de Segurança Nacional.
Denunciando que Cuba tinha “colonizado” a Venezuela, Marco Rubio saudou que Caracas tenha “declarado independência” do regime cubano. E o secretário de Estado deixou um aviso ao regime cubano: “Se eu vivesse em Havana e estivesse no Governo, estaria, mais que não seja, um pouco preocupado”.
Para além dos avisos a regimes hostis na região, com este ataque, os Estados Unidos também enviaram uma mensagem à China e à Rússia: o Hemisfério Ocidental é a zona de influência exclusiva de Washington. As duas potências, que sustentavam economicamente o regime de Nicolás Maduro, não conseguiram prevenir este ataque e evitar que o aliado político fosse capturado — e apenas se ficaram pelas condenações aos EUA e pedidos de esclarecimentos.
O dia 3 de janeiro de 2026 ficará para a história como a data em que os EUA voltaram a agir com força na América Latina: prenderam um líder estrangeiro e assumiram o controlo político de um país. Mas ainda há várias incógnitas sobre como Washington colocará isso em prática — e não é certo que o que sobra do regime se renda facilmente.