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Win McNamee/Getty Images

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E se os EUA tivessem um presidente socialista? /premium

Bernie Sanders pôs os EUA a falar de socialismo — e as sondagens dizem que isso lhe corre bem. Aos 74 anos, quer ser o candidato democrata à Casa Branca. Uma vontade que dificulta a vida a Hillary.

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Cada um tem a sua maneira de lidar com palavrões. Enquanto uns evitam proferi-los de todo, outros preferem dizê-los apenas entre pessoas de maior confiança. Existe, porém, uma solução que é frequentemente usada nos EUA para trazer à fala estas palavras pouco desejadas, sem pronunciá-las. Basta pois referir a primeira letra da expressão proibida e depois acrescentar-lhe o sufixo word. Todos saberão do que se fala.

O alfabeto tem 26 letras e a imaginação para asneiras é fértil — portanto, os exemplos são vários. Mas, entre estes, há poucos que conseguem abanar de igual forma uma conversa entre dois ou mais norte-americanos como a “s word”.

“S”, de socialismo.

Definição de socialismo no dicionário online Merriam-Webster: “Uma maneira de organização da sociedade em que as grandes indústrias são detidas e controladas pelo Governo em vez de pertencerem a pessoas individuais ou a empresas”

Mas, como todos os palavrões, também este tem o seu quê de atrativo. Mais que não seja pelo choque que possa provocar. Por isso, foram muitos os norte-americanos que, no recato do seu lar, se dirigiram ao dicionário online Merriam-Webster, o mais usado no mundo anglo-saxónico, e procuraram o que queria dizer essa “s word“. Em 2015, foi a palavra mais procurada naquele site, registando um aumento de 169% em 12 meses, tornando-se na sétima palavra mais procurada de sempre. Nada mau para um palavrão.

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Esta busca online pela “s word” não se passou numa ficção utópica ou distópica, consoante as preferências políticas, mas antes nos EUA ao longo do ano de 2015. O ano em que Bernie Sanders, um confesso “socialista democrático” de 74 anos, entrou na corrida para ser o candidato do Partido Democrata a Presidente dos EUA.

"Não podemos aceitar uma nação onde bilionários competem uns com os outros para ver quem é que tem o maior iate, quando há crianças na América e veteranos de guerra a dormir nas ruas."
Bernie Sanders, candidato nas eleições primárias do Partido Democrata

Sanders começou a sua carreira política como mayor da cidade de Burlington, no estado do Vermont, lugar que ocupou entre 1981 e 1989. Depois, entre 1991 e 2007, foi congressista por aquele estado. O mesmo que o elegeu em 2007 para ser o seu único representante no senado. Um mandato interrompido a 30 de abril de 2015, quando decidiu anunciar que queria ser o sucessor de Barack Obama.

Hillary Clinton, candidata nas primárias de 2008 derrotada por Obama, mais tarde chefe da diplomacia deste, e um nome incontornável da política norte-americana, tinha feito um anúncio no mesmo sentido.

Cedo a mulher do ex-Presidente Bill Clinton foi tida como vencedora destas primárias, tornando-as num mero procedimento formal. As sondagens eram claras. Numa compilação de todos os estudos de opinião realizados poucos dias antes de 4 de maio de 2015, Hillary surgia com 61,5% dos votos. Bernie com 9,5%.

Ciente destes números, mas disposto a contrariá-los, o senador do Vermont deixou um conselho no discurso de anúncio da sua candidatura: “Acho que as pessoas deviam ser um pouco cautelosas ao me subestimarem”.

Brendan Smialowski/Getty Images

De volta aos números, mas já em janeiro, a mesma soma de sondagens do Huffington Post indica uma descida para 51,5% de Hillary e uma subida para 35,6% de Bernie. A vitória continuaria a ser de Clinton, mas o socialista deixava de ser uma nota de rodapé.

Como funciona o caucus do Partido Democrático do Iowa?

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No dia 1 de fevereiro, às 20h00 locais (02h00 de Portugal continental), todos os democratas registados do Iowa serão convocados para irem a um de 1681 ajuntamentos, localizados tipicamente em escolas. Em 2008, nas últimas primárias do Partido Democrata, participaram 230 mil pessoas.

À hora marcada, os presentes são chamados a agruparem-se consoante o candidato que apoiam — neste caso, Clinton, Sanders ou O’Malley. Podem ainda ir para o grupo dos indecisos. Segue-se um período para debate, durante o qual cada grupo tenta roubar membros aos outros e ainda cativar os indecisos. À medida que as rondas avançam, os apoiantes que tiverem menos de 15% do total (provavelmente o caso de O’Malley) terão de declarar o seu apoio a outro candidato. Cada grupo escolherá os seus delegados — terá tantos consoante o seu tamanho em relação ao total de participantes.

No final, o número de delegados que cada campanha obteve nos 1681 centros de caucus é enviado para o departamento central do Partido Democrata no Iowa. É lá que serão feitas as contas finais para determinar qual candidato venceu naquele estado.

Também o Partido Republicano tem um caucus no Iowa, embora funcione de forma diferente.

Mas, à data deste texto, há outros números cuja análise é mais pertinente e interessante. Neste caso, as sondagens feitas num dos locais mais emblemáticos para a política norte-americana, por ser o primeiro estado a votar em eleições primárias: o Iowa.

É lá, a 1 de fevereiro, que vai ser feita a primeira votação das primárias dos democratas — as primárias só vão terminar em junho, quando os 50 estados já tiverem todos votado. Mais do que significativo (o Iowa tem pouco mais de 3 milhões de pessoas, entre os cerca de 320 milhões de habitantes dos EUA), este estado, conhecido pelos seus campos de milho a perder de vista, tem um valor simbólico. Para os democratas, é mesmo um estado talismã. Desde que o caucus do Partido Democrata foi fundado em 1972, 67% daqueles que ali vencem acabam por ser candidatos à Casa Branca. E desde 2000, o ano de Al Gore, que essa regra não falha.

Por isso, Bernie Sanders terá esboçado um sorriso — coisa rara, para este homem que o The New York Times descreveu como um “avô rabugento” — quando soube das últimas sondagens. É certo que se se juntarem todas, Hillary continua à frente no Iowa, com 47,5%. Mas Bernie segue logo atrás com 44,3%. Sobram ainda 4,4% para o lanterna-vermelha desta campanha, o ex-governador do Maryland Martin O’Malley, e outros 3,8% — números que podem somar-se aos de Bernie, graças ao peculiar processo do caucus do Iowa (ver caixa).

E se o Iowa ainda não é uma certeza para Bernie, o estado do New Hampshire não deve escapar-lhe. As sondagens dão 53,4% ao socialista e 39,5% a Hillary.

Assim, o socialista do Vermont ainda está em jogo — e ele bem aconselhou cautela a quem achasse o contrário.

A “revolução política” e o “socialismo democrático” de Bernie

De volta à “s word”. Por mais frequentes que se tenham tornado as buscas na internet pelo significado de “socialismo”, também Bernie Sanders fez questão de deixar a sua própria definição do termo, ao qual junta outra palavra: “democrático”. Eis a definição que deixou num discurso em novembro de 2015:

“Deixem-me definir de forma simples e sem rodeios aquilo que o socialismo democrático significa para mim. Vem daquilo que Franklin Delano Roosevelt disse quando lutou pela garantia dos direitos económicos de todos os americanos (…). Vem daquilo que Martin Luther King, Jr. disse em 1968, quando afirmou que ‘este país tem socialismo para os ricos e um individualismo severo para os pobres’. Tem a ver com o sucesso de muitos países em todo o mundo que têm feito um trabalho a proteger as necessidades das famílias que trabalham, dos seus cidadãos mais velhos, das suas crianças, dos seus doentes e dos seus pobres (…). Não podemos aceitar uma nação onde bilionários competem uns com os outros para ver quem é que tem o maior iate quando há crianças na América e veteranos de guerra a dormir nas ruas.”

"Não precisamos de ter 23 desodorizantes por onde escolher e 18 pares de ténis, quando há crianças a passar fome neste país."
Bernie Sanders, candidato nas eleições primárias do Partido Democrata

A lista de medidas que compõem a “revolução política”, no caso de Bernie vir a ser Presidente dos EUA, está disponível no site da sua campanha. Embora os temas abordados sejam vários, existe sempre um denominador comum: o da desigualdade. Por isso, as promessas que faz são sempre com o intuito de reduzir as disparidades nos EUA: aumentar o salário mínimo federal de $7,25 (€6,70) à hora para $15 (€13,85) até 2020; garantir saúde pública para todos os cidadãos, paga somente através de impostos; o fim das propinas universitárias (que nos EUA podem ascender a valores superiores aos 40 mil euros anuais) financiado por um imposto aplicado “aos especuladores de Wall Street que quase destruíram a economia há sete anos”.

Mesmo quando fala de temas que não parecem estar diretamente ligados ao problema da desigualdade económica, Bernie arranja uma maneira de fazer uma ligação. Como da vez em que falou do aquecimento global: “Não podemos continuar a fazer crescer a economia só porque sim, num mundo que está a braços com alterações do clima e todo o tipo de problemas ambientais. Entendem? Não precisamos de ter 23 desodorizantes por onde escolher e 18 pares de ténis quando há crianças a passar fome neste país”. Ou como da vez em que desvalorizou a polarização produzida pelo debate em torno do controlo de armas (Bernie defende uma maior regulação, embora de forma tímida, mas não rejeita o eleitorado que discorde dele nessa questão): “Como um amigo meu da NRA [Associação Nacional de Armas] me disse, é impossível comprar uma AK-47 se não se tiver um emprego. Vamos lá orientar as nossas prioridades”.

"Se os contribuintes deste país tiveram de pagar o resgate de Wall Street em 2008, nós podemos ter universidades sem propinas e sem dívidas."
Bernie Sanders, candidato nas eleições primárias do Partido Democrata

Para a maioria dos norte-americanos, este tipo de discurso pode ser novo na política mainstream daquele país. Mas, para quem ouve Bernie a falar há cerca de 40 anos, o que ele diz não constitui novidade nenhuma.

“O Bernie é um tipo que diz as mesmas coisas há 40 anos”, diz ao Observador o professor de Ciência Política da Universidade do Vermont Garrison Nelson, que há quatro décadas segue “de perto” o candidato socialista. Tanto que o conhece de cor: “Eu já o ouvi falar tantas vezes que sou capaz de dizer um discurso dele de memória, sem falhar uma única palavra”.

Bernie Sanders liderou um partido de esquerda com pouca expressão, o Liberty Union Party, entre 1972 e 1979. Nesse tempo, candidatou-se duas vezes ao senado e duas para a câmara de Burlington, sem sucesso. Em 1981, já como independente, conseguiu por fim vencer as eleições para a câmara de Burlington. Quase que não o conseguia: ganhou por apenas 10 votos.

Nelson era locutor numa rádio local de Burlington quando Bernie foi eleito para liderar a câmara daquela cidade com aproximadamente 40 mil habitantes. “Fui eu que anunciei a vitória dele pela primeira vez. Teve piada, porque ele só ganhou com 10 votos de vantagem”, refere este cientista político, recordando-se daqueles tempos. “Foi uma surpresa enorme, foi incrível. Na altura o Vermont era o estado mais republicano do país. E a eleição do Bernie foi apenas dois meses depois de Reagan se ter tornado Presidente.” O mais socialista dos candidatos vingava perante a subida ao poder do mais anti-socialista dos presidentes dos EUA.

Os primeiros tempos de Bernie no poder nem sempre foram fáceis, recorda. “Lembro-me de ver pessoas que gritavam para ele no meio da rua. Havia gente que lhe chamava de tudo, às vezes o mais simpático que tinham para dizer era ‘comuna!’, outras era logo ‘filho da puta!'”, diz-nos, numa entrevista por telefone. “E quando os ouvia ele fazia uma coisa que eu nunca tinha visto num político e nunca voltei a ver. Ele ia ter com essa pessoa e iniciava uma conversa. Às tantas estavam a debater política. O Bernie procurava entendê-los, queria conhecer as suas razões. Nunca fugia”.

"O Bernie é um tipo que diz as mesmas coisas há 40 anos. Eu já o ouvi falar tantas vezes que sou capaz de dizer um discurso dele de memória sem falhar uma única palavra."
Garrisson Nelson, cientista político que conhece Bernie Sanders há 40 anos

Desses tempos, o académico sublinha a atuação do então autarca, “um homem muito conseguido que renovou por completo a cidade”. “Eu cheguei a Burlington em 1968 e esta cidade dava sono, só tinha lojas rascas e não era um sítio atrativo. Naqueles tempos era preciso andar uma hora de carro para fora daqui para encontrar uma boa livraria ou para comer num restaurante decente”, lembra. Hoje, garante, a cidade não é assim. “É dinâmica, tem uma vida social e cultural ativa, a economia prospera. Tudo isto de forma inclusiva.”

Esta “forma inclusiva” tem a ver com a insistência com que Bernie rejeitou todos os planos de construção de arranha-céus junto ao lago de Champlain, que faz parte da paisagem natural de Burlington. “Ele modernizou a cidade, ao mesmo tempo que assegurou que os grandes capitalistas não empurravam os pobres para fora de cá de maneira a tornarem isto num paraíso de yuppies”, disse. “Rejeitou todos os planos para serem construídos grandes edifícios naquela zona e hoje em dia o parque tem uma ciclovia, docas para pequenas embarcações, um centro de ciência…” No fundo, um jardim público com extras. Foi lá que fez o anúncio da sua campanha — o tal onde disse aos seus concorrentes para serem “um pouco cautelosos”.

"Bernie detesta perder, é muito competitivo. E quer ganhar. É isso que o distancia dos restantes socialistas. É que os outros todos não querem verdadeiramente ganhar, porque se o fizerem vão ter de arregaçar as mangas e aí há sempre o risco de perderem a sua pureza. E isso não é algo de que o Bernie tenha medo. Ele quer mesmo ganhar.”
Garrisson Nelson, cientista político que conhece Bernie Sanders há 40 anos

Já como mayor, Sanders era imodesto. Naquela altura, em plena Guerra Fria, o autarca tomava a iniciativa de escrever a vários líderes mundiais cartas dactilografadas que seguiam com a sua assinatura. Segundo o The Guardian, que consultou o espólio que sobra daqueles dias do autarca, a primeira-ministra britânica ficou a saber que Burlington estava “profundamente perturbado” com o tratamento dado aos prisioneiros da Irlanda da Norte. Após várias visitas à Nicarágua, onde os esquerdistas liderados por Daniel Ortega combatiam os contras, financiados pelos EUA, o mayor tomou o lado dos revolucionários e quis deixar isso claro. A Ortega, com quem viria a encontrar-se em 1985, garantia que os norte-americanos são “pessoas justas” que não mereciam ser associados a “bombas e sabotagem económica”, terminando a carta com um “VENCEREMOS”. E convidou Jimmy Carter, então Presidente dos EUA, a visitar aquele país e a dialogar com os esquerdistas: “Se houver alguma maneira em que eu possa facilitar essa viagem, terei todo o gosto em fazê-lo”.

“Muitas cidades têm cais bonitos, ruas agradáveis, forças policiais honestas e até uma liga de baseball própria”, escreveu Sanders na sua autobiografia. “Mas quantas destas cidades é que fazem política international? Bom, nós fazíamos.”

Faziam, sim, e até no tempo livre. Quando se casou, em 1988, Bernie e a mulher decidiram passar a lua-de-mel na União Soviética, mais propriamente em Yaroslavl, onde o norte-americano se encontrou com o seu homólogo russo com frequência, para discutirem diferentes modelos de administração local. No final, Burlington e Yaroslavl assinaram um protocolo de cooperação entre as duas cidades. Repita-se, Sanders assinou de cruz em papéis que estabeleciam uma relação de amizade entre uma cidade no nordeste dos EUA e uma da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Lá está a “s word”.

A geração pós “s word” que já não treme com o palavrão. E gosta de dizê-lo

A Guerra Fria começou nos anos imediatos à Segunda Guerra Mundial. Foram atingidos picos ao longo das décadas que se seguiram, tanto na corrida ao espaço, dos anos 60, como nos vários conflitos por procuração que se arrastaram até ao início da década de 1990. De cada lado, os dois titãs produziam um sem-número de iniciativas propagandísticas que não raras vezes diabolizavam o outro. E, acima de tudo, cada um desenvolvia arsenais nucleares até aí inéditos — que se alguma vez tivessem sido usados, teriam marcado a humanidade para sempre. É desses tempos, e dessa mentalidade, que surgem os arrepios com o “socialismo” entre norte-americanos, que só puderam respirar de alívio em 1991, com o colapso da União Soviética.

Cade Olmstead não conheceu esses tempos. Nasceu em 1997 no estado do Iowa, numa família onde se fala de política e todos afinam pelo diapasão do centro-esquerda. Mas Cade, que agora tem 18 anos e participa ativamente como voluntário da campanha de Bernie Sanders no Iowa, foi um pouco mais longe do que os pais. “Já desde os 16 anos que me considero um socialista”, diz ao Observador pelo Skype. “Acho que é algo que se está a tornar cada vez mais mainstream.”

Segundo uma sondagem da cadeia televisiva NBC, feita junto do eleitorado democrata do Iowa, 70% dos homens entre os 18 e os 24 anos preferem Bernie a Hillary, que reúne apenas 13% das preferências. E quanto aos homens entre os 25 e os 39, o socialista continua a ganhar-lhe numa proporção de 50% contra 38%.

Em 2011, no pico do movimento Occupy Wall Street, um inquérito determinou que os jovens norte-americanos entre os 18 e os 29 anos preferiam o socialismo ao capitalismo. Cinco anos mais tarde, é a estas pessoas que Bernie Sanders tenta ir buscar os seus votos.

Bernie também sai em vantagem nas mulheres entre os 18 e os 24 anos, onde Hillary só tem 28% de apoiantes, contra 65% para Bernie. Um dado que pode ser surpreendente, tendo em conta a probabilidade de a candidata Hillary colher mais apoio junto das mulheres — algo que consegue, de facto, exceto junto das mais novas. Garrison Nelson, o cientista político que é capaz de citar discursos de Bernie de memória, tem uma explicação para este fenómeno. “As mulheres que nasceram nos anos 40, 50 e 60, olham para a Hillary como o seu melhor exemplo. Acham que vai ser ela que vai acabar com a discriminação que elas foram sentindo ao longo da vida. E que é uma discriminação que as mulheres mais jovens não sentem tanto hoje em dia”, defende. Assim, as mais novas não podem ser mais exigentes: “O que a maior parte delas pensa é que não chega a Clinton andar a aí só a dizer ‘olhem para mim, sou uma mulher!’. Isso não vai chegar para conquistar estas jovens”.

“O que ele faz é traduzir o socialismo para termos que toda a gente compreende."
Cade Olmstead, 18 anos, voluntário na campanha de Bernie Sanders

Outro estudo de opinião, realizado em 2011, quando o movimento Occupy Wall Street tomava conta das manchetes dos jornais, já fazia crer que as gerações mais novas dos EUA estavam mais abertas ao socialismo do que as restantes. Nessa altura, no que diz respeito às diferentes faixas etárias, os inquiridos entre os 18 e os 29 anos foram os únicos que disseram preferir o socialismo (49% achavam que era “bom”, 43% “mau”) ao capitalismo (46% “bom”, 47% “mau”).

“Hoje em dia, muitas pessoas identificam-se com o socialismo”, Cade torna a referir, para depois atribuir esse feito a Bernie: “O que ele faz é traduzir o socialismo para termos que toda a gente compreende. Fala da necessidade da saúde ser pública ou da importância da universidade ser gratuita, por exemplo. Há muita gente que concorda com a ideia dele, que é deixar de tratar estas duas áreas como se fossem produtos comerciais. E ao falar destas coisas abertamente, o Bernie conseguiu o feito de acabar com o medo em torno do socialismo. Ele só quer uma sociedade mais humana”.

Charlie Leight/Getty Images

Cade, admite, é “obcecado” por Bernie Sanders. Tanto que adiou os estudos neste semestre para poder ser voluntário na campanha do socialista. “Eu comecei a segui-lo de perto quando tinha catorze anos, numa altura em que ele ainda não era tão conhecido como é hoje”, recorda, referindo-se aos tempos em que o agora candidato à nomeação dos democratas à Casa Branca era o único senador pelo Vermont. “Lembro-me de ter lido um discurso dele na altura e de ter ficado de boca aberta, porque finalmente alguém dizia aquilo que eu queria ouvir.” Para Cade, as frequentes acusações de Bernie ser um candidato “enfadonho”, obcecado com o tema das desigualdades económicas, estão longe de fazer sentido. “Eu não acho nada disso, a sério. Só o facto de ele ser contra o statu quo é exaltante que chegue.”

cadebernie

Cade Olmstead com Bernie Sanders. “Só o facto de ele ser contra o statu quo é exaltante”, diz o jovem

Garrison Nelson relativiza. “Ele tem 74 anos! É óbvio que não pode ser tão carismático como Obama, por exemplo. Ser carismático nessa idade é uma carga de trabalhos”, diz ao Observador. “Só que o contraste com a senhora Clinton favorece o Bernie. Ela daria uma boa Presidente, mas é uma péssima candidata. Sobretudo porque ela se encerra numa bolha. Não é uma pessoa relacionável, tem pouco jeito com os media e tem ligações a grandes empresas.”

A primeira vez que Cade esteve com Bernie Sanders cara a cara foi num liceu do Iowa, onde o candidato ia falar já em contexto de campanha. Mas, antes de discursar, o socialista pediu para se reunir com um grupo de dez jovens numa sala de aula. Queria saber o que preocupava cada um deles. “Foi uma experiência incrível”, lembra Cade, no mesmo tom que muitos usariam para conhecer o seu músico ou ator preferido. A certa altura da reunião, e depois de terem falado sobretudo do preço elevado das propinas e da dificuldade de arranjar um emprego estável em início de carreira, Bernie atirou uma pergunta para o ar: “Se os jovens não forem votar quem é que vai ganhar as eleições?”. Cade apressou-se a responder. “A classe dos bilionários!”, disse. “That’s right!”, respondeu-lhe o candidato.

“Hillary é um produto da era Clinton. A maior parte dos jovens olha para ela como parte de uma dinastia real. E os jovens olham para ela e pensam ‘porque é que eu haveria de dar um voto para eleger outra vez uma pessoa destas’?”
Jonathan Tasini, autor do livro "The Essential Bernie Sanders and His Vision for America"

Depois do palavrão, uma palavra-chave: “millenials”. É este o termo usado para designar a geração que nasceu na década de 1990. Entre estes, como é o caso de Cade, muitos votam pela primeira vez. E, paradoxalmente, é o candidato mais velho destas primárias (contando até com os do Partido Republicano) que mais deverá contar com o voto jovem.

“Os millenials têm um faro muito apurado para tretas.” A expressão original foi mesmo bullshit, e quem a disse foi o escritor e ativista Jonathan Tasini, numa conversa por Skype com o Observador. Tasini publicou recentemente o livro “The Essential Bernie Sanders and His Vision for America”, onde compila várias citações do candidato consoante o tema.

Quando falamos, também ele está no Iowa, para onde foi de propósito desde a sua casa em Nova Iorque para poder participar na campanha por Sanders. E é nos millenials que tem visto o maior entusiasmo por Sanders: “Acho que é seguro dizer que a maior parte das pessoas está farta do status quo, a começar pelos mais novos. As pessoas que estão nos seus vintes querem ter um emprego decente e as perspetivas de isso acontecer num futuro próximo são muito pobres. É disso que o Bernie está a falar. Trata-se de uma revolução política”.

Do outro lado está Hillary Clinton. “Ela é vista como a cara do status quo dentro do Partido Democrata, por causa das ligações que tem às grandes empresas, a Wall Street, à Goldman Sachs”, explica Tasini, que traz para o seu argumento o marido da candidata, o ex-Presidente Bill Clinton. “Ela é um produto da era Clinton. A maior parte dos jovens olha para ela como parte de uma dinastia real. E os jovens olham para ela e pensam ‘porque é que eu haveria de dar um voto para eleger outra vez uma pessoa destas’?”

Na segunda-feira à noite, Cade vai estar sentado ao volante para regressar à sua terra. No dia seguinte, estará pronto para participar no caucus, alinhando na “equipa” de Bernie. O jovem de 18 anos já tem uma lista de argumentos a serem usados para tentar convencer os outros eleitores a juntarem-se ao seu lado, em detrimento de O’Malley e sobretudo de Hillary Clinton. “Vou reforçar a ideia de que ele é o único que quer verdadeiramente mudar este sistema, porque toda a gente está simplesmente farta de estas empresas do grande capital se aproveitarem de nós”, diz. “O que está em jogo é termos saúde pública daqui em diante ou então sermos vítimas de seguradoras gananciosas.”

TIMOTHY A. CLARY/AFP/Getty Images

É provável que Cade, que admite querer ter uma carreira política, consiga persuadir alguns dos restantes eleitores. Mas há uma pessoa, em particular, que Cade teria todo o gosto em convencer: a sua mãe.

Não é que não tenha tentado já. “Eu estou sempre a tentar convencê-la a passar para o lado do Bernie, mas é difícil. Ela quer mesmo muito ter uma mulher a governar o país”, explica Cade. “Eu também não me importaria com isso, aliás, acho que seria ótimo ter uma mulher Presidente, mas isso não quer dizer que pode ser qualquer mulher. Hillary, com todo o respeito, é a cara do establishment“, diz.

No que diz respeito a conformidade com a acima referida sondagem da NBC, tal mãe, tal filho. Se Cade acompanha a maioria de 70% de homens entre os 18 e 24 anos que apoiam Bernie, a sua mãe não destoa dos 63% de mulheres entre os 45 e os 64 anos que apoiam Hillary.

Será nesta dicotomia, de millenials e baby-boomers (a geração nascida entre 1946 e 1964), que será jogado o caucus do Iowa — e, daí para a frente, uma boa parte das etapas das eleições primárias dos democratas.

“O resultado final no Iowa vai depender muito de quem aparecer para participar nos vários caucus“, garante Tasini. “Aquilo é um processo algo demorado, pode ir até duas horas ou mais, e há muitas pessoas que não estão dispostas a esse trabalho todo. Vai depender muito de quais faixas etárias é que vão ter vontade de sair de casa numa segunda-feira à noite. Se os mais novos ficarem em casa e só saírem os mais velhos, a Hillary tem uma grande probabilidade de ganhar”, diz, terminando com uma nota de otimismo: “Já estive a ver que o tempo vai estar bom naquela noite, portanto há menos uma desculpa para não sair de casa. Pode ser que isso ajude se os mais novos saírem, como aconteceu em 2008 com Obama. Se assim for, Sanders ganha”.

O pacto de não-agressão que pode custar caro a Bernie

Uma diferença substancial destas eleições primárias do Partido Democrata em relação às de 2008 tem sido essencialmente o tom. Naquela altura, Hillary Clinton e Barack Obama competiam acesamente pela nomeação. Foi uma campanha agressiva, por vezes com ataques pessoais. “Eu às vezes não sei contra quem é que estou a concorrer”, Obama chegou a ironizar, acusando a sua adversária de viver debaixo da sombra do seu marido.

No entanto, estas primárias do Partido Democrata têm sido tudo menos isso. A diferença estará na postura de Bernie. “Esta é a vigésima campanha dele. Não vai ser agora que ele vai começar a mostrar os dentes aos outros candidatos. Não é o estilo dele. Não vai entrar em vinganças mesquinhas, mesmo que tenha sido tentado a fazê-lo”, diz Garrison Nelson. “Ele não quer envenenar os poços, porque depois quem é que mais tarde vai querer beber daquela água?”

Uma ocasião desperdiçada pelo candidato do Vermont aconteceu num debate em outubro, quando foi levantado o facto de a sua adversária ter usado um servidor pessoal para alojar e-mails oficiais nos tempos em que liderava a diplomacia norte-americana. Quando a questão surgiu, Bernie pediu licença e disse: “Deixem-me dizer uma coisa que não deve ser uma grande jogada. Mas eu acho que Clinton tem razão. Eu acho que as pessoas estão fartas de ouvir sobre o raio dos seus e-mails”. O socialista fez depois uma descrição de memória dos vários tipos de setores onde acredita haver desigualdade nos EUA, para depois rematar. “Já chega dos e-mails. Vamos falar dos verdadeiros problemas da América!”

Não foi a primeira vez que Bernie dispensou uma oportunidade destas contra um Clinton. Em 1997, foi assim com o então presidente Bill Clinton, na altura envolvido num escândalo sexual. “43 milhões de americanos não têm seguro de saúde. Milhões de cidadãos seniores não têm dinheiro para os medicamentos. E esta câmara [o senado] vai votar a favor de uma audição onde vai ser discutido mês, após mês, após mês, onde é que Bill Clinton tocou em Monica Lewinsky”, disse na altura.

Esta recusa pelo conflito, pelo lado mais mesquinho da política, pode vir a custar caro a Bernie. “Muitos de nós gostaríamos que ele fosse mais acutilante com ela, sim”, admite Tasini.

“Esta é a vigésima campanha dele. Não vai ser agora que ele vai começar a mostrar os dentes aos outros candidatos. Não é o estilo dele. Não vai entrar em vinganças mesquinhas, mesmo que tenha sido tentado a fazê-lo. Ele não quer envenenar os poços, porque depois quem é que mais tarde vai querer beber daquela água?”
Garrisson Nelson, cientista político que conhece Bernie Sanders há 40 anos

Por outro lado, Garrison Nelson reconhece-lhe uma enorme competitividade. “Ele detesta perder, é muito competitivo. E quer ganhar. É isso que o distancia dos restantes socialistas. É que os outros todos não querem verdadeiramente ganhar, porque se o fizerem vão ter de arregaçar as mangas e aí há sempre o risco de perderem a sua pureza”, diz. “E isso não é algo de que o Bernie tenha medo. Ele quer mesmo ganhar.”

Só que, explica o académico, essa competitividade não o cega. “Uma coisa que as pessoas têm de perceber no Bernie é que ele é uma pessoa muito concentrada em soluções políticas. É a agenda dele que o move e, com isso, ele não vai estar disposto a fazer qualquer desvio dela.”

“Muitos de nós gostaríamos que Bernie Sanders fosse mais acutilante com Hillary Clinton"
Jonathan Tasini, autor do livro "The Essential Bernie Sanders and His Vision for America"

É aqui que Hillary começa por ultrapassá-lo. Enquanto a líder da diplomacia no primeiro mandato de Obama adapta o seu discurso a cada instância, Bernie mantém-no. Esta diferença coloca Clinton numa posição bem mais favorável do que o seu adversário noutros estados, onde as minorias étnicas são uma parte considerável do eleitorado — ao contrário do Iowa e de New Hampshire, dois estados predominantemente brancos. Como o Vermont, o único sítio onde o candidato tem um historial (notável) de vitórias eleitorais.

“O Bernie vem de um estado imensamente branco, portanto ele não consegue apelar tanto a assuntos raciais quanto Hillary faz. Isto é uma coisa que ela já prepara há muito tempo. Para ele, a raiz de tudo é a economia e a classe social. Ela vai ganhar os outros estados maiores com facilidade”, vaticina Garrison Nelson.

“Ele pode ganhar o Iowa e o New Hampshire. Vai ter um bom mês. Mas depois vêm os problemas.”

E, prevê o académico, chegará a altura em que o capitalismo de Clinton terá uma vitória sobre o socialismo de Bernie. Enquanto Clinton aceita doações de super-PAC (grupos de lóbi político que apoiam financeiramente um candidato), Sanders rejeita essa hipótese, recorrendo aos donativos de cidadãos anónimos e privados.

“Vai chegar a altura em que vão começar a fazer os anúncios de televisão. E eles não costumam ser nada simpáticos. Hillary tem muito mais dinheiro e influência, portanto vai comprar o tempo de antena todo que quiser”, explica o académico.

“Não deve demorar muito até começarmos a ver na televisão anúncios a dizerem que ele é um tipo perigoso, um esquerdalha incontrolável. ‘Vejam bem, ele até passou a lua de mel na União Soviética’!”

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