Um desafiou pela segunda vez a liderança do partido. O outro lançou membros do Governo numa disputa de argumentos ideológicos. Há uma que Costa não passa sem ouvir. E outra cujo futuro político está em suspenso. São as figuras do Congresso, uma lista de 13 nomes que o Observador destaca entre as centenas de militantes socialistas que este fim de semana se reúnem na Batalha para consagrar a reeleição do secretário-geral.

Nesse capítulo, tudo fechado. Mas há muito em jogo neste encontro alargado do partido, que acontece a um ano e meio das próximas eleições legislativas e que vai servir para o PS se reencontrar com os seus fantasmas.

António Costa, o magnânimo

É o líder incontestado, que aparece bem posicionado nas sondagens para as legislativas de 2019 e que na semana passada foi reeleito secretário-geral do PS com 96% dos votos. Sem críticos de peso, e a conseguir sempre contornar a ameaça fantasma de Sócrates congresso após congresso, António Costa chega ao terceiro conclave desde que é secretário-geral (segundo desde que é primeiro-ministro) apenas com o desafio de conseguir ou não conseguir maioria absoluta nas próximas eleições.

Esse é o grande tabu. Não é expectável que Costa ponha essa fasquia, nem agora, nem em campanha eleitoral — porque em 2015 não correu bem e porque agora deve respeito aos seus parceiros de apoio parlamentar –, mas nas entrelinhas é isso que toda a gente vai ler.

Costa vai fazer pelo menos duas intervenções de fundo ao longo do fim de semana: uma, na abertura, que deverá ser mais virada para dentro do partido, e onde pode aparecer alguma referência mais ou menos subtil ao caso Sócrates, e outra, no encerramento, que deverá ser mais virada para fora, para o país, e para os desafios que se seguem: eleições, eleições, eleições.

Pedro Nuno Santos, the next big thing

Pedro Nuno Santos chega a este congresso do PS como a figura mais bem colocada para suceder a António Costa, líder incontestado entre as hostes socialistas por estes dias. Nada que impeça o secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares de continuar a fazer o seu caminho. Além de reunir uma já admirável entourage de seguidores e uma ala já batizada em sua honra — o pedronunismo –, o socialista assumiu-se como protagonista no debate ideológico que está a aquecer o Largo do Rato: que futuro pós-geringonça e, implicitamente, que alianças deve o partido forjar se tiver de o fazer na próxima legislatura?

Augusto Santos Silva deu o tiro de partida e projetou um regresso do PS à “terceira via”, longe da “radicalização política ou programática”, longe dos “extremos”, mantendo a “autonomia” que, aos olhos do ministro dos Negócios Estrangeiros, só existe no corredor “central” do espectro político português. Ou seja, sugeriu Augusto Santos Silva, a “geringonça” foi boa, mas, podendo, o PS “não deve enterrar a terceira via” — a única que lhe permite ensaiar outras alianças (com o PSD, leia-se). Ora, Pedro Nuno Santos leu e respondeu na mesma medida: o partido deve afirmar-se sem medo de acusações de “radicalização programática”, não precisa de se afastar da esquerda e deve evitar “uma excessiva diluição das fronteiras com outros partidos”. O título de Pedro Nuno Santos era todo um programa: “A social-democracia para além da ‘terceira via’”.

A discussão vai no adro e deverá dominar o 22º Congresso socialista. Quanto a Pedro Nuno Santos, já anunciou ao que vai e o que vai dizer. Está a posicionar as peças no tabuleiro. Confiando no que vão dizendo as sondagens, António Costa deverá vencer as próximas eleições e continuar à frente do partido. O homem responsável pela articulação parlamentar da “geringonça” terá de esperar pela sua vez, em teoria, pelo menos mais quatro anos. Mas a máquina pedronunista já segue a todo o vapor.

Augusto Santos Silva, o ideólogo

Vital Moreira respondeu a Pedro Nuno Santos, que respondera a Augusto Santos Silva. Foi uma sucessão de artigos publicados em jornais que ressuscitaram o debate ideológico dentro do PS. E essa troca de argumentos partiu, precisamente, do ministro dos Negócios Estrangeiros de António Costa, apontado como o “ideólogo” do Governo, num texto assinado no Público.

No início de maio, Santos Silva defendia um “posicionamento central” do partido, defendia o legado da renovação política preconizado pela Terceira Via de Tony Blair, em Inglaterra, e afastava-se de eventuais oscilações “para os extremos” políticos. “O futuro da Esquerda democrática”, defendia Santos Silva nesse artigo, “não está na radicalização política ou programática”.

O timing do ministro (ex de Sócrates, atual de Costa) não foi casual: faltava um mês para o congresso socialista na Batalha quando o artigo foi publicado, naquele que será o último encontro alargado do partido antes das eleições legislativas do próximo ano.

E, se é certo que há longos meses o PS segura uma confortável vantagem sobre o PSD em todas as sondagens, não é menos verdade que esse resultado não é tão confortável assim que permita acreditar numa maioria absoluta.

Do lado de António Costa, a mensagem tem sido sempre a mesma: em equipa que ganha não se mexe e, com ou sem maioria absoluta, o primeiro-ministro garante querer voltar a contar com o apoio dos seus parceiros à esquerda, PCP e Bloco.

Sócrates, a ameaça fantasma

José Sócrates foi detido a 22 de novembro de 2014, a escassos dias do congresso que consagrou António Costa como secretário-geral do PS. Início amargo para o líder socialista, ex-número 2 de Sócrates, que o apoiou aberta e publicamente no duelo contra António José Seguro. Costa repetiu à exaustão “à política o que é da política, à justiça o que é da justiça”, tentando que a reunião magna do PS fosse mais do que um congresso sobre Sócrates — mesmo com a romaria de militantes socialistas a Évora, para visitarem e cumprimentarem o seu ex-líder então encarcerado. De alguma forma, Costa conseguiu-o, tanto que esgotou o stock de títulos sobre “elefantes na sala” na imprensa nacional. Dois anos depois, a presença invisível de Sócrates no congresso foi mais discreta e limitada à evocação pela boca de uns quantos e sempre fiéis.

Desta vez, no entanto, tudo é diferente: depois de quatro anos de aparente silêncio coletivo em relação à Operação Marquês, as mais destacadas figuras do partido decidiram assumir a “vergonha” com as suspeitas que recaem sobre o ex-primeiro-ministro. O antigo líder socialista bateu com a porta, desfiliou-se do partido, mas ainda teve tempo para responder a quem, julga Sócrates, o traiu: “embaraço” tem ele de ver o seu agora ex-partido a juntar-se à “direita política” para terminar com as suas aspirações políticas.

Desde aí, já organizou um almoço de apoio e confraternização com os apoiantes que nunca o deixaram e deu uma entrevista onde tratou Costa com frieza e acusou o PS de o estar a tratar de forma “ignóbil”. António Costa bem pediu aos militantes socialistas que se concentrem no “futuro”, esquecendo o “drama” público em que se transformou o outrora “elefante na sala”. Mas continuam a adensar-se os sinais, veiculados pela imprensa, de que o “animal feroz” vai contra-atacar. Resta saber se os seus aliados vão aproveitar o congresso do partido para pôr o alegado plano em marcha. Será, também por isso, um teste ao que resta de influência de José Sócrates no PS.

Daniel Adrião, o petit challenger

Voltou a desafiar a liderança de António Costa e, como há dois anos, voltou a ser esmagado. Nas diretas de 11 e 12 de maio, Daniel Adrião conseguiu 4% dos votos dos militantes — ainda assim, uma subida de 1,2% face a 2016.

Mas, mesmo com esses resultados magros, o socialista continua a única oposição formal ao secretário-geral do PS, quatro anos depois de Costa assumir as rédeas do partido. A liderança do partido é, aliás, o único foco de Adrião. António Costa, diz, está onde deve estar, em São Bento, mas deve libertar a direção do PS e deixá-la a quem desempenhe essa função de forma exclusiva. “O PS precisa de um secretário-geral 100% dedicado ao partido, tal como tem um primeiro-ministro 100% dedicado ao país”, defendeu em abril, no dia em que apresentou a sua candidatura.

Mariana Vieira da Silva, a sombra de Costa

É a sombra de Costa, no sentido em que é o seu espelho. Mariana Vieira da Silva, secretária de Estado adjunta do primeiro-ministro, é um rosto muito mais associado ao Governo e a Costa, PM, do que propriamente ao PS e a Costa, secretário-geral. É os olhos e as mãos do primeiro-ministro sempre que ele não está presente, e tem ganho uma influência junto de António Costa como mais ninguém. Prova disso é o facto de António Costa a ter escolhido para ser a coordenadora da sua moção de orientação política, com a estratégia do secretário-geral do PS para os próximos dois anos.

A escolha não foi óbvia, uma vez que o PS tem, inclusive, uma secretária-geral-adjunta, Ana Catarina Mendes, mas António Costa parece estar mesmo apostado em dar palco a uma das suas principais ajudantes e conselheiras no Governo. A moção, intitulada “Geração 20/30”, procura responder aos novos problemas e desafios que se colocam às sociedades modernas, não fazendo referências, em nenhum momento, aos parceiros parlamentares da esquerda, PCP e BE, nem à solução política da geringonça. Mas a discussão sobre se o PS está mais à esquerda ou mais à direita não a incomoda. Em entrevista ao Público e à Renascença, esta semana, Mariana defende que a discussão é “enriquecedora” e que a moção estratégica “traduz uma opção clara de alinhamento à esquerda, sem alas”

Certo é que, se há dois ou quatro anos, uma intervenção de Mariana Vieira da Silva não suscitava propriamente interesse mediático, este ano o congresso vai ouvi-la com atenção.

Francisco Assis, o crítico apupado

É o último dos críticos da “geringonça”, e é nessa qualidade que o seu discurso será dos mais aguardados de sábado. Francisco Assis é atualmente eurodeputado do PS, tendo sido cabeça de lista nas europeias de 2014, mas nada indica que vá repetir o cargo nas próximas eleições de maio de 2019 —  sendo “o” crítico, o seu futuro é incerto. “Estou disponível [para continuar no Parlamento Europeu], se não tiver de renegar às minhas convicções”, disse esta semana numa entrevista ao Público.

Nos últimos dois congressos do PS, em 2016 e em 2014, a passagem de Francisco Assis foi sempre polémica e mediática, de uma maneira ou de outra. Em 2014, quando ainda não havia sinais de “geringonça”, tendo António Costa acabado de derrotar António José Seguro nas primárias socialistas e estando ainda Pedro Passos Coelho a chefiar o governo no processo de saída “limpa” do programa de ajustamento da troika, Francisco Assis deu o primeiro sinal de divergência ao ter abandonado o congresso a meio dos trabalhos. Tudo porque o puseram a falar fora de horas e os discursos eram demasiado à esquerda, como disse na altura. O bater com a porta materializou-se na decisão de ficar de fora de todos os órgãos nacionais. Já nessa altura, Assis admitia discordar do caminho político que ia sendo seguido por alguns dos principais apoiantes de Costa que defendiam um entendimento e políticas mais à esquerda, enquanto Assis defendia entendimentos preferenciais com o PSD. Nada de novo, de 2014 a 2018, portanto.

No congresso de há dois anos, o primeiro congresso do PS já com a “geringonça” montada e Costa ao comando do Governo, Francisco Assis assumiu uma posição de coragem ao subir ao palco para criticar abertamente a “aliança contranatura” que Costa tinha feito com os partidos mais à esquerda, dizendo mesmo que essa aliança fazia com que o Governo tivesse “uma liberdade muito condicionada”. O tom crítico valeu-lhe vaias e apupos por parte de alguns congressistas. Assis calou-se por instantes, mas depois retomaria, pondo os pontos nos is: “Assumo uma posição muito crítica relativamente a este Governo”, disse.

Francisco Assis, que em tempos foi bastante próximo de António Costa, tendo sido por ele apoiado quando concorreu, em 2011, contra Seguro nas diretas do PS, é agora o último dos críticos.

Ana Catarina Mendes, a eterna adjunta

Se Mariana Vieira da Silva é o braço direito (ou esquerdo?) de Costa no Governo, Ana Catarina Mendes é o outro braço, mas no partido. Assumindo a função de secretária-geral-adjunta, a também deputada é um dos rostos posicionados na linha da frente para liderar o PS pós-Costa, algo que não estará para breve mas que tem de começar a ser pensado.

Próxima de Costa, Ana Catarina Mendes aparece frequentemente ao lado de Pedro Nuno Santos e de Fernando Medina como os três possíveis candidatos a líder num futuro mais ou menos próximo. Mas enquanto Pedro Nuno e Fernando Medina estão a ganhar terreno, Ana Catarina parece estar entretanto a perder gás. As eleições europeias de maio de 2019 vão ser as primeiras do próximo ciclo eleitoral, e Ana Catarina aparece em alguns círculos como um nome possível para encabeçar a lista do PS ao Parlamento Europeu. Ainda assim, o Observador sabe que ir para Bruxelas não é a sua ambição, pelo que a escolha não deverá afinal recair sobre ela.

Fernando Medina, o herdeiro

O autarca de Lisboa completa o trio de putativos futuros líderes do PS, ao lado de Ana Catarina Mendes e de Pedro Nuno Santos. Mas um eventual “medinismo” no PS, a existir, ainda só se pode conjeturar no longo prazo.

Para o imediato, Fernando Medina chega ao congresso da Batalha ligeiramente fragilizado pela sua prestação nas últimas autárquicas. Era a primeira prova eleitoral a que se apresentava em nome próprio, depois de ter recebido das mãos de António Costa um executivo pintada de rosa maioritário, mas as contas ficaram fechadas com uma queda de 8,91% nos votos para os socialistas e menos três lugares no executivo.

Ganhou as eleições, é certo, mas depois, para conseguir a maioria dos lugares na Câmara Municipal de Lisboa, assinou um acordo com Ricardo Robles do Bloco de Esquerda. Medina rejeitou sempre a ideia de que na capital se tenha formado um modelo à escala da “geringonça” parlamentar.

Ana Gomes, a psicanalista

Já em dezembro a eurodeputada queria deitar o partido no divã. Ana Gomes defendia uma “introspeção” dos socialistas, uma análise virada para dentro que permitisse ao PS perceber como se tinha deixado “instrumentalizar por José Sócrates”. Essa ideia não desapareceu da mente de Ana Gomes — aliás, a socialista quer mesmo levar ao palco do congresso deste fim de semana a discussão sobre os “corruptos e criminosos” que tomaram conta do partido.

O tema é sensível e regressou em força com a notícia, avançada pelo Observador, de que Manuel Pinho é suspeito de ter recebido largas centenas de milhares de euros do Grupo Espírito Santo quando era ministro da Economia do Governo de José Sócrates. Mesmo que mais ninguém ponha o dedo na ferida, Ana Gomes vai certamente “escalpelizar” o assunto.

Ricardo Gonçalves, o agitador

“O PS é um partido estalinista”. É só a mais recente das tiradas do militante socialista de Braga, que já habituou os congressistas do PS às suas intervenções alguns decibéis acima do habitual.

Ricardo Gonçalves merece este rápido apontamento cromático: a sua identificação com a atual solução de Governo é inversamente proporcional à vermelhidão facial com que costuma terminar os seus discursos nas reuniões magnas do PS. “Eu não tenho dinheiro, mas se tivesse não o punha nesta coisa”, disse no encontro de há dois anos, em Lisboa.

Carlos César, o bombardeiro

É presidente do PS e líder parlamentar, funcionando como o braço armado de Costa no Parlamento. Mas o título de bombardeiro nem é tanto por causa dessa função que assume na Assembleia da República: é que foi Carlos César um dos principais responsáveis por começar a desmoronar o castelo de José Sócrates, em 42 horas de declarações sucessivas de destacados dirigentes do PS que culminaram na desfiliação do ex-primeiro-ministro. A ideia era esvaziar o balão “Sócrates” a tempo de o PS chegar ao congresso deste fim de semana confortável com o assunto — e pode tê-lo conseguido.

Vindo de uma semana negra com o caso das viagens dos deputados das ilhas a trazer à tona questões de ética política, Carlos César foi, logo a 24 de abril, o primeiro dos socialistas a subir o tom sobre os casos Manuel Pinho e  José Sócrates. Dias depois voltaria a pôr mais lenha na fogueira: falando na TSF, deu conta do incómodo dos socialistas face ao casos de corrupção que afetavam o partido. “Ficamos entristecidos. Ficamos até enraivecidos com pessoas que se aproveitam dos partidos políticos, e designadamente do nosso, [para ter] comportamentos desta dimensão e desta natureza. Ficamos revoltados com tudo isto”. Falava do caso Pinho, mas quando foi questionado concretamente sobre Sócrates assumiu: “A vergonha até é maior porque era primeiro-ministro”. Estava dado o tiro de partida para a sequência de declarações que se seguiu, e que resultou na saída de Sócrates do PS.

Manuel Alegre, o último dos históricos

Nos últimos dois anos, o PS perdeu os seus principais fundadores e algumas das suas figuras mais emblemáticas. Foi o caso de Mário Soares, António Almeida Santos, Edmundo Pedro e agora António Arnaut. Manuel Alegre surge por isso como uma das principais referências históricas dos socialistas. Defensor da “geringonça” desde a primeira hora, “mesmo quando ela parecia impossível”, como chegou a dizer num discurso em janeiro do ano passado, Alegre aplaude a “coragem e a inteligência de António Costa, Jerónimo de Sousa, Catarina Martins e Heloísa Apolónia” por terem feito história com a solução de governo à esquerda.

O histórico socialista Manuel Alegre só vai ao congresso do PS, que se realiza no próximo fim de semana, se for convidado — mas acha “estapafúrdio” não ser. “Será um caso estapafúrdio não ser convidado, mas em política tudo é possível. Já resolvi muitos congressos, também já virei congressos do avesso. Não sei o que as pessoas querem deste congresso”, disse esta semana em entrevista ao Diário de Notícias, onde também falou da desfiliação de José Sócrates do PS e da “captura do Estado por outros interesses quando Sócrates foi primeiro-ministro”. Segundo Manuel Alegre, agora que está livre do PS é possível que o ex-primeiro-ministro “não se fique”.