Os vencedores
Marques Mendes
Luís Marques Mendes já era muito experiente em televisão, mas tinha pouca prática em debates televisivos, tendo apenas realizado um frente-a-frente em toda a carreira política (contra Menezes). Mas se era novato no formato, não se notou. O ex-comentador colocou, aliás, toda a sua experiência como produto televisivo de massas ao serviço do candidato. Tanto no conteúdo, como na forma, falou para os telespectadores-eleitores com eficácia, através de frases sistematizadas, na exposição por pontos ou até no uso de pausas discursivas. Naquilo que o próprio costuma definir como “hábito cavaquista” preparou também meticulosamente cada debate, escolhendo sempre os temas mais incómodos para o adversário. Como um faminto animal político, tentou atirar-se à jugular dos adversários para aniquilá-los antes que se conseguissem defender. E acertou quase sempre nos momentos-chave em que tinha de o fazer. Isso foi evidente na forma como conseguiu, por exemplo, colar o rótulo de populista a Cotrim e inverter a balança moral quando desafiou o liberal a dizer quem o tinha pressionado a desistir. Mendes só cometeu um erro: subestimar Gouveia e Melo. No último debate, acossado pelas insinuações sobre a vida profissional e deslumbrado com o excesso de confiança, perdeu a clareza. Ainda assim, não o suficiente para que o balanço dos sete debates deixe de ser positivo.
André Ventura
André Ventura é, provavelmente, o político no ativo com mais experiência em debates televisivos. Independentemente do adversário, o líder do Chega faz questão de ser a loudest voice, de interromper os adversários, de falar continuamente por cima. Se a avaliação fosse feita em matéria de cordialidade ou rigor dos factos, seria difícil considerar Ventura um vencedor, mas é no seu estilo populista, truculento e destemido que está uma das suas forças eleitorais. Atirando à imigração, repetindo várias vezes a palavra “Bangladesh”, insistindo num discurso anti-regime (contra “os mesmos dos últimos 50 anos”) e com um discurso anti-corrupção, Ventura conseguiu puxar para si o eleitorado do Chega que – tal como ele próprio – em determinada altura tinha chegado a ponderar votar no almirante nas presidenciais. Pode não ser bonito (como se viu no debate com Catarina Martins), mas – apesar de muitos utilizarem argumentos naïf – os frente-a-frente não são um concurso de Miss Mundo, mas sim um combate de boxe. E Ventura continua a ser dos melhores pugilistas.
António José Seguro
Começou inseguro, enferrujado, sem emoção, mas foi-se encontrando e crescendo ao longo da maratona de debates. O seu melhor momento aconteceu contra Henrique Gouveia e Melo, o debate que precisava de ganhar. Mas também deu boa réplica no frente a frente com João Cotrim Figueiredo. No final deste ciclo, surge com boas possibilidades de passar à segunda volta, uma surpresa para quem partiu em condições tão desfavoráveis e para quem ainda hoje não consegue convencer uma parte do partido.
Os vencidos
Henrique Gouveia e Melo
Existia uma grande expectativa para perceber o que valeria Henrique Gouveia e Melo quando fosse a doer. E a verdade é que, entrevista após entrevista, debate após debate, o almirante foi demonstrando dificuldades gritantes em responder aos desafios. Enredou-se em contradições, apareceu titubeante muitas vezes e mostrou dificuldade em lidar com o escrutínio. Com uma raríssima e importante exceção: o debate contra Luís Marques Mendes. Aí, Henrique Gouveia e Melo apareceu com todo o arsenal e encostou o adversário às cordas. Apesar de tudo, as últimas sondagens refletem o que seria impensável há uns meses. Aquele que era o super-favorito nestas eleições pode não ir além do quarto ou quinto lugar. Tem ainda duas semanas de campanha pela frente para tentar dar a volta ao guião e o frente a frente com Mendes pode ter sido o combustível que lhe estava a faltar; mas também é justo dizer que Henrique Gouveia e Melo desperdiçou uma mão cheia de oportunidades que poderão vir a fazer a diferença.
Catarina Martins
Catarina Martins até pode ter condições para ser a primeira entre os mais pequenos. Pode voltar a colocar o Bloco à frente do Livre (o que é importante) e até do PCP, mas está longe de ter conseguido pescar votos no centro-esquerda. Chegou a dizer, por exemplo no debate com Gouveia e Melo, que não era a candidata do BE, mas ninguém acredita nisso. Nem a própria. Apesar de ter puxado dos galões de ter sido uma das mães da geringonça, teve dificuldade em ir para além do eleitorado do BE e do Livre, que está reduzido a mínimos nas sondagens. A Catarina Martins que ficou em terceiro lugar com meio milhão de votos nas legislativas de há seis anos, não apareceu. Resta-lhe a compensação de fazer melhor do que Mortágua (o que não é difícil) e de repetir, no mínimo, o que fez nas Europeias, quando ficou à frente de comunista João Oliveira e de Francisco Paupério, do Livre.
António Filipe
Aparecia nesta pré-campanha com uma aura diferente. Experiente, respeitado pelos adversários, muito estimado pelos camaradas do partido, tinha, em teoria, o perfil certo para alargar as fronteiras do PCP e crescer além do potencial eleitoral do partido. Mas o António Filipe que se apresentou nesta maratona de debates nunca foi capaz de explicar os méritos da sua candidatura e o porquê de ser ele o fiel depositário dos votos da esquerda. Pelo contrário: na questão da guerra da Ucrânia, com comparações diretas entre Putin e Zelensky, nas posições sobre o projeto europeu e na forma como gritou “neoliberalismo” sempre que teve pela frente alguém vagamente à sua direita, António Filipe mostrou ser o fiel intérprete da linha mais ortodoxa do PCP. Tornou-se ainda mais pequeno do que o partido é atualmente.
Jorge Pinto
Jorge Pinto tinha um problema de notoriedade e teve a oportunidade de aparecer sete vezes em canais generalistas em sinal aberto. Para estreante, não se safou mal – mostrando conhecimento dos temas e robustez intelectual, mas não aproveitou bem a oportunidade. Chega a aparecer atrás de Joana Amaral Dias numa sondagem. Noutras, nem tem votação suficiente para aparecer. Apesar de ter cumprido na defesa dos valores do Livre, são poucos os momentos que ficaram na memória. Talvez o debate com Ventura, onde foi agressivo nos soundbites, tenha sido o que fica para a História, mas foi insuficiente para conseguir justificar o porquê de o Livre – o partido defensor da convergência à esquerda – ter contribuído para a fragmentação desse campo político nesta eleição. Um capricho que pode levar a que a esquerda não tenha candidato na segunda volta.
O camaleão
João Cotrim Figueiredo
É o paradoxo desta pré-campanha. Apareceu apostado em apresentar-se como candidato do futuro, pela positiva e pelas ideias, mas, como um camaleão, acabou a ser o candidato das queixinhas e do queixume, das insinuações e da gritaria — veja-se o embate com André Ventura. Teve prestações sofríveis nos debates, onde demonstrou, não raras vezes, excesso de confiança e falta de preparação. Ainda assim, parece bem colocado nas sondagens e com hipóteses reais de passar à segunda volta. Consegue-o porque, além de gozar de uma reputação que foi construindo ao longo dos últimos anos, fez a campanha mais profissional de todas nas redes sociais.