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FOTOILUSTRAÇÃO INÊS CORREIA/OBSERVADOR

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Os vencedores, os vencidos e o teimoso

Seguro teve vitória de sonho, Marcelo terá sucessor que o respeita, Carneiro tem amigo em Belém. Ventura falha objetivo de bater Montenegro e costismo é extinto. São Bento tenta impor limites a Belém.

Os vencedores

António José Seguro

JOAO PORFIRIO/OBSERVADOR

Seguro afastou-se da política depois de ter perdido de uma forma tão humilhante quanto dramática a liderança do PS em 2014. A chacota relativamente ao “exilado das Caldas”, como era carinhosamente chamado, continuou quando avançou para Belém, com poucos a acreditarem na vitória. Fez boa parte do caminho sozinho, mesmo que muita gente do PS tenha acordado no fim do verão. Até perto do Natal, era apontado genericamente como o mais fraco dos big four (que afinal eram big five). Acabou, no entanto, por ter uma vitória em toda a linha. Logo na primeira volta, ficou em primeiro. Depois, pediu uma legitimidade reforçada e teve-a. Venceu em todos os distritos, em quase todos os concelhos e na esmagadora maioria das freguesias. Embora em termos percentuais não tenha chegado aos 70.35% de Soares, Seguro conseguiu ser  o português mais votado de sempre em presidenciais, com mais de 3,48 milhões de votos, passando mesmo o fundador do PS na reeleição de 1991. A expressiva votação – ainda que num contexto de segunda volta e contra um adversário com grande taxa de rejeição – dá-lhe capital político para ser contra-peso do Governo em Belém e é um bom ponto de partida para a reeleição em 2031. Mesmo que, para a reeleição, tenha direito a dizer: “Qual é a pressa?”

José Luís Carneiro

José Luis Carneiro, secretário-geral do Partido Socialista (PS), exerce o seu direito de voto para as eleições presidenciais, no Porto, 08 de fevereiro de 2026. Mais de 11 milhões de eleitores são chamados a escolher o novo Presidente da República, num sufrágio que opõe António José Seguro a André Ventura, os dois mais votados em 18 de janeiro. ESTELA SILVA/LUSA

ESTELA SILVA/LUSA

O secretário-geral do PS foi o primeiro líder partidário a reagir aos resultados eleitorais. Claramente, estava cheio de pressa. Estava com pressa de afirmar que estava em causa “a vitória de um socialista de sempre”. Estava com pressa de lembrar que Seguro será, tal “como Mário Soares e Jorge Sampaio, um Presidente para todos os portugueses”, presumindo-se que os Presidentes não socialistas só o foram de alguns portugueses. E estava com pressa de oferecer os serviços do PS ao novo Presidente, afirmando-se “disponível para contribuir para alguns consensos fundamentais para a vida do nosso país”, em especial aqueles que “o novo Presidente eleito trouxe para a campanha”. José Luís Carneiro vai tentar usar a eleição de um socialista para a chefia do Estado como uma alavanca para recuperar o poder e influência perdidos pelo PS — mesmo que isso implique aceitar uma posição de subserviência em relação ao Palácio de Belém.

Marcelo Rebelo de Sousa

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, profere uma mensagem a propósito da realização do segundo sufrágio das Eleições Presidenciais de 2026, no Palácio de Belém, em Lisboa, 07 de fevereiro de 2026. ANTÓNIO PEDRO SANTOS/LUSA

ANTÓNIO PEDRO SANTOS/LUSA

Marcelo Rebelo de Sousa andou nos últimos dois anos nos bastidores – onde se movimenta como ninguém – a tentar evitar que um candidato anti-sistema (Ventura ou Gouveia e Melo) fosse seu sucessor. Mesmo que tenha tido pouca responsabilidade nisso, o objetivo está atingido. Se Ventura tivesse sido eleito Presidente seria a vitória do anti-Marcelo. Sempre preocupado com o legado – e não se prevendo a priori que Seguro seja um Presidente exuberante – Marcelo pode sempre esperar que se concretize o adágio popular de que “atrás de mim virá, quem bom de mim fará”. Além disso, o socialista irá respeitar a herança de Marcelo e permitir a saída do incumbente com dignidade. Aliás, o atual Presidente marcou uma reunião já para esta segunda-feira à tarde e o Presidente eleito aceitou de imediato. Enquanto houver dois Papas, já se percebeu que vai ser Marcelo a marcar os compassos. Ventura nunca o permitiria.

Os vencidos

André Ventura

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

André Ventura atingiu um novo máximo de votos (1.729.381) e de percentagem (mais de 33%), mas a derrota sabe a pouco. Não venceu nenhum distrito, só venceu dois concelhos (Elvas e São Vicente) e perdeu nos dois concelhos liderados pelo Chega em Portugal Continental (Albufeira e Entroncamento). Ventura queria ser o líder da direita, mas — mesmo com mais cerca de 300 mil votos — teve menos 280 mil que Luís Montenegro nas últimas legislativas. É verdade que o que o líder do Chega quer, verdadeiramente, é ser primeiro-ministro, mas, mesmo esse objetivo, teve um pequeno revés. O novo teto eleitoral ainda é curto para isso. Não adiou as eleições, mas provavelmente adiou a tão desejada vitória final.

António Costa

epa12602235  European Council President Antonio Costa at the end of the EU Council Summit in Brussels, Belgium, 19 December 2025. EU leaders were meeting to discuss the latest developments in Ukraine, the EU's next multiannual financial framework, the EU enlargement process, and the geoeconomic situation in the European Union.  EPA/OLIVIER HOSLET

OLIVIER HOSLET/EPA

O Partido Socialista de António Costa morreu oficialmente no domingo à noite. O PS que odeia Seguro desde sempre; o PS que combateu, derrotou, humilhou e exilou Seguro em 2014; o PS que tentou isolar, substituir e travar Seguro em 2026 — esse PS já era. Durante mais de dez anos, António Costa dominou o partido e chegou a fantasiar com a possibilidade de designar os seus sucessores. Mas, como se costuma dizer, todas as vidas políticas acabam em derrota. Daqui para a frente, o PS terá de seguir o caminho de António José Seguro. Ainda por cima, o novo Presidente da República conseguiu uma vitória que ninguém — nem em Lisboa, nem em Bruxelas — pode descrever como sendo “poucochinho”.

O teimoso

Luís Montenegro

Prime Minister, Luis Montenegro, talks to the press after the end of the second round of the Portuguese presidential elections won by the candidate Antonio Jose Seguro, Porto, Portugal, 8th February 2026. More than 11 million voters were called upon to choose the new President of the Republic, in an election that pitted Antonio Jose Seguro against Andre Ventura, the two candidates who received the most votes on 18 January. ESTELA SILVA/LUSA

ESTELA SILVA/LUSA

O primeiro-ministro teimou que, depois da primeira volta, não teria mais nada a ver com as eleições presidenciais — e, no discurso de domingo à noite, manteve essa linha, preferindo ocupar quase todo o seu discurso com as prioridades do governo. Começou logo a tentar condicionar António José Seguro, avisando que o Presidente da República terá de se limitar a exercer os poderes que a Constituição lhe dá — e nada mais do que isso. Além disso, insistiu que só deverá haver novas eleições legislativas daqui a três anos e meio e que o valor principal da vida política portuguesa é, convenientemente para ele, a “estabilidade”. Luís Montenegro sabe que os próximos dias, semanas e meses serão decisivos para definir qual será a relação entre Belém e São Bento. Por isso, quer já começar a condicionar o novo Presidente.

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