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Os vencedores, os vencidos e os ausentes do Congresso do PS

Carneiro venceu corrida onde estava sozinho, César é o senador dos senadores e Seguro já conta para o PS. Pedro Nuno foi (quase) apagado da memória. E Ricardo Gonçalves nem lista conseguiu apresentar.

Os vencedores

José Luís Carneiro

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Foi eleito por uma votação quase norte-coreana e teve este fim de semana o seu congresso de entronização. As críticas que se registaram nos dias anteriores ficaram à porta da reunião magna socialista e ninguém o desafiou ou questionou séria e abertamente. Objetivamente, não há forma de dizer que José Luís Carneiro não é o vencedor deste congresso. Tal como é impossível não notar que teve a sua festa de consagração praticamente às moscas, que continua sem conseguir levantar uma pulga e lidera um partido que não pode com uma gata pelo rabo. Como bónus, ainda se embrulhou num inexplicável psicodrama orçamental, com ameaças de crise política à mistura, de onde não há uma saída evidente e feliz para o PS. Fica a sensação de que ganhou por falta de comparência dos adversários e que o relógio já começou a contar para Carneiro. A ver se consegue enganar a sorte.

Carlos César

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Carlos César continua a impor-se como uma espécie de guardião do templo. É ele que tem a chave do cofre e, ao mesmo tempo, a voz mais autorizada para dizer o que está dentro e fora da gaveta onde Mário Soares colocou o socialismo. Aproveitou-o para tentar reposicionar o PS na matriz ideológica, avisando que já não basta forçar o binómio esquerda-direita. A eleição como presidente do partido, que tem sido comum aos últimos três líderes (António Costa, Pedro Nuno Santos e José Luís Carneiro), coloca-o acima das disputas internas – das quais se vai mantendo cínica e confortavelmente afastado. A reeleição por cerca de 90% dos delegados, embora com uma percentagem ligeiramente inferior a 2024, mostra que é consensual para o cargo que ocupa no partido.

Miguel Costa Matos

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Sem Duarte Cordeiro no Congresso, foi Miguel Costa Matos a protagonizar a corrente mais desalinhada com uma moção setorial que desafiou o líder a largar os ‘nins’ e a sair de cima de muro (subscrita por ex-predronunistas/‘cordeiristas’ e não só). Pedro Costa, outro dinamizador da mesma, deu-lhe o palco. A moção não só representa uma nova geração de “jovens turcos”, como prepara caminho para o futuro para a geração intermédia (onde está Duarte Cordeiro). Não havendo um claro e identificado opositor a José Luís Carneiro no congresso, Costa Matos acabou por ser o rosto dessa oposição hibernada.

António José Seguro

O Presidente da República e Comandante Supremo das Forças Armadas, António José Seguro, durante uma audiência com o Chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas, General João Cartaxo Alves, o Chefe do Estado-Maior do Exército, General Eduardo Mendes Ferrão, o Chefe do Estado-Maior da Armada, Almirante Jorge Nobre de Sousa e o Chefe do Estado Maior da Força Aérea, General Sérgio Costa Pereira, no Palácio de Belém, 13 de março de 2026. JOSÉ SENA GOULÃO/LUSA

JOSÉ SENA GOULÃO/LUSA

Depois de anos a ser esquecido e até ostracizado pelo seu partido, António José Seguro foi lembrado como uma espécie de herói eleitoral que travou a extrema-direita. Os 3,5 milhões de votos que o antigo secretário-geral do PS teve nas Presidenciais até serviram para José Luís Carneiro demonstrar que o centro moderado é maioritário e que é possível um socialista conquistá-lo. É verdade que, quando o líder saudou o novo Presidente no encerramento do Congresso, o aplauso não foi apoteótico (apesar de ter sido simpático), mas foi impossível às principais figuras ignorarem a vitória de Seguro. Além disso, muitos contam com ele para garantir, com o seu magistério de influência, que o PS não é excluído do arco constitucional.

Os vencidos

Ricardo Gonçalves

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Ricardo Gonçalves é um inconformado e tem a audácia de estar quase sempre contra a linha oficial. Apoiou José Luís Carneiro quando este perdeu contra Pedro Nuno Santos. Agora que Carneiro é líder, não deixou de o apoiar, mas fez uma lista de delegados alternativa ao Congresso e juntou um grupo de pessoas de várias zonas do país que se pronunciaram contra o facto deste ser um mini-Congresso, com menos delegados, o que amputa a pluralidade interna. Chegado ao Congresso tudo fez para apresentar uma lista alternativa à Comissão Nacional, mas quando chegou o prazo a impressora encravou e só conseguiu entregar a primeira folha (que tinha sete nomes) à Mesa. César, já escaldado com Gonçalves, foi implacável e não aceitou a lista, mesmo com Ricardo Gonçalves a alegar que tinha mais nomes do que os necessários. Fica a lição aprendida para daqui a dois anos. Como dizia Lacão: as alternativas preparam-se com tempo.

Pedro Nuno Santos

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Era o messias do PS. A grande esperança de uma geração de militantes socialistas. O menino prodígio. O jovem turco que não deixava ninguém indiferente. Sucedeu a António Costa, foi a votos duas vezes e por duas vezes perdeu com estrondo. Saiu pela porta pequena, deixando um minimal mas fiel grupo de indefectíveis. Em três dias de congresso, só um orador — Pedro Vaz, ex-dirigente e um dos mais próximos — o lembrou, agradecendo-lhe os anos que dedicou ao partido e dizendo que o PS era e será sempre a casa dele. Apesar dos insucessos eleitorais e dos erros que cometeu, Pedro Nuno Santos merecia mais. Mas se alimenta expectativas de voltar à política — e com Pedro Nuno nunca se sabe — a ingratidão com que foi tratado e o esquecimento a que foi votado neste congresso não augura nada de bom.

António Costa

António Costa, Presidente do Conselho Europeu, participa num debate com jornalistas da Sala de Imprensa Europeia, Bruxelas, Bélgica, 16 de março de 2026. (ACOMPANHA TEXTO DA LUSA DE 17-03-2026) MARKUS LENHARDT/ DPA/ EUROPEAN NEWS ROOM/LUSA

Markus Lenhardt/DPA

Se o PS está na posição em que se encontra hoje, muito o deve a António Costa, à forma como governou o país e como desbaratou uma maioria absoluta em dois anos. Ainda assim, e mesmo depois da queda, uma generosa fatia do partido continuou a defender com unhas e dentes tudo o que foi feito nesses oito anos, sem qualquer capacidade de fazer uma reflexão crítica sobre o que correu bem e menos bem. O tempo passou, Costa conseguiu a sua cadeira de sonho, o PS ficou em cacos e os que ficaram para trás estão agora a tentar recolhê-los. Em Viseu, Ana Catarina Mendes e Mariana Vieira da Silva foram as únicas a fazer a clara defesa do seu legado. O PS, o mesmo que agora suspira por Seguro, virou a página do costismo.

Os ausentes

Duarte Cordeiro

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Já pouca gente disfarça e o próprio não o enjeita. A oposição interna a José Luís Carneiro — ou, simplesmente, os mais desencantados com o atual líder socialista — estão a olhar para Duarte Cordeiro como o senhor que se segue. O ex-ministro e antigo vice-presidente da Câmara de Lisboa não apareceu no Congresso — por indisponibilidade de agenda — mas conseguiu, numa curta intervenção no canal Now antes da reunião magna do PS, demonstrar mais clareza de espírito e juízo do que muitos dos seus camaradas que se deslocaram até Viseu. O caminho faz-se caminhando e, ao que parece, Duarte Cordeiro já se fez ao caminho. Cordeiro é a sombra de Carneiro.

Fernando Medina

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Fernando Medina é outro que faltou à chamada, ficando sujeito durante o Congresso a ouvir de apoiantes de Carneiro (e também de Carlos César) que o espaço por excelência do debate interno é o Congresso. O ex-ministro das Finanças – que até ouviu do sofá Carneiro a elogiar as boas contas públicas que o PS deixou em 2023 – prefere falar do futuro do PS e discordar da liderança nos espaços de comentário que tem na televisão e na rádio do que perante os seus camaradas. São opções. Se são eficazes ou não, o tempo o dirá.

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