1228,7kWh poupados 1228,7 kWh poupados com a
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Reduza a sua pegada ecológica.
Saiba mais

i

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Paulo Cafôfo: “Férias de Albuquerque durante os incêndios marcaram mais população do que caso judicial”

Em entrevista, Cafôfo nega possibilidade de PSD trocar de líder para governar, exige que partidos apresentem acordos escritos e acusa Albuquerque de inventar cabala para se proteger da Justiça.

Paulo Cafôfo sentou-se no gabinete decorado com um retrato de Mário Soares, na sede do PS-Madeira, no mesmo dia em que conheceu os resultados de uma sondagem pouco animadora, que indica que os madeirenses devem voltar a entregar a vitória ao PSD. Mas o líder dos socialistas madeirenses, reconhecendo que o arquipélago é “o sítio mais difícil do país para fazer oposição”, garante que se sente qualquer coisa a mudar no ar das ilhas — incluindo quando a população se queixa em voz alta de Miguel Albuquerque, apesar do medo de “saneamentos” — e que a oposição não tem margem para falhar.

Pensando nos cenários possíveis para o day after, e defendendo que neste momento Albuquerque vale menos do que o PSD, Cafôfo vai avisando: o PS “nunca aceitará” que o PSD tente substituir o atual líder, caso não consiga apoios parlamentares de outra forma, para tentar governar. E o representante da República deve dar mais tempo à oposição para se organizar e exigir acordos escritos a quem se propuser a formar governo.

Nesta entrevista, Cafôfo deixa duras críticas a Albuquerque: abandonou a população para ir de férias durante os incêndios, usou os madeirenses como “escudo” inventando uma cabala do continente contra a região, paga empregos com o dinheiro da Madeira, envergonha Luís Montenegro e é um líder “fraco”. Mas também admite erros: quando se demitiu da liderança do PS-Madeira, após as últimas autárquicas, sabe que provocou “desilusões” (incluindo no próprio partido).

“Dirigentes do PSD ameaçam quem não votar com corte de reformas”

É a terceira vez que se candidata às eleições regionais da Madeira. Nunca ganhou. O que é que é diferente desta vez?
É a reação das pessoas e a forma espontânea como têm manifestado o apoio a mim e ao PS-Madeira, assim como as críticas contundentes que fazem ao PSD e a Miguel Albuquerque. Tenho encontrado na rua pessoas que o dizem de forma espontânea e com os microfones da comunicação social ligados –  isto faz toda a diferença, porque em surdina até diziam, mas não em voz alta e muito menos com os microfones ligados. Não há mesmo um dia em que não encontre militantes do PSD e hoje um disse-me: sou militante do PSD, mas vou votar em si porque estou farto e cansado do Miguel Albuquerque. Isto tem sido recorrente e não era nada normal, nem em 2019, quando estivemos quase a conseguir ser governo. Há aqui qualquer coisa a mudar. A sociedade madeirense é uma sociedade conservadora, onde o governo tem uma preponderância muito grande, uma hegemonia de controlo absoluto sobre tudo e sobre todos. Em tudo que mexe na Madeira o governo mete a mão. É o principal empregador da região, temos quase 30 mil funcionários públicos que são confundidos pelo PSD como funcionários partidários. E é preciso também libertar estes homens e estas mulheres, que têm uma missão fundamental, deste jogo e desta pressão política.

Quando diz que há medo e pressão quer dizer que as pessoas temem perder o emprego?
Há medo pelas represálias. Não estou a falar de cor. Mesmo na luta interna que existiu entre Miguel Albuquerque e Manuel António Correia, em que Miguel Albuquerque inviabilizou na secretaria a existência de um congresso e de eleições internas, houve apoiantes do Manuel António no governo regional que foram saneados. Quando os próprios quadros do partido são saneados, o que fará aos que não têm partido ou são do PS. Há este medo instituído. O défice democrático de que Mário Soares falava no tempo de Alberto João Jardim ganhou escola. Esta forma de poder absolutista, castradora, condiciona o voto das pessoas.

O PS fala em exemplos de pessoas que têm medo de perder a reforma.
Institui-se o medo. E o medo vai desde não terem emprego, ou não terem emprego para o filho, ou de não ter uma casa, ou de as reformas dos mais idosos serem cortadas, quando efetivamente não podem ser.

Mas isso são ameaças que são efetivamente feitas?
São ameaças que são feitas num regime…

Por quem? Por dirigentes do PSD?
Claro, vamos lá ver. Há aqui uns tentáculos de um polvo que abrangem toda a sociedade madeirense. Que vão desde os dirigentes desportivos, associações culturais, casas do povo, tudo é uma máquina que é difícil de romper, mas é possível. Tanto é possível que ganhei as eleições em 2013, e voltei a ganhá-las em 2017, na câmara do Funchal, com maioria absoluta. É preciso que haja um ambiente político convergente, e neste momento temos esse ambiente. Não só pelos casos judiciais que envolvem o presidente do governo – e não deixa de ser curioso que Miguel Albuquerque diga que é a grande estabilidade, quando estamos nas terceiras eleições antecipadas devido a Miguel Albuquerque, e devido ao facto de não ter conseguido garantir estabilidade com os partidos com os quais fez acordos. Além disso, não pode alguém que é arguido e suspeito de corrupção ativa e passiva, que a qualquer momento pode ser levado pela Justiça, dizer que com ele há estabilidade. Se Miguel Albuquerque continuasse como presidente, a qualquer momento poderíamos ter eleições antecipadas novamente, até no dia a seguir a estas eleições. Há uma comparação que se pode fazer entre Miguel Albuquerque e Luís Montenegro…

São casos diferentes. Luís Montenegro não é arguido.
São casos diferentes, mas ambos fogem do esclarecimento das questões pelas quais estão envolvidos, com o agravante de Miguel Albuquerque ser arguido. E Miguel Albuquerque disse, durante o processo que levou à demissão de António Costa – que não foi arguido – que António Costa não tinha condições para ser primeiro-ministro, e Portugal estava sem rumo.

Acha que tem um critério diferente para ele próprio?
Completamente, tal como Montenegro, que estabelece critérios dentro do próprio partido e não os aplica a si, e já disse que se fosse arguido iria novamente ser candidato pelo PSD.

"Quando os próprios quadros do partido são saneados, o que fará aos que não têm partido ou são do PS. Há este medo instituído. O défice democrático de que Mário Soares falava no tempo de Alberto João Jardim ganhou escola. Esta forma de poder absolutista, castradora, condiciona o voto das pessoas"

“Férias de Albuquerque durante os incêndios marcaram mais população do que caso judicial”

Falámos das derrotas que tem tido aqui na região, além da única sondagem atualizada que temos neste momento, em que o PS não parece descolar e perde um deputado. O que é que está a falhar?
Esta sondagem não reflete o sentimento que eu encontro na rua.

Não acredita na sondagem?
A questão não é acreditar ou não acreditar, é o sentimento e a realidade com que me deparo na rua, com manifestações de apoio e um sentimento de fim de ciclo. As pessoas estão cansadas e fartas do PSD e do Miguel Albuquerque e querem outra solução governativa. Nunca senti isso como agora na rua. Mas acredito que estas eleições vão ser decididas pelos indecisos. Nos indecisos temos um grupo de pessoas que estão absolutamente descontentes e não teriam a intenção de votar; julgo que até domingo tomarão uma posição diferente, porque o seu descontentamento será agravado se não votarem, se o PSD ganhar. Mas temos outro grupo de pessoas, que ainda não decidiram como vão votar e poderão votar em partidos que não elegem deputados ou que depois, como no passado, se vão se juntar ao PSD. Por isso, a dispersão de votos partidos acaba por ser um desperdício na oportunidade que temos de mudança. É necessário convergir votos no PS, que é o maior partido da oposição, tem um projeto sólido, coerente, com propostas e pessoas competentes. E tem-me também a mim, com uma experiência executiva muito importante no Funchal e como secretário de Estado. Não podemos entrar em aventureirismos.

Aventureirismos? Neste caso suponho que esteja a falar de partidos como o JPP. O PSD não é propriamente uma novidade na Madeira…
Não é uma novidade, mas tem sido uma aventura com estes casos judiciais. Mas não são só os casos judiciais. Um presidente do governo tem de ser um líder. E um líder tem de ser responsável. Miguel Albuquerque não quer sair de presidente do governo porque não quer responder à justiça, porque se refugia na imunidade enquanto conselheiro de Estado. Já o desafiei várias vezes a requerer ao Presidente da República a retirada da sua imunidade. Não o faz, porque se protege. Mas não é um líder também quando abandona os madeirenses nos incêndios de agosto e foge para o Porto Santo, para as suas férias. Esta imagem que todos temos de Miguel Albuquerque numa espreguiçadeira no areal do Porto Santo, quando as pessoas estavam a fugir de suas casas, com fogo à sua porta, isto não é de um líder. Porque um líder nunca abandona a sua população. Julgo que isto até que ficou mais marcado nas pessoas do que o próprio processo judicial. Noto que afetou a relação de confiança com o eleitorado. É uma imagem que o fragilizou e marca esta liderança fraca de Miguel Albuquerque.

A entrevista ao Observador aconteceu no gabinete de Cafôfo, na sede do PS Madeira.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Ainda sobre os casos judiciais e as táticas do PSD-Madeira, escreve no seu programa que está certo de que os madeirenses não se reconhecem numa “forma de fazer política que valida a violência, a falta de regras, a degradação das instituições”. O que é que lhe dá essa certeza, uma vez que a população já conhecia, por exemplo, este caso judicial e a maneira de proceder do PSD Madeira quando o elegeu da última vez?
Temos aqui na região um microclima político muito especial. É preciso aterrar na Madeira e perceber como é que as coisas funcionam aqui. Miguel Albuquerque tem-se vitimizado com este processo judicial. Houve uma manipulação da informação, de que isto era uma cabala do continente contra a Madeira. Quando aterrou um avião da Força Aérea com quase 200 agentes da Polícia Judiciária, com todas as buscas e Miguel Albuquerque e mais de metade do governo arguidos, a narrativa, bem conseguida, foi de que ele era uma vítima. Que isto era uma cabala contra a Madeira. E não era contra ele, era contra a Madeira e contra os madeirenses.

[Já estreou “O Misterioso Engenheiro Jardim”, o novo Podcast Plus do Observador que conta a história de Jorge Jardim, o empresário que, na verdade, era um agente secreto que liderou missões perigosas em todo o mundo, tentou criar um país e deu início a um clã de mulheres aventureiras. Pode ouvir aqui, no Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music]

Albuquerque usou os madeirenses como escudo?
Usou, claramente. É um líder que foge e abandona o seu povo quando a Madeira está a arder e depois, numa situação em que ele é que é o suspeito, usa como escudo protetor a população madeirense. Não a protege e usa-a como escudo. E isso levou à perceção das pessoas de que o processo já tinha acabado e que, na verdade, isto era uma cabala contra a Madeira e contra os madeirenses. Quando os madeirenses são pessoas honestas e  não estão envolvidos nas negociatas pelas quais Miguel Albuquerque é indiciado.

"Miguel Albuquerque tem-se vitimizado com este processo judicial. Houve uma manipulação da informação, de que isto era uma cabala do continente contra a Madeira. A narrativa, bem conseguida, foi de que ele era uma vítima. Que isto era uma cabala contra a Madeira e contra os madeirenses"

“Cometi um erro quando me demiti da liderança do PS”

Não me chegou a dizer nenhum erro que o PS tenha cometido nos últimos anos. Acha que fez tudo bem?
Não, de maneira nenhuma. O PS comete erros e eu próprio cometo erros. Não vou falar pelo PS porque temos um historial de homens e de mulheres que têm feito uma luta muito difícil. O sítio do país onde é mais difícil fazer política e ser oposição é aqui na Madeira. Não tenho dúvidas absolutamente nenhumas. E diria que cometi um erro quando me demiti da liderança do PS, na sequência das eleições autárquicas, pelo facto de termos perdido as eleições na Câmara Municipal do Funchal. Emocionalmente afetou-me, porque conquistei a câmara, e sei o que é que me custou conquistar, e construir um projeto na cidade do Funchal. Demiti-me do partido, saí da Assembleia Regional e regressei à minha atividade como professor. Sei que isso causou nas pessoas alguma desilusão.

É uma das críticas que lhe fazem, mesmo dentro do seu partido.
Sim, mas é fácil fazer críticas depois de as coisas terem acontecido. As pessoas não pensam que fiz aquilo que é raro alguém fazer, que é perceber que a política não é uma profissão, porque sou professor e voltei à minha escola. Dei lugar a outro e voltei à minha atividade. Depois houve uma circunstância a nível nacional: houve eleições antecipadas e uma maioria absoluta do António Costa, que me convidou para ser secretário de Estado. E eu não poderia recusar esta honra de ser secretário de Estado, ainda para mais das comunidades portuguesas, numa das regiões do país que tem uma das maiores comunidades de imigrantes. As pessoas ficaram desiludidas, eu percebo, mas não valorizam esta parte do desprendimento que eu tive e de abraçar uma profissão, porque eu não preciso da política. Felizmente, gosto muito de ser professor.

Por falar em desprendimento, ia perguntar-lhe sobre os seus planos. Caso perca estas eleições, se demite-se da liderança do PS-Madeira?
O meu lema é, e é mesmo o que eu sinto, que a Madeira é a causa da minha vida. Tenho um partido para gerir, um projeto para a região e estou completamente comprometido com ele. Não coloco para já o cenário de um falhanço nestas eleições, tenho confiança e estou com muita tranquilidade relativamente aos resultados.  Espero poder ser presidente do governo, e poder fazer a diferença com uma liderança democrática. Eu próprio, desafiado internamente no partido, convoquei um congresso e eleições internas, portanto não tenho medo de eleições, ao contrário de Miguel Albuquerque. Quero que este exemplo democrático que tenho dado dentro do meu partido possa transpor-se para a região.

Ouça aqui a entrevista na integra.

“Albuquerque vale menos do que o PSD”

Mas, sem dizer diretamente se se demite ou não, não podem acusá-lo de estar agarrado ao poder?
Somos presos por ter cão e por não ter. Aprendi com os erros, e acredito que será um cenário positivo, e estarei aqui, com esta minha causa, que é a Madeira, lutando na liderança do partido, e espero que na liderança da região.

Num caso desses, não acha que deve dar oportunidade a outros de tentar fazer melhor?
Acabámos de ter agora um congresso e não tive nenhum adversário político interno, a minha moção global estratégica foi aprovada por quase 99%. No dia a seguir às eleições estarei focado, espero eu, numa solução governativa e não nas questões internas do partido, que agora não se colocam.

Acusou Carlos Pereira de prejudicar o PS. Há espaço para vozes diferentes no partido? Miguel Albuquerque tem usado este argumento para dizer que tem uns amigos no partido que querem correr consigo.
Não, eu acho que ele é que tem amigos no partido que querem correr com ele, porque no meu partido ninguém pediu um congresso. Quem pediu a cabeça de Miguel Albuquerque foi o Manuel António Correia. O PS é um partido plural, onde há espaço para vozes divergentes, e, como se vê, não tenho medo da democracia, nem o meu partido tem medo da democracia, quando abrimos espaço para que aparecessem adversários.

Os críticos internos diziam que 15 dias não dava tempo para montar uma candidatura.
Quem está há meses ou há anos a querer ser líder do partido não pode vir com essa desculpa dos 15 dias.

Existia, tanto quanto nós sabemos, um inquérito do Ministério Público sobre o seu tempo como autarca. Tem novidades sobre isso? Chegou a ser ouvido?
Não, nunca. Houve uma denúncia anónima, em 2018, que não foi sequer contra mim. Foi contra mim e todos os presidentes de câmara do PS. Nunca fui ouvido, muito menos constituído arguido, portanto não há qualquer tipo de comparação com o que se passa com Miguel Albuquerque.

"Cometi um erro quando me demiti da liderança do PS, na sequência das eleições autárquicas, pelo facto de termos perdido as eleições na Câmara Municipal do Funchal. Emocionalmente afetou-me. Sei que isso causou nas pessoas alguma desilusão"

“Partidos têm de apresentar acordos escritos”

Porque é que não se concretizou a coligação pré-eleitoral que chegou a defender publicamente? Até falou de uma falta de visão da oposição. A oposição já está a ver melhor?
Estou convencido de que estão a ver melhor e a ser mais responsáveis, ou pelo menos serão mais responsáveis no dia a seguir às eleições. Considero e considerei que devíamos ter feito um entendimento pré-eleitoral. Teria sido a melhor estratégia de combate ao PSD, porque unidos e juntos somos mais fortes. Não foi esse o entendimento e respeitei isso.

Mas teriam tido tempo de construir um programa mais coeso, por exemplo.
O PS tem o programa coeso. Éramos o único partido que tinha o seu programa exposto na sua página, os outros escondiam o seu programa. Agora, obviamente seria um programa conjunto, mas não há mal nenhum. O importante é o dia a seguir às eleições.

Também seria preciso alguma criatividade para, se incluísse partidos como a Iniciativa Liberal do Bloco de Esquerda, fazer um programa coeso. 
É isto o entendimento diferente aqui na Madeira. Quando se tem há quase 50 anos o mesmo partido no poder, as questões ideológicas são diluídas no interesse coletivo de uma mudança. E podemos ter diversos tipos de entendimentos, não tem de ir toda a gente para o governo. Podemos ter uma coligação governamental, e outra de incidência parlamentar, ou de apoio esporádico em determinadas matérias, como o orçamento. Pode haver entendimentos multifacetados para podermos garantir governabilidade. Coisa que Miguel Albuquerque não consegue garantir, porque, como digo, a qualquer momento pode responder perante a Justiça.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Num cenário em que ninguém tem a maioria absoluta, qual é que é a primeira coisa que fará? Vai ligar a quem?
A primeira coisa que vou fazer, com certeza, é ligar ao segundo partido mais votado além do PS. Parece-me natural seguir essa hierarquia de representatividade eleitoral.

Há praticamente um ano, também disse que era um momento especial e que estava a desenhar-se uma geringonça. Tem alguma garantia de que, mesmo que queira chegar a acordo, por exemplo, com o JPP, a história será diferente desta vez?
Julgo que será diferente, porque o que aconteceu aqui foi que o representante da República não chegou a dar o tempo necessário para o diálogo, que não é fácil, como é óbvio. Na segunda-feira a seguir às eleições já tinha indigitado Miguel Albuquerque como presidente do Governo.  Neste pré-entendimento com o JPP até fomos muito rápidos, não deu tempo foi para estendê-lo a outros partidos.

Como é que interpretou essa rapidez do representante da República?
Não queria comentar, o representante da República tem lá as suas razões e eu respeito-o institucionalmente, e até tenho alguma estima pessoal por ele, mas houve uma precipitação.

Mas é uma decisão política. 
Há, claramente, uma decisão política, mas julgo que houve uma precipitação no querer sanar rapidamente uma instabilidade política. Só que essa precipitação levou a mais instabilidade política.

Acha que desta vez Ireneu Barreto deveria exigir um acordo escrito aos partidos?
Já manifestei essa opinião ao representante da República. Em conversas que tivemos, houve duas coisas sobre as quais opinei. Uma é que nos desse mais tempo, fosse qual fosse o resultado eleitoral, para um diálogo interpartidário. Outra é que ele não podia aceitar, seja de quem fosse, acordos que não estivessem escritos. Coisa que não aconteceu na última vez. Houve um acordo tácito, não foi escrito; o Chega disse uma coisa, depois desdisse, uma trapalhada total. Não há nada como as coisas estarem preto no branco, escritas no papel e assinadas, firmando a responsabilidade dos partidos e dos líderes.

E como é que Ireneu Barreto acolheu essas sugestões? Acha que há disponibilidade para elas? 
Acho que há disponibilidade, e também que retirou conclusões da forma como foi gerido o processo.

Desta vez já falou com outros partidos para prevenir que a situação se repita? Já há contactos a decorrer?
Não há qualquer contacto. O nosso foco é convergir os votos no PS, nomeadamente os votos das pessoas que estão indecisas, porque o PS é o único que pode garantir estabilidade e uma solução governativa. Só no dia a seguir às eleições, ou no próprio dia, é que falaremos uns com os outros.

Acha que vão ser acomodáveis promessas como as do JPP, que fala em construir 500 casas por ano? Já esteve a olhar para os programas dos outros partidos?
Olho para os programas de todos os partidos para saber o que é que pensam e o que é que propõem. É possível acomodar, não há nada de extraordinário nas propostas de partidos que possam estar no arco da governação num próximo governo regional, com acertos e ajustes, até porque o orçamento não dá para tudo. E temos de ter esta responsabilidade de não pôr em causa as contas públicas. Quem tem experiência governativa sabe que tem recursos limitados para necessidades ilimitadas. E temos de estabelecer prioridades e fazer uma calendarização. Porque não podemos fazer tudo, nem tudo de uma vez, nem contentar toda a gente. Há que tomar decisões, e algumas decisões difíceis. Temos de congregar as propostas dos partidos, ver o que é possível, numa cedência de todos, porque o programa de governo não poderá ser uma soma do programa de todos. Isto é impossível e inviável. Há um trabalho de responsabilidade, porque não temos margem de erro. O que peço é uma oportunidade de o PS poder ser governo. O PSD errou no passado, vê-se nos problemas que temos na saúde, na habitação, nos rendimentos, com o mais elevado custo de vida do país e os salários médios mais baixos, com 72 mil pessoas em risco de pobreza ou exclusão social. Erraram nas suas políticas ou na sua maior obra, que devia ser as pessoas. E não vamos ter margem para falhar.

"Disse a Ireneu Barreto que nos desse mais tempo para um diálogo interpartidário. E que não podia aceitar, seja de quem fosse, acordos que não estivessem escritos. Ele mostrou disponibilidade e retirou conclusões do último processo"

“Quem não vai a votos não tem legitimidade para ser presidente”

Acha que o PSD teria legitimidade para governar com outro presidente que não fosse Miguel Albuquerque?
Quem não vai a votos não tem legitimidade para ser presidente. Do ponto de vista formal obviamente isso é possível, mas o PS nunca aceitará isso.

Neste momento, Albuquerque acaba por ser o maior ativo tóxico do PSD? 
Da região, na verdade.

Acha que isso é a explicação para o desaparecimento da figura de Miguel Albuquerque nos cartazes do PSD?
Não tenho dúvidas disto. Porque o PSD, hoje em dia, vale mais do que Miguel Albuquerque. Ou melhor, Miguel Albuquerque vale menos do que o PSD. E é por isso que o grafismo é um grafismo chapado daquilo que era o design do tempo de Alberto João, e ele não aparece nos cartazes. Porque sabe que aparecer nos cartazes prejudica o resultado do PSD. E por isso esconde-se. E o maior destaque que o Miguel Albuquerque tem é como presidente do Governo, não é como candidato. Portanto, usa a sua figura de presidente do Governo. Não respeita as instituições. Nem o Governo Regional, nem a Assembleia Regional, nem a CNE. Não tem um sentido institucional, nem é um estadista.

Acredita nas garantias dos partidos de que não vão dar a mão ao PSD? Já disse que no CDS há um critério para decidir, que são as mordomias que José Manuel Rodrigues tem como Presidente da Assembleia Regional, e já disse que o Chega, por exemplo, é o partido do “nim”. Portanto, acha mesmo que no dia a seguir não pode haver aqui uma reviravolta e haver uma colaboração com Miguel Albuquerque?
Há um ditado popular que diz que gato escaldado de água fria tem medo. O povo também estará escaldado. E a única forma de proteger-se dessa situação é votando no PS. Porque nós, de certeza absoluta, nunca nos vamos juntar ao PSD.

Só põe as mãos no fogo pelo PS?
Sim, não há dúvida nenhuma. É esta convergência de votos no PS que proporciona uma situação governativa de estabilidade duradoura.

E não teme que a oposição seja castigada por ter deitado abaixo o Governo?
Julgo que isso não acontecerá.

"O PSD, hoje em dia, vale mais do que Miguel Albuquerque. Ou melhor, Miguel Albuquerque vale menos do que o PSD. E é por isso que o grafismo dos cartazes do PSD é um grafismo chapado daquilo que era o design do tempo de Alberto João, e ele não aparece. Porque sabe que aparecer nos cartazes prejudica o resultado. E por isso esconde-se"

“Governo regional gasta 33 milhões anuais em nomeações”

Já disse que a sua experiência governativa, tanto numa autarquia como como secretário de Estado, é fundamental numa liderança onde será importante tomar decisões “difíceis, mas certas”. Que decisões difíceis são essas que está a prever que tenha de tomar no governo?
Em diversos setores temos de tomar decisões para inverter as nossas críticas à governação. Uma delas é a habitação. A Madeira é a região onde o peso do preço das casas mais tem subido. E o Governo tem que intervir, construindo habitação pública de forma maciça. Tenho o compromisso de, nos primeiros 90 dias do Governo, ter elaborado um plano integrado de acesso à habitação pública, que entre apoio às rendas ou à reabilitação de habitações terá um programa que será o “Primeira Chave”, onde através da renda resolúvel as pessoas poderão ser proprietárias da sua habitação. Isto é, a pessoa pagará um valor de acordo com os seus rendimentos para uma renda mas a renda será abatida numa espécie de empréstimo do Governo e a casa passará a ser sua. A pessoa terá a casa própria e não pagará uma renda a vida inteira sem a casa ser sua.

Quando fala de construção maciça, em quanto tempo é que podemos ver resultados? Na habitação é difícil começar a sentir os efeitos no terreno.
Daí eu não entrar numa questão demagógica ou populista. Digo que terei um plano nos primeiros 90 dias, mas tenho já uma forma também de financiamento, além do financiamento do PRR e do orçamento da região: quero que as ajudas ilegais à zona franca da Madeira, que são cerca de 839 milhões de euros, e que agora estão a ser recuperadas pela Autoridade Tributária e pelas finanças, sejam completamente aplicadas na habitação. Agora, este plano tem de ser um plano bem estruturado, até porque temos dificuldade de mão de obra e na contratação pública, e isso demora o seu tempo. Na Saúde temos não só conclusão do novo hospital – foi financiado em 50% pelo governo do PS António Costa, senão não o teríamos – e quero que possa servir para reestruturar completamente o sistema regional de saúde.

Como?
Utilizando as atuais instalações do Hospital Central do Funchal, o Hospital Central Doutor Nélio Mendonça, que deverá ser um hospital secundário, para valências que não temos, como a reabilitação, como medicina paliativa, cuidados continuados, para uma população claramente envelhecida. E resolver um problema que temos aqui, muito pior do que no continente, que são as chamadas altas problemáticas. Ou seja, as pessoas que tiveram alta clínica, mas por questões sociais permanecem na cama do hospital. Nós temos neste momento mais de 300 pessoas, 40% das camas do hospital, nessa situação. Isto impede, por exemplo, que o programa de recuperação de listas de espera possa avançar – Miguel Albuquerque duplicou as listas de espera na saúde desde 2015 até agora. Quero desativar outros dois hospitais, o Hospital dos Marmeleiros e o dr. João de Almada, serem transformados em estruturas residenciais para idosos. É uma forma de desocupar essas camas.

Paulo Cafôfo durante uma das várias ações de campanha na ilha da Madeira.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

No seu programa promete desenhar um orçamento prioritário para a saúde. Fala de um compromisso de financiamento sustentável, considerando a saúde “um investimento e não apenas uma despesa”, e de a gerir rigorosamente. O que é que isto quer dizer concretamente? 
Que não podemos ter a ineficiência que hoje em dia acontece na Saúde.

Os problemas da Saúde são mais de gestão do que de investimento? 
Claramente. Temos doentes oncológicos, e não só, sem tratamento porque o governo regional não paga aos fornecedores de medicamentos. Tivemos, durante mais de quatro meses, as casas de saúde mental com 3,5 milhões de euros de falta de pagamento do governo nos internamentos das pessoas. Temos os taxistas que transportam os doentes sem o pagamento do transporte. Há uma gestão péssima, mas, enquanto isso, o Serviço Regional de Saúde anda a gastar milhares de euros em canecas para promover o dia do doente. Ou o secretário regional vai viajar para os Estados Unidos para ver equipamentos para o novo hospital. Há aqui uma inversão das prioridades.

No seu programa de curto prazo inclui propostas como baixar de forma imediata o IVA e o IRS para o valor mínimo, aumentar as reformas através do complemento regional para idosos num valor de 1800 euros por ano, e criar o programa da primeira habitação. Qual é o impacto financeiro disto? Não pode pôr as contas da região em risco?
Fizemos as contas bem feitas porque temos a responsabilidade de não pôr em causa o equilíbrio orçamental. Por exemplo, sobre a questão do IVA. Temos o custo de vida mais elevado. Nos últimos 12 meses, a inflação e a variação da taxa da inflação foi na Madeira de 3.5%. Nos Açores foi 2.1%. O custo de vida é muito superior ao do continente. No entanto, os Açores têm, derivado de aplicarem a redução de 30%, os impostos mais baratos. No caso do IVA, que queríamos baixar de 12% para 9% e de 22% para 6%, isto tem um impacto de 136 milhões de euros. Ora, isto é menos do que o aumento da receita de impostos no ano de 2024. Queremos devolver aos madeirenses aquilo que pagaram em impostos durante 2024.

Propõe também formar um governo regional com menos secretarias regionais, mais eficiente, reduzindo as nomeações. Não tem medo que isto resvale para um discurso populista, dizendo que cortar cargos políticos é a solução?
Não. É um discurso de responsabilidade.

Tem exemplos de cargos e secretarias que eliminaria?
Um deles é juntar a Secretaria Regional da Saúde com a Secretaria da Inclusão e Assuntos Sociais. Até pela questão das altas problemáticas, seria uma medida benéfica. O governo tem gastos em nomeações de 33 milhões de euros por ano. Isto é claramente excessivo. É claro que temos de ter uma administração pública e temos cargos de nomeação e de confiança para as coisas funcionarem. Mas isto não pode ser um asilo de membros do partido.

A maior parte desses milhões é gasta para dar empregos?
Claramente, e pagar favores. Não podemos confundir o governo com o partido. Não podemos estar a ter um governo que trabalhe para o partido. Tem de ser o contrário.

Quanto é que conseguiria cortar com a sua proposta? 
Não gosto de adiantar números quando não consigo detalhá-los. Quando lá chegarmos ao governo, e isto é certo, vamos encontrar muitos esqueletos dentro da armário quando chegarmos ao governo. Vamos fazer as coisas bem feitas, com responsabilidade, e cortando nas despesas supérfluas e nas gorduras.

"Quero que as ajudas ilegais à zona franca da Madeira, que são cerca de 839 milhões de euros, e que agora estão a ser recuperadas pela Autoridade Tributária e pelas finanças, sejam completamente aplicadas na Habitação"

“Resta saber se Montenegro tem mais vergonha de Albuquerque ou vice-versa”

Há alguma razão em concreto para Luís Montenegro não vir à Madeira?
Tem de perguntar a Montenegro, mas já há muito tempo que não o vemos cá. Acho que Montenegro tem vergonha do Miguel Albuquerque, até pelos casos judiciais. Agora estão os dois no mesmo barco. Resta saber quem tem mais vergonha de quem.

Se Pedro Nuno Santos perder estas eleições, fica obrigado a sair da liderança do PS?
Não. Estou à vontade, porque apoiei José Luís Carneiro inteiramente. E temos um líder do PS para durar por muitos e bons anos.

Deve ter a oportunidade de voltar a ir a eleições?
Sim, mas vai vencer as eleições e será o futuro ​​primeiro-ministro de Portugal, já agora no mês de maio.

Já tem alguma preferência sobre um apoio do PS a António José Seguro ou António Vitorino nas eleições presidenciais?
Não tenho preferência nem entro nessa guerra, porque estou completamente focado nas eleições regionais. Que não me doa a cabeça até lá. Aquilo de que eu gostaria é que houvesse um presidente da República que fosse da área do PS.

Paulo Cafôfo tem um retrato de Mário Soares no gabinete.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Ofereça este artigo a um amigo

Enquanto assinante, tem para partilhar este mês.

A enviar artigo...

Artigo oferecido com sucesso

Ainda tem para partilhar este mês.

O seu amigo vai receber, nos próximos minutos, um e-mail com uma ligação para ler este artigo gratuitamente.

O seu plano não inclui a oferta de artigos

Para poder oferecer artigos aos seus amigos, faça upgrade para um plano de subscrição superior.

Ofereça até artigos por mês ao ser assinante do Observador

Partilhe os seus artigos preferidos com os seus amigos.
Quem recebe só precisa de iniciar a sessão na conta Observador e poderá ler o artigo, mesmo que não seja assinante.

Este artigo foi-lhe oferecido pelo nosso assinante . Assine o Observador hoje, e tenha acesso ilimitado a todo o nosso conteúdo. Veja aqui as suas opções.

Atingiu o limite de artigos que pode oferecer

Já ofereceu artigos este mês.
A partir de 1 de poderá oferecer mais artigos aos seus amigos.

Aconteceu um erro

Por favor tente mais tarde.

Atenção

Para ler este artigo grátis, registe-se gratuitamente no Observador com o mesmo email com o qual recebeu esta oferta.

Caso já tenha uma conta, faça login aqui.