Paulo Moniz, o português que estudou com Stephen Hawking: “Ele podia ser tão inspirador quanto esmagador”

25 Março 20181.346

Paulo Moniz almoçava com Stephen Hawking em Cambridge. Lembra-se da personalidade vincada, de escrever nas mesas, de querer a confiança "do génio quase mágico". Se o visse outra vez, pedia desculpa.

À porta do Pavilhão do Conhecimento, numa breve passagem por Lisboa, Paulo Moniz ainda troca os tempos verbais quando conversa sobre Stephen Hawking e os tempos em Cambridge. Foi por lá, quando ainda era um estudante de pós-doutoramento no Departamento de Matemáticas Aplicadas e de Física Teórica, que o atual vice-reitor da Universidade da Beira Interior se cruzou pela primeira vez com o génio que morreu no último 14 de março. Nos anos 80, entre almoços em conferências e intervalos para o chá, Paulo Moniz encontrou em Stephen Hawking um mentor no estudo da super-simetria e da supergravidade. Mas, agora que partiu, dois anos depois do último encontro entre eles, o professor catedrático só lhe pediria desculpa.

Quando soube da morte de Stephen Hawking, Paulo Moniz estava numa conferência em Bruxelas e foi apanhado de surpresa. Teme que não haja ninguém “corajoso o suficiente” para o substituir no papel que tinha na sociedade: “É preciso uma certa dose de loucura”, explica. Num encontro de três horas a circular pelos corredores do Centro da Ciência Viva, Paulo Moniz falou do “ambiente verdadeiramente à Harry Potter” da Universidade de Cambridge, refletiu sobre a personalidade agridoce de Stephen Hawking, que oscilava entre o sentido de humor britânico e a rispidez, e explica como a convivência com um génio “na transição para mágico” pode marcar a história de alguém. Para o bem para o mal.

Como recebeu a notícia da morte de Stephen Hawking?
Já o conheci doente, com o problema da esclerose lateral amiotrófica. Ninguém vive para sempre, por isso algum dia havia de chegar. Mas foi um pouco chocante, porque não estava à espera dessa notícia agora. Ele estava a recomeçar a publicar artigos científicos numa área mais próxima daquela que eu trabalhava, que é a cosmologia quântica. Por outro lado, ele estava a aparecer mais em termos de eventos. Eu estava em Bruxelas para uma conferência e vi a notícia na BBC. Depois fui às redes sociais e vi uma coisa de que ainda não me tinha apercebido: o Crawford [Paulo Crawford, físico teórico e astrofísico português] escreveu que Stephen Hawking tinha morrido no mesmo dia em que Albert Einstein celebraria 139 anos se fosse vivo. É uma coincidência que fica para todo o sempre. Agora, quando se falar de cientistas que contribuíram para o mundo de conhecimento que temos hoje, os dois vão estar para sempre ligados. Acaba por ser um laço entre os dois. Fez-me lembrar tudo o que vivi nos anos em que estive em Cambridge ao lado dele. Às vezes dou por mim a pensar: não é um espírito de missão, não é uma questão de avaliar se valeu ou não a pena, mas se eu consegui — se eu estou a conseguir — retribuir.

O que há para lhe retribuir?
Aquilo que aprendi estando em Cambridge. Aquilo é um mundo à parte. Não é uma questão de ser seletivo, não é uma questão de ser elitista: aquilo marca uma pessoa. O college onde eu estava era o mesmo do Stephen Hawking: Gonville and Caius. É uma coisa de entranhas: quem fundou o colégio foi inicialmente um dos médicos da Rainha Isabel I, é um dos colégios mais antigos. As paredes estão forradas com madeira e a primeira coisa que me contaram foi que, segundo a lenda, aquela madeira vinha dos navios do tempo da rainha Isabel I que, em recompensa por o médico ter tratado dela, a deu para o colégio. Há em Cambridge tanto de formalismo e deferência, como de informalidade: lidamos com os Sir e com os membros da Royal Society com muita naturalidade. É verdade que ali estão algumas das mentes mais geniais do mundo, mas quando pegamos nos talheres de prata o ambiente é mais leve do que pode parecer. Há uma imponência perante aqueles quadros pendurados nas paredes, mas ao mesmo tempo uma algazarra entre alunos e professores e investigadores. É um bocadinho… não, é verdadeiramente Harry Potter! Isto estimula imenso o querer fazer parte e, ao mesmo tempo, querer descobrir o que é preciso para fazer parte.

Foi nessa algazarra que conheceu Stephen Hawking?
Foi. As pessoas cruzam-se diariamente. É mesmo uma estratégia de Cambridge desde os tempos de Maxwell, que era para que pessoas de áreas diferentes pudessem encontrar respostas ou pelo menos estimular a curiosidade humana para lá do seu campo de estudo. Aquilo é um edifício antigo onde, à partida, as condições não pareciam grande coisa. Havia uma área onde estavam todos os estudantes de doutoramento da área de gravitação, de física de partículas e os de matemática. E havia outra área em baixo, ao lado dos estudantes onde estava a secretária do Hawking e, mais ao lado, o gabinete dele. E os alunos andavam por ali a toda a hora, a passar-lhe à frente da porta. Entravam e saíam do mesmo espaço onde estava ele. Duas vezes por dia, e cinco vezes por semana, havia um encontro para beber chá: era o tea time. Era uma coisa frenética, um fervilhar de ideias. Os alunos começavam a conversar entre si, perguntavam uns aos outros porque é que estavam com aquela cara. E depois vinha o Hawking.

Como foi a primeira vez que conversaram?
Eu estava em Cambridge há pouco tempo e foi uma daquelas apresentações muito normais: “Stephen, este é o Paulo. Paulo, este é o Stephen”. Foi muito informal: disse-lhe que vinha de Portugal e tal… Mas o Stephen é britânico e como é britânico obriga a um certo distanciamento: “Talk about the weather“, costumam dizer eles. Eu também não perguntei muito: disse-lhe que estava a trabalhar em cosmologia quântica e em super-simetria e perguntei-lhe se me podia dirigir a ele sobre o assunto um dia. Ele concordou, disse que “yes, yes, yes“. A verdade é que ele ouvia muito, responder é que era mais complicado: o último computador que ele tinha já era um avanço surpreendente do que quando o conheci: inicialmente ele só tinha um ecrã verde e demorava imenso a escolher as palavras. Agora no fim ele tinha uns óculos para o ajudar a escolher as palavras com os olhos. Se o Stephen Hawking tivesse os 21 anos agora, a comunicação dele seria muito mais facilitada.

Paulo Moniz contou ao Observador como era a convivência com Stephen Hawking. Créditos: Fábio Vilares / Observador

Qual foi o papel dele nesse aspeto do seu percurso?
Ele era o meu mentor. Lá em Cambridge não há o conceito de orientador como há cá, porque parte-se do princípio que a pessoa já é independente e que não faz sentido ser encaminhada, apenas aconselhada. Ele dizia-me muitas vezes: “Tem de publicar sozinho. É a única forma de reafirmar a sua credibilidade no mundo inteiro. Tem de se transformar num farol, nem que seja modesto. Vai publicar e um dia mais tarde, nem que seja daqui a 100 anos, alguém vai ler o seu currículo, alguém vai olhar para o seu contributo”. Essa pressão discreta, essa persuasão que ele pôs em mim, foi fundamental. Comecei a publicar sozinho, os meus melhores trabalhos foram de autor único, quando vim para Portugal continuei a trabalhar em autor único. Era uma pressão que o Hawking punha em cima de mim: “Você já sabe, agora desenrasque-se. Eu estou cá para lhe tirar dúvidas, se precisar venha cá conversar comigo mas eu não preciso de aparecer no artigo consigo”. Esse aspeto, essa generosidade, mas ao mesmo tempo essa pressão do género “Vai e afirma-te”, marcou-me imenso. Cresci com aquilo como nunca pensei que iria crescer: ter de arranjar ideias originais.

Mas essa relação era uma amizade ou mais profissional?
Quando me aproximei de Stephen Hawking eu estava a tentar afirmar-me no ramo e procurava nele algum crédito. Sentia que ele, enquanto meu mentor, me podia inspirar com ideias. Portanto, as conversas com maior intimidade que mantinha com ele iam nesse sentido, de saber o que ele achava das minhas ideias e que aceitação tinham para ele. Ele nunca parecia muito entusiasmado. Não sei se isso era porque ele achava que eu não tinha a pólvora, porque julgava que ia perder tempo comigo se investisse em mim. Nunca me virou as costas, mas há sempre uma sensação de que não valemos a pena, de que não somos bons o suficiente. Nós estamos ali numa oportunidade e temos de ser capazes: “Be able to deliver”. Talvez a questão seja que ele não me queria na cosmologia quântica, não me queria no caminho de outros investigadores ou porque era algo em que ele não tinha uma intuição muito boa. Eu fiz o que ele me aconselhou: estudei uma cosmologia mais usual. Mas agradeço-lhe por isso: ele puxava por mim, para fazer por mim. Nunca me mandou ir ter com alguém e isso é o aspeto que me marcou mais. Ele dizia-me para ler isto e estudar aqui, mas nunca ir conversar com outros. Mas nunca me incentivou muito.

O Stephen nunca parecia muito entusiasmado. Não sei se era porque ele achava que eu não tinha a pólvora, porque julgava que ia perder tempo comigo. Nunca me virou as costas, mas há sempre uma sensação de que não valemos a pena, de que não somos bons o suficiente. 

Sentia que precisava da aceitação dele?
Esse é um aspeto curioso, porque eu gostava… Eu não sei se alguém poderia ser como o Stephen, mas ter o reconhecimento dele talvez. Por outro lado, se o preço de ser um génio era enfrentar uma cadeira de rodas naquelas condições, não sei… Às vezes estava a almoçar com ele e tinham que limpar o buraco que tinha na garganta. Tinham de lhe tirar a comida. Ele exige fazer tudo como normalmente, mas às vezes a comida impedia-o de respirar e por isso tinha de limpar. Via-se nos olhos dele uma vontade enorme de comunicar, mas não podia. A comunicação caía-lhe porque às vezes os sistemas falhavam.

Viver ao lado de Stephen Hawking era também uma pressão.
Sem dúvida. Houve uma coisa que o Hawking faz lá em Cambridge aos alunos de doutoramento que me marcou profundamente. Durante o primeiro ano, e talvez o segundo, as pessoas publicam relatórios e trabalhos e assinam-nos com o orientador. Depois não: ficam por conta própria ou, no máximo, de colegas. Isso marcou-me: o ter que ter ideias para publicar sozinho, mesmo quando vim para Portugal. Isso é algo que, se ao mesmo tempo me fascina, também me persegue: a busca da originalidade. O Stephen ensinou-me uma coisa fundamental. E sei que é fundamental porque agora estive em Bruxelas rodeado de rapaziada nova e eles iam muito ao detalhe, mas não faziam as perguntas certas. Ele ensinou-me a fazer as perguntas fundamentais, as perguntas originais.

Que perguntas são essas?
Lembro-me uma vez de ele me ter dito que era muito difícil fazer uma boa conjetura, ou seja, para dizer uma coisa que possa vir a transformar-se num teorema há que estar disponível para pensar muito. É preciso ter um conhecimento profundo das questões fundamentais. Ele disse-me uma vez que fazer investigação não é resolver problemas: é saber definir um problema. Muitas vezes resolver problemas é uma questão técnica: estamos ali horas, se calhar a bater com a cabeça na parede, mas a resolução chega. Mas quando se quer fazer investigação, quando se quer fazer uma coisa para a vida, o essencial é saber fazer bem a pergunta. É isso que faz a diferença.

Um exemplo…

Em Cambridge havia quadros por todo o lado: nos gabinetes, nos corredores e até nas casas de banho. Todo o lado serve para fazer uma ideia, para a gente trabalhar. Além disso, não havia corredores: as pessoas ficavam todas juntas e, na hora de descansar, convergiam todas para o mesmo lado. Isso permitia-nos a todos ficar um passo mais perto de sermos como o Stephen: de acreditarmos que o nosso avanço está para lá da curva, que precisamos de dar um passo atrás ou um passo à frente para podermos ultrapassar dificuldades. A não ser que fossemos geniais, como o Stephen: nós estamos numa autoestrada, o Stephen está noutra que nós nem sequer sabíamos que existia. Os outros não tinham isso, é preciso dizê-lo! São pessoas geniais com uma capacidade cognitiva invulgar, mas não tinham isto!

Ele disse-me que fazer investigação não é resolver problemas: é saber definir um problema. Resolver problemas é uma questão técnica. Mas quando se quer fazer uma coisa para a vida, o essencial é saber fazer bem a pergunta.

De que forma é que ele era diferente dos outros?
Aquela pessoa é única e singular. Ele tinha aquele dom, uma capacidade de ver além daquilo a que os ingleses chamam de clutter: compreendia tudo no meio da confusão, das mesas desajeitadas. Costuma-se dizer que o diabo está no detalhe, mas o diabo é necessário: ali em Cambridge, o diabo tinha de resolver equações matemáticas, tinha de resolver os diagramas de Feynman, tinha de ir ao mínimo detalhe e confirmar aquilo duas ou três vezes. O Stephen Hawking não o fazia porque estava na cadeira. Ele até costumava dizer: “I’m in the chair”, que exemplifica bem o tipo de humor algo sarcástico dele, porque é uma expressão inglesa que significa: “Eu estou a presidir”. E então ele tinha uma capacidade de ver para lá da encosta. Ele dizia: “Isto não vai dar em nada, é melhor ir por aqui”. E nós punhamo-nos a pensar como é que ele conseguia prever isso, mas a única conclusão a que chegávamos era que ele só podia ver além da curva, ver longe e para além da colina.

Mas isso era pura intuição?
Não! Vamos lá ver uma coisa: o que é a intuição? Repare nos tenistas como Nadal ou Federer: eles praticam algumas 18 horas por dia, mas quando vêm aquelas bolas em direção ao fundo do corte, no cantinho do campo, aquilo não é matemático. O tenista, naquele momento, não vai estudar o movimento nem vai fazer contas: aquilo é intuição pura. Há pessoas que nascem com um dom: nem todos nascem como esses tenistas, mas treinam. O Hawking também era assim: ele tinha uma predisposição natural para esse tipo de intuição, mas também aprendeu com os melhores. “It comes with the package”, diriam os ingleses: vem tudo incluído. E ele, talvez por estar na cadeira, desenvolveu uma capacidade muito figurativa de representar as coisas, muito intuitiva, e depois alguém fazia as contas se fosse necessário porque ele era capaz de as fazer mentalmente. Um dos artigos mais fabulosos dele chama-se “Communications in Mathematical Physics”, onde fala da radiação Hawking, aquilo é extraordinariamente matemático, mas as contas não as fazia: estava tudo na cabeça dele.

Essa forma de trabalho tem alguma coisa a ver com a condição física dele?
Diria que sim. Ele conseguiu ir buscar outras técnicas que fossem além de fazer contas. Há um livro chamado “The Large Scale Structure of Space-Time”, que o Stephen escreveu a par do George Ellis, que exemplifica isso muito bem: tem muita topologia, tem muita geometria diferencial e aspetos da matemática que são extraordinariamente inovadores para resolver o problema das singularidades. E foi isso que ele fez: foi nesse livro que ele foi buscar a capacidade de pensar os assuntos de forma diferente para ter uma resolução mais eficiente do que passar horas a fazer contas que ele já não podia fazer fisicamente.

Foi algo que fez toda a vida.
Sim, porque de certa a forma a doença assim o determinou. Lembro-me de estarmos numa reunião na sala do chá, no fim dos anos 90, e alguém fez uma pergunta qualquer. O Stephen queria responder, mas estava a demorar muito por causa dos computadores que ele usava para comunicar. Ele diz qualquer coisa e as pessoas ficam todas a pensar. Começamos todos a fazer contas e a certa altura alguém mostra uns cálculos diz: “É isto, Stephen? É isto que está a tentar dizer?”. E ele diz: “Yes“. Mas aquele “yes” já vinha além das contas que nós todos naquela sala já tínhamos feito.

Digamos que tem uma personalidade muito difícil, muito vincada. Eu acho que, por um lado, ele fazia questão que a cadeira de rodas o limitasse. Às vezes ele ia pela Silver Street, onde era o departamento, e eu encontrava-o a ir pelo meio da estrada contra as bicicletas.

Hawking era uma pessoa de trato fácil?
Digamos que tem uma personalidade muito difícil, muito vincada. Acho que, por um lado, ele fazia questão que a cadeira de rodas o limitasse. Às vezes ele ia pela Silver Street, onde era o departamento, e eu encontrava-o a ir pelo meio da estrada contra as bicicletas. Quem fosse contra ele magoava-se porque a cadeira de rodas era pesada e tinha as baterias todas do computador atrás: não imagina a quantidade de materiais que aquilo levava. Aquilo era um computador potentíssimo e com imensas baterias porque consumia mesmo muita energia. Ele tinha mais pessoal só para o ajudar a montar o computador em termos de operacionalidade e funcionalidade do que para o ajudar com as questões médicas. Portanto, ele tinha essa coragem, esse atrevimento. Uma vez fomos ao Canadá com a segunda mulher dele, não cheguei a conhecer a primeira. Mas houve um episódio, e ela até estava connosco, onde esse atrevimento do Stephen veio outra vez à tona. Lá no Canadá, estávamos numa escola e ele faz uma coisa: pôs-se a andar à volta e a cadeira levanta, isto é, fica apoiada apenas em duas rodas. Ele dá uma volta, dá outra volta e eu a pensar que ele, mais tarde ou mais cedo, iria magoar-se. Eu viro-me para a mulher dele e digo-lhe: “Olha, o Stephen vai cair!”. E ela só disse: “Silly man”, num jeito que eu gosto de acreditar que foi semi-carinhoso, não faço ideia. Mas isto era ele: ele sabia que aquilo era uma curva, que ia a descer, mas ele não quis pensar nisso.

Era uma certa forma de encontrar liberdade além daquela cadeira de rodas.
Ele queria era ver e andar e experimentar, sim! Havia ali um correr riscos que não eram científicos, mas pessoais. E daí a personalidade que era, às vezes, um bocado ríspida. Ele quando estava a escrever no computador, quando as frases estavam quase completas, nós conseguíamos adivinhar o que ele queria dizer mas devíamos deixá-lo terminar. Eram poucos os que se atreviam a terminar-lhe as frases. Quando alguém o fazia e perguntava se ele queria dizer uma determinada coisa ele dizia: “Yes!” — e nós sabíamos que ele estava de mau humor, que não gostava que lhe terminassem as frases porque o “yes” dele tinha diferentes tonalidades. Mais valia deixá-lo falar até ao fim.

Que histórias recorda com mais saudade?
Encontrávamo-nos sempre ao almoço em dias de seminário e nas horas do chá. Ele fazia sempre a mesma pergunta: “Porquê?”. Quando lhe expúnhamos uma questão ele pedia sempre para explicarmos melhor: “Porque é que concebeste esta ideia? Porque é que partiste deste princípio?”. Mais do que isso, havia uma coisa interessante que ele perguntava sempre: “Porque é que não fez de outra forma?”. Portanto, era sempre esta aura de desafio. Este papel que ele tinha a orientar os artigos não era apenas num espírito de “escreve o artigo e vai-te embora”, mas mais de aproveitar. Não é “aproveitar” na asserção menos feliz da palavra, mas de um benefício mútuo entre ele e o aluno. Era uma simbiose. Tenho a impressão que ele pensava: “Já que estamos aqui os dois e eu tenho ideias e tu sabes fazer contas, vamos mexermo-nos os dois nisto. Porque não?”. Este tipo de desafios que ele fazia eram algo muito marcante.

Eram poucos os que se atreviam a terminar-lhe as frases. Quando alguém o fazia e pergunta se ele queria dizer uma determinada coisa ele dizia: "Yes!" -- e nós sabíamos que ele estava de mau humor. O "yes" dele tinha diferentes tonalidades. 

E ele lançava-lhe esse tipo de desafios?
Sim. As mesas que nós tínhamos nos seminários e nas salas de chá tinham mais ou menos meio metro de comprimento e eram muito baixas. Eu, à semelhança dos outros estudantes e professores, sentávamo-nos nas cadeiras e dobrávamo-nos todos. Lembra-se de lhe dizer que todas as salas tinham quadros de ardósia ou quadros brancos? Pronto, nós usávamos canetas de feltro grossas e não giz porque podia piorar a saúde do Stephen. E tínhamos sempre umas quantas no bolso porque nunca se sabia quando é que uma nova ideia podia surgir — e podia surgir até quando se estava na casa de banho ou no tea time. Aquilo ficava tudo ali escrevinhado. O problema é que, ao fim do dia, tudo o que havia naqueles quadros era limpo com álcool e nós precisávamos de as eternizar. Agora repare: não havia telemóveis; não havia opção de tirar uma fotografia. Se vai tentar passar aquilo para um bloco de notas, vai perder o raciocínio e acima de tudo vai perder tempo. E se essa ideia tiver surgido em parceria com outra pessoa, nem sequer se vai lembrar de quem é que contribuiu com o quê. Por isso, o que nós fazíamos era pegar nas mesas, subir ao andar de cima onde havia duas fotocopiadoras e tirar fotocópias aos tampos das mesas. É a criatividade do “brainstorming” elevada ao expoente.

Das vezes que isso aconteceu entre si e Stephen Hawking, que ideias é que ele lhe transmitiu?
Muitas e não sei se sou capaz de as pôr em prática. Os conselhos que ele me dava enquanto meu mentor aconteciam normalmente aos almoços, quando eu descia para ir ter com ele. Ele basicamente aconselhava-me a não ir tão longe, a descer um passo e a perceber melhor. Acho que isso ainda hoje me assombra, me atormenta. É como um fantasma que me persegue há décadas. O meu falhanço é este.

Como assim?
É uma vontade muito profunda de querer contribuir para uma descoberta única. É pensar que alguém ali pode receber um prémio Nobel, ou que alguém ali pode um dia fazer algo excepcional. Havia pressão para escrever ali qualquer coisa: “Tens um ano, dois anos, três anos para escrever aqui alguma coisa que te vai mudar para o resto da vida”. O Stephen dava ideias e eu às vezes não as percebia. Pela fama que tinha equiparava-se a todos os homens representados naqueles quadros: nós tínhamos a sensação de que aquelas grandes mentes nos estavam a observar. Mete um respeito enorme entrar na biblioteca e ver a tese de doutoramento dele toda escrita à mão, passar lá os dedos e depois encontrar a assinatura dele toda tremida — provavelmente toda a escrita foi feita pela mulher dele. Mete respeito entregar um trabalho e escrever no final que se declara que todas as ideias ali expostas são originais. Tudo isso traz-nos aquele sentimento de “esta é a minha única oportunidade”. E faz-nos mergulhar naquilo de corpo e alma, deixa-nos disponíveis não para dar o litro, mas para dar bem mais que três litros. Vai sacrificar-se por tudo e por todos. As pessoas não entendem bem este sacrifício voluntário que fazemos de imergir, concentrar-se naquilo. A presença dele, ver aquela mente genial, pressiona-nos a pensar: “Porque é que eu não tenho uma ideia como a dele? O que é que eu tenho de fazer?”. E isso cria as condições fronteiras de pressão que podem ser um bocadinho esmagadoras.

Atualmente, Paulo Moniz é vice-reitor da Universidade da Beira Interior. Créditos: Fábio Vilares / Observador

Conhece quem tivesse cedido a essa pressão?
Havia pessoas que não suportavam. Eu tive um amigo — já morreu, esse também foi um choque — que já tinha trabalhado com o Roger Penrose e vinha a Inglaterra para trabalhar com o Stephen Hawking. Uma vez, recebi uma mensagem da companheira dele que dizia: “I’m inviting you to contribute to the Andrew Chumbley funding“. Tinha morrido. Isso para mim foi um golpe: essencialmente ele bebeu para se matar. Não aguentou a pressão. Houve outras pessoas que colaboraram comigo, que conheci e que não aguentaram. Ficaram com problemas: a pressão mental era terrível. A história do Nash, que nós vemos no filme “Uma Mente Brilhante”, é uma história que tem um final feliz. Mas há outras com um final horrível. Nos inícios dos anos 80, havia um sujeito chamado Joel Scherk. Ele começou a estudar em supergravidade e obtinha umas soluções, mas não sabia o que era aquilo. Com a pressão mental, ele começa a ter problemas: é visto a vaguear pelas ruas de Paris, tomava drogas e foi encontrado todo urinado. Foi horrível. É “Uma Mente Brilhante” muito mais amarga. É que ele já estava a descobrir o que agora nós vamos conhecendo da supergravidade e da teoria das cordas, mas ele só não conseguia ver o que era. Portanto, a pressão era tanta que nos pode levar a estes pontos. Podia ser tão inspirador como esmagador e sufocante. Cambridge potencia isto.

Às vezes gostava de voltar atrás e... não é repetir, mas reiniciar as minhas investigações com outros pressupostos e tentar entender o que me dizia o Stephen Hawking quando me perguntava: "Porquê?". Isto é um ato de fé. 

Teme passar pelo mesmo?
Eu sei que se vai rir deste meu pensamento, mas às vezes gostava de voltar atrás e… não é repetir, mas reiniciar as minhas investigações com outros pressupostos e tentar entender o que me dizia o Stephen Hawking quando me perguntava: “Porquê?”. Isto é um ato de fé. Quando me aproximei de Stephen Hawking para me ajudar a descobrir se existe a super-simetria, percebi que ele não quis investir muito nisso. Apesar de esse ser um assunto essencial para compreender o universo, ele não quis por-se mais nisso, talvez porque a vida era curta e ele estava mais interessado noutras coisas. E isso era algo que eu gostava de fazer no meu tempo, mas aí voltamos àquela questão da pressão: eu vivo assombrado. Não tenho a certeza se terei tomado as decisões certas e não sei até que ponto é que as dúvidas do Stephen pesam nessa incerteza. Mas não vejo isso com mágoa, atenção! A experiência e a sensatez dele foram cruciais para toda a minha vida.

Era isso que lhe gostava de dizer se fosse a tempo?
“I’m sorry”. Se calhar era isso que eu dizia ao Stephen se pudesse conversar com ele: “Desculpa por não ter estado à altura”. Acho que quando somos jovens cometemos erros. E todos nós os cometemos, mas se calhar no caso dele os erros que cometeu levaram-no mais longe do que a maior parte das pessoas. Não sei se os meus erros me levariam para tão longe. Mas recordo isso, essa espécie de falta de confiança.

Que opinião tem sobre a visão de Stephen Hawking quanto à dicotomia entre ciência e religião?
Portanto, ele não acreditava em Deus, mas havia motivos científicos para ele dizer que Ele não existe. Na mente dele isto não se trata apenas de crenças, mas de respostas racionais. Vou explicar-lhe tecnicamente como é que ele chegou a essa conclusão. A função de onda do universo [descreve o estado de uma ou mais partículas] é um conceito que já existia desde há muitos anos, quando os cientistas começaram a pensar na formação quântica da gravitação e como é que quanticamente a gravitação pode prever o estado do universo. Essa equação, chamada “Equação de Wheeler–DeWitt”, é uma equação cuja solução é a função de onda que poderia permitir prever como é que o universo é como é. É uma espécie de Santo Graal. Só que, como é uma equação da mecânica quântica, pressupõe a existência de condições-fronteira. E usa a matemática — que é um pouco o trabalho que tenho feito agora com outros colaboradores — para não precisar das condições-fronteira. Ele dizia que o universo surge de uma soma de gravitações quânticas em que a única fronteira é que não tem fronteira no passado. Não há nada senão a atual. E isso significa que não precisa de Deus: tudo o que precisamos de saber é o que somos hoje. Ele reduz a questão da essência de Deus a uma integral de Feynman e a condições-fronteira. A maior parte das pessoas poderia dizer que então Deus é a tal única fronteira que não há no passado.

Se calhar era isso que eu dizia ao Stephen se pudesse conversar com ele: "Desculpa por não ter estado à altura". Acho que quando somos jovens cometemos erros. Mas recordo isso, essa espécie de falta de confiança.

Isso é algo que de certa forma é abordado na “Teoria de Tudo”.
Sim. Nunca conheci a primeira mulher dele, só a segunda, mas tenho a impressão de que foi a Jane o verdadeiro amor da vida dele. A Elaine Mason não era muito simpática, nem mesmo para nós lá na Academia, não era propriamente uma pessoa muito amável. A Jane era uma mulher muito religiosa e ele queria arranjar uma forma racional, uma conjetura bem feita, de dizer que Deus não existia. Que não precisamos dele. Eu não sei se é bem assim, se há uma diferença entre existir Deus e existir um sustento para a fé. A questão toda é o Stephen dizer isto: “Eu tirei Deus das equações”. Mas eu acho que aqui o Stephen perdeu algo pelo caminho, acho que ele não olhou para algo que devia ter olhado, mas aquilo de facto são muitas contas. Acho que ele devia ter olhado mais. Mas é engraçado ver que agora o Stephen Hawking pode estar à conversa com Einstein.

Quando foi a última vez que o viu?
Foi em Estocolmo há dois anos, talvez, numa conferência. Ele estava sempre rodeado de jornalistas. E acabou por haver ali alguma ironia porque depois houve um jantar à margem do Nobel. E aquilo parecia mais ou menos uma compensação porque naquela época senti que o Stephen estava em busca de ideias que tinham ficado para trás, como saber o que acontece à informação quando entra num buraco negro: se vai para outro universo, por exemplo. Talvez porque agora tinha algum tempo. Mas havia uma tensão na sala em ver Stephen Hawking ao lado daquelas pessoas que tinham ganho merecidamente um Nobel.

Stephen Hawking (ao centro) numa fotografia de grupo depois do encontro em Estocolmo. Paulo Moniz é o terceiro à direita. Créditos: Jann Lipka

Porque ele também queria um?
Ele tinha uma absoluta amargura por nunca ter ganho um Nobel. O Stephen tem trabalhos geniais — para mim, o trabalho da radiação Hawking é absolutamente genial porque abre portas ao problema do paradoxo da informação e à possibilidade das viagens no tempo. Mas nenhum deles é verificado experimentalmente. Ele dizia que não, mas nós percebíamos que lhe faltava aquilo. O Stephen tinha um génio, uma capacidade invulgar de estar mais à frente. As pessoas podem ser boas, muito boas, excelentes, excepcionais e há o génio. Havia um matemático que dizia que, dentro da classe das pessoas superiormente inteligentes, há dois tipos: os génios e os mágicos.

Eu diria que o Stephen está entre o mágico e o génio. Era génio porque resolvia as coisas colocando novas perguntas e mágico de cada vez que insiste em procurar formas frescas de solucionar as dúvidas dele. 

Qual é a diferença?
Então, entre os mágicos está o Einstein ou o Beethoven. O Mozart, por exemplo, está entre os génios. A diferença é a capacidade de criar aquilo que ninguém acha necessário ser inventado e que não é um problema naquele momento: por exemplo, algumas das peças criadas por Beethoven são quase jazz porque são coisas mais arrojadas e na altura em que foram criadas não eram completamente entendidas. Ele punha os instrumentos de cordas em comunicação, numa angústia e tristeza profunda: ele sente uma frustração de querer comunicar porque tinha problemas de audição. Isto é mágico porque é dele.

E o Stephen Hawking é um génio ou um mágico?
Eu diria que o Stephen está entre o mágico e o génio. Stephen era um génio porque resolvia as coisas colocando novas perguntas para dar mais passos em frente. Mas consegue transformar-se num mágico de cada vez que insiste em procurar formas frescas de solucionar as dúvidas dele. Era uma posição algo híbrida aquela em que ele se tinha colocado e é difícil encontrar alguém que a possa herdar.

Mas quem o pode fazer?
Eu tive um professor aqui em Lisboa, o Andrade e Silva, que costumava dizer que só há um Albert Einstein por século. E nós ficávamos um tanto perturbados porque então não sabíamos o que estávamos ali a fazer. Mas pensando bem naquilo que temos pela frente, não me parece que haja alguém que possa fazer no nosso tempo o que Stephen Hawking fez. Vai demorar a aparecer alguém.

Pensando bem naquilo que temos pela frente, não me parece que haja alguém que possa fazer no nosso tempo o que Stephen Hawking fez. Vai demorar a aparecer alguém.

Então como deverá ser essa pessoa quando surgir?
Vai ser muito complicado tendo em conta o contexto até tecnológico que temos ao nosso alcance. Hoje, à conta dos telemóveis e dos computadores, temos acesso a muita informação e muito rapidamente. Uma pessoa que venha agora tem de ter uma capacidade absurda de poder encontrar um problema, defini-lo muito bem e vir com uma teoria que resolve tudo e estando à parte de tudo o que os outros façam. Quem vier agora para tomar o lugar de Stephen Hawking tem de estar a par do que foi feito, senão corre o risco de repetir o trabalho dos outros. Por isso tem de ter uma mente acima de todas as outras para não correr esse risco. E isso vai ser muito difícil.

fotografia de fvilares, ilustração de Maria Gralheiro.
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