Carlos Brito desistiu para Eanes. Ângelo Veloso abdicou para Zenha e, na mesma eleição, Cunhal mandou tapar a carinha por Soares. Anos mais tarde, também Jerónimo saiu da corrida por Sampaio. Com menos presidenciais no currículo, até o Bloco de Esquerda de Louçã tentou desimpedir o caminho a Alegre. Em 2026, nas eleições mais imprevisíveis dos últimos 40 anos, António José Seguro vai pressionando os rivais a fazerem um último esforço de congregação em nome de um objetivo maior: devolver a esquerda ao Palácio de Belém 20 anos depois de Jorge Sampaio. Até ver, sem sucesso.
Numa altura em que as sondagens lhe dão pouco mais de 1% nas intenções de voto, Jorge Pinto, do Livre, tentou dar um sinal de abertura, admitindo desistir se Catarina Martins e António Filipe fizessem o mesmo. A reação foi violenta. A bloquista criticou a forma como o rival (que está, paulatinamente, a engolir eleitoralmente o Bloco) tentou negociar através da comunicação social — Jorge Pinto não o fez, mas Catarina Martins não lhe perdoou a inexperiência. António Filipe foi ainda mais longe e sugeriu que o candidato apoiando por Rui Tavares não é mais do que um satélite de António José Seguro.
Catarina Martins e de António Filipe estão nesta campanha empenhados em fazer uma demonstração de vitalidade dos respetivos partidos. É certo que não gostam de António José Seguro, mas é difícil imaginar um candidato do PS que pudesse contar com o apoio de Bloco e PCP. Aliás, os bloquistas andaram a suspirar por António Sampaio da Nóvoa, que está muito longe de ser militante socialista; os comunistas decidiram há muito, na pós-maioria absoluta de Costa, que este não é o tempo para falar de convergências.
Por tudo isto, Jorge Pinto ficou a falar sozinho, ainda mais fragilizado por ter dado um tiro de pólvora seca, e António José Seguro está condenado a correr sem ajuda pelo menos na primeira volta. Acreditando no que dizem e repetem os candidatos, a ideia de desistir está completa e irremediavelmente afastada das campanhas de Catarina Martins e de António Filipe.
A bloquista, aliás, já tinha dado sinais de grande agastamento com a conversa sobre um eventual apoio a António José Seguro, tentando enterrar o tema no debate a oito organizado pelas rádios. E parecia ter conseguido. Até que, a poucas horas do confronto a 11 na televisão, veio uma bomba da campanha de Jorge Pinto: o candidato apoiado pelo Livre estaria disposto a desistir se bloquista e comunista fizessem o mesmo.
O renovado apelo de Jorge Pinto à união da esquerda apareceu como um obstáculo verdadeiramente inesperado. Essa estranheza, de resto, ficou patente na sua primeira reação à tomada de posição do deputado do Livre, no debate de ontem à noite. “Se queria concertar alguma posição podia-me ter telefonado. Aparecer numa notícia parece-me esquisito”, começou por dizer a eurodeputada.
Numa segunda reação, mais a frio, garantiu a permanência na corrida, voltou a atacar Seguro e foi mais dura em relação à proposta. “Jorge Pinto considera que a esquerda deve ir votar num candidato que deixou passar cortes dos subsídios de férias durante a troika, revertidos pelo Tribunal Constitucional. No que me diz respeito, a esquerda terá em quem votar no dia 18.”
Esta quarta-feira, na Boutique da Cultura, em Lisboa, a candidata apoiada pelo Bloco de Esquerda voltou a acusar Jorge Pinto de ter tentado forjar uma aliança através dos jornais. “Eu já fui muito clara e tenho dito a mesma coisa desde sempre [sobre desistir]. Não posso falar por outros candidatos, mas na minha vida fiz muitas pontes, muitos acordos. Nunca propus a ninguém na comunicação social o que eu pudesse ter feito pessoalmente ou por telefone.”
Despachado Jorge Pinto, Catarina Martins voltou a focar-se no seu verdadeiro alvo: António José Seguro. “Ouvi [o socialista] dizer mais do que uma vez que há candidatos que não contam ou que há votos que não contam, a diminuição da democracia é uma coisa feia. A democracia é feita da diversidade e ela é tão importante. É importante que pessoas todas sintam que o seu voto conta”, disse a bloquista, ignorando um facto incontornável: não é líquido que Seguro venha a conseguir passar à segunda volta sem os votos de Bloco e PCP; logo, existe o risco real de os votos dos eleitores de esquerda não contar para condicionar a segunda e decisiva volta.
Desistir para quê e para quem
“Eu sei que estamos habituados a que haja políticos que dizem hoje uma coisa e depois se desmentem no dia a seguir, mas eu não sou assim. A partir do momento em que eu disse que esta candidatura é para ir a votos, é para ir a votos. Não vale a pena perguntar”. Não foi a primeira, a segunda, nem provavelmente a última vez que António Filipe teve de garantir que pretende manter-se na corrida. Mas, tal como aconteceu com Catarina Martins, também o comunista foi obrigado a reagir e a despachar Jorge Pinto. “Se apelou a uma desistência foi à dele próprio”, sentenciou o candidato apoiado pelo PCP.
A distância ideológica para António José Seguro tem sido usado por António Filipe como o grande argumento para não apoiar o socialista. São amigos há mais de 40 anos, mas o comunista tem explicado que não se vê no mesmo campo político que o antigo secretário-geral do PS. Para António Filipe, Seguro não é, sequer, um homem de esquerda.
“D’Alema, diz qualquer coisa de esquerda!”, grita a certa altura uma personagem do filme ‘Abril’, do italiano Nanni Moretti. O desespero é partilhado por António Filipe face à pressão que vai sentindo por estes dias, que vai marcando a campanha e que o vai impossibilitando de trazer outros temas para um debate que está inclinado à direita. A frustração já o obrigou a adotar a estratégia de Moretti: “Mas António José Seguro diz alguma coisa de esquerda?”, questionou também esta quarta-feira.
Tal como Catarina Martins, também António Filipe tem lembrando os tempos da troika para atingir Seguro. A entrevista em que o socialista disse que não queria ser “engavetado” à esquerda foi um bónus importante. António Filipe pediu um”cerrar fileiras” à esquerda nestas presidenciais, mas fica difícil imaginar com quem, uma vez que o comunista exclui deste esforço a “direita, o centro-direita, o centro-esquerda e até o extremo-centro“. Seguro estará algures numa destas categorias e, portanto, está fora.
Internamente, fazem-se contas parecidas. A ideia que vigora é a de que se o eleitorado comunista ficar sem candidato, também não se vai virar para António José Seguro. Nem para Jorge Pinto ou Catarina Martins. Ao Observador, fonte do PCP explica que o mais certo é esses votos irem diretos para a abstenção, e que por isso também não há qualquer sentido prático (ou pragmático) em ceder à pressão. “Não há nenhuma hipótese de desistência“, assegura a mesma fonte.
Há ainda um outro fator: a reação do (pouco) eleitorado que se tem mantido fiel. António Filipe tem abordado a ideia de desistência como se de uma traição se tratasse. “As pessoas que se identificam com esta candidatura não perdoariam outra solução que não fosse essa”. Por tudo o que tem dito, o comunista vai deixando claro que não teria “lata” (expressão também usada pelo próprio) para sair de cena.
E como Catarina Martins, também António Filipe parece disposto a jogar na roleta e esperar não ser responsável pela não passagem de António José Seguro à finalíssima. “Por isso é que as eleições são em duas voltas. Pode haver uma segunda volta que as pessoas, se não conseguirem levar à segunda volta o candidato que querem, têm de votar contra o candidato que não querem”, sugeriu. Resta saber se Bloco e PCP se verão obrigados a engolir um candidato menos digerível do que António José Seguro.